O mundo é um moinho e até um membro da mais elevada aristocracia intelectual precisa defender uns trocados pra pagar os carnês no fim do mês. Assim, volto a este recanto para ministrar os ensinamentos da vida em nome dos valores da democracia e do depósito em conta corrente.

Manual de sobrevivência, lição 2: TRABALHO (I).

Certas pessoas nunca precisarão passar por esse desconforto na vida. Desconsiderarei qualquer chance de que você seja o herdeiro perdido do Roberto Justus e vou presumir que, em algum momento desse instável intervalo que chamam de vida, o mundo do trabalho atravessará a sua carcaça. Vender a força de trabalho em troca de uns cascalhos do mesmo jeito que o velho Marx descreveu século e meio atrás em um livro grosso que ninguém leu (embora muita gente tenha mentido a respeito).

Acho que ninguém captou direito esse lance. No duro. Os cientistas econômicos não entenderam. Os médicos do trabalho não entenderam. Aqueles sujeitos que cursaram um MBA à distância para poderem contar de peito estufado que estão fazendo uma pós não entenderam (eu não sei que nome dar a essas pessoas; até pensei em chamar de “estudantes”, mas não gosto de trair a etmologia).

Acompanhe: “venda de força de trabalho” significa que alguém paga - embora esse “alguém” seja uma abstração. Pode ser um comprador, uma firma, o governo, o chefe da boca de fumo, os robôs do google, o raio que o parta. Trata-se de uma posição circunstancialmente definida. De onde vem a grana aparece é algo que varia bastante; logo, não nos interessa muito por enquanto. O mesmo vale para o pagamento - não pelo valor envolvido, mas porque trata-se de outra abstração: a economia mundial baseia-se em valores especulativos e, em última análise, inexistentes. É certo que, se um dos acionistas majoritários do Facebook tentar sacar a sua parte das ações em cash, o mercado mundial vira um strogonoff.

Sobra-nos a venda, pequeno gafanhoto. O que quase ninguém informa é que a mercadoria é seu próprio corpo. Foi isso que você colocou na prateleira quando entrou nesse jogo, embalado em um currículo pomposo. Sua carne, seus nervos, cada célula da mucosa gástrica que você incinera com doses cavalares de café para manter a agenda em dia. “Mas então não há saída?”, pergunta você. Não, mas tem escolha: a profissão escolhida determinará quais órgãos se deteriorarão primeiro, por exemplo. E talvez se possa também incrementar o produto para obter um preço melhor. Mas a estrutura da coisa não muda. No mundo capitalista, todos nós somos putas pagas - e seguir levando no toba não é opcional.

Interlúdio (3)

A movimentação concentrada, que começou pela manhã no quartel-general dos imperadores e impulsionou toda a movimentação posterior, era semelhante ao primeiro movimento da roda central de um grande relógio de torre. Lentamente, moveu-se uma roda, uma outra girou, e uma terceira, e cada vez mais rápido as rodas, as roldanas, as engrenagens começaram a girar, os carrilhões começaram a tocar, os bonecos começaram a pular, e os ponteiros começaram a mover-se de modo ritmado, mostrando o resultado daquela movimentação.

Como no mecanismo de um relógio, também no mecanismo da atividade militar, uma vez começado um movimento, ele segue de modo irresistível até o resultado final, e também permanecem imóveis e indiferentes, até o momento da transmissão do movimento, as partes do mecanismo ainda não alcançadas por aquele impulso. As rodas rangem nos eixos, os dentes agarram, as roldanas chiam por causa da velocidade em que giram, e no entanto uma roda contígua permanece quieta e imóvel, como se estivesse disposta a ficar centenas de anos nessa imobilidade; mas chega a hora - uma alavanca engata e, obedecendo ao movimento, a roda estala ao mexer-se e se une também à mesma ação, cujo resultado e propósito ela não entende.

Tal como num relógio o resultado do movimento complexo de inúmeras rodas e roldanas diferentes é apenas o movimento vagaroso e regular dos ponteiros que marcam o tempo, assim também o resultado de todos os complexos movimentos humanos daqueles cento e sessenta mil russos e franceses - todas as paixões, desejos, arrependimentos, humilhações, sofrimentos, acessos de orgulho, de medo, de entusiasmo daquela gente - foi apenas a derrota na batalha de Austerlitz, chamada de a batalha dos três imperadores, ou seja, o vagaroso deslocamento do ponteiro da história mundial no mostrador da história da humanidade.

Trecho de Guerra e Paz.

Do que não aprendemos nos livros (de auto-ajuda)

Outro dia me disseram que eu “ainda não superei”, e não foi a primeira vez. E todas as vezes em que ouço isso, fico sem entender o que querem dizer. O que é esse “superar”? Não que eu não saiba o que “superar” significa, não me subestimem! Conheço a definição do termo. Os três fonemas, navegando ondas sonoras na atmosfera que nos cerca após serem pronunciadas com um breve fôlego que passou por quaisquer cordas vocais, fazem vibrar meu ouvido interno e são imediatamente reconhecidos e processados em meu teleencéfalo altamente desenvolvido. Assim como também consigo juntar as letras para formar a palavra e identificá-la como aquilo que ela é, foneticamente, e como o que representa, ideologicamente. O verbete traz em si um sentido. Conheço este sentido. Conheço quando é usado como verbo (superar) e quando é usado como substantivo (superação). E ainda assim não entendo o que alguém poderia sugerir ao dizer que eu deveria “ter superado”.

Se dois amigos brigam por qualquer razão, passam um período sem se falar - que pode ser breve ou prolongado, é indiferente -, e então um dia se encontram, conversam, entendem-se e fazem as pazes, ambos superaram a desavença. Se você, apesar de qualquer deficiência física que deveria impedi-lo de realizar alguma tarefa, de acordo com o senso comum, ainda assim a realiza, e o faz com habilidade acima do comum, ou se é diagnosticado com uma doença teoricamente incurável ou cuja cura é bastante improvável, mas mesmo assim sobrevive às piores previsões da medicina, temos histórias de superação. Superação é isso, e é um termo que vem sendo levianamente usado nesta nossa sociedade sedenta por histórias “edificantes”, “lições de vida”, enfim, coisas que você pode colocar num arquivo powerpoint com uma música cretina da Celine Dion (olha o pleonasmo) e enviar por e-mail para aqueles seus conhecidos que se emocionam com qualquer porcaria.

Superar é passar por cima de um problema, deixando de identificá-lo como tal. Seja porque, com o tempo e a perspectiva que ele traz, o problema perde importância, seja porque você é capaz de contorná-lo com uma alternativa viável. Não existe isso de “superar” em determinados casos. E o caso ao qual me refiro aqui, especificamente, é a morte da minha irmã. Não existe “superação” em relação à morte. Não existe olhar para trás, para um acontecimento dessa natureza, incontornável, absoluto, definitivo, e dizer que eu “superei”. É para eu parar de me importar? É para deixar de ficar triste? É para não sentir falta? Isso não seria “superar”, isso seria desrespeitar a memória da Janaína. Isso seria ignorar a importância da minha irmãzinha.

Não acho válido e sinceramente não levo a sério pessoas que sofrem profundamente durante anos pela perda dos pais ou dos avós que faleceram em idade avançada. Por mais doído que seja, vamos enterrar pai e mãe, vamos enterrar nossos tios e nossos avós. É um fardo com o qual precisamos viver. Terrível é quando são eles os responsáveis por colocar uma pedra na nossa sepultura. Injusto é ver descer o caixão da sua irmã de 30 anos em companhia dos seus pais e dos seus avós.

Não vou me afundar numa depressão irremediável, cair de cama e torcer para morrer junto. Isso seria um exagero, e seria levar o problema a uma magnitude que ele não precisa ter. Ao mesmo tempo, também não vou agir como se isso não me incomodasse, como se não pensasse nisso diariamente, como se fosse algo trivial e sem significado na minha vida. Não vou agir como se aquele 25 de julho de 2009 não tivesse se tornado um divisor de “antes” e “depois”. Se minha eventual tristeza é “repetitiva”, se minha postura diante do fato é, sob qualquer ponto de vista, “incômoda”, se tocar nesse assunto é um “aborrecimento”… nossa, que chato pra você! Desculpe por isso, hein?

Não me conformo com o fato de pessoas gostarem de comer peixe cru. Não me conformo com o fato de haver quem ache que colocar piercing é bonito! Não é com a idéia de que minha irmã está morta que vou me esforçar para conviver harmoniosamente. Não existe o que possa ser feito em relação a isso, então permitam-me ao menos ficar triste quando me der na veneta.

Agradeço desde já!

Um prólogo de prólogos

Apresentação: eu sou o novo colunista desta honrosa birosca. Meu contrato - não que seja do interesse de ninguém - prevê 20 toalhas brancas novas, sete concubinas de etnias diversas, uma caixa de canudinhos, um roadie que saiba afinar corretamente minha cítara, uma remuneração polpuda todo dia 05 e carta branca para atormentar a sociedade.

Embora saiba que para começar bem seria necessário enfocar um tema de relevo na agenda política - qualquer coisa envolvendo cachorros e aplicativos de adolescentes ricos -, tomarei algo de menor quilate.

Manual de sobrevivência, lição 1: ABORTO.

Primeiro, esqueça esse engodo pseudo-teológico que a galera finge discutir só pra animar os almoços de família. Essa discussão foi encerrada há décadas, quando a sociedade acertadamente legitimou a doação de órgãos de sujeitos com morte cerebral diagnosticada. Isso significa que, em última análise, vida é mais do que um corpo. Ponto. Ressaltar os direitos do embrião é manobra diversionista.

Segundo, descarte também o discursinho moralista sobre as supostas irresponsabilidades dos sujeitos na hora do sexo e da penalização do bebê-por-vir. Aborto não é um remédio milagroso e inócuo. É algo complicado e doloroso por si próprio; agregar a isso o dedo acusador me parece um pequeno exercício de sadismo travestido, nada mais.

Terceiro, aí vão uns dados:

a) existem clínicas de aborto em toda metrópole.

b) elas cobram caro.

Então, cara, a coisa funciona mais ou menos assim: se a filha adolescente de classe média engravida sem querer, papai raspa a poupança e a história vai para o armário de segredos da família, junto com o alcoolismo do mano e o pequeno affair da mamãe com o pastor. Mas com a garota da favela é diferente: na impossibilidade de arcar com os altos custos do procedimento, ela receberá uma lição superficial sobre métodos contraceptivos e uma boca a mais para alimentar. Ou o final alternativo: não tem aborto pelo SUS, mas uma tia conhece um chá infalível.

A essa altura, jovem gafanhoto, você deve ter vislumbrado o tamanho da encrenca. Presumo que também percebeu que o debate sobre a legalidade do aborto não tem porra nenhuma a ver com ideologia, crença religiosa, evidência biológica, posição ético-existencial, nada disso. É um problema de saúde pública - oferecer ou não à população um serviço ao qual os ricos sempre tiveram acesso - e apenas nessa dimensão a discussão tem sentido. O resto é moralismo de cueca e fiscalização de pica.

Até.

Trechos do livro que não escreverei nunca (3)

Por fim, já enfastiado de tanto discutir, sugeriu à ex-namorada - que tornara sua vida um inferno - que tatuasse no baixo ventre, sobre o pequeno triângulo castanho que lhe adereçava o púbis: “Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”.

(porque algumas idiotices que eu publico no Facebook merecem vir pra cá)

Das definições

Eu poderia colar aqui uma letra do Matanza. Já fiz isso. Não quero ser repetitivo, vulgarmente direto. Serei elegante, porém breve, indo com um trecho de Lisbon Revisited, do Fernando Pessoa.

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

E ficamos com isso.