Aí nêgo compartilha a imagem de um aleijado malhando e a pergunta que traz em si a censura e a acusação: “E agora, qual é sua desculpa (sedentário)?”. Ou repassa o vídeo de um velhote correndo, puxando ferro, pedalando, nadando, quase um maratonista – ou até mais do que isso, se considerarmos o esforço necessário -, e novamente o dedo na cara: “E você, qual é sua desculpa (indolente)?”. Ou mostra o antes e o depois do gordo que emagreceu sei lá quantos quinhentos quilos em três meses e agora tem uma barriga onde se enxerga com plena nitidez os gomos da musculatura, e, surpresa nenhuma, aqui vamos, as tochas, a inquisição: “E agora, qual é a tua desculpa (preguiçoso)?”.
Minha desculpa é que eu não tô a fim, prosélito. E é apenas essa. Não dou valor ao que, para você, parece ser tão importante. Tenho outras prioridades para meu tempo, meu dinheiro, meu empenho e minha escassa força de vontade. Entenda: quer ser marombeiro, azar o seu, sectário; quer ficar saudável, foda-se, faccioso; quer prolongar sua existência, divirta-se, masoquista. Já participei dessa brincadeira em algumas ocasiões. Hoje prefiro me abandonar aos prazeres da alimentação desregrada, da vida sem disciplina, do sono além da hora, da cerveja sem culpa. Aceito as conseqüências: a pele flácida, a camada de tecido adiposo, não ser o homem mais atraente sem camisa em um raio de duzentos quilômetros. Nem em um raio de um metro e meio! Posso viver sabendo não ser digno da capa da Men’s Health. Explicando melhor: o que não admito é pagar o preço necessário para isso. Prefiro minha casa, minha cama, meu marasmo e minha quietude. Meus livros e meus pensamentos. E, com sorte, uma vida breve em decorrência de um coração fraco.
Pro inferno com seu ambiente rescendendo a sudorese; a música repetitiva em um remix pobre feita com o sampler do sampler do sampler de um plágio de uma cópia; seus suplementos, seus anabolizantes e seus apetrechos de tortura moderna; suas conversas sobre padrões de beleza inatingíveis; sua tara em mapas da anatomia humana, seu tesão em se olhar no espelho e ver, a olho nu, as estruturas musculares fibrosas e hipertrofiadas. Não é meu objetivo de vida, não é minha meta. Fico feliz que seja a sua, mas saiba: é tão vazia, inútil e sem propósito quanto qualquer outra. Todas são.