Cake - End of the movie

People you love
Will turn their backs on you
You’ll lose your hair
Your teeth
Your knife will fall out of its sheath
But you still don’t like to leave before the end of the movie

People you hate
Will get their hooks into you
They’ll pull you down
You’ll frown
They’ll tar you and drag you through town
But you still don’t like to leave before the end of the movie
No, you still don’t like to leave before the end of the show

Do que não cicatriza

Janaína

Hoje vão seis meses desde a última vez em que vi a Jana com vida. Era uma quinta-feira e eu tava atrasado pra faculdade, mas passei no hospital pra ficar um pouquinho com ela. Como fiz todos os dias anteriores. Como não fiz no dia seguinte.

Ela tinha sido internada novamente depois de 9 dias em casa, porque a quimioterapia rendeu-lhe uma bela duma hepatite medicamentosa. E tava num desconforto sem tamanho! Toda inchada, com dores, uma agulha enfiada no braço 24/7, hematomas em várias partes dos braços, graças às agulhadas para transfusões e injeções e soro e quimios, a pele amarelada, graças à doença… tava mau estado, a minha irmãzinha.

Foi a primeira vez em que eu a vi chorar mesmo, desde o diagnóstico. Todas aquelas agulhadas e remédios e privação de sono e paladar alterado e internações e altas e novas internações finalmente derrubaram o ânimo dela. E, apesar de me lembrar dela como era, com seu sorriso lindo e sua risada deliciosa, nesse dia me a visão que tenho é da Jana sentada na beira da cama, com dor, sono e fome, chorando e dizendo que preferia morrer a passar por aquilo. E eu de pé, próximo, meio abraçado a ela, lhe fazendo um carinho nas costas e dizendo pra calar a boca e parar de falar besteira.

Fiz o inferno com aquela maldita cama, logo em seguida. Subi e desci os lados daquela merda até minha irmã me dizer que tinha encontrado uma boa posição. E quando se cansou dessa, tornei a girar as manivelas como se fossem curar a leucemia dela, até deixá-la novamente confortável. Fiz isso três ou quatro vezes até a hora de ir embora. E quando a deixei foi com um beijo na testa, um cafuné e dizendo eu te amo. “Eu te amo, não desanima, não”, pra ser exato. E foi a última coisa que disse pra Jana. E é uma boa maneira de se despedir de alguém.

Se me dissessem que era minha despedida definitiva dela, talvez não tivesse tido metade dessa eloqüência.

Das ironias da justiça

Durante um certo período da minha vida, fui um ateu fervoroso cuja grande diversão, ao conversar com teístas, era apontar erros em suas certezas (de preferência fazendo com que parecessem idiotas por ter fé naquilo e coisa e tal). Com o tempo e uma boa dose de sabedoria - que FELIZMENTE veio com o tempo, e é das únicas coisas boas que ele traz, junto com a velhice, as doenças, a degradação física e moral e um realismo cínico -, acabei percebendo que o ateísmo que eu praticava de forma tão religiosa era exatamente isso: uma religião. E envolvia muita fé na minha crença - tão carente de embasamento quanto a de qualquer teísta - de que deus não existe, e que não passamos de poeira galáctica com delírios de autoimportância.

Vem daí que atualmente sou um agnóstico. Não existe arcabouço lógico que permita a qualquer um negar OU afirmar a existência de um gerente nesta birosca. Sem dúvida é perfeitamente possível discutir com cristãos, por exemplo, e questionar suas afirmações disparatadas a respeito da “vontade divina”, dos meios adotados pelo criador para atingir seus objetivos. É possível inclusive questionar a idéia de que deus, se existe, tem qualquer objetivo. Você pode dizer que eles estão errados, por exemplo, ao afirmar peremptoriamente que o velho Javé não gosta de brincadeiras. Existe um forte argumento contra isso, chamado ORNITORRINCO. Também pode rir quando eles dizem que o todo-poderoso é um cara bacana. Existe outro forte argumento contra isso, e chama-se JAQUEIRA. Um cara sem senso de humor não cria um bicho escroto como o ornitorrinco, um cara legal não colocaria uma fruta de 5 kg no topo de uma árvore de 10 metros, enquanto morangos nascem ao rés-do-chão.

Ou seja, EXISTEM argumentos contra as afirmações dos teístas em relação aos desígnios divinos. Até mesmo em relação à natureza de deus. Porra, deus sabe (opa!) que existem argumentos até mesmo em relação ao modus operandi deles ao lidar com o criador.

Mas não existe um argumento consistente a respeito da inexistência divina. Ou da existência, também. É tudo uma grande interrogação. Uma pergunta daquelas para as quais nós não temos resposta. Nosso conhecimento não atingiu tal magnitude ainda, e cientistas que se aprofundam em suas áreas de conhecimento chegam a um beco sem saída. Alguns, nesse ponto, partem para o estudo e a criação de novas teorias. Outros, apesar de continuarem estudando, fazem referência a algo como “uma força maior”.

Um cientista sem muito talento para a ciência - que é, essencialmente, a curiosidade humana se manifestando com método - bate naquele ponto, resolve que não existe explicação lógica e vai cuidar de outro assunto.

Mas enfim. Voltando aqui aos ateus, é triste que não percebam, do alto de sua fúria “racional”, de seu apego raivoso a uma certeza que não podem provar - porque não se pode provar a inexistência de algo, como parece evidente -, o quanto são ridículos e fundamentalistas. Mais do que muitos dos cristãos proselitistas, que tanto os irritam. Mas em relação a um ponto, preciso dar razão a eles: não existe grupo mais desrespeitado do que o das pessoas que não acreditam em deus.

E não falo dos que NEGAM deus. Falo dos que negam e dos que, como eu, não perdem tempo tentando criar argumentos - fracos, via de regra - a respeito desse assunto.

Uma pesquisa recente mostrou que só os usuários de drogas recebem tanta repulsa/ódio da população em geral quanto os ateus. Acha que eu tô exagerando? Confere aí:

pesquisa
Clica aí pra ver maior, filho.

- Mas você não é um ateu, Pedrones, vem negando isso desde o começo do texto.

Tô ciente, gafanhoto. Mas pra maioria do populacho teísta, infelizmente profundamente ignorante sobre a natureza da fé e das religiões, só existem duas vertentes: ateus e GENTE BOA. Agnósticos definitivamente não estão no segundo grupo. O que significa que, em matéria de opróbrio, é necessário juntar um aidético, um traveco e um ex-presidiário pra competir comigo.

Esse desrespeito pelo não-teísmo, qualquer que seja a forma que tome, é muito claro e começa com aquela piadinha que associa ateu a à-toa, mas não pára aí. Sempre que alguém questiona seus valores morais, ou demonstra pena diante de sua descrença; sempre que dizem “um dia você vai enxergar deus” ou dão a entender que essa é apenas uma “fase de rebeldia”; sempre que sua postura religiosa é colocada em xeque, enfim, não com argumentos e tentativas de entender sua compreensão do maquinário que move esse plano de realidade, mas com demonstrações de superioridade e/ou troça: essa é uma forma de desrespeito. É você sendo tratado como o que é: um pária.

Agora vem o X da questão, que me conduziu a todo esse raciocínio: ateus nessa situação encontram-se numa sinuca de bico. Porque, veja só, amigo ateu que se sente desrespeitado em sua descrença: a lei lhe ampara! Você pode processar aquele que te constranger, baseado no art. 208 do Código Penal.

MAS - e aqui está o pulo do gato - para isso é preciso alegar que sua CRENÇA RELIGIOSA foi menosprezada. Que aquilo em que você ACREDITA, aquilo no que CRÊ, a idéia na qual deposita sua FÉ foi vilipendiada.

Basicamente, precisará alegar que, sendo ateu, tem uma crença. Que não acreditar em deus é sua religião. Vai ser preciso admitir que o escárnio foi direcionado não aos seus argumentos, mas à sua fé.

Em suma, ateuzinho raivoso, a lei te ajuda, mas você precisa se contradizer. Diz aí: cê tem bagos pra tanto?

Duvido.

Das mudanças (e assuntos menos - ou nada - relacionados)

Pois então, mudei-me. Não falei disso por aqui ainda porque, como parece evidente, isto não é um diarinho. Menciono pouco da minha vida neste recôndito imundo e me sinto mais confortável assim. Mas, para fins de explicação do assunto a seguir, tal informação pessoal vem a calhar. Pois retornemos, então: mudei-me. Morava antes em um confortável apartamento de primeiro andar no meio da civilização. Caminhava 50 metros, estava na Subway. Se andasse 100, chegaria a um Carrefour Bairro. Ao lado dele havia uma Domino’s e um Bob’s, próximos a um Itaú, um Banco do Brasil e um Santander. A parada de ônibus mais próxima ficava a 3 minutos a pé e havia um posto policial ao alcance da vista. Todas as instituições sociais - mesmo as mais desagradáveis - ficavam ali, ao imediato alcance das minhas pernas. Nunca senti necessidade de ter um carro ou qualquer vontade de ter carteira. O negócio é que me mudei…

Agora vivo em um condomínio que fica a 20 minutos - de carro - das fronteiras do mundo civilizado. De ônibus, coloque aí uns 30 ou 40. Até existe uma padaria próxima à minha casa, mas vai ver a qualidade! E tem um mercadinho também, e o INHO que sucede o termo não é meramente ilustrativo, em verdade, em verdade vos digo. Vivo em um lugar aprazível, cheio de pássaros, em uma adorável casa com piscina (logo, logo), próxima a um bosque (não tô zoando, tem um bosque MESMO) que oculta a nascente de um regato e até - vejam que belo! - algumas cachoeiras. Um lugar bucólico!

A sucursal do inferno para um homem urbano que curte caminhar de madrugada. Meu caso.

Então agora terei que tirar carteira, porque da porta do meu condomínio até minha casa são - subida acima - 13 minutos de caminhada. No meu passo de oficial da SS a caminho da execução de judeus, claro. No passo de uma pessoa normal - e pessoas normais caminham como judeus indo para a câmara de gás, para manter a analogia dentro do mesmo evento histórico - vão bem uns 20 minutos. A vantagem disso é que poderei ter um cachorro. A desvantagem é que terei que tirar carteira. E ter um carro.

Agora vem a parte curiosa, que funciona assim desde meus 18 anos: todo mundo que faz essa idade pensa “Legal, poderei tirar carteira e ter um carro” e fica feliz feito pinto no lixo. Essas pessoas pensam na idéia de ter uma CNH e possuir um veículo e vêem nisso um porrilhão de vantagens. Ok, eu até sei que existem as vantagens, mas tudo o que me ocorre são as desvantagens. Diga-me que terei um carro e tudo o que consigo pensar é em custo de seguro, preço de IPVA, anos de prestações para quitar o veículo, desembolsar grana pra gasolina, ter que me sujeitar à encheção de saco do Detran, aturar blitzes, encarar trânsito, procurar vagas em estacionamentos, ter aborrecimentos inenarráveis com batidas estúpidas, atropelar bêbados que surgem repentinamente vindos das sombras… Pessimista, eu?

E, dirigindo, quando é que me ocorreria a idéia que se abateu sobre mim ontem? Subia eu a rua que conduz à minha atual residência, acompanhem-me nessa. Logo antes da esquina em que viro pra chegar à minha casa, há esse terreno onde um sujeito construiu um caixote. É uma casa retangular, tipo 20m x 5m, de 2 andares. Arquitetonicamente falando, é uma caixa feita de concreto. Não tem uma varanda, um telhado que se projete da fachada, nada. Apenas as 4 paredes, um número padrão de janelas e uma porta.

A questão é: não existe UMA entrada/saída da casa além da porta que lhe adorna a frente. Isso quer dizer que no caso de um cataclisma de zumbis, é o lugar mais protegido para se estar naquele condomínio. Talvez na cidade toda. A porta é de metal, as janelas idem, e gradeadas. É uma fortaleza inexpugnável contra criaturas semi-inteligentes, incapazes de apelar para ferramentas. Com um bom estoque de alimentos não-perecíveis dentro daquela caixa de concreto, amigo, é possível viver por ANOS. Não sei o que o arquiteto que desenhou aquele lugar tinha em mente, mas se era a sobrevivência a um holocausto de desmortos, temos aí um gênio ao qual devemos certo respeito. Pergunte-me para onde correrei no dia em que os mortos caminharem sobre a terra e direi, sem pestanejar: “Para o próximo quarteirão, levando comigo um saco de mantimentos e algo para esmigalhar crânios pelo caminho.”

O negócio é chegar lá sem ser mordido, mas qualquer coisa eu sacrifico o cachorro, se a situação ficar crítica. Funcionou com o Will Smith, funcionará comigo.

Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.

Wish You Were Here

So,
So you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here




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