Loja cheia de clientes. Era normal, àquela hora da noite, que as pessoas, saídas de seus trabalhos, fossem para o shopping relaxar e acabassem entrando na livraria. Naqueles quinze meses como funcionária ali aprendera a identificar, só de olhar, o que cada cliente procurava. Senhora com pinta de madame que cria yorkshire? Auto-ajuda ou decoração. Garoto com camiseta do Legião Urbana? Vai perguntar onde encontrar O Apanhador no Campo de Centeio. Senhor de terno e celular de última geração? Procura por A Ditadura Alguma Coisa. Raramente errava.
Viu então um homem jovem entrar, olhando para os lados, desconfiado, como faziam todos. Calça jeans, camiseta e camisa aberta por cima. “Atrás de livros de informática”, pensou. Mas o rapaz circulou pela loja inteira: deu uma olhada na sessão de CDs e DVDs, folheou uns livros Esotéricos e de Auto-Ajuda, leu trechos de obras da sessão de Literatura, passeou pela parte de Revistas… parecia não saber o que queria. Intrigada, ela se aproximou.
- Posso ajudá-lo, senhor?
Despertou-lhe de alguma reflexão momentânea.
- Heim? Ah, oi. Boa noite.
- Boa noite. A sessão de informática é lá em cima.
- Ah, é? Ah, é. É. Eu sei. Obrigado.
- Não é o que o senhor está procurando? - estranhou estar errada.
- Quem, eu? Não. Não.
- O que o senhor procura, então?
- Tô procurando uma namorada.
A resposta dada assim, de sopetão, pegou-a desprevenida. Ficou sem saber o que dizer. Ele continuou, sorrindo.
- Mas eu sei que isso vocês não vendem, e também não pretendo comprar uma. É o tipo de coisa que você tem que fazer por merecer.
Achou graça da franqueza dele e sorriu de volta. Interessara-se pelo rapaz. Estava solteira, ele parecia inteligente e divertido. Além do mais, mantinha um ar distraído e desinteressado que tinha lá o seu charme. Resolveu entrar no jogo.
- É, é verdade. Mas que tipo de namorada você procura? Talvez eu possa te ajudar.
- Hm? Que tipo? Ah, sim. Que tipo. Claro. Bom, cabelos pretos, mais ou menos um metro e sessenta e oito, olhar desafiador, inteligente e divertida. É. É uma mais ou menos assim que eu procuro. Você a viu por aí?
- Um e sessenta e oito, é? A altura é importante assim?
- Importante? Se é importante? Hm, nunca parei pra pensar nisso. Não. Acho que não dou muita bola pra altura, não. A menos que seja uma mulher de dois metros e meio, porque aí, convenhamos, vai parecer um gigante perto de mim, e eu vou parecer um anão perto dela, e… Enfim. Altura não é importante, afinal.
- Então se fosse um e sessenta e cinco não teria problema? - era a altura dela.
- Problema? Problema nenhum. É. Nenhum.
Riram. Conversaram por quase vinte minutos, e ela já tinha concluido que aquele era o homem perfeito pra ela: gostava de ler de tudo - isso lhe dissera ele -, ouvia vários estilos musicais, adorava cinema, era caseiro e gostava de escrever. Também sabia ser simpático e tinha uma boa conversa. Resolveu chamá-lo pra sair no fim do expediente.
- Então, sabe o que é? A loja fecha às nove, e…
- Ah! Encontrei!
- Hã?
- Encontrei.
- Encontrou o quê?
- A namorada.
Seu coração bateu mais forte. Sorriu, concluindo que ele percebera suas intenções.
- Ali está ela - disse ele, e acenou para uma moça que entrava na loja -, dez minutos atrasada. Muito obrigado pela companhia. Foi um prazer conversar contigo.
Ele abraçou a menina e foi embora.
Entrou uma senhora e ela pensou: “Paulo Coelho”.
Não deu outra.
Afiada como sempre.