Arquivos de Agosto, 2004

Façamos, pois, a felicidade dos ímpios

Compreendam que meu sumiço não foi premeditado, tampouco partiu da minha vontade. Meu humor não anda dos melhores e, antes que pensem que se trata de uma crise, um chilique, um piti, esperem eu terminar o texto.

Sou das poucas pessoas da minha idade que conheço que ainda têm uma bisavó. A mãe da mãe da minha mãe ainda é viva e tem 90 anos. Nasceu em 1914! Infelizmente, entretanto, está na UTI esses dias, o que tem deixado minha vó muito, muito deprimida. Minha atenção, logicamente, está voltada a ela - minha vó, já que, pela minha bisa, não tenho muito o que fazer no momento.

Fazendo uso de todas as minhas forças e evocando até as últimas gotas do meu parco autocontrole, tenho procurado ficar na maciota e não discutir nem contrariar minha vó. Não preciso explicar que isso está longe de me tornar o homem mais bem-humorado do mundo, preciso? Não? Ótimo.

Pois bem. Prefiro me manter calado a ser rude, por increça que parível. Então é o que tenho feito. Claro que o fato de estar passando pouco tempo em casa esses dias, somado ao meu esquema atual de trabalho - agora sou um homem possuidor, invejem-me -, me impede de pensar em textos, que dirá de escrever.

Agora é esperar a maré baixar.

Hein? Se eu ando triste? Ah, isso são outros quinhentos.

Mensagem aos distribuidores

DE: DIRETORIA DO BLOG UTOPIA DILUCULAR
PARA: DIVERSOS LEITORES QUE SE ENQUADREM NAS CARACTERÍSTICAS DESCRITAS NOS PARÁGRAFOS ABAIXO

Amigos e irmãos.
Namastê.
Paz e luz.

Na manhã de hoje fomos informados que nosso Líder, Coordenador e Tesoureiro, Pedro, El Nuñes, ao tentar acessar o novo servidor de fóruns e relacionamentos cibernético, também conhecido como Orkut, não obteve êxito.

Diante de tal problema, e ciente de suas causas, fomos instruídos a transmitir aos leitores desta sucinta página pessoal uma mensagem escrita de próprio punho por nosso Chefe, Patrão e Guia, Piotr Von Nuñovsky, transcrita fidedignamente abaixo:

“Ei, você. É, você, que fica publicando, seja na porra do teu blog, seja na merda do teu site, seja nos classificados do jornal que assina, aquela chamada pra todos os que querem ingressar no Orkut. Então. Tô falando contigo.

Sabe quando cê tenta entrar no orkut e ele fica lento, lento, lento? Bem lento mesmo? E depois de 5 minutos apresenta uma mensagem dizendo que não foi possível acessar o site? Sabe? Então. A CULPA É TUA, SEU FILHO DE UMA PUTA DO CARALHO!

Por que você não enfia teus leitores no RABO em vez de ficar colocando todo mundo naquela merda de site e derrubando os servidores? Seu cretino de merda.

Sem mais,

Pedro Nunes”

Diante da probabilidade de alguém ficar ofendido e/ou tentar se defender, adiantamos logo que fazemos nossas as palavras de nosso Guru, Conselheiro e Xamã: enfia tua sensibilidade e tuas desculpas no RABO, seu cretino de merda.

Atenciosamente,

A DIRETORIA

Historieta Curtita XI

Manoel - apelidado Manézim - era um garoto normal. Bem normal mesmo, desses nos quais nem prestamos atenção, de tão comuns: vivia na rua, vendia chiclete nos semáforos, fazia quatro refeições por semana. Um garoto bem corriqueiro.

Um dia, por acaso, encontrou-se com Carlos Henrique. Esse, sim, uma criança muito esquisita: morava num apartamento de quatro quartos, não trabalhava, apenas ia ao colégio (sabia ler, veja só que fenômeno), fazia quatro refeições diárias, pelo menos! Um menino muito fora do comum, afinal.

Apesar de tudo isso, Manézim tratou Carlos Henrique como trataria qualquer outro guri, sem distinções. E fizeram um acordo de cavalheiros: o segundo tirava, calmamente, os belos tênis nike que calçava e entregava para o primeiro, que, por sua vez, mantinha quieta sua faquinha enferrujada, para não causar acidentes.

Saiu chorando, o esquisito.

Fugiu contente, o comunzinho.

Boboca é o caralho!

Nunca assisti Magnólia. E sempre me critiquei por isso. Já vi muita gente falando bem do filme, bem demais, como se fosse o tipo de coisa que não se deve deixar de ver, um daqueles filmes que mudam sua vida, sua concepção das coisas, sua forma de ver o mundo.

Andei pensando a respeito. Engraçado como as mesmas pessoas que elogiam Magnólia tendem a adorar Amélie Poulain e Encontros e Desencontros. Analisando dessa forma, acabei me questionando: será Magnólia essa farofa toda? Ou será que apenas segue o padrão das duas outras produções já citadas? Meu ânimo para alugar e assistir o filme diminuiu consideravelmente, ao pensar assim.

Porque Amélie Poulain e Encontros e Desencontros, apesar de todas as suas diferenças, carregam, em comum, uma característica que está em voga no momento, mas que eu, particularmente, desgosto: são filmes “inocentes”.

Não me agrada em nada a inocência, embora pareça ser idolatrada por todos esses indies pseudo-cinéfilos proto-intelectuais que pululam por aí. Não sei que beleza há em um ser humano que não tem coragem de esticar a mão e pegar o que quer, que prefere ficar vendo, com olhos dóceis, a vida passando por cima dele, sem reações intempestivas de qualquer espécie. Não sei onde está o aspecto virtuoso da paciência sem fim, da boa-vontade para com todos - até mesmo seus adversários - e da ausência de ímpeto combativo.

Mas é a moda agora. Pessoas adoram sair por aí bradando “eu que já não quero mais ser um vencedor”, acham lindo quando Marcelo Camelo classifica seus desafetos como “bobocas” e chegam ao ponto de subverter valores estéticos. Basta ver que a beleza é ilustrada com a foto de uma garota de all-star de cano longo, meia 3/4 listrada de preto-e-branco, minissaia de pregas, camisa social, gravata, jaqueta de vinil, óculos de aro grosso e franja. Me vem à mente, então, a típica frase de velhos: a vida anda em círculos. E me pergunto se estamos de volta ao começo do século passado, quando mulheres obesas eram o padrão de beleza vigente, se retornaremos à época dos heróis que vencem não pela malandragem, mas por pura sorte, já que são incapazes de mover uma palha contra seus antagonistas, principalmente por não enxergarem inimigos em lugar nenhum.

Me recuso a compartilhar de sentimentos tão esdrúxulos. Fingir que não guardo rancor? Limpar do meu vocabulário as ironias, as ofensas brutas aos meus desafetos, os palavrões? Fazer de conta que subrepujar meus semelhantes não é uma sensação agradável, que tanto faz ganhar ou perder? Agir como se a beleza estética não importasse? Sem chance!

Quero vencer a todo custo. Meus rivais merecem ser adjetivados com coisas muito piores que “boboca”. Gente feia existe, e não é pouca! Odeio algumas pessoas, e vou odiá-las até a morte. Perdão? É para os fracos de caráter. Amélie Poulain e Encontros e Desencontros? Filmes idiotas, pouco inteligentes, para gente idem.

Magnólia? Ainda não assisti, mas se seguir o mesmo princípio que seus camaradas de Top 3 Filmes Preferidos dos Indies, deve ser uma merda.

Até injeção na testa

Esse fim de semana foi permeado de eventos gratuitos. Longe de querer analisar politicagem e demagogia (assuntos que em épocas de eleições me fazem pensar por horas a fio, mas que não discuto a respeito), é legal ver que empresas, empresários e o governo trabalham em conjunto, ainda que esporadicamente, e trazem para a plebe sua dose necessária de lazer. Óbvio que esse tipo de coisa deve gerar retorno financeiro, mas gosto de pensar que é um gesto sem quaisquer motivações financeiras.

(Oras, o nome desse blog não é Utopia toa. Sou um sujeito idealista, no fim das contas.)

Os dois shows em questão foram do Ira! e do Jair Rodrigues (acompanhado por seu - dele - filho, Jairzinho, ou Jair Oliveira, como é chamado agora). O primeiro aconteceu sexta-feira, na concha acústica - local que andava esquecido, diga-se de passagem, apesar de ter ótima estrutura para esse tipo de evento -, pelo projeto “Brasília em Alta”, uma iniciativa do governo de criar uma temporada turística em Brasília.

Abre parênteses:

Mas, falando francamente, é preciso ser ser muito retardado pra vir passar férias em Brasília. Essa tentativa de trazer as pessoas pra cá, com slogans do tipo “É ‘temporada’ em Brasília”, é risível, para não classificar como coisa pior. O que, afinal, alguém iria fazer num lugar como esse, principalmente quando o ar está tão seco que os lábios racham e o nariz sangra e o tempo estã tão frio que é impossível ir ao clube pela manhã? As únicas pessoas que devem vir pra cá na época de férias são os pobres coitados que se aleijam pelo país inteiro e precisam se tratar no hospital Sarah Kubstcheck.

Fecha parênteses.

Ah, é. O show. Bem, o show foi legal. Duas bandinhas brasilienses que eu não conhecia tocaram antes do Ira!. A primeira eu esqueci o nome, mas não vai me fazer falta, e a segunda se chama Móveis Coloniais de Acaju. E também não é, ao contrário do que dizem, a última puta virgem do mundo. É muito bestinha, a bem da verdade. E o Ira! tem aquele péssimo hábito de fazer uma música de 4 minutos, nos quais 3 eles ficam repetindo a mesma frase. “Esse flerte é um flerte fatal, esse flerte é um flerte fatal”, ou “feliz aniversário, envelheço na cidade, feliz aniversário, envelheço na cidade”, e muitas outras. Todas com frases simplórias entoadas ad infinitum.

Apesar disso, o show merece duas ressalvas:
1 - Foi um evento familiar, o que é sempre bacana. Tinha muito coroa, muitos casais com crianças, pais acompanhando filhos, até velhinhos eu vi por lá. E não vi uma confusão durante o evento. Ponto pra organização.

2 - Estava com amigos, conversando. Chegou um roqueiro (leia-se: imbecil) sei lá de onde e me abordou:
- Aí, vamo abrir uma rodinha aqui.
Duplos sentidos parte, respondi numa boa:
- Não, valeu. Esse negócio de porradaria não é comigo.
- Pô, rodinha não é porrada!
- Ah, não? É o quê?
- É só uma maneira de extravasar e tal.
- Ah, sei. Amigô, faz o seguinte, então: extravasa um pouco mais pra lá - e apontei o outro extremo da pista.

Ele saiu resmungando “Pô, rodinha não é porrada…”. Acho que desiludi o moleque.
Mas esse tipo de decepção constrói o caráter.

O outro show foi no Conjunto Nacional. Cheguei alguns minutos atrasado e o local já fervilhava de gente. Sério mesmo. Não consegui vencer a escada rolante! Tive que ficar entre os corrimões (ou corrimãos, ambas estão corretas). Felizmente, só o que havia entre mim e o palco eram as velhinhas sentadas nas cadeiras.

Esse show, sim, foi um barato. Nenhuma rodinha de porrada. Só as velhinhas se jogando. O véio Jair dá um show, no sentido mais amplo da palavra, e a banda do cara também não deixa por menos. O repertório foi aquele mesmo de muito tempo: Arrastão, Não deixe o samba morrer, A majestade e o sabiá, Saudosa maloca, Disparada… só as belezas. O melhor foi que, por ser um show relativamente pequeno, ele acabava interagindo com as pessoas da platéia. E sentou nos colos das velhinhas, fez piada com alguns espectadores, conversou com algumas pessoas. Sensacional.

Mas tive minha cota de shows por esse ano. Considerando que eu ando de saco cheio de Los Hermanos (e fãs de Los Hermanos, principalmente), provavelmente não vou comparecer a mais nenhum evento desses, daqui pra julho do ano que vem.