Esse fim de semana foi permeado de eventos gratuitos. Longe de querer analisar politicagem e demagogia (assuntos que em épocas de eleições me fazem pensar por horas a fio, mas que não discuto a respeito), é legal ver que empresas, empresários e o governo trabalham em conjunto, ainda que esporadicamente, e trazem para a plebe sua dose necessária de lazer. Óbvio que esse tipo de coisa deve gerar retorno financeiro, mas gosto de pensar que é um gesto sem quaisquer motivações financeiras.
(Oras, o nome desse blog não é Utopia toa. Sou um sujeito idealista, no fim das contas.)
Os dois shows em questão foram do Ira! e do Jair Rodrigues (acompanhado por seu - dele - filho, Jairzinho, ou Jair Oliveira, como é chamado agora). O primeiro aconteceu sexta-feira, na concha acústica - local que andava esquecido, diga-se de passagem, apesar de ter ótima estrutura para esse tipo de evento -, pelo projeto “Brasília em Alta”, uma iniciativa do governo de criar uma temporada turística em Brasília.
Abre parênteses:
Mas, falando francamente, é preciso ser ser muito retardado pra vir passar férias em Brasília. Essa tentativa de trazer as pessoas pra cá, com slogans do tipo “É ‘temporada’ em Brasília”, é risível, para não classificar como coisa pior. O que, afinal, alguém iria fazer num lugar como esse, principalmente quando o ar está tão seco que os lábios racham e o nariz sangra e o tempo estã tão frio que é impossível ir ao clube pela manhã? As únicas pessoas que devem vir pra cá na época de férias são os pobres coitados que se aleijam pelo país inteiro e precisam se tratar no hospital Sarah Kubstcheck.
Fecha parênteses.
Ah, é. O show. Bem, o show foi legal. Duas bandinhas brasilienses que eu não conhecia tocaram antes do Ira!. A primeira eu esqueci o nome, mas não vai me fazer falta, e a segunda se chama Móveis Coloniais de Acaju. E também não é, ao contrário do que dizem, a última puta virgem do mundo. É muito bestinha, a bem da verdade. E o Ira! tem aquele péssimo hábito de fazer uma música de 4 minutos, nos quais 3 eles ficam repetindo a mesma frase. “Esse flerte é um flerte fatal, esse flerte é um flerte fatal”, ou “feliz aniversário, envelheço na cidade, feliz aniversário, envelheço na cidade”, e muitas outras. Todas com frases simplórias entoadas ad infinitum.
Apesar disso, o show merece duas ressalvas:
1 - Foi um evento familiar, o que é sempre bacana. Tinha muito coroa, muitos casais com crianças, pais acompanhando filhos, até velhinhos eu vi por lá. E não vi uma confusão durante o evento. Ponto pra organização.
2 - Estava com amigos, conversando. Chegou um roqueiro (leia-se: imbecil) sei lá de onde e me abordou:
- Aí, vamo abrir uma rodinha aqui.
Duplos sentidos parte, respondi numa boa:
- Não, valeu. Esse negócio de porradaria não é comigo.
- Pô, rodinha não é porrada!
- Ah, não? É o quê?
- É só uma maneira de extravasar e tal.
- Ah, sei. Amigô, faz o seguinte, então: extravasa um pouco mais pra lá - e apontei o outro extremo da pista.
Ele saiu resmungando “Pô, rodinha não é porrada…”. Acho que desiludi o moleque.
Mas esse tipo de decepção constrói o caráter.
O outro show foi no Conjunto Nacional. Cheguei alguns minutos atrasado e o local já fervilhava de gente. Sério mesmo. Não consegui vencer a escada rolante! Tive que ficar entre os corrimões (ou corrimãos, ambas estão corretas). Felizmente, só o que havia entre mim e o palco eram as velhinhas sentadas nas cadeiras.
Esse show, sim, foi um barato. Nenhuma rodinha de porrada. Só as velhinhas se jogando. O véio Jair dá um show, no sentido mais amplo da palavra, e a banda do cara também não deixa por menos. O repertório foi aquele mesmo de muito tempo: Arrastão, Não deixe o samba morrer, A majestade e o sabiá, Saudosa maloca, Disparada… só as belezas. O melhor foi que, por ser um show relativamente pequeno, ele acabava interagindo com as pessoas da platéia. E sentou nos colos das velhinhas, fez piada com alguns espectadores, conversou com algumas pessoas. Sensacional.
Mas tive minha cota de shows por esse ano. Considerando que eu ando de saco cheio de Los Hermanos (e fãs de Los Hermanos, principalmente), provavelmente não vou comparecer a mais nenhum evento desses, daqui pra julho do ano que vem.