Archive for Novembro, 2004

Nariz de cavalo

Há (quase) um ano

Se você pensar bem, acaba concluindo que é um negócio muito, muito danoso.***
Todo mundo sabe que é perigoso. Canta-se a respeito dos riscos envolvidos, escrevem-se livros e mais livros tratando do assunto, temos acesso a depoimentos reais de quem já experimentou. Mas não damos ouvidos. Um dos maiores males da juventude é esse: achamos que sabemos tudo e que somos invulneráveis. Então topamos experimentar, crendo em nossa invencibilidade.

No começo somos cautelosos, até porque o primeiro contato causa certa estranheza. Com o passar do tempo vamos nos acostumando, ficando ousados, procurando novas formas de consumo. Nos agrada a sensação, é reconfortante, acolhedora. Esquecemos as mazelas da vida e o mundo, de repente, até parece ser um bom lugar. Ficamos eufóricos, ilimitadamente corajosos, incontrolavelmente alegres, rindo à toa. Perdemos a noção do tempo e do espaço e mudamos tudo: nossos planos, nossa rotina, nossa vida e nossa forma de pensar. Ao mesmo tempo, vamos sentindo cada vez mais necessidade do que obstrui tão convenientemente nossa visão e procurando por doses maiores e maiores. E, quando nos damos conta, toda nossa existência está baseada no vício. Com o tempo tornamo-nos distraídos, aéreos. É quando a situação começa a ficar feia. Só então entendemos o porquê de todos os avisos: a dependência muito grande, sentimos como se não pudéssemos viver sem. E realmente passa a ser impossível a partir de então.

Daí tentamos nos lembrar de como era quando não tínhamos aquilo. Sem sucesso: tudo o que encontramos são memórias obscuras de uma existência fria e solitária, algo que não desejamos, que nos assusta e do qual queremos fugir. Então procuramos com maior intensidade pelo que nos dá a sensação de acolhimento. A dependência aumenta exponencialmente.

Até o dia em que falta.

Ah, quando falta, que sensação horrível! A dor - aguda, lancinante, insuportável - chega a ser física. Queremos morrer, sumir, desejamos que o mundo exploda, que a terra nos engula. Choramos, entramos em depressão, ficamos um lixo, com raiva da gente, com ódio do mundo. Juramos, aos prantos, dentes cerrados, que nunca mais vamos querer uma migalha que seja daquilo. Amaldiçoamos o dia em que nos ofereceram e aceitamos. E sofremos por um longo e tenebroso período de tempo, até ficarmos desintoxicados.

Então nossa auto-estima volta, retomamos o ritmo e tudo parece em ordem. Como a Fênix, saímos mais fortes de dentro das cinzas. Um tanto envergonhados do nosso passado, é verdade, mas procurando não pensar a respeito e tocar a vida adiante. Mas dentro da gente, em algum lugar além do nosso alcance, uma vozinha ainda grita a plenos pulmões, clamando por mais uma dose, uma bem pequenininha, só pra matar a saudade. Tanto ela insiste que acabamos cedendo. “Dessa vez vai ser diferente”, pensamos, “agora eu sei com o que estou lidando, não vou tão longe. Eu páro quando quiser”. Qual! Pura balela! Logo depois estamos lá, como antes, afundados até o pescoço, sem conseguir pensar direito, rindo à toa e achando graça na vida. Viciados, dependentes e adorando cada minuto.

Tanta gente já morreu disso. Alguns simplesmente não se contentam com pouco e vão tomando doses cada vez maiores, abusando da sorte, até pagarem o preço por sua ousadia. Outros são extremamente dependentes e, diante da inevitabilidade de ficarem sem, preferem tirar a própria vida ou a de outrem. Muitas histórias tratando do assunto são célebres. Via de regra, trágicas.

E se você pensa que eu estou falando de drogas, errou feio.

Eu falo de amor.

Um sentimento tão semelhante a substâncias entorpecentes não pode ser boa coisa, convenhamos.

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Dizem que só depois de se ocultar - seja sob uma máscara, seja atrás de uma arma, seja sobre o poder - o ser humano mostra sua verdadeira face. E gosto de pensar que é verdade, embora atualmente tenha dúvidas a respeito. Meu alter-ego, por exemplo: é um romântico incurável. Nos 8 meses que passei sendo o Dr, acabei por escrever cerca de 4 textos sobre amor. Assunto que nunca me ocorreu tratar a respeito no Utopia.

Terei dentro de mim um latin lover latente?

Acima está um desses textos, como novidade para quem ainda não sabe por onde eu andei nos meses em que o utopia esteve parado e como lembrança para aqueles que freqüentavam o Laboratório Secreto.

A inspiração, essa vagabunda

Não sou desses que afirmam morrer de amor pelas letras, que se declaram amantes dos livros, apaixonados pela escrita. Sabe, essas pessoas que devem se masturbar folheando dicionários? Então. Não faço parte da classe, até porque acho ridícula essa conversinha de “não sei viver sem meus livros, meus autores preferidos”. Coisa de pseudo-intelectual babaca, querendo pagar de “viciado em informação”.Mas desenvolvi o hábito de escrever. E não conseguir mais fazer isso com a mesma desenvoltura e freqüência, como conseguia há uns dois anos, dois anos e meio, me deixa tremendamente frustrado. É claro que tenho consciência de que aquele tipo de texto que eu fazia é muito fácil de escrever, que aquelas porcarias eu conseguiria, sim, produzir facilmente agora. Mas o grande problema é que eu não quero mais aquele padrão. Oras, de que me adianta ficar no mesmo patamar pro resto da vida? De que me serve fazer algo se eu não buscar melhorar? Quem fica parado é poste, e daí vem toda a minha insatisfação: o meu DESEJO de melhorar vai de encontro à minha capacidade de atingir esse objetivo. Juntemos a isso minha auto-crítica, e pronto.

O que acontece é que minha auto-crítica é uma desgraça: enquanto meu prazer em fazer algo aumenta em progressão aritmética, ela aumenta em progressão geométrica. Daí sempre fode tudo, porque eu me sinto desestimulado pra tocar qualquer coisa adiante, guiado pela certeza incontestável de que sou inapto pra sair da linha do medíocre (e isso acontece em tudo o que eu faço, não apenas com a escrita, é bom ressaltar).

O fato de uma ou outra pessoa lamber minhas bolas não ajuda nesse processo, infelizmente. Mas quando alguém que eu considero pouco (ou nada) inteligente me elogia, aí, sim, funciona: fico tão ofendido por uma pessoa daquelas concordar comigo que me sinto um lixo. Pois é, eu também não compreendi completamente como se dá o processo, mas o fato é que quando alguém me elogia eu não ligo, a menos que seja alguém de quem eu não gosto. Aí eu dou importância e me ofendo. Lamentável.

Claro que ser ofendido por alguém de quem eu não gosto e/ou que não considero inteligente o bastante apenas me incentiva a seguir em frente. Logo, se você não gosta de mim e vice-versa, é seu silêncio que me frustra. Manifestações de ódio surtem efeito contrário.

DICA:

Fique feliz, pois não é sempre que dou, de mão-beijada, uma fórmula pra me emputecer, mas aqui vai: faça comentários tremendamente imbecis nos meus textos, tipo “ahauheauheuahuea kRaAAaaI oOoOOoOW.. aDoLEiIIiiiII xEu bLoGxIInHuUuU… hauhUHUEHuhauheUHEUHu… rAxeI u biKu auheAUHEAUEauheAUHEAU…”, ou “You know, eu sempre pensei assim, mas nunca soube como dizer. Anyway, adorei o segundo parágrafo.” (não esqueça os estrangeirismos). Eu não vou gostar NADA de você, mas também não vou te tratar mal, já que você não está me ofendendo ou se metendo na minha vida ou qualquer coisa do tipo. E eu ainda sinto certo constrangimento se trato mal quem me trata bem (mas estamos trabalhando nisso).

FIM DA DICA

ABRE PARÊNTESES:

Se você está lendo o post até aqui, provavelmente quer saber o que a inspiração tem a ver com isso. Pra ser bem sincero, agora eu também não me lembro bem qual era a relação que ia estabelecer entre uma coisa e outra, mas como já comecei a criar uma tendinite braba digitando isso tudo, vamos em frente.)

Diga-se de passagem: sempre achei “parênteses” parecido com “parentes”, por razões óbvias. Quando meus professores, ditando alguma coisa, diziam “abre parênteses”, de imediato eu imaginava os consangüíneos de quem eu não gostava numa mesa de autópsia. Porque mentalidade sombria é isso aí.

FECHA PARÊNTESES

NOTA:

Chega de notas nesse texto. Já extrapolei a cota.

FIM DA NOTA

Olha eu fugindo totalmente do assunto. O que eu quis abordar desde o começo e não sabia como é o fato de que minha frustração com minha mediocridade, somada à minha falta de idéias, me manteve calado como estive nos últimos meses. É coisa rara ultimamente eu escrever em dois dias consecutivos. Mais raro ainda é sair mais de um texto meu por dia.

Por QUERER escrever mas não saber O QUÊ, concluí que o ideal seria recorrer a uma fonte infinita de idéias: o mundo do videogame.

- NÃO! POR FAVOR! NÃO ME DIGA QUE VAI ESCREVER OUTRO WALKTHROUGH!

Sem chance, calma lá! A idéia que eu tive foi um pouco diferente: vou narrar jogos. Como assim, você pergunta. Simples, eu respondo: pego um RPG qualquer e, ao mesmo tempo em que vou jogando, vou escrevendo textos narrativos contando a história. Claro que com minhas modificações aqui e ali. É idiota, eu sei, mas funciona. Supre minha vontade de escrever E minha falta de assunto. E, por increça que parível, ao desencanar do fato de que eu PRECISO escrever algo, acabo tendo uma ou outra idéia digna de ser desenvolvida. O que, geralmente, dá um texto.

Daí o título (lembrei!): é justamente quando você deixa de dar importância a ela que a inspiração resolve se esfregar na sua cara. Qualquer semelhança com as mulheres é mera coincidência, acho.

Então é o que eu tenho feito ultimamente: narrado jogos. E é incrível como, depois de passar pelos filtros da minha cabeça, fica tudo bem diferente do original. Estou me prendendo mais a temas como ficção científica ou magia-capa-e-espada, assuntos nos quais eu “me especializei” quando jogava RPG.

Tem sido divertido e, mais importante, está fluindo.
Pelo menos até agora.

CENSURADO

Escrevi um texto enorme aqui. Enorme mesmo.

Aí estava no oitavo ou nono parágrafo, e resolvi que tudo aquilo não fazia o menor sentido. Apaguei.

Essas poucas linhas dizem muito mais do que as centenas de palavras que eu batuquei antes.

Hoje em dia, delete é a única tecla que consegue realmente expressar minhas idéias.

Nós vamos invadir sua praia

Sempre me surpreendo quando alguém me diz que não gosta de ir à praia. Como assim “não gosto de ir à praia”? E dá pra não gostar de algo tão bacana?Dizer que não gosta de ir à praia é, na minha humilde - porém significativa e tremendamente válida - opinião, uma abominação tão grande quanto dizer que o pudim de leite condensado da minha vó não é o melhor do mundo. Atitude digna de apedrejamento sumário.

Como é possível que uma pessoa não goste de ficar exposta ao sol inclemente, capaz de esquentar a areia a ponto de deixar seus pés bem-passados? E há, de fato, alguém que não goste de ir para um lugar onde de 10 em 10 minutos é preciso tirar areia da bunda? Existe quem não venere aquele barulho eterno, incessante e tremendamente moroso que é o das ondas batendo na costa? Como um ser humano que se preze tem o desplante de dizer que não gosta de entrar na água salgada que resseca a pele, faz arder os olhos e causa ânsias de vômito nos maus nadadores que engasgam com ela? Como alguém tem a coragem de admitir que não gosta de entrar naquela gigantesca massa aquática que é o mar, provavelmente a maior força da natureza, cheia de perigos letais, invisíveis e desconhecidos? Como alguém pode não ficar entusiasmado diante da idéia de dar um mergulho sabendo que pode muito bem ser o último?

Eu realmente não compreendo.

Tem gente que não sabe viver…

Um dia de fúria

Cara simpático, aquele. Sempre tratava todo mundo bem, andava por aí sorridente, cumprimentando a todos. Ajudava com os problemas, felicitava pelas realizações. Cheio de amigos, honesto, de confiança. “Esse aí é um tremendo boa-praça”, todos diziam.

Acordou certo dia sentindo-se meio estranho. Uma comichão esquisita na barriga, os músculos dos braços estranhamente rijos, um inchaço no peito, como se tivesse puxado ar demais e não conseguisse soltar. Os olhos se mantinham apertados e as sobrancelhas sempre crispadas.

Levantou-se para tomar banho. Passou pela empregada, que, sorrindo, o cumprimentou.

- Bom dia, senhor.
- Ahtománocu!

Espantaram-se, ambos. Ela por nunca tê-lo ouvido falando um palavrão. Ele porque simplesmente não dissera o que queria. Ia, como de hábito, cumprimentá-la também. Não sabia sequer de onde tinha saído aquela ofensa. Virou-se para a empregada e, sinceramente arrependido, resolveu se desculpar:

- Ahtománocu. Não ouviu, não?

A mulher, tão gravemente ofendida, fechou a cara na hora. Largou o rodo e o balde que carregava e foi embora, resmungando.

- Mal-educado. Pois que limpe a casa ele mesmo, esse grosso. Vou é pra justiça procurar meus direitos, ele vai ver só.

Ele, atrasado, resolveu que não iria se banhar. Apenas trocou de roupa, escovou os dentes, penteou o cabelo, pegou as chaves do carro e saiu. Na saída da garagem, o porteiro acenou para ele. Quis sorrir e acenar de volta, mas acabou por dar língua e mostrar o dedo médio. Como represália, o porteiro apertou o botão para fechar o portão, que amassou de leve a lateral traseira do carro.

No caminho até a firma em que trabalhava, quase morreu. Fechou uma meia dúzia de carros, furou uns três sinais vermelhos, xingou outros motoristas. Exercitou sua incivilidade, coisa que nunca havia feito na vida.

Chegando no trabalho, puxou um cavalo-de-pau e deixou o carro no meio da rua. Entrando no prédio, resolveu que não falaria com ninguém. O grande problema é que todos o cumprimentavam. Ele apenas meneava a cabeça. Contudo, graças à rijeza muscular, seus movimentos eram bruscos. Isso, somado à sua cara amarrada, fazia com que suas tentativas de saudar as outras pessoas parecessem acintes, como se estivesse dizendo: “Quê que é? Tá olhando o quê? Algum problema?”. Percebendo que apena amedrontava os outros, chegou à conclusão de que o melhor era ignorar a todos.

Entrou em seu escritório e trancou a porta, decidido a não travar contato com nenhum ser humano até a hora do almoço, quando iria a um médico. Pegou uma lista telefônica para procurar o número de algum médico e marcar consulta. Mas não sabia que tipo de especialista devia ver. Resolveu que precisava de um psiquiatra. Encontrou um número e ligou. Uma voz feminina atendeu do outro lado:

- Consultório Psiquiátrico, secretaria. Em que posso ajudá-lo?
- Sifudê!

A secretária bateu o telefone. Ele ligou de novo.

- Consultório Psiquiátrico, em que posso ajudá-lo?
- Sifudê, porra!

Visivelmente irritada, a mulher respirou fundo. De início, parecia que ia dizer algo, mas acabou por desligar. Ele tornou a ligar. A voz, antes doce e aveludada, agora soou ríspida, como se soubesse quem era.

- Consultório Psiquiátrico, pois não?
- Sifudê, caralho!
- SEU PALHAÇO! VOCÊ NÃO TEM MAIS O QUE FAZER, NÃO? COM ESSA VOZ DE VELHO E AINDA PASSANDO TROTE? SEU NÚMERO É 555-9876! SE LIGAR AQUI MAIS UMA VEZ, CHAMO A POLÍCIA!

Ele desistiu. Não havia o que fazer. Ficou em silêncio dentro de sua sala, cabisbaixo, esperando que o dia passasse. O telefone tocava, ele não atendia. Batiam na porta, fingia que não estava. Um amigo foi chamá-lo pra almoçar. Quis dizer que não estava bem, mas acabou por ofender gravemente a família do sujeito.

Às 18:00, deixou o escritório. Não via a hora de chegar em casa. Acreditava que ia voltar ao normal no dia seguinte. Na rua, entretanto, não encontrou seu carro. Tinha sido rebocado. Chamou um táxi:

- FILHO DA PUTA!

O motorista fez um gesto obsceno e continuou. Foi para o ponto de ônibus. Ficou lá por duas horas, até que outra pessoa parasse a condução que precisava, já que seus acenos eram sempre agressivos e os motoristas fingiam não ver. Pagou ao cobrador, que, com cara de poucos amigos, sequer lhe dirigiu a palavra. Ficou mais tranqüilo ao perceber que todos no ônibus tinham a mesma cara fechada e a atitude descortês. “Finalmente”, pensou, “estou em um lugar onde sou igual a todos”.

Ao pensar nisso, teve uma idéia. Desceu no próximo ponto, caminhou duas quadras e entrou num estádio. Chegou às arquibancadas no momento em que a torcida entoava um canto cujo tema era a vida sexual nada honrosa do juiz.

Juntou-se ao coro e sorriu, pela primeira vez no dia.