Arquivos de Março, 2005

Homenagem ao dia internacional da mulher

Acho que a mulherada de Brasília é a espécie mais intrigante que eu conheço. Já fui a e morei em vários outros lugares e, em nenhum deles, as gurias eram tão… hmmm… “notáveis” quanto aqui.

Veja só, elas não são, nem de longe, tão bonitas quanto as moças da região sul. Mas são tão metidas quanto.
Não têm o charme e a graça das cariocas. Só aquela marra insuportável.
Não têm o humor inteligente e sarcástico das nordestinas, embora sejam bem mais feias.
Não são “liberadas” (leia-se “fáceis”) como as paulistas. A única semelhança que carregam com essas é a futilidade.

Resumindo: a mulherada aqui é feia, metida a besta, fútil, se acha pra caralho e ainda é burra.

Não é toa que tem tanto viado nessa cidade.

(Essa foi a mensagem da equipe Utopia Dilucular para as rachas da capital)

Problemas Diplomáticos

[Cena: Um homem jaz amordaçado, vendado e com as mãos amarradas em um colchão, dentro de um quarto imundo. Numa mesa à direita do prisioneiro, muçulmanos conversam enquanto limpam seus fuzis.]

- Mohammed, liga a tevê aí, vê o que é que tá passando.
- Nem preciso ligar, já sei o que é.
- O quê?
- Enlatados americanos, talk shows, filmes de Hollywood. Se estiver no intervalo, propaganda da Coca-cola, do McDonalds ou da Nike. Essa programação horrível que visa fomentar o capitalismo nas mentes jovens, trazida pelos gringos que, supostamente, vieram “libertar” nosso povo das garras da tirania Hussênica, quando o GB deles é tão mandão quanto nosso ex-ditador. FORA, EUA e FMI! GRINGO, GO HOME!
- Ô Salim, dá um tapa no Mohammed porque baixou o Pancho Vila no cara de novo.

Nesse instante, os carcereiros ouviram batidas na porta. Dois deles rapidamente engatilharam os rifles e se colocaram em posições estratégicas, enquanto o terceiro ia verificar quem era.

- Qual é a senha?
- Sei lá, pô. Eu sou só o carteiro.

Era só o carteiro com uma encomenda que havia sido encaminhada àqueles três pelos líderes do grupo religioso do qual eles faziam parte. Um bilhete acompanhava o pequeno embrulho:

“Amigos e irmãos!
Namastê!
Paz e luz!

Segue apelo enviado pelos parentes do cativo. Verifiquem o conteúdo do pacote e julguem se podemos ou não libertar o homem vivo.

Kaleb.

P.S.: Mohammed, sua mulher disse que tá precisando de dinheiro pra comprar cebola. Adiantei algum, então cê tá me devendo. Depois a gente acerta.”

Verificaram o remetente: a encomenda era do Brasil. Dentro do pacote havia apenas uma fita de vídeo. Os seqüestradores colocaram no vídeo para ouvir o apelo da família do homem abduzido. Entre mulheres chorosas, um senhor já de idade - provavelmente pai do sujeito - explicava que o Brasil era um país maravilhoso, de grandes belezas naturais, que os grupos muçulmanos que ali viviam eram muito bem tratados e que o governo não concordava com a invasão americana aos países do oriente médio, principalmente porque brasileiros eram felizes e pacíficos. Por fim, o velho, chorando, pedia que libertassem seu filho.

Os árabes ficaram quietos, pensando no que iriam fazer. Enquanto isso, a fita rodava no vídeo. Trechos da programação brasileira de TV passavam pela tela sem serem notados pelos homens, que deliberavam a libertação do refém. De repente, a atenção deles foi atraída por uma batida eletrônica. Quando olharam para a tela, depararam-se com um rapaz que vestia-se de modo ridículo e usava um bigodinho de latin lover de péssimo gosto. Ele começou a cantar:

HOJE É FESTA LÁ NO MEU APÊ
PODE APARECER
VAI ROLAR BUNDA-LELÊ

[Pausa para a eliminação do refém e um enorme atentado terrorista, com milhares de brasileiros mortos]

Prioridades

Gaita

Entendam: ficar treinando com minha gaita é muito mais importante do que escrever aqui.

Segundas intenções

Sorriu de lado. À luz de velas aquele meio-sorriso parecia ainda mais malévolo. Estava terminando de lustrar o rifle, e o fizera tão bem que o cano negro da arma quase era capaz de refletir seu rosto.

Pendurou a arma à tiracolo e verificou o saco com as provisões, o fio da faca e as pilhas da lanterna. Tudo estava em ordem. Mal conseguira dormir na noite anterior, pensando na emoção da caçada, e agora só tinha que se vestir, apertar as correias dos cachorros e seguir.

Procurava por ursos, mas não de qualquer tipo: queria ursos polares, e os maiores que conseguisse encontrar. Colocou alguns casacos, boas calças e botas. Apertou a corda do capuz para ajustá-lo à cabeça e estava pronto. Arrumou o trenó em minutos e partiu, estalando o chicote com força no ar, para espantar o frio e instigar os cachorros a correr.

Após algumas horas, viu uma fêmea e dois filhotes. Lembrou-se do princípio dos caçadores de não matar animais com capacidade reprodutiva e continuou sua procura, que não durou muito mais: após um breve aclive, viu outro urso. Um macho, dessa vez, no ponto para o abate.

Estava a uns 500 metros do bicho e, ainda assim, estremeceu diante de seu tamanho. Mas manteve o sangue-frio - o ambiente ajudava -, sacou a arma, verificou o sentido e a força do vento, agachou-se e fez pontaria.

BAM! Um tiro certeiro, direto na cabeça. O corpanzil branco foi ao chão, e sob ele formou-se uma poça vermelha. O caçador comemorou seu triunfo e já ia montar no trenó para chegar à caça abatida, quando sentiu uma batidinha nas costas. Virou-se e lá estava um urso polar com pelo menos o dobro do tamanho do que havia acabado de matar. Achou que ia ter um ataque cardíaco quando o imenso animal lhe dirigiu a palavra:

- Bom dia!
- B-bom dia.
- Estou muito desapontado com sua atitude, meu caro senhor! Utilizar-se de armamento pesado para abater um animal desprotegido? Definitivamente lamentável!
- M-m-mas… é… é que… eu… eu… u-urso… c-c-caça… e… e… - diante de situação tão absurda, balbuciava palavras desconexas. Não conseguia concatenar pensamentos.
- Entendo que o senhor esteja um tanto espantado por me ver falar, mas compreenda que, diante desta atividade tão repreensível que é a caça esportiva, não tive outra opção senão me manifestar para mostrar o quanto nós, ursos, desprezamos a matança e a crueldade por mera diversão. Além do mais, segundo nosso estatuto, o senhor precisa ser punido pelo crime que acaba de cometer.
- P-p-p-punido?
- Sim, punido. E severamente. Com licença, vou confiscar sua arma para garantir que não cause mais nenhum mal.

Dizendo isso, a fera estendeu a pata e tomou o rifle ainda fumegante das mãos trêmulas do caçador. Em seguida quebrou-o sem muito esforço e atirou longe os pedaços.

- Agora - continuou - que diminuímos seu nível de periculosidade, chegou a hora de sua punição.

Dito isto, o enorme animal currou o caçador, que voltou para casa desarmado, sem caça e com o orgulho - para não citar uma pequena parte de sua anatomia - ferido. Deixou o Alasca por quase um ano, até que voltou, decidido a se vingar daquele que o humilhara. Comprou um novo rifle - dessa vez com mira a laser, para garantir que não erraria - e trocou seu trenó por um motoneve*.

Rodou por quase dois dias à procura de seu algoz, até que o viu. Pelo tamanho, não havia dúvidas que era ele.

Pensou consigo: “Dessa vez eu acerto esse filha duma puta…”. Sacou o rifle, fez pontaria e assobiou alto para atrair a atenção do animal. Quando o urso se virou e o viu, sequer teve tempo de pensar antes de receber um balaço certeiro entre os olhos. O caçador sorriu, feliz com sua vingança. Mas o sentimento durou apenas um breve instante. Sentiu uma batidinha no ombro. Virou-se e encontrou um urso ainda maior do que aquele que havia acabado de matar, por mais incrível que fosse. Antes que pensasse “só falta esse aí falar, também”, o urso começou:

- Ah, seu viado! Veio aqui só pra se vingar, seu porra?
- Não… eu… é que… urso… caça… currou… e… estatuto… e…
- Eu sei da história, seu babaca cretino! - esse não era tão polido quanto o anterior - Me dá essa porra de rifle aqui, que brinquedo na mão de criança só dá merda.

O animal partiu a arma em três e arremessou os pedaços a uma distância extraordinária. Em seguida, carcou o caçador duas vezes. Foi embora dizendo:

- Isso é pra você aprender a nunca mais matar meus irmãos de espécie.

O caçador seguiu o caminho de volta em seu motoneve, cabisbaixo e sentando meio de lado. Chorou e guardou uma das lágrimas congeladas como lembrança desta nova humilhação. Contudo, não esperou nem um minuto após chegar na cidade mais próxima e comprou um novo rifle. Encheu o tanque do motoneve e seguiu por onde tinha vindo, na esperança de reencontrar o último urso.

Por sorte, o animal deixara uma enorme trilha atrás de si. Acabou por encontrá-lo e, pra variar, estourou seu crânio com o rifle. Estava a chutar o cadáver e dar urros de satisfação quando veio outra daquelas fatídicas batidinhas nas costas.

O novo urso, ainda maior que o que havia acabado de matar, não disse nada além de “Você já conhece o protocolo”. Tomou a arma do caçador, quebrou-a e traçou o cara. Três vezes.

O caçador bufava de ódio quando voltou pra casa. Chorou a noite inteira, qual criança decepcionada. No dia seguinte, sem conseguir dormir, com os olhos vermelhos, injetados de ódio, comprou um novo rifle. Foi atrás do último urso. Acabou por encontrá-lo e não hesitou em abatê-lo. Sentiu, para seu desespero, outra batidinha nas costas.

Virou-se já chorando. Um urso de tamanho inacreditável, com um sorrisinho sacana nos lábios, perguntou em tom de troça:

- Fala a verdade: você não vem mais aqui pra caçar, né?

* Valeu aí, Fialho, por me lembrar o nome desta bagaça!

Queda-de-braço

O quanto vale a pena me privar de agir como eu gostaria de agir de verdade?

Essa queda-de-braço comigo mesmo ainda vai me render um câncer.

Influência do meio

Não sei dizer o que é. Não sei mesmo. Talvez seja algo no ar, ou na água. Talvez seja uma reação natural do meu corpo ao perceber que está num lugar que eu odeio.

Definitivamente não sei o que acontece. Sei que me sinto mal só de voltar pra Brasília.

Minha sinusite e minha asma se comportaram incrivelmente bem nos 9 ou 10 dias que passei fora. E olha que dormi numa pousada tão pé-sujo em Pirenópolis que, pra gente poder se instalar, quase tivemos que pedir licença para as aranhas. E nem ali eu tive crise de espirros ou problemas com o peito chiando.

Dormi meio mal, mas só por causa das queimaduras de sol nos ombros, costas, pernas e braços. Mas fora esse problema - que, aí, sim, eu sei o que causou, e foi o sol - não tive mais nenhum.

E na minha primeira noite em Brasília comecei a tossir como um cachorro velho. Meu nariz ficou irritado logo nas primeiras horas aqui nesse lugar. Dormi muito mal e acordei com o peito chiando como se eu tivesse engolido um gato. O problema, descobri, não é com meu sistema respiratório. É com a cidade.

Um pod’s-crer qualquer viria com aquele papo imbecil de “energia”. Que a “energia” da cidade me faz mal, que meu corpo rebate essa influência nefasta da maneira que pode, blá blá blá blá, mimimimi. Mas essa conversinha de “energia” é papo de quem não consegue explicar algo e fica inventando qualquer besteira pra não passar por ignorante.

Eu não tenho medo de passar por ignorante. Algo nessa cidade me faz mal. Deve ser esse populacho cretino que a habita, ou o ar que eu tenho que dividir com essa cambada de imbecis que mora aqui.

Não sei o que é, só sei que esse lugar ainda vai acabar comigo.
A menos que eu acabe com ele primeiro, claro. E talvez já esteja passando da hora de fazer planos nesse sentido…