Sorriu de lado. À luz de velas aquele meio-sorriso parecia ainda mais malévolo. Estava terminando de lustrar o rifle, e o fizera tão bem que o cano negro da arma quase era capaz de refletir seu rosto.
Pendurou a arma à tiracolo e verificou o saco com as provisões, o fio da faca e as pilhas da lanterna. Tudo estava em ordem. Mal conseguira dormir na noite anterior, pensando na emoção da caçada, e agora só tinha que se vestir, apertar as correias dos cachorros e seguir.
Procurava por ursos, mas não de qualquer tipo: queria ursos polares, e os maiores que conseguisse encontrar. Colocou alguns casacos, boas calças e botas. Apertou a corda do capuz para ajustá-lo à cabeça e estava pronto. Arrumou o trenó em minutos e partiu, estalando o chicote com força no ar, para espantar o frio e instigar os cachorros a correr.
Após algumas horas, viu uma fêmea e dois filhotes. Lembrou-se do princípio dos caçadores de não matar animais com capacidade reprodutiva e continuou sua procura, que não durou muito mais: após um breve aclive, viu outro urso. Um macho, dessa vez, no ponto para o abate.
Estava a uns 500 metros do bicho e, ainda assim, estremeceu diante de seu tamanho. Mas manteve o sangue-frio - o ambiente ajudava -, sacou a arma, verificou o sentido e a força do vento, agachou-se e fez pontaria.
BAM! Um tiro certeiro, direto na cabeça. O corpanzil branco foi ao chão, e sob ele formou-se uma poça vermelha. O caçador comemorou seu triunfo e já ia montar no trenó para chegar à caça abatida, quando sentiu uma batidinha nas costas. Virou-se e lá estava um urso polar com pelo menos o dobro do tamanho do que havia acabado de matar. Achou que ia ter um ataque cardíaco quando o imenso animal lhe dirigiu a palavra:
- Bom dia!
- B-bom dia.
- Estou muito desapontado com sua atitude, meu caro senhor! Utilizar-se de armamento pesado para abater um animal desprotegido? Definitivamente lamentável!
- M-m-mas… é… é que… eu… eu… u-urso… c-c-caça… e… e… - diante de situação tão absurda, balbuciava palavras desconexas. Não conseguia concatenar pensamentos.
- Entendo que o senhor esteja um tanto espantado por me ver falar, mas compreenda que, diante desta atividade tão repreensível que é a caça esportiva, não tive outra opção senão me manifestar para mostrar o quanto nós, ursos, desprezamos a matança e a crueldade por mera diversão. Além do mais, segundo nosso estatuto, o senhor precisa ser punido pelo crime que acaba de cometer.
- P-p-p-punido?
- Sim, punido. E severamente. Com licença, vou confiscar sua arma para garantir que não cause mais nenhum mal.
Dizendo isso, a fera estendeu a pata e tomou o rifle ainda fumegante das mãos trêmulas do caçador. Em seguida quebrou-o sem muito esforço e atirou longe os pedaços.
- Agora - continuou - que diminuímos seu nível de periculosidade, chegou a hora de sua punição.
Dito isto, o enorme animal currou o caçador, que voltou para casa desarmado, sem caça e com o orgulho - para não citar uma pequena parte de sua anatomia - ferido. Deixou o Alasca por quase um ano, até que voltou, decidido a se vingar daquele que o humilhara. Comprou um novo rifle - dessa vez com mira a laser, para garantir que não erraria - e trocou seu trenó por um motoneve*.
Rodou por quase dois dias à procura de seu algoz, até que o viu. Pelo tamanho, não havia dúvidas que era ele.
Pensou consigo: “Dessa vez eu acerto esse filha duma puta…”. Sacou o rifle, fez pontaria e assobiou alto para atrair a atenção do animal. Quando o urso se virou e o viu, sequer teve tempo de pensar antes de receber um balaço certeiro entre os olhos. O caçador sorriu, feliz com sua vingança. Mas o sentimento durou apenas um breve instante. Sentiu uma batidinha no ombro. Virou-se e encontrou um urso ainda maior do que aquele que havia acabado de matar, por mais incrível que fosse. Antes que pensasse “só falta esse aí falar, também”, o urso começou:
- Ah, seu viado! Veio aqui só pra se vingar, seu porra?
- Não… eu… é que… urso… caça… currou… e… estatuto… e…
- Eu sei da história, seu babaca cretino! - esse não era tão polido quanto o anterior - Me dá essa porra de rifle aqui, que brinquedo na mão de criança só dá merda.
O animal partiu a arma em três e arremessou os pedaços a uma distância extraordinária. Em seguida, carcou o caçador duas vezes. Foi embora dizendo:
- Isso é pra você aprender a nunca mais matar meus irmãos de espécie.
O caçador seguiu o caminho de volta em seu motoneve, cabisbaixo e sentando meio de lado. Chorou e guardou uma das lágrimas congeladas como lembrança desta nova humilhação. Contudo, não esperou nem um minuto após chegar na cidade mais próxima e comprou um novo rifle. Encheu o tanque do motoneve e seguiu por onde tinha vindo, na esperança de reencontrar o último urso.
Por sorte, o animal deixara uma enorme trilha atrás de si. Acabou por encontrá-lo e, pra variar, estourou seu crânio com o rifle. Estava a chutar o cadáver e dar urros de satisfação quando veio outra daquelas fatídicas batidinhas nas costas.
O novo urso, ainda maior que o que havia acabado de matar, não disse nada além de “Você já conhece o protocolo”. Tomou a arma do caçador, quebrou-a e traçou o cara. Três vezes.
O caçador bufava de ódio quando voltou pra casa. Chorou a noite inteira, qual criança decepcionada. No dia seguinte, sem conseguir dormir, com os olhos vermelhos, injetados de ódio, comprou um novo rifle. Foi atrás do último urso. Acabou por encontrá-lo e não hesitou em abatê-lo. Sentiu, para seu desespero, outra batidinha nas costas.
Virou-se já chorando. Um urso de tamanho inacreditável, com um sorrisinho sacana nos lábios, perguntou em tom de troça:
- Fala a verdade: você não vem mais aqui pra caçar, né?
* Valeu aí, Fialho, por me lembrar o nome desta bagaça!