Monthly Archive for April, 2005

O elogio do odiável

Nada no mundo ofende mais do que um elogio de uma pessoa que é detestável a seus olhos. Nem mesmo uma crítica crua de alguém admirado.

Mas aprenda a ver as coisas pelo lado bom: embora, num primeiro momento, o elogio do odiável seja um decreto oficial de que você está agindo como um idiota (ou aquele imbecil não iria te admirar, convenhamos), alguns minutos de reflexão podem te mostrar onde você está errando e indicar o caminho correto a seguir.

O problema é quando o idiota elogia OUTRAS posturas suas, diferentes daquela que você tinha no começo.

Aí a única solução é o suicídio. Antes isso a viver como um exemplo para os cretinos.

(Isso pode soar estranho para quem nunca passou por essa situação, mas duvido que aqueles que já a experimentaram não saibam do que eu estou falando…)

Há (bem mais de) um ano…

Escrevi esse texto em 2 de outubro de 2003, durante meu período de exílio.
Apesar da leveza que tentava adquirir, limando palavrões e outros vocábulos menos “dignos”, gosto muito dele.

Então tomem repeteco.

O grande Millôr Fernandes (ele merece um negrito no link) já disse: A melhor forma de separar duas pessoas é colocá-las vivendo juntas. E as inúmeras picuinhas geradas pela existência conjunta nada mais fazem do que endossar essa afirmação. Um ponto que é grande causador de polêmicas, discussões, embates, brigas e separações é a inocente, inócua – sem duplo sentido aqui, porque piada pronta não tem a menor graça – e inofensiva tampa da privada. Ou, mais especificamente, a posição na qual ela deve se encontrar após o uso do sanitário.

Essa questão aparentemente tão indigna de atenção é, logo após a maneira correta de se apertar o tubo de pasta de dentes e imediatamente antes do método de corte da caixa de leite longa vida, um dos pontos de maior discórdia na vida a dois, a três, a quatro ou a quantos vocês quiserem, seus libertinos.

Muitas mulheres argumentam, claro que puxando a sardinha pro lado delas, que o correto é que a tampa fique abaixada após seu uso. Dessa forma, ao se aproximarem do sanitário em necessidade desmedida e grande pressa, sua vida fica mais prática: só precisam levantar a saia (ou baixar as calças, como queiram) e serem felizes, sem preocupação em abaixar o assento.

Qualquer homem poderia dizer que essa é uma desculpa que demonstra preguiça absurda. Mas não há honra em atacar dessa maneira um adversário ideológico, então vamos dizer, por agora, que elas são apenas expertas*.

Também há uma conta simples, baseada em probabilidades, que elas costumam fazer para demonstrar que o ideal é manter-se abaixada a tampa da privada. As necessidades de excreção, masculinas e femininas, são duas: mijar e cagar. Ou, para os mais pudicos, sensíveis, frescos e abichalhados, fazer xixi e fazer cocô. Mulheres mijam/fazem xixi sentadas, homens mijam de pé (homem não faz xixi). Até aí, há empate. Mulheres cagam/fazem cocô sentadas, homens cagam sentados (homem também não faz cocô). Opa. São 3 contra 1. Não há como questionar isso também. Ponto para as fêmeas.

Mas vamos analisar agora pelo nosso lado, porque essa é uma questão bilateral, e existem pontos importantíssimos a serem considerados.

Em primeiro lugar, não há nada mais odioso do que encontrar a tampa da privada molhada. Independentemente de qual seja o líquido, é experiência das mais angustiantes, principalmente em dias frios. Oras, é sabido que muitos homens não são civilizados a ponto de, em um momento de afobação fisiológica ou de semi-consciência ébria, levantarem a tampa da privada. Daí a não terem mira o bastante para acertarem no alvo sem atingirem as bordas do assento é um pulo. Alguém aí gosta de sentar em urina ou ter que limpar o vaso antes de poder se acomodar? Nem eu.

Em segundo lugar, a aceleração da gravidade no nosso planeta é de 9,80 m/s². Então é muito mais fácil baixar a tampa da privada (só é preciso dar um tapa, de modo que ela caia) do que erguê-la (operação onde você precisa se curvar um pouco até alcançar a tampa, segurá-la e levantá-la, o que consome maior tempo e energia), até porque, ao abaixá-la, a gravidade está a seu favor. Ao levantá-la, está contra. E quem quer lutar contra as forças da natureza enquanto está a fim de tirar uma água do joelho?

Ora, um homem que chegue apertado ao banheiro e encontre o assento abaixado precisa, antes de se aliviar, passar pelo longo e trabalhoso processo de erguê-lo. Não diga que é uma operação simples, lembre-se que o sujeito está absurdamente apertado, num afã nunca antes visto para liberar o líqüido retido por sua bexiga. Quantos homens, digam vocês mulheres, seriam conscienciosos a ponto de se lembrarem de vocês numa hora dessas? Eu conheço poucos. Qual seria o resultado? Sujeira no assento, é claro.

Já uma mulher que, apertada, alcance o banheiro, só precisa dar um leve tapa no assento do vaso, de modo a baixá-lo. Além do mais, se a tampa estiver erguida, há a certeza de que ela estará SECA, ou seja, não é necessário se preocupar com os resquícios da visita daquele mal-educado, ruim de mira e porco do exemplo acima.

Dessa forma, o ideal é que a tampa do vaso permaneça erguida, em prol da segurança, conforto e tranqüilidade da mulher, que não terá mais suas suaves e belas nádegas ofendidas com respingos de urina de homens pouco dedicados.

Da próxima vez, vamos falar sobre cabelos na pia.

* Antes que me venham corrigir, dizendo que esperto se escreve com s, e não com x, acho bom deixar claro que o termo ali está grafado corretamente: expertas. Vem de experiente, experimentado, perito, ou seja, conhecedor do assunto.

To far away timescapes*

Na época em que comecei a colecionar revistas em quadrinhos (ali pelo final da década de 80, quando aprendi a ler por pura insistência), eu não dava a menor pelota pra situação em que ficavam os meus gibis. Eram todos da turma da Mônica, já que eu achava os da Disney um porre e não gostava dos quadrinhos “adultos” (maneira como eu classificava as revistas de super-heróis) porque achava os balões grandes demais.

Quando troquei Mônica por Conan e este por Homem-Aranha, continuei seguindo a mesma linha de pensamento: “Foda-se a situação das revistas, desde que dê pra ler, tá valendo”.

Um dos gestos que eu cometia na época, e que hoje julgo uma heresia, era o de arrancar a orelha da página que estava lendo – não me perguntem por quê – e ficar brincando com ela entre os dedos até passar à página seguinte. Então arrancava a orelha seguinte e ia assim até terminar a revista (e as orelhas). Também dobrava a revista no meio, sabe como é? Quando você segura com apenas uma mão, botando uma página para trás. E era tão desorganizado que muitas edições que comprei sumiram de lá pra cá (inclusive minhas Marvels, que pretendo comprar de alguém no Mercado Livre assim que tiver grana). Outras ficaram tão detonadas que tive que substituir.

Enfim. Eu era um esmeril com as minhas revistas, a verdade é essa.

De um tempo pra cá, entretanto, passei a ser mais cuidadoso. Briguei um bocado aqui em casa pra ficar com o espaço central do guarda-roupas do meu quarto, de modo que pudesse armazenar minha coleção de maneira mais cuidadosa. Passei a manter as edições organizadas por título, editora, nhé nhé nhé nhé, imimimi.

Uma viadagem que só vendo.

Isso não era muito trabalhoso. Tudo o que eu tinha que fazer era colocar a revista na pilha correta quando terminasse de ler. Simples. Fácil.

Pois não era o suficiente. Eu me odeio e adoro me sacanear. Então fui à Brassaco e comprei um pacote de plásticos com 20 e alguma coisa x 10 e algo cm. Pra embalar minhas revistas, impedir que fiquem empoeiradas, sabe como é. Pois comprei e é uma baita mão de obra embalar essas porcarias. Porque, você sabe, não é só colocar a revista dentro do plástico e pronto: é preciso dobrar o saco direitinho, colocar durex pra impedir que ele abra, depois empilhar as revistas de maneira que não amassem e tal.

Há toda uma metodologia envolvida, compreenda.

Mas, por pior que pareça, ainda não era suficiente. Não. Eu tinha que me punir MAIS. Tinha que me dar mais trabalho. Resolvi baixar o Comic Collector e gostei da interface do programa. Daí a decidir catalogar TODA a minha coleção foi um pulo. E isso tá me dando um trabalho do caralho, porque, além de desocupado, eu sou perfeccionista, e essa é minha ruína. Então não basta colocar o n.º da edição e o título. É preciso colocar o nº da edição, o título , o roteirista, o desenhista e o arte-finalista de cada história, a editora original, a editora que publicou aqui no Brasil, quando a revista foi lançada, o preço de capa, em que qualidade ela se encontra, que personagens aparecem nas histórias com um resumo de cada uma, escanear capa e contracapa… enfim. Um porre.

Na boa, tô achando que meu hobby tá virando obsessão. Preciso arranjar rapidamente alguma coisa pra fazer!

* Coloquei esse título no post porque tava ouvindo essa mp3 quando comecei a escrever. E porque me deu vontade.

Vai de acordo com o gosto do freguês

Eu fico vendo essas pessoas que saem por aí dizendo que igreja é um treco lucrativo, que dá dinheiro pra caralho, que é o tipo de investimento com retorno certo. A única coisa que consigo pensar diante disso é que nêgo devia aprender a contextualizar as coisas.

Vai montar uma igreja em Cuba, pra ver quanto dinheiro cê vai ganhar.

Premonição

Eu tenho 23 anos e, sem sacanagem, em todo esse meu tempo de vida meu pai deve ter morado em outras quadras durante uns 5 anos, se tanto. Os outros 18 ciclos terrestres o velho passou aqui, na 304 norte.

Quando fui morar com ele, em meados de 1998, vivíamos num apartamento ligeiramente menor que esse, na 214 sul. Um amigo do meu irmão tinha sido preso por tráfico de drogas e esse imóvel aqui estava vago. Iria continuar assim por uns 4 anos depois disso (foi essa a pena que o cara recebeu). Meu pai aproveitou a chance, negociou com o pai do sujeito e pronto: voltamos pra 304.

Quando eu era moleque e ele ainda vivia com a Mércia (logo ali no bloco C), tinha um enorme terreno baldio entre a 303 e essa quadra aqui. Dentro dele havia um baita matagal e uma placa que dizia “Em breve será construída aqui a igreja de santo Expedito”.

Em breve, sei. Foi daí que eu percebi de onde saio a expressão “obra de igreja”. Devo ter freqüentado essa quadra por uns 16 anos, pelo menos. E nada de igreja. A placa continuava lá.

Juro que não é sacanagem: eu me mudei pra cá e, dois, três meses depois, se tanto, a obra começou. Se não é perseguição do vaticano, não sei o que é.

De todo modo, eu fico feliz que não seja uma igreja evangélica. Os católicos são bem mais silenciosos. Eles fazem merda a semana toda e vêm no domingo pedir perdão, de forma muito quieta. Na semana seguinte continuam a fazer as mesmas merdas de antes. Não querem evoluir, estão só procurando um placebo pra aplacar suas dores de consciência. Os evangélicos, não. Claro que eles também seguem o método da não-evolução, só que berram como uns desesperados, cantam alto pra caralho e ainda vão à igreja todo dia.

Se é pra ter um templo, então, menos mal se for católico.

Eventualmente – e o fim de semana passado foi um dia desses – eles fazem umas quermesses no terreno da igreja. Montam ali umas barraquinhas vendendo cachorro-quente, canjica, doces diversos, um pequeno bazar pra vender doações… tudo pra juntar dinheiro pra encher ainda mais o rico rabo do clero.

Geralmente eles também montam um palco e chamam uma bandinha pra tocar no evento. E era nesse ponto que eu queria chegar.

Eu queria ter filmado, pra ninguém dizer que eu sou mentiroso: isso aqui foi uma premonição. Sexta-feira eu saí de casa pra pegar um ônibus pra casa da patroa e a banda que estava no palco tocava uma versão animadaça de “Festa no Apê”.

E eu nunca vi uma quermesse tão cheia. Sabia que meu método seria eficiente.

Regras da vida

Dia desses (acho que foi há umas duas semanas) estava vendo uma pegadinha no Domingo Legal.

Não, não tinha nada de bom passando nem nos canais a cabo. Programação de TV no fim de semana é reconhecidamente uma das coisas mais desagradáveis do mundo. Num TOP 5, fica ali entre pedra nos rins e vendedores da Herbalife. Uma desgraça, realmente.

Enfim. A pegadinha consistia no seguinte: um cara estava na praia vendo o tempo passar (um paulista na costa paulista, como parece evidente se considerarmos o programa do qual estamos falando) e era abordado por uma mulher. Que não era uma mulher qualquer. Não era uma fêmea mundana como essas que vemos no trabalho, no trânsito ou andando pela rua. Era uma legítima Gostosa de Propaganda de Cerveja.

Apenas a presença de tal espécime em local tão simplório já seria suficiente para qualquer cara com o mínimo de inteligência perceber que aquela situação não podia ser real.

Os caras não percebiam, claro. Paulistas legítimos.

De todo modo, a Gostosa de Propaganda de Cerveja abordava os feinhos e já chegava mandando bronca. Elogiava o sujeito com frases como “nossa, como você é bonito” (mentiras deslavadas, devo dizer). Nesse momento, enquanto o fino tecido da realidade se contorcia ao meu redor e o universo ameaçava sumir sob as avassaladoras forças da Entropia e do Caos, o zé ninguém na TV secretamente controlava o ímpeto de se ajoelhar e gritar para os céus todas as preces conhecidas de agradecimento pela graça alcançada ao mesmo tempo em que começava a jogar seu charme (???) em cima da mulher, crente que ia conseguir dar-lhe uns cato.

Só que não se tratava de uma mulher qualquer, eu já disse, mas é sempre bom ressaltar: era uma Gostosa de Propaganda de Cerveja.

Por que eu bato tanto em cima dessa tecla? Por um motivo muito simples: era uma GOSTOSA DE PROPAGANDA DE CERVEJA. Agora pare e pense: quantas mulheres que você conheceu mereciam esse título? Quantas delas você pegou?

E vocês, mulheres, pensem no representante masculino desse seleto nicho biológico: quantos sujeitos vocês conhecem são dignos de receber o título Bonitão de Comercial do Prestobarba? Quantos deles vocês já pegaram?

Considerando que os leitores desta página, assim como eu, são pessoas normais (i.e. não são exemplos de beleza, embora também não o sejam de feiúra), a resposta a essas perguntas é muito simples: zero.

Ou seja, é um FATO: Gostosas de Propaganda de Cerveja e Bonitões de Comercial do Prestobarba NÃO são seres normais, não se relacionam com pessoas normais, não vão a lugares normais. Vivem em uma esfera de realidade diferente da nossa, estão submetidos a outras leis físicas e variáveis atômicas.

São semideuses, é isso que são.

E eu vou te dizer: é mais fácil você acordar de madrugada pra ir ao banheiro e no caminho topar com um legítimo Dodô das Ilhas Maurício comendo uma alface roubada da sua geladeira do que encontrar uma mulher ou homem desses. Se já é difícil encontrá-los, que dirá conseguir sua atenção. Essa é uma tarefa impossível para seres humanos corriqueiros.

A menos que você seja uma Gostosa de Propaganda de Cerveja, um Bonitão de Comercial do Prestobarba não irá te tratar de outra maneira que não seja com condescendência (e vice-versa). Acostume-se a isso. Entidades superiores não têm razão para dar qualquer atenção a pobres complexos biológicos formados de carbono, como nós.

Essa minha postura com relação a pessoas cuja beleza transcende o patamar da normalidade já foi vista como falta de auto-estima ou, numa linguagem mais corriqueira, falta de confiança no meu “taco”. Não sofro de nenhum desses dois problemas, é bom ressaltar. Apenas sei qual o meu lugar no universo e não pretendo ir contra as leis responsáveis pela manutenção do Status Quo. Porque é exatamente isso que irá acontecer no dia em que um reles mortal ousar dar uma buzinada nos belos, túrgidos, firmes e perfeitos peitos de uma GPC: o fim da realidade como a conhecemos.

Tanto é verdade que a produção do programa do Gugu, apesar de flertar com os incomensuráveis riscos decorrentes de tal acontecimento, no último momento sabia que se manter naquela direção era perigoso demais e contornava a situação. A Gostosa de Propaganda de Cerveja acabava abandonando o feinho por um reprodutor mais adequado à sua casta e ia embora, deixando o humano normal a ver navios (literalmente, se considerarmos o local do acontecido).

Já me deparei – na internet, claro – com uma – suposta – representante da classe. E ela – supostamente – se agradou das minhas coisas.

Depois de muito refletir, concluí que:
a) Ela está mentindo quanto a ser quem diz ser, ou
b) Ela está mentindo quanto a estar interessada em mim
c) As duas alternativas estão corretas.

E deixei pra lá.

Compreendam: não quero ser o responsável pelo fim deste plano de existência.