Monthly Archive for November, 2005

Imperdoáveis

“Eu não tive intenção” não é uma desculpa aceitável.
“Não imaginei que isso pudesse acontecer” não é um atuenuante.
“Não previ isso” não te redime de culpa.

“Não era isso que eu queria” só mostra que, além de culpado, você ainda é irresponsável e inconseqüente.

Carregar sua bolsa cheia de burrices e mancadas que só te trouxeram desgraça é fácil. Isso dá pra fazer numa boa. O problema é levar nos ombros a constatação de que seus folguedos egoístas feriram os sentimentos de outras pessoas.

E aí, meu irmão?
O que você faz agora?

Johnny Cash - Hurt

I wear this crown of thorns
upon my liars chair
full of broken thoughts,
I cannot repair.Beneath the stains of time,
the feelings dissapear.
You are someone else,
I am still right here.

What have I become,
my sweetest friend?
Everyone I know,
goes away in the end,

and you could have it all:
my empire of dirt.
I will let you down,
I will make you hurt.

Play/Pause

Nunca fui muito maníaco por controle. Acho que, de tanto jogar videogame, acabei me acostumando às aleatoriedades da vida (e ainda existe quem diga que não dá pra tirar boas lições de qualquer besteira, heim?). Certos aspectos simplesmente não estão sob nosso comando, ao contrário do que dizem aqueles pobres seres humanos - lobotomizados por natureza - que crêem que são “magos” e têm pleno arbítrio sobre toda e qualquer faceta da realidade que lhes seja conveniente mudar.

Mas não é minha intenção irritar os “wiccans”, até porque não existe sentido em comprar briga com quem não sabe discutir. O assunto aqui é outro.

Quisera eu poder torcer o tecido da realidade, costurá-lo, recortá-lo e então moldá-lo de acordo com meus desígnios. Seria uma capacidade e tanto, principalmente diante de certos problemas que parecem não ter solução alguma.

Fico impassível perante de certos fatos não por egoísmo, mas simplesmente por não ver como ou onde interferir de forma construtiva. Meus modos de Irmão Caminhoneiro Shell trazem certas vantagens e capacidades úteis, mas lidar de forma moderada com situações frágeis definitivamente não é uma delas.

Resta-me, então, ficar quieto, manter essa postura de aparente indiferença diante do que, na verdade, me incomoda sobremaneira. O que me entristece de verdade, mas acho melhor ser um mero espectador e deixar a ajuda ser provida por quem tem condições para tanto a interferir e acabar sendo o empurrão final para transformar um cenário de difícil compreensão em uma situação totalmente caótica.

É necessária uma boa dose de estoicismo para tanto. Não apenas para recusar intervir em algo cujos resultados finais são do seu interesse, mas também para agüentar os olhares enviesados e as pedradas daqueles que não compreendem que muito ajuda quem não atrapalha.

No meu mundo perfeito, eu seria capaz de estender a mão e auxiliar todos aqueles que viessem pedir ajuda. Em determinados casos, infelizmente, o melhor que posso fazer é ficar longe das rédeas e torcer pra que tudo dê certo.

O peixe morre pela boca

E com relação à mediocridade mencionada no texto abaixo, existem determinados pontos que acho interessante ressaltar.

O primeiro é o fato de não ser exatamente o maior dos problemas ser medíocre. O adjetivo pode parecer mais desagradável do que é de fato apenas porque o termo “medíocre” é usado atualmente de maneira extremamente pejorativa, como se “ser medíocre” fosse a pior das situações. Quando não é.

A pior das situações é ser patético. Quando páro pra ler determinadas coisas, dou-me muito por satisfeito com meus rabiscos ordinários.

Em segundo lugar, ser um sujeito “de centro” (e não falo politicamente, adianto logo) parece ser da minha natureza. Desde sempre. Fui um estudante mediano, tenho idéias medianas, meu gosto cinematográfico é mediano, tenho estatura mediana, compleição física mediana, aparência mediana, humor mediano, conceitos medianos e sou um jovem de classe média.

Nada mais natural do que ser um escritor mediano. Medíocre.

Tá no sangue, acho.

Eu me daria muito bem escrevendo coisas medianas, se não me metesse a falar de assuntos muito complexos. Coisas tão grandes e sujeitas a tantas variáveis que meu raciocínio meão é incapaz de calcular devidamente. Meu problema não é minha limitação, mas minha inabilidade de conviver com ela e esse hábito detestável que tenho de morder muito mais do que estou pronto a mastigar.

Por fim, admito minha mediocridade sem a intenção de fazer queixumes. Vou aprendendo a conviver com os limites inexoráveis das minhas realizações. E ser alguém que está entre o bom e o ruim não é tão lamentável assim, quando se vive numa época em que o padrão é alternar entre “ruim” e “ainda pior”.

Vai entender…

Eu não sei exatamente qual foi a mudança, mas que havia alguma, havia. Não dá pra negar. É só dar uma olhada mais cuidadosa. Cadê as farpas? Sumiram. Não que fosse um trabalho perfeito, notável, o ideal, não. A mediocridade estava ali como sempre, mas antes ela era disfarçada por todas aquelas partes pontiagudas, apontando direto pra retina de quem ousava dar uma olhada, como se tentassem cegar eventuais olhos críticos.Ali não existia nada disso. As arestas eram muito bem lixadas, algumas até polidas. Cadê os cutucões? Cadê as alfinetadas? Sumiram.

E nem adianta me perguntar como foi que aconteceu, não foi consciente. Eu até que cuidei um pouco, no começo, mas depois o processo se tornou tão natural que, quando notei, o normal era, ao olhar o produto final, não encontrar nenhuma daquelas características inerentes à marca.

Minha escrita perdeu um bocado de seu teor agressivo, e eu realmente não sei exatamente onde, quando ou por quê. Agora eu fico assim: leio o que acabei de escrever e não reconheço. Leio o que escrevi há dois, três anos e não reconheço.

Não reconheço mais nada, e quem dera fosse Alzheimer.

Where is my mind?


- Você me conheceu numa época muito estranha da minha vida.




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