Archive for Dezembro, 2005

Presente de natal de mim pra mim mesmo

Comprei hoje na Siciliano. Ainda não li, mas um dos textos é do Mark Waid, então recomendo.

Ideologismo

Me impressiona, atualmente, o fervor com que as pessoas correm atrás de filosofias. Como transformam tudo em ideologia. Alimentação, indumentária e até gosto musical: tudo pode ser prensado, modificado, remodelado até se tornar mais uma doutrina.

E as causas disso são difíceis de precisar. Essa necessidade invencível de ter um pensamento pré-pronto sempre à mão, logo ali, na primeira prateleira do cérebro flutua num campo de conhecimento que me é inalcançável. Parece ser a bola da vez. Saímos do materialismo e estamos partindo para o consumismo mental. Idéias baratas oferecidas em programas baratos de tevê, em conversas baratas no rádio e em livros baratos nas bancas, sendo diariamente ingeridas aos milhares e expelidas com a mesma facilidade para dar lugar a outras, ainda menos dignas. Tudo para suprir o ideologismo.

Antes nos empurravam produtos e aceitávamos. Agora só aceitamos os produtos de vierem impregnados de conceitos. Todos correm atrás de alguma crença como se fossem ovelhas fugindo de cães pastores raivosos cuja única defesa contra os caninos pontiagudos é brandir doutrinas tal qual espadas afiadíssimas.

Não ter nada era a maior monstruosidade diante do materialismo.
Perante o ideologismo, a grande traição é não crer em nada.

Pois venham os algozes, presas à mostra, babando de antecipação. Sou um mendigo filosófico assumido, um pária desprovido de ideais, um sem-teto ideológico. Mordam, cães!

Devaneios…

Arremate

Só pra fechar o assunto sobre pensamento “acadêmico” (tirinha em inglês, não tenho saco pra traduzir agora):

Escrita acadêmica

Vanguardismo ou vandalismo?

Recebi um e-mail muito breve ontem, de um tal Quijote Cabalero de la triste Figura, intitulado “Direito de resposta”. Transcrevo:

Caros rebeldes,

A resposta que publicamos no blog também é pra vocês…

Saudações,
Don Quijote

E fiquei, por alguns minutos, me perguntando do que se tratava. Cheguei a enviar um e-mail para o remetente dizendo que eu sequer sabia quem ele era e aconselhando-o a parar com as drogas. Foi só clicar no botão de “enviar” pra me lembrar que eu sabia, sim, quem é a figura.

Dia 20 desse mês, no meio da madrugada, eu conversava com o renmero quando ele me veio com este link. Trata-se do blog de um grupo de “artistas”, ou, nas palavras deles, de “poetas visuais, militantes líricos, defensores do olhar múltiplo e humano, embebidos pela visceralidade poética de Don Quijote - o cavaleiro andante” - seja lá o que isso signifique - cuja “arte” consiste em sair pela cidade de São Paulo colando adesivos nas placas de trânsito.

Vi as primeiras imagens e achei muito divertido, até ler algumas reportagens a respeito e me dar conta de um fato: a CET - Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo - gasta R$ 60,00 por cada placa que esses “vanguardistas” adulteram. Veja só que bonito. Considerando que os caras já “estilizaram” mais de 100 placas da cidade, então são mais de R$ 6.000,00 gastos com a brincadeirinha dos “militantes líricos”.

Deixei um comentário (assinado, aliás, porque se quero falar alguma coisa dou a minha cara a tapa) que transcrevo:

Quando conseguirem pensar numa maneira de fazer o que fazem sem gerar ônus pra ninguém, sem que ninguém tenha que botar a mão no bolso graças à sua brincadeirinha, aí, sim, serão artistas.

Até lá, são só vândalos. Não são melhores do que quem destrói um orelhão ou faz uma pichação num muro da cidade.

Daí o tal direito de resposta aos “rebeldes”. Um post enorme, extremamente nebuloso, repleto de argumentos circulares de difícil compreensão e com uma linguagem que acusa “pensamento acadêmico”. Aposto o meu dedo mínimo da mão direita que esses caras aprenderam a falar de forma tão bonita (porém vazia) numa faculdade. O pensamento “acadêmico” é volúvel, volátil, aparentemente inteligente mas inerentemente imbecil. Professores universitários - em especial de cursos de arte e comunicação social - costumam ser umas bestas do mais grosso calibre que se acham gênios, formadores de opinião e indicadores das novas tendências de pensamento da sociedade (em especial da elite). Compram qualquer gato mal travestido de lebre e saem apregoando novas idéias fadadas ao sumiço - por diversos motivos, que variam sempre de acordo com o pensamento em questão - como sendo fagulhas de uma revolução iminente, que virá para alterar todo o tecido social e acabar com as relações como as conhecemos.

Foi assim com os flash mobs. Me descascaram porque eu ri de um professor universitário que, num caderno proto-intelectual do Correio Braziliense, falava dessa “nova tendência” como sendo o início de um tsunami comportamental que iria varrer as convenções sociais.

Só pra constar: alguém aí se lembra dos flash mobs? Não?

Pois é.

Vejam só que gracinha o texto que os “poetas visuais” gostam de colar no blog deles:

É uma interferência parecida como o grafite, mas tem outra linguagem. Ao invés de depredação, é uma discussão sobre a retomada do espaço público. Aparentemente é depredatória, mas não é. Essas imagens grudadas servem para discutir o espaço público.

Silvio Miele, professor de comunicação social e arte multimídia da PUC de São Paulo.

Comunicação social E arte multimídia.

Não foi o que eu disse?

Em um curto trecho de sua resposta, os Quijotes deixam entrever uma fagulha de pensamento questionador realmente válido, mas logo isso afunda no revolto e incompreensível mar de filosofias neo-artísticas e desaparece por entre as pseudo-idéias - nebulosas e sem fundamento. Segue abaixo:

Por que a publicidade se alastra de uma maneira tão opressora e violenta e não é questionada ou não é criminosa? (…) Porque choca tanto quando o patrimônio público é interagido? E por que não choca quando o patrimônio privado usurpa o patrimônio público? Porque isso não é questionado e é tratado com tanto respeito pelos meios de comunicação que deveriam fomentar esse tipo de discussão?

Existe uma diferença bem grande entre uma coisa e outra. Sim, realmente a publicidade força a barra, avança o sinal, invade sua cabeça até onde e quando não deveria fazê-lo. Mas existem leis pra conter esse tipo de coisa, as agências são reguladas, os responsáveis mostram a cara e dizem seus nomes. Além do mais, como bem disse um sujeito chamado Cyrano na mesma caixa de comentários que eu:

Se o problema é a mídia não questionar a invasão do patrimônio público pelo privado, como é que vocês colam esses adesivos justamente em cima de placas públicas, e não dos anúncios? A idéia tá bacana, o trabalho tá bacana. A prática tá vesga. Blz?

Beleza, mano. Disse tudo. Querem se revoltar? Querem questionar a ocupação do espaço visual? Por que não atacam outdoors? Por que não azucrinam empresas privadas?

Pensando melhor: por que não entram em contato com a Prefeitura e pedem um espaço para manifestação? Aqui em Brasília o governo cede as paredes das caixas de energia das quadras para que os grafiteiros façam sua arte. Embeleza a cidade sem pesar no bolso do cidadão e ainda existe a possibilidade das mensagens contidas nas figuras suscitarem reflexões. E em São Paulo tem um rapaz - cujo nome infelizmente não me recordo - que vai aos esgotos para grafitar. Lá mesmo, onde ninguém nunca vai ver o que ele fez. Importa muito mais a intenção do cara ao expor seu trabalho do que o alcance da exposição em si.

Existem diversas maneiras de “embelezar” a cidade e “interagir” com o espaço urbano. Dessas, é possível encontrar várias que não implicam em custo nenhum para os cidadãos e são bastante eficientes na hora de levar sua mensagem e transmitir suas idéias.

É possível ser inteligente sem ser inconveniente, mas claro que demanda doses bem maiores de esforço e dedicação. Vão praticar parkour, que é a mais visceral interação com nossas selvas de concreto e não incomoda ninguém.

Top 5 Grandes Pecados que Cometi na Vida

5) Eu já assisti Baywatch só pelos roteiros.
4) Eu já gostei de Alanis Morissette.
3) Eu já fui um leitor assíduo da Veja.
2) Eu já simpatizei com a Isabela Boscov!
1) Eu já concordei com o Diogo Mainardi!!!

Veja só.
Felizmente superei tudo isso.

É bom ver que estou evoluindo enquanto a nível de ser humano!

Recorrente

- …e quando você entrega o trabalho pra ele, a primeira coisa que ele pergunta é pelos seus rascunhos. Aí você vai e entrega uma folha com um rabisco aqui e ali do que pretendia fazer.
- Sim. E?
- E aí é claro que ele vai te dar um esporro. Ele é escroto, mas é muito coerente o que ele faz. Porra, bota essa cabeça pra trabalhar. Você tem UMA idéia e pronto, pára de pensar? Não é assim, refaça duas, três, trinta vezes. É assim que você vai realmente conseguir criar algo digno de nota.
- Hm… (pensativo)Tive essa conversa com meu amigo Fred dias atrás. Acho que na madrugada de domingo pra segunda, se não me engano, quando fomos a um mercado meio distante, a pé, comprar cheetos (eu) e coca-cola (ele).

E fiquei pensando a respeito. Até hoje.

- Pai, toma isso aqui.
- O que é esse calhamaço?
- Ah, são alguns daqueles textos que eu coloco na internet. Os que eu mais gosto. Pra ser sincero, os únicos que eu gosto.
- Hm. Há quanto tempo você vem escrevendo?
- Mais de três anos.
- E só gosta desses textos? Quantos são? Cinco, seis?
- Por aí. É, só deles. O resto é dispensável. Acho uma droga o que eu escrevo, a bem da verdade.
- Meu filho, um dos maiores contistas que se tem notícia foi o francês Guy de Maupassant. E o maior conto desse cara se chama Bola de Sebo. Ele refez esse conto várias e várias vezes. Terminava, botava de lado, refazia. Até chegar ao que ele julgou ser a perfeição, e o conto é do caralho. Escrever não é nada mais do que fazer uma triagem nas suas idéias e procurar os encaixes corretos. E isso requer tempo, não é assim, de supetão. É preciso trabalhar um pouco pra ter um resultado satisfatório.
- Hm…

É impressão minha ou a Consciência Cósmica Universal tá tentando me dizer alguma coisa?