Arquivos de Dezembro, 2005

Uma ajuda aos stalkers

Em 2002, quando este blog ainda estava no começo, eu costumava pedir, de tempos em tempos, que os visitantes se manifestassem nos comentários colocando apenas o nome (ou um nick), há quanto tempo liam o blog e como tinham chegado aqui.

Hoje em dia isso seria extremamente amador da minha parte. Fiz diferente.

Criei um cadastro no Frappr. Tudo o que você tem a fazer é ir lá, clicar em “members login”, “join now”, colocar um endereço de e-mail e uma senha. Depois vá em add yourself e adicione-se lá no mapa. Simples, não?

Não. Complicado pacarai.
Mas faça assim mesmo. Não custa nada.

O natal se aproxima, faça um Pedro Nunes feliz.

Refinamento?

Esse foi um ano estranho para minha coleção de quadrinhos, embora na verdade tenha sido apenas a confirmação de uma tendência que principiou - muito sutilmente - ano passado, quando me dei de aniversário alguns quadrinhos de autores que desconhecia, como a quadrinização de Estrada Para Perdição, do Allan Collins e do Richard Rainer.

Até então minha relação com as comics era bem simples: todo mês comprava uma edição do Homem-Aranha (tanto do universo Marvel ‘normal’ quanto sua contraparte ‘ultimate’), uma do Demolidor e qualquer coisa especial que saísse e me interessasse. Mas a mesmice começou a me incomodar. Em especial porque, depois de ser agraciado com os roteiros de Brian Bendis e a arte de Bryan Hitch na série dos Supremos, eu era freqüentemente tomado por curiosidade relacionada a todas as grandes coisas sendo escritas/desenhadas por aí que eu estava perdendo.

Some-se a isso os conselhos do Lima, nas minhas visitas à Kingdon Comics, e fechamos o caso. Deixei de ser um leitor “convencional” de quadrinhos. Apenas as publicações das bancas normais não eram mais suficientes para suprir minha necessidade. Em linguagem de toxicômano, “precisava de algo mais forte pra satisfazer meu vício” (com a vantagem de não sofrer crises de deliriuns tremens em caso de uma abstinência forçada).

Passei então a comprar títulos aleatórios, baseando minhas escolhas apenas nas opiniões de amigos ou nem isso: levando em conta só o autor ou o desenhista. Até agora ainda não me arrependi, o que me deixa intrigado. Não sei se os quadrinhos que fogem do padrão Marvel/DC são realmente excepcionais ou se, por serem um universo novo pra mim, ainda observo a tudo atônito, com aquela estupefação maravilhada dos recém-iniciados.

De todo modo, os últimos três títulos que adquiri fizeram valer cada centavo de seu (elevado) valor.

As Aventuras da Liga Extraordinária

O primeiro foi As Aventuras da Liga Extraordinária, da dupla Alan Moore e Kevin O’Neil. Muito já foi dito a respeito desta série quando do lançamento do filme que, aliás, foi duramente criticado. Na época não entendi muito bem as razões da celeuma, já que me diverti assistindo à produção, por vários motivos que não vou enumerar aqui (escrevi um texto a respeito logo depois de sair do cinema, mas isso foi no Laboratório Secreto, não tenho como linkar). Hoje entendo o porque de toda aquela severidade no julgamento da película: comparada com a versão em quadrinhos, é realmente muito superficial, infantil e desrespeitosa com o público.

O que é uma pena. Alan Moore é particularmente competente e merecia ser transposto para as telonas de uma maneira que lhe fizesse justiça. Espero que acertem a mão caso Watchmen realmente venha a ser produzido.

Ex Machina

O segundo foi Ex Machina, de Brian K. Vaughan e Tony Harris. Parece haver uma propensão muito forte no mercado de quadrinhos atual de levar boas doses de realismo à s revistas, tanto no visual quanto no argumento, e Ex Machina é fruto disso. Com um tema político simples (um super-herói que acredita ser muito mais útil entrando para a política do que empreendendo uma luta solitária contra o crime), diálogos que poderiam muito bem ter sido retirados de um filme de David Lynch e uma arte que, sozinha, vale o preço da revista, fica fácil entender porque esse título ganhou o Prêmio Eisner, o oscar… melhor, o Globo de Ouro dos quadrinhos (já que a reputação da academia é tudo, menos ilibada).

Authority - Sem Perdão

E por último, mas não menos importante, comprei Authority, de Warren Ellis e Bryan Hitch. A arte eu me recuso a comentar. Quem nunca teve o prazer de conhecer o trabalho do Bryan Hitch não tem como entender porque, apesar de relativamente novato no mundo dos quadrinhos, esse sujeito já angariou tantos fãs pelo mundo todo. Na minha mui humilde opinião, o único artista à frente dele é o Alex Ross, e apenas porque este faz pinturas, não desenhos. Se comparado à queles que utilizam a mesma técnica que ele, Hitch supera qualquer outro com folga.A arte, entretanto, fica em segundo plano se comparada ao roteiro. Nunca havia lido nada do Ellis antes dessa série, e já sou um ferrenho admirador da habilidade narrativa do sujeito. Seus heróis são dúbios, imperfeitos, violentos e irônicos. Seus diálogos são extremamente realistas e o roteiro, embora se baseie em premissas totalmente inverossímeis, deixa no ar aquela sensação de “se fosse de verdade, é assim que seria!”.

Incapaz de falar melhor, faço minhas as palavras de Grant Morrison, que escreveu um pequeno prefácio para a edição encadernada:

“Bem vindo ao primeiro volume das aventuras desta série que é um marco, seu sortudo…

Digam aos seus filhos invejosos: a tempestade começou aqui.”

Isso resume tudo.

Fé demais não cheira bem

Depois do post sobre a crise política, ainda espero algum defensor da direita que seja capaz de, no mesmo comentário, assinar o nome/divulgar o e-mail e não cair no lugar-comum de me chamar de petista e fazer referências pouco honrosas à minha mãe, que não tem nada a ver com a história.

Mas acho que é pedir demais esperar que alguém disposto a defender o indefensável não seja covarde e/ou imbecil. Eu e minha crença infinita na capacidade das pessoas…

:)

Agora os comentários dessa budega têm smiles.

A caixa de comentários deste post tá aí à disposição de todos os desocupados que quiserem testar o novo sistema.

Descubram como fazer carinhas pra eu aprender também.

Caindo no erro

Não trato de política por um sem-número de motivos. O principal deles é por ser um assunto extremamente complexo, sujeito a uma quantidade tal de variáveis e que necessita um nível tão alto de conhecimento para ser discutido propriamente que simplesmente foge ao meu alcance.

Mas existe um certo fator nessa crise atual que me parece tão óbvio, é tão claro, está exposto de maneira tão evidente que não me conformo por não ser discutido de forma mais enfática.

Aliás, não me conformo exatamente porque ele não é discutido, em absoluto.

E, de tão inconformado, vou cair no erro de escrever algo a respeito aqui, mesmo sabendo quanta dor-de-cabeça isso pode me causar. Mas vou, de todo modo, e ciente das conseqüências.

Me refiro a essa conversa que circula muito em mesas de discussão - principalmente naquela palhaçada que o Jô Soares arma à s quartas-feiras - sobre “como o PT desencadeou a maior crise política que o Brasil já teve”. De repente parece que o governo atual é o grande responsável por todas as vergonhas já documentadas na história desse país. Do mensalão ao golpe de 64, do impeachment ao tráfico de escravos, dos porões da ditadura aos anões do orçamento.

Não quero eximir o governo de sua culpa, minha intenção não é tapar o sol com a peneira, apenas me pergunto para onde foram todos os arquivos de todos os jornais, revistas e demais periódicos sobre as inúmeras, infindáveis, inegáveis e insondáveis canalhices já realizadas pelos antigos administradores desta grande sacanagem que, por pura persistência e falta de bom-senso, chamamos de país (quando “pocilga” seria um termo muito mais propício).

Como assim “o governo do PT instituiu o mensalão”? Por que não citam o fato DOCUMENTADO, que, pasmem!, chegou até a rodar nos jornais (mas sem muita ênfase, claro), do presidente anterior, aquele lá, da sigla, ter comprado votos de outros políticos para conseguir engatar determinados processos?

Como assim “a maior crise política dos últimos tempos”, sendo que aquelas perpetradas pelo PSDB e pelo PFL de 1994 a 2002 foram convenientemente ABAFADAS pela imprensa em prol de assuntos que mal mereciam uma nota de rodapé num tablóide de terceira categoria, mas que se transformaram em verdadeiras febres, como o tal “bug do millenium”, por exemplo? Não dá pra dizer que essa é a maior dos últimos tempos, já que os jornalistas fizeram o grande favor de não trazer várias outras à tona (sendo que poderiam), nos privando de outras referências para comparação.

Como assim “é uma vergonha o que o PT fez com esse mandato, a situação em que deixou o país”? Quero dizer, sim, é uma vergonha o péssimo aproveitamento que esses caras fizeram com a maior chance que tivemos de mudar alguma coisa, de fato. É uma vergonha que tenham virado a casaca de repente e partido para as políticas econômicas, quando o que realmente precisamos é de políticas sociais decentes e encaradas com seriedade. É uma vergonha que tenham esquecido um dos carros-chefes de seus projetos de governo, que é a reforma agrária e a solução, esperada há 500 anos, pra uma das maiores injustiças que já se viu na história. Isso tudo é uma vergonha, mas calma lá!

Desde quando essa balbúrdia que batizamos de Brasil é um poço de seriedade, comprometimento e decência governamental? Desde quando o PT foi o responsável pela quebra da máquina pública? Desde quanto o PT é o culpado pela venda das estatais? Fica parecendo até que éramos uma potência antes disso tudo que está aí. Falam desse esquema de pilantragem atual como se fosse o primeiro em muitos, muitos anos, como se há dois séculos não tivéssemos conhecimento de qualquer tipo de baixeza arquitetada pelos nossos representantes eleitos.

QUAL É?

Tudo bem que os jornalistas são todos uns vendidos, que a mídia brasileira só não fica mais marrom porque não tem jeito e que os meios de comunicação desse país são claramente reacionários, corruptos e favoráveis ao retorno das coisas como eram antes, já que tudo estava muito mais confortável sem o risco de, repentinamente, alguém minimamente decente chegar ao poder e dar um basta em todas as prevaricações cometidas com a grana pública.

Mas daí a chamar a população INTEIRA de imbecil da forma como vêm fazendo?

Mas daí à população INTEIRA embarcar na onda e colar, com o próprio cuspe, o adesivo de IMBECIL no meio da testa?

Isso supera até as piores previsões do maior dos pessimistas!

Por que ninguém avisa a população que, na verdade, não é que o ACM Neto seja um grande defensor do interesse popular, tampouco são, todos aqueles deputados do PMDB, PSDB e PFL, paladinos que lutam pela justiça a qualquer preço? Por que ninguém avisa a população que o que acontece é que eles não admitem ficar sem sua parcela das maracutaias, que estão denunciando e botando a boca no trombone não por escrúpulos e integridade (coisa que eles nem sabem o que significa, aliás), mas porque se roem de inveja sempre que sabem de alguém do PT tirando um por fora, quando poderiam ser eles?

Antes que os azulões surjam, leiam o texto e venham com discursos inflamados utilizando frases de Olavo de Carvalho, citando colunas do Diogo Mainardi e reportagens da Veja, acho bom deixar algo bem claro: eu não sou petista, tampouco revolucionário, socialista, marxista, qualquer coisa assim. Sou apolítico, assim como sou agnóstico. Não me prendo a partidos e não pretendo defender o PT como o grande salvador da pátria, nem enaltecer o Lula como um profeta ou um encarregado divino de varrer da terra tupiniquim a desvergonha e a canalhice. Nada disso.

Não tenho nada contra a imprensa escarafunchar as desonestidades cometidas pelo governo, mas tenho muita coisa contra esses panos quentes que colocam nas crises passadas, essa propaganda armada pra convencer o povo que é a primeira e última vez (desde que o PT não seja reeleito) que algo assim acontece e que tudo vai ficar muito bem se um crápula como o Alckmin ou um pulha como o Garotinho subirem ao poder. Que vamos viver numa terra de sonhos, onde brota cerveja e cachaça, já que leite e mel é pouco e não dá barato.

De todo modo, prefiro ser taxado de comunista e proto-revolucionário a ser reacionário, e não sei que destino terá um país cuja juventude tem coragem de assumir, sem um pingo de vergonha, sem medo de represálias, de cara limpa, pra quem quiser ouvir, que é, sim, conservadora, “de direita”, que acha que a situação do país estava muito boa do jeito que estava e que não vê nada de errado em apoiar a tucanada que vem exaurindo tudo o que pode há tantos anos. Hoje vi um sujeito citando uma frase do Figueiredo, como se fosse uma grande verdade dita por um grande homem digno de louvor.

O FIGUEIREDO! UM EX-PRESIDENTE DA DITADURA!

Esse barco não vai afundar. Já afundou! E todo mundo tá boiando em alto-mar, à deriva, tomando sol na cabeça e engolindo água salgada há tempo demais. Só pode ser essa a explicação pra tanta alucinação e inconsciência coletiva.

Paráfrase

Saiba, ó Leitor, que, entre os
anos quando a decadência tragou o
Desembucha e os anos quando se
levantaram os filhos de Looser,
houve uma era inimaginável repleta
de blogs esplendorosos que se
espalharam pela internet como
sopas de letrinhas sob o manto
negro da microsoft…

Nessa época nasceu Utopia, o Dilucular, de layout tosco, posts ferozes, ofensas à mão, um blog, uma grande porcaria, uma página de debates incendiados, com gigantescas crises de melancolia e grande senso de humor, que veio para incomodar com mensagens raivosas os fracos de opinião.

Você vê os arquivos apenas da fase pós-exílio, por isso pode pensar que esse blog é recente, breve, com pouco mais de ano e meio de vida. Não é. Isso aqui já tem quase quatro anos, se contarmos os períodos de silêncio. E olhando os arquivos REAIS da página, do começo até hoje, fica difícil acreditar em quanto tempo eu passei escrevendo.

Se tivesse me dedicado a criar galinhas, atualmente teria uma granja das grandes! Veja só que desperdício de potencial.