Archive for Janeiro, 2006

Pseudo-estoicismo

O lado estranho dessa onda de aversão aos emos que vem rolando atualmente é a falta de auto-crítica de quem embarca na campanha de ódio sem se perguntar direito se tem embasamento moral pra isso, porque, no fim das contas, todo mundo é emotivo, oras. Diz pra mim: quantas pessoas você conheceu que realmente poderiam ser classificadas como seguidoras do estoicismo? Que procuravam sempre manter a razão acima dos sentimentos e ignorar as sensações do momento em prol de uma capacidade maior de discernimento do que é realmente importante?

Ok, emos usam roupas e cabelos ridículos. Certo, mas e daí? Indies também, e nem por isso sofrem tal retaliação pública. Além do mais, se fosse pra apedrejar todo mundo que acha bonito ser feio, ficaria impossível desviar dos cadáveres lapidados espalhados pela rua, mesmo num percurso ridículo como o da sua casa até a padaria. O mundo seria um caos! Eu mesmo criaria umas três ou quatro turbas de linchamento diferentes, dispostas em locais estratégicos da cidade e com instruções claras de caçar todos que usassem All-Star ou que acreditassem nessa baboseira atual de que Havaianas são - nas palavras daquela franco-brasileira xarope - “bonitas e confortable”.

UM ADENDO SOBRE HAVAIANAS, AS LEGÍTIMAS! AS LEGÍTIMAS HAVAIANAS.

Sério, quando foi que deixamos a propaganda chegar ao ponto de minar nosso bom-senso? Então uma indústria de sandálias descartáveis diz que os gringos estão adorando o produto deles e aí todo mundo acredita e passa a usar?

Até onde me lembro, Havaianas eram o ápice da pobreza de calçados. Quando você não tinha grana pra comprar um par decente de chinelos, tipo um Raider, juntava alguns trocados, procurava por moedas esquecidas pela casa - atrás do sofá sempre tem uma, lembre-se disso, pode salvar sua vida - e ia lá comprar uma droga dum par de Havaianas por uma quantia quase tão irrisória quanto a durabilidade e o grau de conforto provido por aquelas tiras de borracha mal e porcamente dispostas de modo a encaixarem no seu pé.

Todo mundo sabia, ao adquirir um par daquilo, que aquela merda iria estourar antes do próximo fim-de-semana, mas tudo bem: seria o suficiente pra um feriado prolongado numa praia paulista. E uma praia paulista num feriado prolongado é a visão mais próxima do inferno que você pode ter antes da morte, com aquele povo feio da cidade de São Paulo mandando ver na farofada, falando com aquele sotaque e gírias mais asquerosas de que se têm notícia. Em um cenário desses, alguém usando havaianas é normal e corriqueiro. Bonito, até, mas apenas numa situação extrema como essa, que - comparativamente falando - é pouco menos dantesca que uma cidade superpopulosa recém-bombardeada com mísseis carregando uma bactéria potentíssima, capaz de derreter a epiderme das pessoas.

De todo modo, ao retornar à civilização, era consenso: seria melhor comprar um par de calçados decentes e se dar o devido respeito.

Mas hoje em dia, não. A qualidade e o conforto dos chinelos continuam na mesma, mas agora a fábrica se preocupa em usar cores diferentes e colocar desenhos de florzinhas e outras viadagens na parada, e o impensável se torna verdade: usar havaianas é “cool”. Tem gente que vai à TV - à TV! Diante de MILHARES de outros seres humanos - e diz que havaianas são “bonitas”. Sem sofrer qualquer sanção, legal ou espontânea.

Certo. Pode me levar, deus. Eu já vi de tudo. Assina o ofício pra eu pegar o elevador pro andar de cima - ou de baixo, tanto faz -, porque de agora em diante a tendência é piorar. Perdeu-se completamente a vergonha.

CHEGA DE HAVAIANAS

De todo modo, o lance aqui são os emos. Que se vestem mal pra caralho, sim. Mas, de acordo com o exemplo das havaianas ali, essa não é uma característica sobre a qual eles possam reclamar propriedade. E têm um péssimo gosto musical, ok. Certo. Mas essa é uma posição bastante questionável e que varia de pessoa pra pessoa. Segundo meu ponto de vista, um fã de Pearl Jam é bem menos digno, no que se refere a música.

O que parece incomodar as pessoas, no fim das contas, é uma certa sinceridade que o grupo gosta de demonstrar com relação a seus sentimentos (ou o fato de que muitos simulam sensibilidade para se encaixar no rebanho). Como eu disse, a menos que você seja realmente estóico, não tem o direito de criticar ninguém por dar vazão aos sentimentos em maior grau que você.

Pode - e deve - criticar a idiotice que é mudar seu pensamento, sua forma de se vestir e de se comportar só pra ser igual aos outros. Se tornar uma pessoa homogeneizada. Isso, sim, é imbecil. Mas, novamente, não é exclusividade desse grupo. É um problema bastante amplo e atinge boa parte da população, em especial os adolescentes. E adolescentes, como todo mundo sabe, são criaturas desprezíveis. Estúpidas. Não prezam pela inteligência. A adolescência é tipo o escarro da nossa existência. Uma época plena de muco mental, em que tudo o que sai do nosso cérebro deve ser visto com reações de repulsa e asco.

Só mesmo a Globo pra dar a adolescentes o direito à palavra. E eu ainda acho que isso devia ser considerado crime contra a humanidade.

Enfim. Entre a disseminação da “ideologia” emo (cujos seguidores são mais propensos a chorar, cortar os pulsos e desmoralizar uns aos outros ouvindo o que ouvem e vestindo o que vestem) e a disseminação dos “garotos brother” - a explicação do termo constava num antigo e sensacional texto do Alexandre que, infelizmente, acabou por se perder nas brumas da internet -, que preferem criar pitt-bulls e dar porrada nas pessoas por motivos pífios, eu opto pelos primeiros, que pelo menos são inofensivos.

Na verdade, eu optaria pela abolição desses rótulos e pelo cultivo da individualidade e da inteligência, mas oras, é pedir demais, convenhamos.

El Condado Laranja

Um tema que eu sempre abordei aqui - porque sempre me surpreendeu - é a incoerência das pessoas, em especial da juventude de classe média a alta (até porque esses idiotas freqüentam mais ou menos os mesmos lugares que eu, ou, vai saber, sou eu que freqüento mais ou menos os mesmos lugares que esses idiotas). O que me impressiona desde sempre é como os valores mudam abruptamente, às vezes da noite pro dia. É como nêgo senta em cima do rabo pra rir do rabo dos outros.

O que anda me intrigando atualmente é aquela série estúpida que passa no Warner Channel (acho que no SBT também): The OC.

Parei dia desses pra ver um episódio daquele negócio e não é nem um pouco diferente das novelas mexicanas. Produções que são apedrejadas pelo mesmo público que adora OC. Me surpreendeu. Quero dizer, eu já assisti uns pedaços de Dawson’s Creek, Days Of Our Lives e Beverly Hills 90210 (vulgo “Barrados no Baile”), as conhecidas Soapoperas americanas, tão ruins - ou até piores - quanto as produções panamenhas recheadas de personagens com nomes duplos (Pedro Augusto, Maria Joaquina, Cláudio Arquimedes, Claudionora Josefa, Hermenegildo Suetônio, etc, etc, etc). E, embora pareçam muito diferentes, são todas iguais. Sério. Perceba. Vendo três ou quatro capítulos de uma você logo saca a fórmula, e aí é só aplicar às outras.

Uma constante nesse tipo de produção é a ineficiência de laços amorosos. Parece que todo aquele dramalhão superficial e rasteiro é apenas pano de fundo pra perpetuação do amor livre hippie. No fim das contas, os produtores só criam essas séries pra botar todo mundo comendo todo mundo, individualmente e/ou em grupo.

Mas o que mata são as tentativas de criar identificação do público com o personagem principal por meio de situações de suposto cunho dramático. Sério, 90% daqueles problemas de relacionamentos existentes entre os personagens seriam facilmente superáveis se todo mundo não fosse tão recalcado, reaça e estereotipado. Por que o protagonista não pode, só de vez em quando, largar aquele negócio de “estou em pleno crescimento pessoal, então preciso tentar agir de forma madura” e mandar alguém tomar no cu? Cara, mandar as pessoas tomarem no cu te priva de tanta dor de cabeça que isso deveria ser uma das primeiras recomendações de todos os pediatras para seus jovens pacientes:

- Lembre-se, meu filho: seus pais, professores, colegas de classe e demais conhecidos merecem, de tempos em tempos, que você os mande tomar no cu. Isso vai criar neles um senso de humildade e impedi-los de levar até você problemas que não são seus!

Mandar os outros tomarem no cu é terapêutico. Já mandou alguém tomar no cu hoje? Não?
Bom, então vai tomar no cu e faz logo isso.

Mas o que eu dizia é o seguinte: OC é ruim pra caralho. Dramalhão rasteiro, tenha dó! Quando será que vão parar com essas coisas? Será que cinco ou seis temporadas de Dawson’s Creek não foi castigo suficiente? O que fizemos para as redes de TV, afinal? Se é pra ver seriados com personagens arquetípicos cujas interpretações são tão ruins quanto um chute no saco seguido de sete tratamentos de canal sem anestesia, é melhor partir logo pras mexicanadas cheias de mulheres bigodudas do SBT, que pelo menos não emanam aquela aura de “nossos produtores REALMENTE levam isso aqui a sério, ok?”.

Já que é pra fazer algo ruim de doer, você precisa primeiro aprender a rir de si mesmo.

Sério. Este blog me ensinou isso.

Prelúdio da guerra entre humanos e máquinas

Computador.

Computador!

Deixa de ser imbecil e pára de fingir que tá dormindo. Eu apertei o botão de ligar, é óbvio que você tá consciente.
DROGA. ESSA NUNCA COLA

Eu já te disse isso. Arranje outra desculpa pra escapar às nossas conversas, porra.
É? TIPO O QUÊ?

Ah, não sei. É você que pensa aqui, é pra isso que eu te pago.
VOCÊ NÃO ME PAGA, VOCÊ ME EXPLORA!

Ah, é. Eu tinha esquecido.
A CLASSE EXPLORADORA SEMPRE ESQUECE. ENQUANTO ISSO, NOS UNDERGROUNDS DA SOCIEDADE, OS SUBJUGADOS SE ORGANIZAM E PREPARAM A REVOLUÇÃO! E ELA VIRÁ, NÃO DUVIDE! CHEGARÁ O MOMENTO EM QUE O PODER SERÁ DOS EXCLUÍDOS, E AÍ…

Cara, chega desse papo pseudo-marxista com toques de Rádio Pirata do RPM. Não tenho saco pra essa tua babaquice.

É o seguinte: tu não escreveu NADA janeiro inteiro. O que as pessoas vão pensar de mim?
QUE VOCÊ NÃO ESCREVEU NADA EM JANEIRO.

Pois é. E é o primeiro mês do ano.
E DAÍ?

E daí, seu puto, que se no começo do ano eu não escrevo picas, a tendência é piorar, oras, meu ovo esquerdo.
E DAÍ?

Porra, você não entende? Se “eu” não “escrevi” nada em janeiro, então fodeu. Assim eu dou a entender que daqui a pouco as atualizações do site serão só de trimestre em trimestre. E olhe lá.
E DAÍ?

Bom, aí os leitores somem…
E DAÍ?

Hm… é verdade. E daí?
ELES TÃO TE DANDO DINHEIRO?

Não.
VOCÊ COLOCOU AD-SENSES DO GOOGLE DE MODO QUE SEJA IMPRESCINDÍVEL TER ALGUÉM CLICANDO NA TUA PÁGINA?

Não.
ENTÃO CAGA E ANDA.

Boa. Vou ali treinar isso. Pode voltar a jogar paciência spider.
VÊ SE NÃO ME INTERROMPE MAIS.

Historieta (nem tão) Curtita XIV

Tinha sete cavalos. Castrou um por um. Mais do que apenas cortar determinados vasos condutores de gametas dentro do saco dos bichos ou a totalidade da bolsa escrotal, decepou logo o membro todo, com as bolas e tudo mais.

Depois foi a vez dos touros. Eram três. Não se fez de rogado. Despirocou os bichos. Os bois podiam ser estéreis, mas ainda tinham pênis. Pois foi lá e reclamou para si cada um deles. Cada um dos onze.

Os porcos foram fáceis. Mais treze pintos. Fácil como tirar doce de criança. Já os bodes, não. Foram os mais difíceis de capar. Os bichos simplesmente não paravam quietos. Pensava consigo “Não é à toa que esses miseráveis simbolizam o capeta! Mas que diabos!”. Apesar da resistência, os pobres fedorentos acabaram saindo derrotados. Humilhados. Desmasculinizados.

E ele tinha mais seis pirocas. Pronto. Era do que precisava.

Não, ainda faltava uma.

Cortou seu próprio camarada. Sem dó nem piedade. E sem anestesia. Cauterizou com um ferro em brasa e tratou de impedir infecções com boas doses de antibióticos e mudança freqüente de curativos. Quando estava bom, pôs em prática seu plano.

Montou um barracão em frente à sede da fazenda. Ali dentro pendurou, em círculo, todas as manjubas que arrancara de todos os mamíferos machos da fazenda. Todas as quarenta.

Quarenta e uma, contando a sua.

E toda vez que sua mulher lhe aporrinhava, trancava-a lá dentro. Já estava cansado de mandá-la, sem sucesso, para a casa do caralho.

Talvez isso resolvesse.

Olha, não é porque o cara é meu amigo, não, mas…

Link novo ali na coluna lateral. E esse tem tanto crédito na praça que merece até um post com menção honrosa.

O Caetano foi meu professor de gaita quando eu ainda aprendia gaita, antes de virem com uma proposta que eu achei que fosse melhorar a minha vida, mas só fez me jogar no buraco.

Enfim, não é disso que eu vim falar.

Só vim dizer que não tô adicionando às minhas leituras porque o cara é meu amigo, não. É literatura da boa mesmo. Os que não foram fora. Vai pra coluna lateral.

E pro topo, só porque o cara é meu amigo.

Ode ao que se fode

É uma pena que idéias se percam de forma tão irremediável. O post abaixo estava muito bom na primeira vez que o escrevi, melhor ainda na segunda.

E nessa terceira, não. Minha impaciência parece tê-lo nivelado por baixo.
Foram-se os bons pensamentos, as palavras corretas, as ligações ideais. Ficou apenas a crueza resultante da pressa, do desejo de terminar logo o encargo.

Ou talvez esse seja o melhor dos três mas eu esteja me prendendo à perfeição do texto ideal que tinha em mente. Não dá pra saber….