O lado estranho dessa onda de aversão aos emos que vem rolando atualmente é a falta de auto-crítica de quem embarca na campanha de ódio sem se perguntar direito se tem embasamento moral pra isso, porque, no fim das contas, todo mundo é emotivo, oras. Diz pra mim: quantas pessoas você conheceu que realmente poderiam ser classificadas como seguidoras do estoicismo? Que procuravam sempre manter a razão acima dos sentimentos e ignorar as sensações do momento em prol de uma capacidade maior de discernimento do que é realmente importante?
Ok, emos usam roupas e cabelos ridículos. Certo, mas e daí? Indies também, e nem por isso sofrem tal retaliação pública. Além do mais, se fosse pra apedrejar todo mundo que acha bonito ser feio, ficaria impossível desviar dos cadáveres lapidados espalhados pela rua, mesmo num percurso ridículo como o da sua casa até a padaria. O mundo seria um caos! Eu mesmo criaria umas três ou quatro turbas de linchamento diferentes, dispostas em locais estratégicos da cidade e com instruções claras de caçar todos que usassem All-Star ou que acreditassem nessa baboseira atual de que Havaianas são - nas palavras daquela franco-brasileira xarope - “bonitas e confortable”.
UM ADENDO SOBRE HAVAIANAS, AS LEGÍTIMAS! AS LEGÍTIMAS HAVAIANAS.
Sério, quando foi que deixamos a propaganda chegar ao ponto de minar nosso bom-senso? Então uma indústria de sandálias descartáveis diz que os gringos estão adorando o produto deles e aí todo mundo acredita e passa a usar?
Até onde me lembro, Havaianas eram o ápice da pobreza de calçados. Quando você não tinha grana pra comprar um par decente de chinelos, tipo um Raider, juntava alguns trocados, procurava por moedas esquecidas pela casa - atrás do sofá sempre tem uma, lembre-se disso, pode salvar sua vida - e ia lá comprar uma droga dum par de Havaianas por uma quantia quase tão irrisória quanto a durabilidade e o grau de conforto provido por aquelas tiras de borracha mal e porcamente dispostas de modo a encaixarem no seu pé.
Todo mundo sabia, ao adquirir um par daquilo, que aquela merda iria estourar antes do próximo fim-de-semana, mas tudo bem: seria o suficiente pra um feriado prolongado numa praia paulista. E uma praia paulista num feriado prolongado é a visão mais próxima do inferno que você pode ter antes da morte, com aquele povo feio da cidade de São Paulo mandando ver na farofada, falando com aquele sotaque e gírias mais asquerosas de que se têm notícia. Em um cenário desses, alguém usando havaianas é normal e corriqueiro. Bonito, até, mas apenas numa situação extrema como essa, que - comparativamente falando - é pouco menos dantesca que uma cidade superpopulosa recém-bombardeada com mísseis carregando uma bactéria potentíssima, capaz de derreter a epiderme das pessoas.
De todo modo, ao retornar à civilização, era consenso: seria melhor comprar um par de calçados decentes e se dar o devido respeito.
Mas hoje em dia, não. A qualidade e o conforto dos chinelos continuam na mesma, mas agora a fábrica se preocupa em usar cores diferentes e colocar desenhos de florzinhas e outras viadagens na parada, e o impensável se torna verdade: usar havaianas é “cool”. Tem gente que vai à TV - à TV! Diante de MILHARES de outros seres humanos - e diz que havaianas são “bonitas”. Sem sofrer qualquer sanção, legal ou espontânea.
Certo. Pode me levar, deus. Eu já vi de tudo. Assina o ofício pra eu pegar o elevador pro andar de cima - ou de baixo, tanto faz -, porque de agora em diante a tendência é piorar. Perdeu-se completamente a vergonha.
CHEGA DE HAVAIANAS
De todo modo, o lance aqui são os emos. Que se vestem mal pra caralho, sim. Mas, de acordo com o exemplo das havaianas ali, essa não é uma característica sobre a qual eles possam reclamar propriedade. E têm um péssimo gosto musical, ok. Certo. Mas essa é uma posição bastante questionável e que varia de pessoa pra pessoa. Segundo meu ponto de vista, um fã de Pearl Jam é bem menos digno, no que se refere a música.
O que parece incomodar as pessoas, no fim das contas, é uma certa sinceridade que o grupo gosta de demonstrar com relação a seus sentimentos (ou o fato de que muitos simulam sensibilidade para se encaixar no rebanho). Como eu disse, a menos que você seja realmente estóico, não tem o direito de criticar ninguém por dar vazão aos sentimentos em maior grau que você.
Pode - e deve - criticar a idiotice que é mudar seu pensamento, sua forma de se vestir e de se comportar só pra ser igual aos outros. Se tornar uma pessoa homogeneizada. Isso, sim, é imbecil. Mas, novamente, não é exclusividade desse grupo. É um problema bastante amplo e atinge boa parte da população, em especial os adolescentes. E adolescentes, como todo mundo sabe, são criaturas desprezíveis. Estúpidas. Não prezam pela inteligência. A adolescência é tipo o escarro da nossa existência. Uma época plena de muco mental, em que tudo o que sai do nosso cérebro deve ser visto com reações de repulsa e asco.
Só mesmo a Globo pra dar a adolescentes o direito à palavra. E eu ainda acho que isso devia ser considerado crime contra a humanidade.
Enfim. Entre a disseminação da “ideologia” emo (cujos seguidores são mais propensos a chorar, cortar os pulsos e desmoralizar uns aos outros ouvindo o que ouvem e vestindo o que vestem) e a disseminação dos “garotos brother” - a explicação do termo constava num antigo e sensacional texto do Alexandre que, infelizmente, acabou por se perder nas brumas da internet -, que preferem criar pitt-bulls e dar porrada nas pessoas por motivos pífios, eu opto pelos primeiros, que pelo menos são inofensivos.
Na verdade, eu optaria pela abolição desses rótulos e pelo cultivo da individualidade e da inteligência, mas oras, é pedir demais, convenhamos.