Arquivos de Janeiro, 2006

Resenhas, pitacos, xaropagem, galhofadas, etc e tal.

Peguei emprestado com o Fred, há umas duas semanas (talvez mais, talvez menos, eu realmente não sei, já que ando sem a menor noção de tempo), um DVD “duplo” contendo El Mariachi e A Balada do Pistoleiro.

Do primeiro já tinha visto uns pedaços na Band (ou seria na Record?), mas nunca inteiro. E achei particularmente promissor - pra um primeiro longa -, apesar de certos enquadramentos repreensíveis, uns poucos diálogos previsíveis e do clima sonolento em alguns trechos (que acredito ser intencional). Mesmo com o (visível) baixo orçamento, Robert Rodriguez fez um bom trabalho e escreveu um roteiro muito bem desenvolvido, totalmente despretensioso e sem cair nas fórmulas do “faça-você-mesmo-seu-filme-de-hollywood”. Passa fogo em personagens importantes sem o menor pudor e sem se deixar levar por momentos de dramaticidade exagerada. Da mesma maneira, deixa incólumes aqueles que, numa produção norte-americana, tomariam vários balaços apenas para provar que são poços infinitos de testosterona.

Merece crédito também por escolher um grupo interessante de atores locais para dar vida aos personagens, com ênfase no competente Carlos Gallardo, que interpreta o malfadado mariachi. Gallardo convence principalmente por sua aparência simples. O tipo de sujeito que, apesar de não fazer mal a uma mosca, tem o surpreendente potencial de causar muito estrago quando provocado - e sequer tem consciência disso.

Me lembrou muito um personagem do Patrick Dempsey que é perseguido por um chefão da máfia e demonstra essa mesma capacidade de matar - direta ou indiretamente - todos os seus algozes. Previsivelmente, não me recordo como intitularam a película aqui no Brasil.

De todo modo, dei ao El Mariachi uma nota 8.5 (mentalmente) e virei o DVD (fisicamente, pois ainda não desenvolvi habilidades telecinéticas) para assistir o próximo filme.

Nessa película fica claro o desenvolvimento da habilidade do diretor durante os três anos que separam as duas produções, sem todos aqueles enquadramentos esquisitos do título anterior. Embora seja vantajoso para o espectador, que é privado de experiências cinematográficas dispensáveis, acaba sendo uma pena que tal recurso tenha sido totalmente dispensado - em vez de lapidado -, pois com ele se perde uma característica marcante do cineasta. Entretanto, algumas mudanças desagradam. A primeira é o fato do filme cair em certas valas comuns - certamente por culpa dos produtores norte-americanos -, como o já comentado exemplo do personagem baleado. Fica estranho que um pobre mariachi reagindo contra agressores armados consiga matar todos e sair ileso, enquanto um assassino profissional é alvejado praticamente em todos os seus confrontos. De todo modo, prefiro pensar que tal derrapagem se dá menos por falta de criatividade que por falta de pulso do roteirista (e não coloco isso como uma crítica, mas como constatação de algo natural! Não vou cair no discurso hipócrita da qualidade sempre acima do financeiro, já que é natural que alguém trabalhando numa indústria complicada como a do cinema deva ceder em determinados aspectos para expor seu trabalho ao maior número possível de pessoas).

A segunda, mais brusca, é a inexplicável mudança do ator. Carlos Gallardo saiu-se muito bem como o jovem mariachi que se vê cercado pela violência, decerto poderia encarnar com muito mais propriedade que Antonio Banderas o agora assassino saudoso de sua época de violeiro errante. Prova disso é a pequena participação que faz como Campa, um dos comparsas de Banderas numa cena de tiroteio completamente surreal (e isso é um elogio, adianto logo).

Não vejo razão para a troca e não acredito que exista algum motivo válido para tal atitude. Tudo bem preferirem Salma Hayek a outra atriz atriz bigoduda como a Consuelo Gómez (até porque sendo beleza uma característica da personagem, é preciso escolher uma atriz que supra essa necessidade), mas acredito que a alteração de intérprete do protagonista tenha sido puro capricho da Sony Pictures.

Apesar desses (e mais alguns) deslizes - que a meu ver colocam a segunda película abaixo da primeira no quesito qualidade, embora não a desqualifiquem como bom filme -, a seqüência ainda diverte e é válida. Ao contrário de El Mariachi, A Balada do Pistoleiro tem trilha sonora (e muito boa, por sinal) e as participações geniais de Steve Buscemi e Quentin Tarantino (geniais APESAR de dispensáveis, diga-se de passagem, pois até agora não entendi onde qualquer um dos dois se encaixava na trama).

E uma curiosidade que merece menção: enquanto via Desperado, notava qualquer coisa de familiar no ator que dá vida ao vilão, Bucho, e ficava me perguntando se não era o Steve Guttenberg, o velho Mahoney de Loucademia de Polícia. Até que me dei conta! Na verdade é um ator português chamado Joaquim de Almeida que interpretou Sherlock Holmes no filme O Xangô de Baker Street, do livro homônimo do Jô Soares.

Sujeito muito competente, devo ressaltar. Me flagrei torcendo pelo vilão várias vezes, o que só acontece quando o ator é bom a ponto de tornar simpático mesmo o comportamento mais revoltante.

Por fim, talvez eu só tenha sido tão exigente com a Balada do Pistoleiro por compará-la a seu antecessor. Ou talvez o filme realmente esteja um tanto aquém de seu potencial. Levou nota 7.5.

Agora tenho que ver Era Uma Vez no México.

Daqui pra lá

Bem aqui, nesse post, deveria estar um texto bem grandinho fazendo uma análise de el mariachi e a balada do pistoleiro, ambos do diretor Robert Rodriguez.

Comecei a escrever três vezes, três vezes o computador reiniciou na minha cara e eu perdi todo o meu trabalho (que sai a duras penas, antes que alguém aí pense que escrever é um processo simples e fácil).

Então desisti.

Vocês podem conviver com a curiosidade.
Eu consigo conviver com a raiva, o que é bem mais complicado.