Archive for Março, 2006

QFP - Questões Freqüentemente Perguntadas

Andei escrevendo numa freqüência maior do que a costumeira esses dias e acho que isso aumentou um pouco as visitas dessa página, o que, por conseqüência, me brindou com alguns e-mails, contatos no msn e no orkut que sempre fazem as mesmas perguntas.

Já vinha esboçando há alguns meses a criação de um FAQ pra esse blog, mas não via necessidade, devido à quietude. Agora já vejo alguma, então terminei de escrever a parada e coloquei online.

Por precaução, mudei os links pro meu perfil no orkut e pro meu msn pra essa página também. Quem quiser vir puxar conversa precisa primeiro conhecer algumas regras básicas, pra depois não vir dizendo que eu não avisei que não vim aqui pra fazer amigos.

E não vim mesmo.

Solidão S.A.

Tem gente nesse mundo que já se acostumou à idéia de ser sozinho. Não tem ninguém, não precisa de ninguém - ou, se precisa, não dá a entender -, não se importa com ninguém além de si mesmo e trafega pelos oceanos de cabeças como um transatlântico que corta um enorme cardume de badejos: no mais completo alheamento.

Levar esse tipo de vida requer certos fatores imprescindíveis, a menos que você esteja disposto a ser um mendigo (melhor maneira que conheço de ser ignorado por todas as pessoas da cidade onde vive) ou um eremita. Mas se tomar banho, fazer a barba, ir ao cinema, ler livros, ouvir música e comer em bons restaurantes, por exemplo, são alguns daqueles hábitos freqüentes dos quais você não gostaria de abrir mão, nenhuma das duas possibilidades é muito viável, então o que você precisa mesmo, no fim das contas, é:

1) Encher o rabo de dinheiro.

Uma gorda conta bancária - e não precisa ser gorda no estilo Abílio Diniz, mas tem que estar no nível da classe média alta da sua cidade, pelo menos - traz com ela algumas implicações, e a melhor de todas é te possibilitar ser esnobe. Tendo dinheiro você não precisa de favores: compra serviços; não precisa de companhia: entra na internet; não precisa de amigos: contrata um psicólogo.

Tendo dinheiro você não precisa de ninguém: você tem uma boa tevê, uma coleção bacana de DVDs e CDs e uma vasta biblioteca em casa. Essas pequenas conveniências da sociedade moderna podem propiciar tanto crescimento quanto a convivência com outros seres humanos, com a vantagem de te livrar das idiossincrasias deles.

Mas para ter dinheiro saindo pelo ladrão (não literalmente, espero) é necessário um emprego, a menos que você ganhe na loteria. E, tendo um emprego, é quase impossível não ter que se relacionar com outras pessoas, ainda mais nos dias de hoje, com toda aquela conversa idiota sobre “trabalhar em equipe” e “somar potencialidades” que os departamentos de Recursos Humanos gostam tanto de enfiar goela abaixo de todo mundo. O que nos leva ao segundo fator indispensável para uma existência feliz SEM vida social:

2) Ser um pica-grossa.

Ser o Presidente da empresa para a qual você trabalha - quando não da SUA empresa - vai te privar de ter que lidar com muitos subalternos. Com um grupo competente de assessores, será possível ignorar os nomes, funções e até mesmo a existência de todos os funcionários hierarquicamente abaixo de você. Além do mais, em um cargo desses você provavelmente ganhará um salário nababesco e todos aqueles no mesmo nível que você dentro da empresa também serão cheios da grana. Oras, qual a característica mais notável das pessoas cheias da grana?

São esnobes!

O grupo de diretores da sua empresa não estará interessado na sua amizade ou em quaisquer vínculos que se estendam além da mesa de reunião. Isso é coisa de gente sem dinheiro! Além do mais, mesmo que alguém queira ser seu amigo, não vai se ofender diante da impossibilidade de atingir esse objetivo, já que os ricos são os primeiros a saber que os ricos são esnobes e, o melhor de tudo, vêem isso como uma grande qualidade.

Se sua misantropia, entretanto, for tão exacerbada que te impeça até mesmo de tolerar alguns anos de convivência com colegas de trabalho, a saída é passar em um concurso público para um cargo que pague muita grana. Na atual conjuntura não é exatamente algo difícil de encontrar. O problema disso é que ser um anti-social na vida pública vai te deixar preso no mesmo cargo por toda sua existência. Mas quem precisa de ascensão social são aqueles deslumbrados que PREZAM pela opinião dos outros.

Não é seu caso.

Então essa opção é a mais adequada a quem deseja ter dinheiro o mais rápido possível, sem precisar, para tanto, se submeter à aprovação alheia. Basta ser competente no cargo que abraçar e seguir adiante.

Por fim, o último aspecto da sua personalidade que precisa ser trabalhado para levar uma boa vida sozinho:

3) Ser egoísta.

Você é o umbigo do mundo. Suas secreções são o lubrificante que mantém girando as engrenagens da realidade como a conhecemos. O universo começou com seu nascimento e há de encerrar o expediente com sua morte. Os outros seres humanos não sabem disso, mas eles são todos uns insetos e não precisam saber de nada, apenas continuar trabalhando e providenciando para que nunca falte aquilo que te dá prazer.

Se os sentimentos e as necessidades dos outros vão de encontro aos seus sentimentos e necessidades, estes devem sempre ser considerados em detrimento daqueles. O que importa na sua vida é você. É preciso manter o foco!

O grande problema é que, por uma série de convenções morais, não é muito fácil levar isso a cabo. Mas não é impossível, também. É preciso apenas um pouco de boa (ou má) vontade. Quando sua consciência começar a te incomodar por qualquer motivo, encontre alguém que escute seus problemas: pague um psicólogo para te dizer que está tudo bem, que essas coisas são naturais e pronto.

É só pra isso que essa gente serve, afinal de contas.

Mas não se desespere se não tiver nada disso ainda! É possível começar por baixo. Treine as habilidades ao seu alcance para só depois galgar seu caminho até o paraíso dos solitários! Comece aprendendo a lição mais importante de todas: não se importar com seus semelhantes. Porque eles hão de reclamar da sua postura e vão ficar magoados quando perceberem que você não dá a mínima para a existência deles.

As pessoas se melindram fácil, sabe? E vão tentar te ofender apenas porque não foram adicionadas no orkut, como se isso tivesse alguma importância. E vão encher seu saco por não abordá-las na rua, não telefonar para elas, não mandar e-mails ou responder afirmativamente a seus convites.

Em 1923, Fernando Pessoa, escrevendo como Álvaro de Campos, já reclamava da incapacidade de seus conhecidos em reconhecer que ele não era uma pessoa sociável.

“Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!”

De lá para cá as coisas não mudaram muito: ainda insistem para que sejamos “da galera”. Então tenha sempre isso em mente: quando algum amigo seu, incapaz de entender um problema, disser que não vai mais te procurar, apenas não o procure mais.

E quando alguém que você não conhece tentar te adicionar no orkut, no MSN ou te abordar na rua e se ofender por você não querer ouvir, apenas ignore.

É o que eu faço.
E é muito mais fácil do que se imagina!

Interlúdio

Ai! Se sêsse!…

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariasse,
Se juntim nós dois vivesse!
Se juntim nós dois morasse
Se juntim nós dois drumisse;
Se juntim nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e se tu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?…
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

Zé da Luz

Marcadores:

BlogLines

Algum dos cinco leitores desta budega que por acaso use o bloglines poderia, por gentileza, me dizer EXATAMENTE qual é a função daquilo? Pra que serve? Como funciona?

A razão da pergunta é que eventualmente percebo que alguém chegou aqui por intermédio daquilo. Por pura curiosidade nerdônica, queria saber que utilidade tem o tal site.

Mens sana in corpore sano

O que motiva um ser humano a fazer esportes, afinal? Quero dizer, é óbvio que existe todo aquele ritual de ficar sarado, comer menininhas, se aproximar das gostosas marombeiras, comer menininhas, ficar naturalmente doidão graças a enormes descargas de endorfina na corrente sangüínea, comer menininhas, poder usar camisetinhas tipo “mamãe-sou-forte”, parar de comer menininhas e passar a comer gostosas marombadas, ficar saudável, comer gostosas marombadas, poder dizer que é capaz de correr trocentos quilômetros sem pedir arrego, comer gostosas marombadas, começar a se achar incrivelmente lindo e gostoso, parar de comer gostosas marombadas e começar a dar a bunda pra outros homens saradões que também se acham incrivelmente lindos e gostosos… enfim. O fato é que eu acredito que, de todo esse protocolo, nada consiste num motivo realmente válido pra alguém se matar em prol da tal “vida saudável” (fora comer menininhas, é claro).

Pô, fazer esporte é um saco. E por “fazer esporte” leia-se “ir à academia puxar ferro, suar feito Marcellus Wallace sendo enrabado por Zed no porão do Maynard e no dia seguinte ficar mais doído que um dançarino novato de balé que resolveu segurar um arabesco por sete horas ininterruptas para aperfeiçoar o movimento”. Não dá pra ver qualquer graça numa seqüência tão horrorosa que começa com esforços torturantes e termina em excruciante agonia. Nesse caso, por melhores que sejam os fins, eles definitivamente não fazem os meios valerem a pena.

Dia desses acabei esquecendo, por engano, de tirar alguns pesos da máquina onde faço minha série de abdominais. A única maneira de explicar o que senti ao fazer mais de 60 exercícios com muito mais peso do que deveria usar seria enfiando um enorme ovo de Fabergé na sua barriga apenas para arrancá-lo pelo seu umbigo minutos depois usando o magnétron mais poderoso do mundo.

Não, não é gostoso mesmo.

Isso sem contar as sensações lancinantes que me causam os outros aparelhos, que têm nomes sugestivos como “crucifixo” (depois dele, acredito que estou em maior sintonia com o velho Jotacê), “rosca tríceps testa” (e é de rosca mesmo), desenvolvimento (só se for pra desenvolver uma hérnia) e “remada” (esse te dá a sensação de ter sido atingido bem no meio do esterno por um enorme remo daquelas antigas galés).

É ruim, é ruim. Mas é óbvio que tem como piorar. Sempre tem. Não bastasse isso, minhas opções geralmente se resumem a prestar atenção nos diálogos (brilhantes, por sinal, como aquele que transcrevi outro dia - com certa liberdade poética, admito) ou na música (no geral composta por Jota Quest, Charlie Brown Jr., Pitty e pump it ups genéricos). Claro que, durante a ergometria - minha deliciosa meia hora diária de pedalada ou corrida desenfreada sem sair do lugar -, ainda tenho a opção de ver TV, que costuma ficar sintonizada na globo. Considerando o horário em que freqüento a academia quando vou sozinho, acabo pegando justamente os episódios do Big Brother.

Mas fui eu que decidi ir até aquela droga me matricular e pedir “Por favor, usem-me como objeto de descarga de princípios sádicos! Eu pago para que façam de mim seu capacho inteiramente submisso, disposto a encarar todo tipo de aparelho de tortura que, por puro capricho, os senhores quiserem me indicar!”, e agora vou levar as conseqüências de tão temerário ato até o fim (e torço para que seja rápido, porque já não há mais qualquer esperança de que seja indolor).

Cansado dessa via crucis diária, entretanto, nos dias em que, por qualquer razão, meu horário e o do meu primo Guilherme não batem, passei a levar uma leitura para o lugar. Lógico que é impossível ler e fazer supino ao mesmo tempo, mas durante a estúpida brincadeira de caminhar ou pedalar para chegar a lugar nenhum não há qualquer problema em manter um livro aberto na sua frente, prestar atenção no texto e manter a velocidade de pedalada/caminhada. E felizmente o tempo passa bem mais rápido quando você tem sujeitos como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Arthur Conan Doyle, Fernando Sabino ou, por que não?, Mark Waid, Garth Ennis ou Brian Michael Bendis fazendo companhia.

As dores no dia seguinte permanecem, infelizmente.

Acredito que em pouco tempo as outras pessoas que freqüentam o lugar vão parar de me olhar como se fosse um alienígena toda vez que passo pela catraca levando um livro, além das costumeiras garrafa d’água e toalhinha.

Spamusement

Esses caras que fazem propaganda pela internet devem achar que os internautas são todos retardados. Tenho acesso à internerds há cerca de sete anos e desde sempre me deparo com aqueles banners de “acerte o macaco e ganhe um prêmio” e sucedâneos.

Oras, todo mundo sabe que não há prêmio nenhum; que ao clicar naquela porcaria tudo o que você vai conseguir são infinitas pop-ups e pop-unders saltando na tela do seu computador; que aquela maldita poluição visual só está ali pra esfregar na sua cara uma infinidade de sites cheios de programas de procedência e procedimento altamente duvidosos; que nenhuma das milhares de páginas abertas com aquele clique terá qualquer utilidade; que é tudo conversa mole pra pegar trouxa e que o sujeito que bolou isso ainda não percebeu que ninguém mais cai nessa palhaçada.

Todo mundo sabe que o melhor é ignorar aquela droga e continuar sua navegação sossegado. Todo mundo sabe.

E eu sempre clico nesses banners.
SEMPRE.
Não resisto à tentação de acertar o macaco.