Tem gente nesse mundo que já se acostumou à idéia de ser sozinho. Não tem ninguém, não precisa de ninguém - ou, se precisa, não dá a entender -, não se importa com ninguém além de si mesmo e trafega pelos oceanos de cabeças como um transatlântico que corta um enorme cardume de badejos: no mais completo alheamento.
Levar esse tipo de vida requer certos fatores imprescindíveis, a menos que você esteja disposto a ser um mendigo (melhor maneira que conheço de ser ignorado por todas as pessoas da cidade onde vive) ou um eremita. Mas se tomar banho, fazer a barba, ir ao cinema, ler livros, ouvir música e comer em bons restaurantes, por exemplo, são alguns daqueles hábitos freqüentes dos quais você não gostaria de abrir mão, nenhuma das duas possibilidades é muito viável, então o que você precisa mesmo, no fim das contas, é:
1) Encher o rabo de dinheiro.
Uma gorda conta bancária - e não precisa ser gorda no estilo Abílio Diniz, mas tem que estar no nível da classe média alta da sua cidade, pelo menos - traz com ela algumas implicações, e a melhor de todas é te possibilitar ser esnobe. Tendo dinheiro você não precisa de favores: compra serviços; não precisa de companhia: entra na internet; não precisa de amigos: contrata um psicólogo.
Tendo dinheiro você não precisa de ninguém: você tem uma boa tevê, uma coleção bacana de DVDs e CDs e uma vasta biblioteca em casa. Essas pequenas conveniências da sociedade moderna podem propiciar tanto crescimento quanto a convivência com outros seres humanos, com a vantagem de te livrar das idiossincrasias deles.
Mas para ter dinheiro saindo pelo ladrão (não literalmente, espero) é necessário um emprego, a menos que você ganhe na loteria. E, tendo um emprego, é quase impossível não ter que se relacionar com outras pessoas, ainda mais nos dias de hoje, com toda aquela conversa idiota sobre “trabalhar em equipe” e “somar potencialidades” que os departamentos de Recursos Humanos gostam tanto de enfiar goela abaixo de todo mundo. O que nos leva ao segundo fator indispensável para uma existência feliz SEM vida social:
2) Ser um pica-grossa.
Ser o Presidente da empresa para a qual você trabalha - quando não da SUA empresa - vai te privar de ter que lidar com muitos subalternos. Com um grupo competente de assessores, será possível ignorar os nomes, funções e até mesmo a existência de todos os funcionários hierarquicamente abaixo de você. Além do mais, em um cargo desses você provavelmente ganhará um salário nababesco e todos aqueles no mesmo nível que você dentro da empresa também serão cheios da grana. Oras, qual a característica mais notável das pessoas cheias da grana?
São esnobes!
O grupo de diretores da sua empresa não estará interessado na sua amizade ou em quaisquer vínculos que se estendam além da mesa de reunião. Isso é coisa de gente sem dinheiro! Além do mais, mesmo que alguém queira ser seu amigo, não vai se ofender diante da impossibilidade de atingir esse objetivo, já que os ricos são os primeiros a saber que os ricos são esnobes e, o melhor de tudo, vêem isso como uma grande qualidade.
Se sua misantropia, entretanto, for tão exacerbada que te impeça até mesmo de tolerar alguns anos de convivência com colegas de trabalho, a saída é passar em um concurso público para um cargo que pague muita grana. Na atual conjuntura não é exatamente algo difícil de encontrar. O problema disso é que ser um anti-social na vida pública vai te deixar preso no mesmo cargo por toda sua existência. Mas quem precisa de ascensão social são aqueles deslumbrados que PREZAM pela opinião dos outros.
Não é seu caso.
Então essa opção é a mais adequada a quem deseja ter dinheiro o mais rápido possível, sem precisar, para tanto, se submeter à aprovação alheia. Basta ser competente no cargo que abraçar e seguir adiante.
Por fim, o último aspecto da sua personalidade que precisa ser trabalhado para levar uma boa vida sozinho:
3) Ser egoísta.
Você é o umbigo do mundo. Suas secreções são o lubrificante que mantém girando as engrenagens da realidade como a conhecemos. O universo começou com seu nascimento e há de encerrar o expediente com sua morte. Os outros seres humanos não sabem disso, mas eles são todos uns insetos e não precisam saber de nada, apenas continuar trabalhando e providenciando para que nunca falte aquilo que te dá prazer.
Se os sentimentos e as necessidades dos outros vão de encontro aos seus sentimentos e necessidades, estes devem sempre ser considerados em detrimento daqueles. O que importa na sua vida é você. É preciso manter o foco!
O grande problema é que, por uma série de convenções morais, não é muito fácil levar isso a cabo. Mas não é impossível, também. É preciso apenas um pouco de boa (ou má) vontade. Quando sua consciência começar a te incomodar por qualquer motivo, encontre alguém que escute seus problemas: pague um psicólogo para te dizer que está tudo bem, que essas coisas são naturais e pronto.
É só pra isso que essa gente serve, afinal de contas.
Mas não se desespere se não tiver nada disso ainda! É possível começar por baixo. Treine as habilidades ao seu alcance para só depois galgar seu caminho até o paraíso dos solitários! Comece aprendendo a lição mais importante de todas: não se importar com seus semelhantes. Porque eles hão de reclamar da sua postura e vão ficar magoados quando perceberem que você não dá a mínima para a existência deles.
As pessoas se melindram fácil, sabe? E vão tentar te ofender apenas porque não foram adicionadas no orkut, como se isso tivesse alguma importância. E vão encher seu saco por não abordá-las na rua, não telefonar para elas, não mandar e-mails ou responder afirmativamente a seus convites.
Em 1923, Fernando Pessoa, escrevendo como Álvaro de Campos, já reclamava da incapacidade de seus conhecidos em reconhecer que ele não era uma pessoa sociável.
“Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!”
De lá para cá as coisas não mudaram muito: ainda insistem para que sejamos “da galera”. Então tenha sempre isso em mente: quando algum amigo seu, incapaz de entender um problema, disser que não vai mais te procurar, apenas não o procure mais.
E quando alguém que você não conhece tentar te adicionar no orkut, no MSN ou te abordar na rua e se ofender por você não querer ouvir, apenas ignore.
É o que eu faço.
E é muito mais fácil do que se imagina!