Arquivos mensais para March, 2006Page 2 of 2

Solenidade

Que toque a fanfarra. Que rufem os tambores.

Com toda a pompa e circunstância, Branco Leone vai pra lista de blogs à direita.

Que conversa mais fiada! Se fosse mesmo com toda a pompa e circunstância eu teria, muito educadamente, mandado um e-mail pro sujeito apenas para perguntar se haveria problema em adicionar o link. Ele provavelmente responderia algo como “Oras, o que é isso, de forma alguma, fique à vontade. E por obséquio: qual o seu blog?”. Daí eu daria o endereço do meu blog, e ele iria ler isso aqui, talvez comentasse algo, enfim, pompas e circunstâncias, como manda a tal da NETiqueta.

Mas essa fase de ser fino já foi pro caralho há anos. Agora eu só coloco o link lá e aviso aqui, quando aviso.

Mas a admiração por quem escreve bem permanece. E o Leone ali escreve bem pra caralho! Vá conferir!

O Civil Virtuoso

Em 1998 a Abril lançou uma mini-série sensacional chamada Batman Preto e Branco. Quatro edições, cada uma contendo quatro histórias curtas do morcego desenhadas/ilustradas por grandes nomes dos quadrinhos, como Neil Gaiman, Joe Kubert, Matt Wagner, Chuck Dixon, Archie Goodwin, Richard Corben, Bruce Timm, Klaus Janson, Dennis O’Neil e Katsuhiro Otomo.

Dentre as 16 histórias brilhantes que tive o imenso prazer de conhecer, uma em particular merece menção. Chama-se “crimes triviais” e trata exatamente sobre isso: um cidadão de Gotham que se autodenomina “O Civil Virtuoso”, sai pela cidade - armado de uma pistola e uma forte noção de regras de conduta - assassinando pessoas que não seguem os princípios mais básicos da vida em sociedade, como um sujeito que não limpa a sujeira de seu cachorro da calçada ou dois moleques inconvenientes que insistem em conversar dentro do cinema.

Por mais que essa opção seja extremamente sedutora - deus (se é que ele existe) sabe como eu acordo querendo uma metralhadora só pra ter o prazer de passar fogo nos miseráveis que entram na minha quadra às 3 da manhã cantando pneu - é claramente errada. A partir do momento em que aceitamos viver em sociedade, cercados por outros seres humanos, admitimos a possibilidade de alguns (muitos, na verdade) deles sofrerem da gravíssima doença que é a total falta de bom-senso, e é necessário tolerar isso - claro que guardadas as devidas proporções.

Baseado nesse princípio do respeito mútuo para com as falhas alheias - e sabendo que falar é muito bonito, mas fazer é que são elas, e que determinados indivíduos jamais colocariam isso em prática sem uma “leve” prensa da maioria - um dia alguém teve a idéia de criar um sistema de leis (o que é uma boa coisa, por um lado, mas acabou gerando os advogados, por outro, e isso definitivamente é uma desgraça das grandes), e acredito que uma das mais básicas sempre foi a máxima do “não matarás”. Não só é uma lei, prevista no código penal de - acredito eu, e corrijam-me se estiver errado - todos os países do mundo, mas também um preceito moral - e cristão, diga-se de passagem - muito forte. Matar alguém é, moralmente falando, uma falha gravíssima, principalmente de acordo com o cristianismo.

Todo o princípio das religiões cristãs é contra a mera contemplação da possibilidade de tirar a vida de alguém. E sendo o cristianismo a religião vigente nessa nossa sociedadezinha muquiça, nossa sociedadezinha muquiça deveria ser contra assassinato, certo? Deveríamos todos nutrir sentimentos altruístas de amor ao próximo, de tolerância e respeito com as falhas alheias, de boa-vontade para com os necessitados e todas essas coisas muito bacanas que o tio hippie das extremidades furadas fazia tanta questão de passar adiante que até mandou os lac… ehr… apóstolos dele escreverem num livro, de modo que aquelas mensagens legais estivessem disponíveis para a humanidade até o fim dos tempos.

Sabia o que tava fazendo, o Jotacê!

Nós não sabemos.

A maior prova disso poderia ser a absolvição dada ao coronel Ubiratan Guimarães pelo massacre dos 111 presos do Carandiru. Poderia, mas não é.

A maior prova disso é o coro de uma grande parcela da população que apóia tal decisão. Como assim “o cara não fez nada errado”? Como assim “bandido bom é bandido morto”? Por que é que eu, um maldito herege que acha o cristianismo uma piada de péssimo gosto e tem uma visão muito mais frívola sobre o valor da vida humana, acho isso um barbarismo sem tamanho e os pretensos cristãos, aqueles que dão a outra face e amam seu próximo, apóiam tal comportamento?

Talvez porque eu concorde com o bordão do Civil Virtuoso: o colapso da civilidade é o colapso da civilização. E por civilidade compreenda-se, dentre muitas outras coisas, tratar de forma humanitária até o mais depravado dentre os párias. E por civilidade compreenda-se também ser justo e dar às vítimas, se não o direito à vida, pelo menos chance de defesa.

Invadir uma casa de detenção cheia de presidiários desarmados com um batalhão de operações especiais carregando armas de fogo pesado e com ordens para matar foi, além de desumano, covardia.

E se pra ser cristão é preciso compactuar com isso, acho que vou fundar uma seita satânica.

Um para a frente, três para trás…

Eu ainda era muito novo quando me apontaram a vala comum - quando não por meio de avisos e sermões, com exemplos por demais pujantes para serem ignorados. Taxativos, disseram:

- Olhe aqui, e olhe bem: é onde jazem todos os que agem e pensam de acordo com os critérios errados.

Apesar da pouca idade, entendi o que me diziam. Desde então tenho olhado para as pessoas que - sempre voluntariamente, ainda que inconscientemente - sucumbem à necessidade de saltar nesse enorme buraco onde as falhas humanas se multiplicam e jorram aos borbotões; essa gigantesca cratera onde chafurdam até mesmo alguns dos melhores; o inalterável destino dos pequenos de mente e espírito.

Estão todos lá. Na vala comum. Dão as mãos e recitam os lugares-comuns que vêm sendo perpetuados desde sempre pelos ordinários. O que me assustava mais era o fato de haver tanta, tanta gente lá dentro e tão poucas pessoas do lado de fora, na borda, observando, sempre lutando contra eventuais puxões dados por aqueles de dentro, que não resistem em tentar arrastar consigo os que preferem não ceder às facilidades da vulgaridade.

Eu sempre soube dos limites da vala comum. E embora tenha pisado em falso algumas vezes; e embora tenham me puxado violentamente para dentro em incontáveis ocasiões; e embora tenha contemplado a possibilidade de, oras, por que não?, me jogar de cabeça no meio da ralé e fazer parte da esmagadora maioria da população, nunca imaginei que de fato fosse fazer isso um dia.

E fiz.

E enquanto tento sair me pergunto como nunca reparei em quão íngremes são as paredes internas e como alguém pode sentir qualquer coisa de reconfortante sabendo que está caído na fossa, junto com o que há de pior dentre os seres humanos.

Meu lugar não é entre essas pessoas. Não é com elas que quero me parecer, não é por me parecer com elas que pretendo ser lembrado.

Na academia

- E essa toalhinha aí?
- O que tem?
- Pra quê?
- Como, pra quê? Pra botar como enchimento dentro da cueca e parecer que o que me falta em musculatura sobra em dotação, talvez?
- Não, eu sei que é pra secar o rosto. Mas não vejo razão pra isso.
- Claro que não vê. Você tem preparo físico. Eu tô suando mais que um porco caminhando em direção ao abatedouro.
- Mas aí é que tá! O negócio é ficar suado mesmo.
- E, por via das dúvidas, com que finalidade EXATAMENTE eu deveria manter o suor escorrendo pelo rosto em vez de secá-lo?
- A mulherada gosta.
- De suor?
- De homem suado.
- É claro que gosta! Aliás, adora. Acho que era por isso que todas as meninas que eu já marquei de encontrar me pediram encarecidamente para ir ao local caminhando ou correndo, de modo que chegasse lá pingando por todos os poros. De preferência sem desodorante, porque mulher gosta mesmo é do cheiro natural que o macho exala após o exercício. Cê manja mesmo de gostos femininos. Sério, escreve um livro!
- Você que não sabe de nada. A mulherada se amarra em me ver suando, de preferência em cima delas.
- Cara, essa tua afirmação diz muito sobre você.
- É?
- Claro. Em primeiro lugar diz que você não entende nada de mulher. Em segundo, que você ou tem pouca imaginação ou é muito ortodoxo, quando não as duas coisas, por usar o termo “em cima” - e não “ao lado”, ou “atrás”, ou “embaixo”, ou até mesmo “em volta” - pra fazer uma referência sexual de péssimo gosto. Seja qual for o caso, significa que você é muito ruim de cama.
- Vai me dizer, seu babaca, que você realmente acha que qualquer mulher aqui recusaria o Gianecchini, por exemplo, se ele aparecesse todo suado na frente dela?
- Putz! Mas fica cada vez pior! Cê tá mesmo se comparando ao Gianecchini?
- Oxe. Ele não tem nada que eu não tenha!
- Rapaz, só quem pode te responder isso é uma mulher, já que eu não fico fazendo comparações entre homens. Mas garanto que qualquer guria dessa academia que você abordar com essa pergunta vai ficar completamente sem fôlego de tanto rir e vai precisar interromper a série de exercícios pra tomar ar. Pra não correr o risco de atrapalhar a malhação alheia, eu te peço encarecidamente que guarde a questão apenas pra você.
- Você é todo espertinho, né?
- Comparado com você isso tá longe de ser um desafio.