Archive for Maio, 2006

Um informe:

O texto abaixo não oferece soluções.

Assim como você, eu também não vejo muita luz no fim do túnel (se é que tem fim).

Não é um apoio. Tampouco uma crucificação.

Agora que já se passou algum tempo - embora não muito - da onda de atentados comandados pelo PCC em São Paulo, acredito que seja necessário fazer algumas considerações. Qualquer um que interprete este texto como um apoio - ainda que longínquo - aos crimes está vendo as coisas de forma muito passional para raciocinar direito.

Minha intenção não é demonstrar apoio a qualquer facção criminosa. Não que seja exatamente um entusiasta do sistema legal brasileiro, mas tampouco sou afeito a causas que se manifestam de forma tão distorcida a ponto de assassinar e aterrorizar cidadãos que não são diretamente responsáveis por essa baiúca em que moramos ser o que é.

Feitas as devidas ressalvas, devo dizer que não antipatizo completamente com os atos perpetrados pelos criminosos paulistas. Acho mesmo que é uma sacanagem das grandes tocar fogo em ônibus e matar bombeiros. Mas, por outro lado, é interessante ver que em um país que sofre até hoje com as seqüelas deixadas por mais de 30 anos de ditadura militar, justamente a polícia militar perdeu - mesmo que apenas por poucas horas - sua posição de impositora da força para se transformar em mais uma vítima desse redemoinho de insegurança e caos em que vive o povo brasileiro.

Quando a polícia se vê entrincheirada e assustada a ponto do governo do Estado mais rico do país ter que fazer acordos com líderes criminosos para que tudo volte à sua normalidade, fica claro que o governo perdeu irremediavelmente as rédeas da situação.

Quando a polícia, tão eficaz na hora de falar grosso com contribuintes honestos e sentar a porrada em populares reclamando direitos, baixa a cabeça e fala fino diante do crime organizado, cresce em mim a esperança de que um dia, talvez, uma parcela - ainda que pequena - do povo se reúna em prol de uma causa nobre, crie uma milícia organizada e torne a queimar delegacias, depredar agências bancárias, casas de políticos, juízes e outras “autoridades” - com as referidas “autoridades” dentro - para finalmente dar um basta nessa sensação que os “poderosos” têm de que podem nos pressionar contra a parede o quanto quiserem.

Reprimiram os repressores. E ainda que a manifestação do poder popular tenha se dado por um grupo que, preferíamos, não existisse e por razões pouco dignas, deixa entrever que não é tarefa das mais árduas.

Esse é o pequeno aspecto que me deixa feliz na história toda. Contraposto a todos os que me entristecem, é totalmente irrisório. Mas de todos esses, o pior é o tratamento dado pela mídia e, por conseqüência, o entendimento dos cidadãos dos acontecimentos. Sim, temos presídios superlotados e boa parte do nosso dinheiro de impostos é convertido em alimento e moradia aos membros rejeitados da sociedade. Sim, essa é uma verdade difícil de engolir.

E um meio extremamente simplista de “acabar” com o problema é, obviamente, explodindo as penitenciárias com os internos dentro. Mas - e digo isso sabendo que leitores mais afoitos vão me chamar de “simpatizante” dos bandidos - essa solução, além de não ser nem um pouco humanitária, é burra.

Burra porque alimentar a ilusão que matar esses pobres-coitados vai resolver o problema é como tentar matar uma hidra cortando-se uma cabeça: para cada uma que vai, duas nascem no lugar.

Burra porque os presídios superlotados e o aumento da criminalidade não são causas dos ataques do PCC, só sintomas - como o PCC em si - da situação absurda em que vive a população de baixa renda desse país. É óbvio que existe gente safada, canalha, cruel, violenta e mau-caráter por natureza, mas é claro que comportamentos socialmente inaceitáveis são externados à medida em que cresce a crença na impunidade. E é óbvio que existe quem roube, seqüestre e mate porque são meios muito simples de se fazer dinheiro, mas é claro que boa parte das pessoas que se envolvem nessas atividades só o fazem por total falta de opção na vida.

Nossa carga tributária é maior do que a de países altamente desenvolvidos, onde o cidadão paga taxas absurdas mas vê todo o dinheiro retornar na forma de ótimas escolas, faculdades excepcionalmente boas, sistema de saúde eficiente, amparo aos desabrigados, diversas opções de lazer à disposição de todos e vários outros benefícios. Nós pagamos valores obscenos de impostos e não temos retorno NENHUM! Uma parcela ínfima da população pode enfiar seus filhinhos em colégios particulares, trancar-se atrás de muros de 4 metros com cercas eletrificadas e assistir o Jornal Nacional numa TV tela plana de trocentas polegadas comendo do bom e do melhor e exercitando a cumplicidade com tudo isso que acontece.

A esmagadora maioria vive um dia-a-dia de Brasil Urgente!, saindo de casa todos os dias à procura de um subemprego qualquer e voltando com uma mão na frente e a outra atrás, dando graças a deus por ainda vestir a roupa do corpo e ter onde dormir. Gente que só tem a atenção dos poderosos em época de eleições, que só recebe palavras de conforto dos asseclas do bispo Macedo.

E a molecada que nasce desses desinformados cresce descalça, doente e desnutrida na rua, vendo a garotada da Malhação - aos olhos deles um bando de alienígenas, com seus padrões de vida de classe média-alta - pagando uma rodada de suco pra galera e se inspirando em adolescentes que, entre uma cheirada e outra, caminham displicentemente portando armamento pesado soviético e vendendo papelotes de cocaína.

As causas da alta criminalidade, do PCC e dos ataques à população de São Paulo não são o PT, não é o Lula, não é o governo federal. Nem são, especificamente, o Geraldo Alckmin, o Cláudio Lembo e o PSDB - embora estes tenham muito mais culpa no cartório do que aqueles.

A causa da criminalidade no país inteiro é todo esse governo que aí está, somado a todos os que já tivemos antes, tudo isso multiplicado pela nossa incapacidade de demonstrar um mícron de compaixão e solidariedade com aqueles que afundam cada vez mais porque quem está por cima não se cansa de subir usando como apoio as costas de quem não tem como se defender.

A criminalidade, repito, é apenas um sintoma.
E a doença é nossa incapacidade de mudar.

Interlúdio

Antes do peito dos mouros
Antes dos gritos de gente
Antes até da saudade
Que viajou além-mar
Do banzo dos africanos
Do toré no mato verde
O fogo com seus estalos
Fazia um som
Já fazia um som
Já fazia um som

(Cordel do Fogo Encantado - Antes dos Mouros)

Ultimate happyness

Baixei as 86 primeiras edições de Ultimate Spider-man, mais a primeira anual, mais a primeira especial.

Pense num nerd feliz!

E mais um adendo:

Ô, vem cá. X’eu falar contigo um instantinho. Coisa rápida. Sério. Ouve aqui.

Se eu fosse você, já teria baixado a mp3 de Halleluja cantada pelo Jeff Buckley. Da trilha sonora de Edukators.

Porque eu, sendo eu, já baixei.

Aliás, cê deveria assistir Edukators logo, se nunca viu. Porque o filme é bom pacaraleo. Mas não veja assim, logo depois de ler O Germinal, não, porque foi o que eu fiz e ando me sentindo muito socialista desde então, com linguajar panfletário e tudo. Tá foda.

Mas enfim. Edukators é tão fodão que um diretor americano resolveu cometer uma refilmagem da parada (quero ver como é que vão lidar com o discurso comunista do filme, aposto que vão ridicularizar). Então veja logo o original alemão antes que saia a nova versão.

Porque cê sabe, né? Depois que tiver a fita em inglês, vai ficar foda encontrar a original em alemão. Culpa desse nosso ranço de país subdesenvolvido subjugado pela potência capitalista que impõe sua pseudo-cultura baseada em princípios de acumulação de capital e controle dos meios de produção e… e…

Bah.
Preciso parar com isso.

Aliás…

Acaba de me ocorrer que este blog já completou dois anos desde que foi ressuscitado pela graça divina e na misericórdia de nosso senhor Jotacê.

Aleluia!