Quanto rancor cabe em um só ser humano? Talvez a pergunta esteja formulada de forma meio capenga. A questão mesmo é: qual exatamente é o nível seguro de ressentimento que pode ser armazenado, antes que o receptáculo comece a transpirar amargura e a exalar dissabores?
A raiva é um bom combustível, claro. Pode empurrar uma pessoa obstinada até alturas impensáveis para criaturas menos… ahn… exasperadas, vamos chamar assim. Os médicos vivem dizendo que ser feliz é a chave para a longevidade, que alimentar sentimentos negativos é uma fonte para doenças sérias e dolorosas, mas não consigo acreditar nisso. Acho que um homem (ou mulher, sem sexismos aqui) que agarra com unhas e dentes seu ódio e usa isso como base para traçar suas metas e atingir seus objetivos é capaz de viver eras até finalmente poder esfregar na cara de seus desafetos que é muito mais preparado que eles imaginavam.
O rancor alimenta o ódio, o ódio alimenta a vingança. A vingança é uma fonte da juventude que cada um traz dentro de si - pra falar em termos Paulocoelhísticos.
Mas não é cristão se vingar de seus inimigos, então diz-se por aí que a vingança nunca é plena. Argumento que sempre foi Chavesco demais pra minha cabeça.
Acredito sinceramente que manter um certo nível de rancor é extremamente saudável. O rancor é o que impede de dar a quem já te passou a perna uma nova oportunidade de te sacanear, é o que mantém viva a sua autocrítica e adiciona à sua vida um bom nível de coerência. Por mais que sejam estúpidos os motivos que me levaram a cortar relações com muitas pessoas que conheci, continuaria irredutível se as encontrasse amanhã.
Gosto de ser coerente, sabe como é.
A situação começa a ficar insustentável quando o rancor te desperta no meio da noite e te mantém acordado, olhos pregados no teto, alimentando pensamentos de vingança, traçando planos para dar o troco em quem te incomodou e escrevendo mentalmente discursos que destilam fel.
Quando a coisa chega a esse ponto, só existem duas opções:
1) Arranje uma roupa colante de cores espalhafatosas, um nome chamativo e torne-se um supervilão arquetípico de histórias em quadrinhos, ou
2) Tira esse ódio do seu coração, meu filho.
O problema é que as duas opções são muito ridículas, a meu ver.