Archive for Junho, 2006

Re-sentimentos

Quanto rancor cabe em um só ser humano? Talvez a pergunta esteja formulada de forma meio capenga. A questão mesmo é: qual exatamente é o nível seguro de ressentimento que pode ser armazenado, antes que o receptáculo comece a transpirar amargura e a exalar dissabores?

A raiva é um bom combustível, claro. Pode empurrar uma pessoa obstinada até alturas impensáveis para criaturas menos… ahn… exasperadas, vamos chamar assim. Os médicos vivem dizendo que ser feliz é a chave para a longevidade, que alimentar sentimentos negativos é uma fonte para doenças sérias e dolorosas, mas não consigo acreditar nisso. Acho que um homem (ou mulher, sem sexismos aqui) que agarra com unhas e dentes seu ódio e usa isso como base para traçar suas metas e atingir seus objetivos é capaz de viver eras até finalmente poder esfregar na cara de seus desafetos que é muito mais preparado que eles imaginavam.

O rancor alimenta o ódio, o ódio alimenta a vingança. A vingança é uma fonte da juventude que cada um traz dentro de si - pra falar em termos Paulocoelhísticos.

Mas não é cristão se vingar de seus inimigos, então diz-se por aí que a vingança nunca é plena. Argumento que sempre foi Chavesco demais pra minha cabeça.

Acredito sinceramente que manter um certo nível de rancor é extremamente saudável. O rancor é o que impede de dar a quem já te passou a perna uma nova oportunidade de te sacanear, é o que mantém viva a sua autocrítica e adiciona à sua vida um bom nível de coerência. Por mais que sejam estúpidos os motivos que me levaram a cortar relações com muitas pessoas que conheci, continuaria irredutível se as encontrasse amanhã.

Gosto de ser coerente, sabe como é.

A situação começa a ficar insustentável quando o rancor te desperta no meio da noite e te mantém acordado, olhos pregados no teto, alimentando pensamentos de vingança, traçando planos para dar o troco em quem te incomodou e escrevendo mentalmente discursos que destilam fel.

Quando a coisa chega a esse ponto, só existem duas opções:

1) Arranje uma roupa colante de cores espalhafatosas, um nome chamativo e torne-se um supervilão arquetípico de histórias em quadrinhos, ou

2) Tira esse ódio do seu coração, meu filho.

O problema é que as duas opções são muito ridículas, a meu ver.

Utopia

No dia em que me aparecer algum(a) desconhecido(a) no orkut ou msn (sim, porque eu também não dou trela pra menininhas bonitinhas com fotos estilosas que se acham a última coca-cola gelada do deserto de Gobi só porque os caras na internet babam por qualquer porcaria), eu disser “Nada pessoal, mas não quero ser teu amigo, não” e a pessoa não reagir como se tivesse sido ferida de morte ou - o que é ainda mais grave - como se eu fosse o centurião romano que varou o bucho do Cristo Jesus com sua pontiaguda lança, aí, sim, poderei dizer que vivo no mundo perfeito.