Eu não tenho qualquer problema em admitir que existe uma grande possibilidade da minha vida ser incompleta, já que não pretendo ter um filho, não vejo propósito algum em plantar uma árvore e escrever um livro está longe de figurar entre meus objetivos. Prefiro dar ênfase a planos mais audaciosos, como dominar o mundo ou bater o record mundial de maior número de linhas em um único parágrafo de abertura (mas nesse segundo quesito estou perdendo de longe para o José Saramago).
Não quero ter filhos por um sem número de razões que não vale a pena destrinchar (novamente) aqui, não vou plantar árvores porque não me interesso por plantas e, mais importante, não vou escrever um livro porque - além da minha óbvia incompetência redativa - tenho um sério problema em desenvolver miolos de histórias.
Admito, sem qualquer traço de modéstia, que tenho boas idéias para começos e finais. Mas somente com isso: abertura e encerramento. Tipo Amélie Poulain ou os filmes do Vin Diesel. O começo é extremamente promissor, o miolo não vale um centigrama de subnitrato de pó de peido e o final dá aquela sensação de “graças a deus acabou”.
De todo modo, essa minha habilidade em começar textos ainda há de render alguma coisa. Quem sabe um dia eu não ganhe dinheiro escrevendo ganchos para escritores com bloqueio? Acho que ainda não existe nenhum estelionat… ehr… espert… ahn… ser humano solícito e altruísta que tenha tomado para si essa árdua tarefa de dar o pontapé inicial ou fechar com chave de ouro o trabalho alheio. Poderia render uma grana.
Eu teria um enorme calhamaço. Aliás, dois: um com começos e um com finais. E as pessoas poderiam visitar meu escritório e folhear à vontade, até encontrarem uma primeira frase ou uma citação final que se encaixasse perfeitamente em seu conceito de romance ideal.
As idéias seriam mais ou menos assim:
INÍCIOS
“Setenta e sete gerações depois, o ódio ainda era o mesmo. E se as razões banalizavam-se mais e mais cada vez que o sangue era herdado, a intensidade e a violência do sentimento cresciam exponencialmente com a linhagem.”
“Aquela imagem dela sentada sob o sol - cobrindo os olhos com as mãos enquanto tentava segurar os cabelos lambidos pelo vento - seria sempre a mais bela lembrança de sua infância.”
“Seus passos eram pesados e suas roupas estavam gastas, mas a energia e o entusiamo de sua voz não arrefeciam, quaisquer que fossem as provações.”
“- Que porra é essa?
Embora fosse totalmente pertinente, a pergunta dita assim, em voz alta e naquele ambiente, tornou-se mais chocante do que realmente era e arrancou exclamações de espanto entre os convivas.”
FINAIS
“Apesar das preocupações com o futuro que os aguardava, ela ainda lhe sorria aquele mesmo sorriso bonito e misterioso e com a promessa de felicidades vindouras.”
“Abraçados, enfim, caminharam juntos. E, ainda juntos, caíram mortos a cem metros dali.”
“Tragou longamente. Sentiu a fumaça entorpecer os pulmões, a nicotina tomar o céu da boca e causar na língua uma sensação de formigamento. Jogou no chão o que restava do cigarro e pisou em cima.
- Esse foi o último. Esses filhos da puta não tiram de mim nem um centavo a mais.
Escarrou um catarro escuro, como que para selar a promessa que acabara de fazer, foi à padaria e deu três tiros na cabeça do homem do caixa.”
E por aí vai.
O grande lance seria cobrar uma taxa mínima pela colaboração, algo simbólico mesmo, só pra fazer valer os cinco minutos de esforço que eu gasto pra bolar essas porca… ehr… obras de arte. E, claro, uma porcentagem - dessa vez não tão simbólica - dos lucros do livro, filme ou o que quer que fosse que o trou… cof, cof… cliente desenvolvesse a partir disso.
Seria inteligente colocar no meio alguns começos e finais famosos de livros já conceituados. Quando um cliente perguntasse “Ei, isso aqui não é o começo de ‘Cem Anos De Solidão’?“, eu poderia responder “Aquele viado do Gabo até hoje não me pagou um centavo por essa merreca aí que emprestou de mim naquele pulgueiro em Cuzco!“.
Ia dar a maior moral.