Arquivos de Setembro, 2006

É que o final é meio pesado, sabe…

Tédio. A isso se resumia sua vida: tédio. Nada a fazer, nada para ler - até porque não era seu passatempo favorito -, nada interessante na televisão - como se alguma vez tivesse encontrado algo digno de ser classificado assim nesse crematório de idéias que é a tevê.

Desempregado, solteiro, poucos amigos. Não era de se estranhar que pleno verão, sexta-feira à tarde, numa movimentada metrópole costeira, ele estivesse em casa sozinho, largado no sofá, a zapear pelas propagandas de câmeras digitais, programas de fofocas e filmes repetidos pela enésima vez. Não que prestasse atenção em qualquer coisa que aparecesse na telinha: era apenas uma maneira de passar o tempo.

Cansou daquilo. Foi perambular. Ver umas menininhas com roupas curtas, cumprimentar uns vizinhos, tomar um trago pra espantar o calor. Talvez passasse naquele botequim onde o Gonçalves costumava tomar uma gelada nesses dias quentes. O Gonça era um sujeito boa-praça, falastrão, daqueles que contam inúmeros “causos” hilários. Todo mundo sabia que era lorota, mas gostava dele mesmo assim, porque, ao fim de cada história, ele dava aquela piscadela sacana que deixa bem claro que a veracidade dos fatos é o de menos. O que importa é a diversão dele, ao contar, e do público, ao ouvir.

Chegou ao bar e lá estava o Gonçalves. Falando de uma série de acontecimentos insólitos envolvento um travesti bêbado e dois clientes insatisfeitos, que ele tinha presenciado na zona alegre alguns dias atrás. No estabelecimento, como de hábito, ninguém mais falava. Todos ouviam a epopéia e se dobravam de rir cada vez que, mãos na cintura e voz roufenha, o narrador se metia a imitar o transexual ébrio.

Ao fim do conto, o astro do boteco levantou-se e foi até seu amigo, que permanecia cabisbaixo, em outra mesa. Aproximou-se animado, como sempre.

- Que tristeza é essa, rapaz? Perdeu bilhete de loteria premiado?
- Quem dera fosse. Seria alguma emoção na minha vida, pelo menos. Pô, velho, tô mais parado que água de pneu…
- Entediado, é?
- Pra caralho. Escuta, o que cê vai fazer hoje?
- Ih, hoje tenho um daqueles programas de índio pra ir.
- É? Que tipo de programa de índio?
- Ah, um baile de debutante de uma garota filha de uns metidos a besta aí, amigos do meu chefe.
- Porra, me leva junto!

Gonçalves hesitou. Apesar de serem amigos de bar - ou talvez por isso -, não achava boa idéia ser visto acompanhado daquela figura, notoriamente desbocada, sem muita noção de trato social.

- Ahn… não sei, cara, não sei. Foi convite do meu chefe, sabe. Levar você comigo, sendo que a família nem me conhece. Convidado do convidado do convidado? Fica chato, né?
- Puta que pariu, Gonça! Nunca te pedi nada! Me leva com você, só dessa vez. Garanto que nem vão me notar.

O Gonça resolveu colocar uns empecilhos estranhos e fazer umas exigências bizarras, na esperança de desencorajá-lo. Não deu certo. Perguntou se ele tinha um terno: Tenho. Azul claro? Providencio. Com uma flor lilás na lapela? Isso é fácil. E sapatos brancos de couro de útero de camela? Dá-se um jeito. E um cinto, também branco, de couro de lombo de lhama? Eu arranjo. Tudo isso até as 20h? Não se preocupe.

Quando ele se levantou para ir atrás da roupa para a grande noite, ouviu seu amigo fazer uma última exigência:

- Você não diz nada durante a festa, ok? NADA. Vai permanecer o tempo todo ao meu lado e em silêncio. Esse povo é esnobe e fresco até não poder mais e você é campeão em falar o que não deve. Não me vá cometer uma gafe, pelo amor de deus! É o meu emprego que está em jogo!
- Se preocupe não, Gonça. Vou agir como um lorde britânico. Você vai ver.

Encontraram-se mais tarde em frente à casa dele. Gonçalves passou lá para buscá-lo pontualmente. No caminho, acabou por lembrá-lo de sua recomendação mais importante: fale o mínimo possível, apenas se falarem com você e não use vocabulário de baixo calão.

O Gonça, é lógico, tornou-se a alma da festa. Formou-se uma roda em volta daquele rapaz bem-educado, comunicativo e divertido. Seus comentários arrancavam sorrisos satisfeitos das damas, suas piscadelas causavam gargalhadas nos cavalheiros. Seu chefe comentava com os conhecidos:

- Não disse que ele era ótimo? Ele é ótimo!

Gonçalves contou vários de seus causos. A riqueza de detalhes, aliada à perfeição de suas interpretações, fazia daquilo um verdadeiro espetáculo de teatro mambembe. Enquanto isso, o amigo permanecia em silêncio, sempre com um copo de uísque na mão. Apenas observando. Entre uma história e outra, o Gonça dirigia a ele um olhar de soslaio, como para verificar se se comportava. E ele, surpreendentemente, agia como um nobre. Ao ser abordado, falava pouquíssimo, utilizando linguajar polido e correto.

Em dado momento, no ápice da festa, quando todos já estavam levemente alcoolizados, formou-se uma roda para contar piadas. O Gonçalves dominava esse tipo de situação, como era de se esperar, mas também dava chance a todos os outros presentes para que contassem suas anedotas. Uma jovem senhora finalmente notou o homem amuado ao lado daquela figura engraçadíssima.

- E você, rapaz?
- Pois não, senhora?
- E você? Não tem piada nenhuma pra gente?

Ele tinha. Mas se lembrou da promessa que fizera ao seu amigo.

- Infelizmente, não.
- Oras, mas nenhuma? Não existe quem não conheça nenhuma piada.
- Eu conheço algumas, sim, mas são todas péssimas. Além do mais, sou sofrível como contador de piadas.

Gonçalves já suava frio, na inevitabilidade do amigo dizer algo constrangedor. Um senhor de rosto avermelhado, provavelmente pela quantidade de álcool que bebera, interviu:

- Todos nós somos ruins, ainda mais perto do seu amigo. Vamos lá, conte uma.
- Mas eu só sei uma…
- Só queremos ouvir uma.
- Mas é péssima.
- Só vamos saber depois de ouvir.

A essa altura, o Gonçalves, prevendo um fim trágico para sua noite, procurava uma maneira de se ausentar do salão. Melhor: era preciso atrair as atenções de volta para si. Pensou que talvez funcionasse fingir um desmaio.

- Mas o final é muito sujo.

Todos riram e argumentaram que estavam entre adultos. Os jovens se limitavam a dançar músicas barulhentas na pista. Ele, entretanto, resistia bravamente.

- Vocês vão me perdoar, mas, em respeito às senhoras, vou declinar do pedido. O final dessa piada é um absurdo.
- Você só está nos deixando curiosos.
- É verdade. Conte logo, deixe de meandros.
- Mas o final…
- Homem, deixe disso. Não pode ser nada que não tenhamos ouvido antes.

Ele enfim cedeu à pressão.

- Ok, vocês querem ouvir a piada, então vou contar.

Fez uma breve pausa, ao passo em que o Gonçalves, desesperado, imaginava maneiras de se suicidar discretamente enquanto seu amigo, completamente desinibido, começava sua tão aguardada anedota - de final muito, muito sujo:

- Era uma vez um chupador de bucetas…

Calma, calma, foguentinha

Não é preciso sofrer de esquizofrenia (embora ser minimamente neurastênico seja provavelmente um pré-requisito) para alguém brigar sozinho com outras pessoas.

A afirmação acima pode soar esquisita se você se atem ao ditado que diz “quando um não quer, dois não brigam”. De certo modo é verdade, já que uma rusga só vai acontecer entre duas pessoas se ambas estiverem inclinadas a isso. Mas é mais que possível que altercações homéricas ocorram unilateralmente, sem que um dos lados se manifeste, enquanto o outro arranca os cabelos.

O “brigão passivo”, se é que podemos chamá-lo assim, não se envolve no turbulento redemoinho de discussões, zanga e ofensas por motivos que vão desde achar exageradas as reações do brigão ativo - o que torna a cena toda muito engraçada, aliás, pois enquanto um se descabela por razões pífias, o outro ri - até por total falta de inclinação (natural ou momentânea) para brincar daquilo.

Mas o motivo que as pessoas deveriam manter em mente é que às vezes um dos lados da rixa não se manifesta - ou se manifesta tentando botar panos quentes - porque sabe que tudo aquilo pode descambar para algo muito, muito desagradável, caso ele perca a cabeça e resolva entrar na onda.

Meu caso.

É uma atitude bem inteligente, essa de evitar discutir a sério com as pessoas por conhecer seu temperamento o suficiente pra saber até onde você se dispõe a levar uma desavença. Até porque não existem assuntos dignos ou indignos de discutir sobre, mas pessoas dignas ou indignas de discutir com.

Porque têm aquelas mais razoáveis, com quem é possível expor os problemas e negociar soluções. E têm as outras. Que são metidas a besta demais, ou nervosinhas demais, ou donas da razão demais. Daí pra pior.

Quem tenta brigar com alguém e vê que seu (suposto) adversário não faz nada além de rir e tecer comentários irônicos devia cair em si e esfriar a cabeça. Convenhamos: se um sujeito notoriamente esquentadinho não tá discutindo é porque não existe motivo para tanto. Porque tudo bem se, vez ou outra, você fizer tempestades tropicais em copos d’água.

Mas algumas coisas são simplesmente ridículas!

Depois de se meter em incontáveis arranca-rabos, você se cansa disso. Ou um dia percebe, com o mínimo de sabedoria que a idade há de trazer - infelizmente só para alguns, devo acrescentar -, que não vale a pena, que esse tipo de coisa não traz nenhum resultado positivo. Que é melhor buscar outros meios de dar fim aos desentendimentos.

Infelizmente alguns antagonistas não notam que o silêncio de quem ouve o sapo calado não significa que ele notou o quanto está errado, e como o outro está certo, é sagaz, incisivo e genial.

Esse silêncio, via de regra, é pura falta de saco.

Então tome cuidado com seus amigos que não brigam, brigões de plantão: pessoas rancorosas nunca mais voltam a falar com você como falavam antes.

É o que eu faço.