Archive for Janeiro, 2007

Planeta Terra

Estou acostumado a ser mal-interpretado. E não, não culpo os leitores por esse tipo de problema. Meus textos muitas vezes necessitam mais clareza. É lógico que às vezes o leitor simplesmente não presta atenção no que está escrito ou interpreta de forma errônea por manter certas idéias pre-concebidas que vão de encontro ao que está dito, mas prefiro achar que esses casos são minoria.

Uma das coisas que eu faço desde antes desse blog existir, quando ele desexistia e também quando existia antes da desexistência (???), é reclamar que as pessoas são burras. Que as pessoas não pensam, que não se informam, que não se mobilizam, etc e tal. Todo esse papo que pode soar hipócrita (não faço parte de qualquer ong, não leio jornais diariamente, não fico de olho nas atualidades políticas…), mas na verdade não é. Não espero que ninguém vire um ativista por qualquer coisa que seja, até porque isso TAMBÉM é idiotice. Quando digo essas coisas na verdade estou reclamando de quem diz coisas impensadas. De quem comete imposturas. Ou, como diz o livro do Harry G. Frankfurt, de quem “fala merda”.

Meu problema é com ESSAS pessoas: as que falam merda. Porque uma coisa é você não correr atrás de informação, não ser um leitor assíduo das folhas do país, não se manter ligado nos movimentos da política, não ajudar as obras sociais do seu bairro, da sua cidade, do seu estado, do seu país, não colaborar com nada e ficar na sua. É um direito seu. Bom pra você. Parabéns, seja feliz.

Outra coisa é agir como exemplificado no parágrafo acima e ainda assim sair por aí dizendo um monte de merdas, como se soubesse tudo de tudo e fosse o ser humano mais consciente da atualidade.

Mas o ponto onde queria chegar, na verdade, é que não sou um “infólatra”. Não troco um episódio de As Aventuras de Billy & Mandy por meia hora de Discovery Channel, por exemplo.

A menos que esteja passando Planeta Terra.

É difícil explicar o que essa série de documentários tem de mais. Bom, na verdade não é, não. Difícil é saber por onde começar, então vou logo para o ponto mais chamativo: as imagens. Não sei se dão oscars para produções televisivas - acredito que não -, mas essa merecia. Merecia muito. Porque as imagens são cinematográficas. Tudo em todas as cenas parece ter sido programado de antemão pra deixar o telespectador boquiaberto. As cores, os movimentos, os cenários, tudo. Como se um cenógrafo tivesse ido aos lugares antes do cinegrafista para organizar os elementos na tela.

A narrativa é boa! A NARRATIVA! Não existe nada mais enfadonho do que narrativa de documentário televisivo e finalmente temos uma série que rompe tal limitação, acabando com uma tradição que dura gerações. Vai por mim: seus pais viram documentários cuja narrativa dava sono no colégio. Você viu. E seus filhos verão, a menos que assistam Planeta Terra.

Sendo sincero, não sei se é o texto que é realmente bom ou se é porque as imagens são tão magníficas que qualquer merda dita pelo narrador simplesmente não fará diferença. Ele poderia ler o resultado de um exame de sangue enquanto a câmera focaliza quadro a quadro - quadro a quadro MESMO - um gavião morcegueiro caçando morcegos em Bornéu e ainda assim você sentiria um arrepio na espinha. Porque tudo na tela é tão assombrosamente bonito que a série é capaz de transformar o mais empedernido capitalista poluidor da natureza em um ferrenho militante do Green Peace.

E se tudo o que já foi dito a respeito não for convincente o suficiente pra você sentar a bunda diante da televisão por uma hora, todas as terças, às 22h, aqui vai o que eu consideraria o argumento supremo:

A música de abertura é do Sigur Rós.
Eu ODEIO Sigur Rós.

E não consigo parar de ouvir Hoppipolla há três dias.
Sério, assista.

Breve retorno a um velho assunto

O trecho a seguir, retirado do segundo volume do livro Musashi, de Eiji Yoshikawa (pg. 1719), traduz muito bem, ainda que superficialmente, minha idéia sobre “talento”:

“- Não acho que Musashi-sama seja limitado.

- Mas também não nasceu com o dom. Nada nele lembra a displicência do gênio que confia cegamente em seu talento. Mestre Musashi sabe que é homem comum e por isso se empenha incessantemente em polir suas habilidades. A agonia por que passa nesse processo só ele sabe. E quando, em determinado momento, essa habilidade alcançada com tanto custo explode em cores, o povo logo diz que a pessoa tem aptidão natural. Aliás, é a desculpa que os indolentes dão para justificar a própria incapacidade.”

Superman Returns

Eu confio na Electronic Arts.

(Calma lá. Não comece a questionar essa minha afirmação ainda. Continue lendo o texto, deixe para retorquir depois.)

Boa parte dos jogos da EA que conheço são dignos de menção honrosa na minha galeria dos “Meritórios”, quando não na dos indispensáveis. The Sims 1 e 2, os atuais lançamentos da série Need For Speed (underground 2 em especial), Battlefield, Splinter Cell, Half Life 2, Medal of Honor, Command and Conquer, etc, etc, etc. Isso pra não mencionar Sim City, que vem sendo minha menina dos olhos dos games de computador desde meu primeiro contato com um Pentium 166. Põe uma década nisso aí, pelo menos.

Confio na EA Games desde então. Não tinha quaisquer desapontamentos com os lançamentos da empresa até comprar, semana passada, um dos mais recentes jogos produzidos por eles - que esperei ansiosamente, diga-se de passagem, mais até do que o filme: Superman Returns.


Deixe-me ressaltar um ponto que julgo ser importante para tornar essa crítica o mais confiável possível: desde o momento em que tomei conhecimento do jogo (por intermédio de um trailer disponível no site do game, aquele de 20.2mb, o último da lista) minha postura com relação a ele foi de extremo otimismo. Acredito sinceramente que o Super-Homem é um dos heróis com maior potencial pra render um ótimo jogo e tinha esperanças de que a indústria dos videogames FINALMENTE havia percebido o fato. Esperava que pelo menos os caras da EA Games, sempre tão inovadores e criativos - ao contrário do povo da Sierra, cuja especialidade parece ser copiar o trabalho alheio - fossem se dar conta das infindáveis e divertidíssimas possibilidades que o azulão carrega consigo e que, com a tecnologia atual, poderiam ser satisfatoriamente encarnadas em um jogo.

Consigo ouvir Lex Luthor, na voz de Kevin Spacey, rindo da minha inocência e dizendo “Seu tolo crédulo e ingênuo!“. E tem razão, o maldito careca.

Começarei a análise tratando dos dois aspectos favoráveis do jogo. Fiz uma lista aqui na minha caderneta, enquanto jogava e me contorcia de ódio, e admito que não foi fácil pensar em prós, considerando que só os contras me saltavam aos olhos.

A sacada genial do jogo - alguma haveria de ter - é a barra de energia de Metrópolis. Convenhamos: o escoteiro é um dos super-heróis mais apelões de que se tem notícia. Estabelecer um limiar de dano para ele é como fazer um jogo sobre deus e limitar seus poderes. Existem outras maneiras de explorar as fraquezas do personagem e os desenvolvedores da EA games souberam fazer isso muito bem. Você pode tomar quanta porrada quiser, mas é bom ficar de olho nos danos que a cidade está sofrendo, é isso que determina seu sucesso ou fracasso.

Todos os poderes do kriptoniano estão lá: supervelocidade, supersopro, visão de calor, sopro congelante, vôo super-rápido, super-força e por aí vai. Não que a super-força seja lá de grande valia, mas explicarei as razões dessa afirmação mais à frente.

Os gráficos são - como era de se esperar - lindos. Sério, sem eufemismos aqui. São lindos, Metrópolis é absurdamente real com suas ruas, avenidas, arranha-céus, praias, colinas, praças, veículos e cidadãos. O céu é um espetáculo à parte e voar entre os prédios durante o pôr-do-sol é realizador para os pobres mortais que - como eu - sempre acharam que voar ignorando completamente as leis da gravidade era o superpoder mais legal que alguém poderia ter.

O jogo é lindo, enfim. Se o que você quer é exibir beleza, se você quer um game pra andar de mão dada no shopping e God of War e Shadow of The Colossus não estiverem disponíveis, leve Superman Returns e ele não vai te decepcionar.

Quando mencionei que meu sonho é experimentar a sensação de voar à vontade, sem empecilhos, não estava brincando e era o mínimo que esperava. Até nisso, entretanto, ele me decepcionou. Em primeiro lugar porque a jogabilidade não está um lixo, mas é bem ruim. Vai levar um bom tempo até que você consiga voar de forma competente por dentro da cidade. Se é que vai conseguir, com todos os incidentes se sucedendo interminavelmente. Exatamente: você é escravo do jogo. As missões vão surgindo uma depois da outra, sem te dar tempo para respirar, apagar veículos incendiados ou socorrer cidadãos feridos.

Esse é, aliás, um dos pontos que mais me irritou: não sei quanto a vocês, mas o bom-senso me diz que se alguém for fazer um jogo tridimensional com uma enorme cidade à disposição para ser explorada, nada mais justo do que dar ao jogador TEMPO para explorá-la, enchê-la de side quests e deixar os gatilhos à disposição do personagem. Ele decide se quer acioná-los ou não. De que vale criar becos, vielas, avenidas, ruas, cruzamentos e edifícios e impedir o personagem de esmiuçá-los? Mais importante ainda, pra quê fazer tudo isso se a interatividade com o cenário for, na melhor das hipóteses, NULA?

Não existe nada a se fazer no jogo além de seguir a história. Aliás, minto: existe, sim. Você pode sair caçando os 100 gatos escondidos pelo mapa. E só. Também pode pegar pedestres, postes, carros, o globo no topo do Planeta Diário e garotos-propaganda gigantes no topo de lanchonetes. Por isso sua super-força é inútil. Nada disso tem qualquer relevância para o jogo, porém. Serve só pra te distrair do fato de que não há nada pra ser feito no jogo além de descer a porrada em vilões.

Ah, é. Os vilões. O primeiro que você enfrenta, por um período que parece interminável, é o Metallo. Quando ele não está presente e a batalha é apenas contra os capangas é preciso uma boa dose de paciência. Todas as missões parecem ser a mesma. A variedade de adversários é ínfima. Quando Metallo finalmente aparece, vira-e-mexe exala uma aura de kriptonita que o torna invencível. Nesses momentos é impossível atingí-lo de qualquer forma: visão de calor, supersopro, carros arremessados… É preciso esperar que o jogo desligue esse recurso altamente apelativo para poder retomar a batalha contra o vilão. Enquanto isso você tem que voar pela cidade, deixando a segurança de Metrópolis ao deus-dará. E a barra de energia da cidade não dura muita coisa.

Ainda não cheguei a zerar Superman Returns simplesmente porque jogá-lo me força a fazer uso de toda a minha (baixa) reserva de paciência. Me contorço de raiva ao ver que todo o potencial do personagem, somado ao dos desenvolvedores da EA, rendeu apenas isso: um game tão bonito quanto tedioso, cuja única possibilidade é cumprir missões repetitivas contra inimigos repetitivos.

Apesar de tudo, ainda confio na Electronic Arts.
Mas com ressalvas.

Se você viu o filme - outra porcaria, aliás -, deve se lembrar de Jor-El dizendo “Eles podem ser um grande povo, Kal-El. Eles querem ser”. Com esse jogo é mais ou menos a mesma coisa. Eles poderiam ter feito um grande game. Queriam fazer.

Infelizmente, para os fãs, faltou capacidade pra tanto.