Monthly Archive for February, 2007

Justificativa do injustificável, talvez?

De uns tempos para cá, passou a me atrair a idéia de manter um controle de tudo o que eu visse, lesse ou pensasse. Do que conseguisse me lembrar, ao menos, considerando quão lastimável é minha memória. Tentando remediar a triste vazão de raciocínios que nunca mais consegui recuperar, ano passado comprei, por R$ 1,99, uma cadernetinha preta. Nada além de um bloco de papel envolto numa capa preta de um material que se assemelha a couro – embora, logicamente, não seja -, onde se lê “Note e Anote”.

(Eu sei, é extremamente Ana Maria Braga.)

Também fui atrás de uma lapiseira bem baratinha, uma que não me desse vontade de arrancar os cabelos ao perdê-la. Optei por uma bela Poli 0.5 da Faber Castell que me serve muito bem.

Mas é meio difícil tomar nota em certas situações. Também sinto muita preguiça de alcançar a lapiseira e a caderneta em vários momentos, quando não estão à mão. No fim das contas, meu plano não se saiu tão bem quanto imaginado.

Para isso criei um blog. Que, claro, blog não vai dar cabo desses problemas, provavelmente irá apenas partilhá-los. Mas será bom ter onde escrever sobre os livros, filmes, CDs, jogos e revistas que me caírem nas mãos. Um espaço pra publicar qualquer baboseira que me ocorra, como fazia com meu primeiro blog. E pra manter já escritos alguns trechos de textos que costumam me assaltar nos momentos mais inesperados possíveis, quando me faltam meios ou vontade para desenvolvê-los a contento.

- Você poderia fazer isso no utopia!, você diz. E talvez pudesse, mas ele tem muita visibilidade. Sem contar que é, provavelmente, minha página favorita, dentre todas as (várias) outras, o que me deixa um tanto criterioso com o que devo ou não publicar aqui. Por um lado isso é bom. Relendo meus textos de dois anos para cá, raramente surge algo que eu pense “Rapaz, podia ter ficado calado nessa!”. Mas o lado ruim é que acredito ser excessivamente crítico em certos momentos, então me privo de extravasar certas coisas. E a função maior de um blog, para mim, é ser uma válvula de escape.

Enfim. Agora tenho um bloco de notas online. E a única razão para estar exposto na internet, aos olhares de todos os curiosos, é que dessa maneira terei como acessá-lo de qualquer lugar no mundo onde haja um computador conectado à internet.

Afinal de contas, a gente nunca sabe quando vai ser teleportado para o extremo oposto do planeta.

Das soluções difíceis

Uma criança morreu depois de ser arrastada por sete quilômetros. E todos nós ficamos tristes e revoltados, mas não pelos motivos certos. Já somos cínicos e endurecidos o suficiente para não dar a menor bola para a morte de uma criança, ainda que o fato se dê com crueldade suficiente para causar comoção mesmo entre os mais insensíveis agentes da Inquisição Espanhola.

Não ficamos tristes e revoltados porque um menino morreu, ou porque morreu de forma atroz. Ficamos tristes e revoltados porque o Jornal Nacional disse que deveríamos nos sentir assim. Porque William Bonner e Fátima Bernardes, com olhar sombrio e voz pesarosa, deram a notícia em tom de horror, indicando a postura a ser adotada diante desse fato nauseabundo.

E porque, por vários dias, fomos metralhados com todo tipo de narrativa a respeito do menino inocente. Como estava seguindo o inquérito policial. Como ele fora arrastado por 7 km preso no cinto de segurança. O que a mãe dissera aos assaltantes antes que eles arrancassem com o carro, arrastando um menino de 6 anos por 70 hectômetros de asfalto. O que os assaltantes responderam à senhora de classe média ao fugir com o veículo e um garoto pendurado, conduzindo-o contra o solo áspero por 700 decâmetros. Onde o corpo do menino mutilado foi encontrado, sete mil metros além do local do crime.

E demonstramos revolta. E demonstramos tristeza. Mas pelo fato? Ou pela Globo? Pela família? Ou por nosso nicho social? Por solidariedade? Ou porque não tivemos opção?

Na mesma época em que se comentava a morte bárbara do menino de classe média, quantas outras crianças na mesma faixa de idade, mas em diferentes faixas sociais, não foram assassinadas de maneira tão – ou mais, se é que é possível – feroz? E quantos índios de 5, 6 anos não morreram de fome em reservas do centro-oeste e norte do país? E quantos meninos de rua com um ano a mais ou um ano a menos não foram violados, espancados, explorados ou mal-tratados de qualquer maneira?

Nossa revolta não é pela morte de um garoto de 6 anos arrastado preso no cinto de segurança de um carro. Nosso espanto só acontece porque um garoto de classe média foi morto pela miséria que tanto gostaríamos de ignorar. Ninguém vê qualquer problema quando miseráveis matam miseráveis. Quando esfaimados, desnutridos, analfabetos e marginais dão cabo de outros esfaimados, desnutridos, analfabetos e marginais. Quando a polícia do Rio de Janeiro, após uma guerra de gangues, retira os corpos do local em carrinhos de mão, cadê as missas da igreja católica no local do incidente?

E quando menininhas de 6 anos da favela da rocinha são atingidas no estômago por balas perdidas e morrem sangrando a caminho do hospital, onde estão os condoídos que colocam vasinhos de flores simbólicos marcando o ponto culminante da tragédia?

E quando a polícia faz uma batida num bar e mata meninos de 13, 14 anos jogando bola na rua, por que ninguém cria comunidades no orkut?

A classe média não se une, vestida de branco, com cartazes inúteis exibindo nomes de mortos ilustres, nesse tipo de situação. E a classe média não clama por cessar fogo para os que são baleados longe de seus domínios. O que a classe média não aprendeu é que não existe mais domínio. É que não existe mais classe média. Temos os muito ricos, escondidos atrás de suas prisões particulares. E temos os miseráveis, considerando maneiras de chegar até eles. No meio, estamos nós. Pendurados no cheque especial. Imaginando maneiras de parcelar um IPod. Sonhando com um Meriva zero. E os malditos desgraçados que tentamos com tanto empenho murar fora de nossas propriedades insistem em invadi-las. E os pobres famintos e bem-armados que deveriam se restringir a matar outros pobres famintos e bem-armados insistem em atirar contra nós. Recusam-se a morrer em silêncio, como os índios. Recusam-se a dar sossego, a desaparecer, a sofrer seu destino inexorável de esfomeados miseráveis em suas favelas, periferias, guetos, pocilgas.

E eles estão descobrindo que a mesma tenacidade que demonstram para chamar nossa atenção, atazanar nossas vidas, subtrair nossos bens e tomar migalhas do nosso dinheiro, nós demonstramos na hora de ignorar suas mazelas.

Mas nem tudo está perdido. Pelo menos não enquanto ainda tivermos as dondocas de Copacabana para fazer passeatas pedindo paz. Enquanto tivermos florzinhas para colocar no MSN. Enquanto pudermos criar tópicos e comunidades no orkut. Enquanto pudermos discutir maneiras de dar cabo dos miseráveis com a mesma violência com que eles procuram nos aniquilar.

Porque quando percebermos que nada disso adianta, teremos que adotar uma solução que, tal qual a morte do menino João Hélio, será drástica, brutal, chocante e difícil de explicar para as gerações futuras: uma que funcione.

ARE YOU THREATENING ME?

Quero uma camiseta com o Beavis bancando o Cornholio no peito e essa fala nas costas:

- You can take me, but you cannot take my bunghole!

Você não é homem de encarar o desáfio!

Qualquer dia desses um dos chiliques matutinos do gato que vive embaixo do meu prédio vai me deixar puto a ponto de eu descer lá e matar aquele animal cretino a pauladas. Ou talvez só jogue água fervendo no bicho, pra ele agonizar até a morte num canto qualquer longe da minha vista.

O fato é: depois de me livrar da presença nefasta desse felino imundo, acho que vou remeter a carcaça para o PETA, dentro de uma embalagem a vácuo. Junto irá uma carta de desafio com o endereço de uma academia de jiu-jitsu. Daquelas cheias de bombados pitbulzentos.

Vai ser divertido assistir o confronto.

Sessão gastronomia. Ou gastroenteria, depende de quem come.

Sou assumidamente fresco com comida. Fresco mesmo, abicholado, viadinho, chato, sabe como é? Menino criado com vó, aí já viu. Não sou muito chegado em carne, por exemplo. Frango, só empanado. Em coxinhas e empadinhas também encaro. Vaca? Só os melhores pedaços. Sim, me refiro aos mais caros. E só se estiver assado. Gosto de churrasco, mas não como qualquer coisa. Carne de porco? Calabresa, salaminho e presunto. E olhe lá. Peixes e frutos do mar? São amigos, não comida. Abro uma exceção: gosto de patê de atum. Se dependesse de mim, só haveria pesca esportiva.

Também não sou chegado em salada. Folhas, em particular, me aborrecem. Agrião, rúcula, essas porcarias, pra mim é tudo comida de cavalo. Nabo, pepino e outros vegetais de duplo sentido também dispenso. Meu negócio é carboidrato e alimentos de qualidade (e valor nutritivo) questionável. Junk food, como gostam de chamar aqueles babacas que intercalam idiomas só pra mostrar que são letrados. Hambúrguer (sim, é carne, mas eu gosto… vai entender), salgadinhos, biscoitos, sucrilhos, iogurte, queijo, leite… aliás, leite e derivados de leite também chamam minha atenção. Falando sério: não sei como sou magro, comendo as coisas que como.

Sendo brasileiro, entretanto, não dispenso um bom prato de arroz, feijão, bife e batata frita. O bife sendo de filé, lógico.

Provavelmente você está pensando que isso me desabona pra sugerir bons lugares para comer. Eu gosto de pensar de forma diferente: como sou muito criterioso (chato!), exigente (chato!!) e seletivo (chato pra caralho!!!), os restaurantes/lanchonetes/quiosques/pé-sujo precisam se esforçar para passar pelo meu crivo e ganhar minha lealdade “enquanto a nível de” cliente.

Resumindo: se você quer comer porcarias deliciosas, vai em frente e segue meu roteiro. Se o seu negócio é nutrição, entretanto, vai caçar um restaurante natureba qualquer – coisa fácil de achar nesse detestável acampamento hippie urbano que é Brasília – e divirta-se comendo suas comidas “macrô” sem gosto.

***

Quando você não sabe pra onde ir, vai ao Giraffa’s. Essa rede de lanchonetes é uma sumidade por aqui. Qualquer beco de Brasília tem uma loja. É sério, são mais de 40 unidades no Distrito Federal, sendo umas 23 só no Plano Piloto. Pra você ter noção, conto 4 Giraffas num raio de menos de um quilômetro da minha casa.O grande problema é que nem todas as lojas estão em consenso. Meu prato preferido é o parmeggiana de frango com fritas e eu deveria fotografar as porções servidas por diferentes lojas da cidade para depois mandar as imagens para a central nacional da lanchonete. Algumas são extremamente generosas (como a da 209 norte), enquanto outras são de uma avareza judaica (a do Pátio Brasil é o melhor exemplo). A melhor em todos os quesitos, na minha opinião, é a da 302/303 norte. Podem perguntar ao Daniel: no horário de almoço, quando o movimento é mais intenso, você termina de pagar e eles servem seu prato antes que você tenha chance de se afastar do caixa. E sem murrinhagem, o que é melhor.

Como nem tudo é perfeito, a loja não funciona de madrugada. Mas se você quer encarar um sandubão depois de meia-noite, existem duas outras opções bem melhores que qualquer rede de lanchonete terminada em ‘s:

O Marcão. Esse quiosque já é um clássico. Nas madrugadas, na entrada da 409 norte, eles servem os sandubas mais BRUTAIS da cidade. Não é à toa que batizaram suas criações com nomes sugestivos como “monstro”, “hulk”, “guloso”, “mal-educado”… O Hulk, minha opção-padrão no lugar, custa 5 reais e é maior que qualquer hamburguer do McDonald’s, Burger King ou Bob’s. QUALQUER UM! As pastas deles merecem menção honrosa. Mas se você tem estômago fraco e/ou não gosta de maionese, passe longe: a mistureba pode ser considerada pouco católica pelo seu sistema digestivo.

Se você mora na Asa Sul, nem tudo está perdido. Vá à barraquinha de cachorro-quente na entrada da 214 sul. Os preços não são os melhores, mas a pasta de alho dos caras é sensacional. Não recomendo, porém, comer um desses antes de cair na noitada se você tiver planos pra falar de perto com alguém.

Para os que preferem gastar com gasolina e poupar com comida, no Guará, perto do Pão de Açúcar – não sei o endereço exato, desculpe – tem uma lanchonete que vende um sanduíche homônimo sugestivamente chamado “A bomba”: um X-Tudo com refrigerante que sai pela bagatela de R$ 4,00. É possível encontrar semelhantes mais baratos na rodoviária do Plano Piloto, mas eu não recomendo. Ainda não entendi como a vigilância sanitária não fechou as barracas de lá.

Se o seu negócio é comer algo de dia e um pouco mais natureba, vá à Zimbrus, na 305 sul. Até eu gosto da salada de lá. Por R$ 10,90 é possível montar uma salada grande que alimenta duas pessoas normais. Se você é igual a mim e come com voracidade, como se estivesse amarrado há três semanas, coma sua folhagem sozinho. São 8 itens, mais 3 frios mais um molho. Eu geralmente peço alface, milho, ervilha, palmito, cenoura, beterraba, batata palha e croutons com mozarela de búfala, peito de peru e presunto. Como molho minha escolha é mostarda com mel.

Eu poderia viver só disso. Disse o cara que não é chegado em saladas.

Se você preferir alguma coisa não tão natureba, a Zimbrus também tem várias opções de sanduíches, massas, grelhados, sucos, vitaminas, etc, etc, etc. Eu gosto do açaí cremoso que fazem lá.

Mas se é pra tomar um açaí bom e barato, vá – às quartas-feiras – às lanchonetes que ficam na comercial da 706/707 norte, em frente ao McDonalds. Eles fazem promoção de açaí 500 ml a R$ 2,50. Compre para a semana inteira e mantenha na geladeira, se for muito viciado nesse tipo de coisa.

Pra poupar mais dinheiro ainda, ao pedir pizza ligue para a Pizzaria Genérica: 3347-0207. Pizza grande com boa diversidade de sabores a R$ 9,90 + taxa de entrega (acaba saindo por uns R$ 11,90, se você mora na Asa Norte).

Mas se você não tá tão na pindaíba assim e pode pagar uns R$ 25,00 numa pizza com molho de tomate (o que é surpreendente para os padrões de Brasília), vá à Baco da 409 sul. O sabor da sua pizza é o de menos, mas lembre-se de pedir a massa fina! Ao fim, coma a sobremesa deles chamada “Morangos Bêbados”.

Se não quiser cruzar o eixo monumental e ainda está a fim de curtir uma pizza decente, vá à Felicitá (306 norte) e peça uma de palmito, só para se surpreender ao ver que eles não economizam nos ingredientes. Aliás, se quiser levar sua namorada pra um jantar bacana E barato, lembre-se desse restaurante. Eles têm ótimas saladas (a Capricciosa em especial) e pratos muito, muito bons (eu recomendo o frango à parmegiana com talharim ao molho de alecrim).

Depois de comer tanto, se estiver a fim de um expresso, um capuccino, um café irlandês ou qualquer coisa relacionada a café, vá ao cyber café do posto da torre. E peça um pedaço da torta de chocolate deles, que merece mérito quádruplo: pelo sabor, pela quantidade de recheio, pelo tamanho da fatia e pelo preço.

Compre muitos engovs e bom apetite.

Cinematócitos

À Procura da Felicidade vai alimentar o sadismo de muita gente que diz que gosta de ver histórias de “superação”, quando na verdade curte mesmo é ver outros seres humanos se fodendo bonitamente sem, contudo, perder a cabeça e chutar o balde.

Babel não me pareceu um filme ruim, mas me abstenho de comentar. E não faço isso porque não gostei, seria simplificar o inexplicável. Mas – já disse e estou repetindo – não quero dizer que não caiu no meu gosto porque é ruim, até porque acho que seria bem virulento da minha parte fazer uma afirmativa tão descabida. Direi o que disse a todo mundo que me perguntou o que eu achei:

- Vá ver e tire suas próprias conclusões. As minhas são inconclusivas.

Mais Estranho Que A Ficção também não é ruim. Mas se não disse que Babel é ruim, esse não ouso dizer que é bom. Tem seus momentos. Até diverte, se você tiver boa vontade. Talvez valha o preço de uma meia entrada em meio de semana. Ou o custo da locação de um DVD, quando for lançado, quem sabe. Pelo menos Will Ferrel convence, o que já é muita coisa (ainda mais para mim, que não vou muito com a cara dele e acredito serem tremendamente questionáveis seus dotes “humorísticos”).

Sobre Casino Royale, preciso me controlar na hora de falar a respeito. Há tempos não me empolgava tanto numa cadeira de cinema. Finalmente o agente 007 conseguiu sair – de forma violenta, diga-se de passagem – da bolha de antipática letargia na qual eu o mantinha desde meu primeiro contato com outros atores que não o velho Sean Connery interpretando o papel. De todo modo, enquanto via Daniel Craig cobrir malfeitores de porrada com a brutalidade de um lutador de vale-tudo, um pensamento me veio à mente: é estranho que em tempos de metrosexualismo e posturas politicamente corretas, personagens assumidamente caminhoneiros façam tanto sucesso. E não digo apenas no cinema. Se nas telas grandes temos o agente James Bond agindo com inesperada incivilidade, nos videogames um dos jogos de maior sucesso atualmente traz como personagem principal um sujeito que ainda irei colocar como símbolo da comunidade Clube Irmão Caminhoneiro Shell: Kratos, de God of War, conseguiu expandir meus conceitos de grosseria a níveis inteiramente novos.