Archive for Abril, 2007

Informativo

Caríssimos insetos, vermes e leitores em geral.

Vou começar agradecendo a todos os que opinaram na caixa de comentários do texto que postei há algumas semanas, pedindo opiniões quanto à mudança de aparência desta página canhestra: obrigado a quem opinou.

Em seguida acho importante mandar tomar no cu todos os que lêem isso aqui em silêncio e se recusaram a dar uma mera opinião, coisa que nunca matou ninguém (ok, talvez já tenha matado, mas aqui não seria o caso): vai tomar no cu quem ficou sem dizer nada.

Dito isso, vamos ao que realmente importa.

- PUTARIA! AEEEEE!

Não, nada de putaria por enquanto. Salvo uma ou outra referência ao PFL, esse aqui ainda é um blog de família.

Apesar de todas as opiniões que foram expostas em repúdio às mudanças na página (seus reacionários do caralho), o blog vai acabar passando por determinadas modificações. Não vou ser muito específico a respeito porque por enquanto está tudo na base da discussão. O grande Jaime surgiu com uma proposta interessante (que não envolve nada homossexual, antes que presumam que resolvi abraçar meu lado mais florido e começar a queimar o reimiscleyves) que decidi aceitar.

A aparência do blog talvez mude, entre outras coisas. Espero que os leitores dos quais eu gosto levem em consideração que, ainda que o blog fique diferente, o autor permanecerá o mesmo. Acredito que apenas isso importe. O resto é firula, viadagem, floreio, nhenhenhem, mimimi, balacobaco e ziriguidum.

Também tenho esperança que os leitores dos quais eu NÃO gosto sejam atingidos por aerolitos flamejantes durante o sono passem a achar que o blog ficou muito diferente depois da mudança e nunca mais visitem isso aqui.

Mas esse é um daqueles sonhos bestas que são alimentados pela fé estúpida que ainda mantenho na humanidade - até nos que considero indignos de serem chamados de “humanos”.

- Mas como eu vou saber se sou um leitor querido ou se você quer que eu seja esmigalhado por great balls of fire pare de te visitar?

Você não vai, a menos que pergunte diretamente a mim num dia em que esteja disposto a ser descaradamente sincero. Quis apenas informá-los das mudanças vindouras. Estejam cientes que as coisas vão mudar por aqui.

Menos eu, claro.
Continuarei a mesma merda de sempre.
Já aprendi a conviver com isso, acredito que vocês também.

ATUALIZAÇÃO: Não é que eu tenha ignorado solenemente as opiniões de vocês. Garanto que não foi o caso. Eu já tinha decidido seguir a vontade da maioria e deixar as coisas como estavam. Mas as mudanças que virão não serão relativas apenas ao layout, por isso minha decisão. Tenham paciência que tudo ficará claro em breve. Semana que vem, no mais tardar.

Resoluções (levemente reescrito)

Tudo o que se ouvia na sala era uma respiração compassada, gutural e profunda, quase um rosnado, à qual, eventualmente, seguia-se o sorver leve de algum líquido e o tilintar de pedras de gelo contra o vidro. Os olhos acostumados à claridade demorariam algum tempo para enxergar o vulto do homem sentado na poltrona, imóvel, copo na mão esquerda, firme, olhar fixo na parede, implacável, pés batendo contra o chão, nervosos, punho direito fechado, tenso.

Chegara a uma certa fase da vida em que as coisas se confirmam como impossibilidades. Aquele momento, entre os 30 e os 40, quando chega-se à conclusão que a fama é só um delírio juvenil a ser esquecido e a fortuna não passa de uma impossibilidade. Quando se nota que a vida, ordinária, caminha para uma aposentadoria patética, rotinas tediosas e a mesmice nojenta que conforta o espírito dos conformados.

Passavam por sua cabeça todas as possibilidades que perdera. Talvez devesse ter entrado no exército, fosse designado para monitorar as fronteiras e vivesse uma existência emocionante, mesmo que mal-remunerada, lutando contra traficantes de drogas e caçadores ilegais. Teria cicatrizes profundas causadas por acidentes memoráveis, marcas de tiros e histórias para contar que prenderiam a atenção até do ouvinte mais dispersivo.

O exército talvez tivesse sido boa idéia.

Poderia ter-se tornado agente da polícia federal. Não correria o risco de levar mordidas de animais peçonhentos, mas iria atrás de figurões sem brios, teria altercações homéricas com aqueles que se achassem grandes demais para se submeter ao jugo da justiça, humilharia os poderosos, montaria emboscadas, estudaria evidências e teria sua inteligencia constantemente desafiada por criminosos brilhantes.

A vida na PF não teria sido ruim.

Deveria ter ido para outro país. Viver outra vida. Ser outra pessoa. Deixaria para trás todos os seus conhecidos e viveria no mais completo ostracismo. Faria novos amigos, constituiria nova família, esconderia suas raízes. Seria uma folha em branco, poderia se reescrever como preferisse. Passaria a pensar em outro idioma, modificaria suas lógicas, derrubaria suas certezas. Ergueria um novo eu das cinzas do esquecimento forçado de quem fora.

Pensava em tudo o que poderia ter sido e só lhe ocorria que desperdiçara sua existência com frivolidades. Tudo o que lhe disseram que era importante perdera completamente o significado. Seu diploma, emoldurado na parede, não queria dizer nada. Era só mais um atestado de mediocridade. Seu emprego, seu salário, sua casa, seu carro, seu casamento desfeito, seus filhos inexistentes, pré-abortados em camisinhas e pílulas anticoncepcionais, suas idéias, pré-concebidas, encontradas em livros de homens que sabiam muito mais do que ele jamais saberia. Eram nada.

Ele era nada.

Pensou em suicídio, mas até isso lhe pareceu lugar-comum em sua vida de clichês. Considerou deixar-se abater completamente, afundar na depressão, ceder ao alcoolismo, à s drogas, aos vícios, abrir mão do autocontrole e lançar-se na insondável inconsciência dos toxicómanos. Imaginava que ser tão patético poderia tornar sua vida mais divertida, quando foi desviado de seus devaneios existencialistas por um barulho no canto da sala, o raspar de unhas contra os tacos de madeira do chão.

Ganhara um filhote de cachorro há poucos dias. Presente de sua irmã, que identificou com sucesso seu estado de espírito. “É um bichon frisé”, ela disse, e justificou um presente tão trabalhoso argumentando que nem mesmo toda aquela rabugice resistiria ao bicho mais fofo do mundo.

E tinha razão. Ele acendeu a luminária e lá vinha o filhote, com passos trôpegos, arrastando a custo um pé de chinelo maior que si mesmo, esbravejando, como que tentando dobrar a vontade férrea de um inimigo inexorável. Assistindo à cena, ele sorriu. Gargalhou. Tomou o pequeno animal no colo, afagou sua cabeça, sua pelagem macia. O bichinho era um lampejo de jovialidade no ambiente melancólico do apartamento.

Jogou-o no liqüidificador. Ia ligar o aparelho quando se deu conta da loucura que fazia.

Bater algo tão sólido totalmente a seco provavelmente danificaria o motor e as lâminas do aparelho, então derramou também o uísque do copo que segurava, para facilitar o processo. Ligou o eletrodoméstico. Observou durante alguns minutos, enquanto a massa branca tornava-se rósea e, por fim, vermelha. Deixou a mistura rubra batendo enquanto recolhia as chaves para ir à padaria.

Resolveu começar a fumar. Se não fosse o primeiro passo para mudar sua vida, serviria ao menos como início da caminhada em direção à morte lenta e dolorosa dos cancerosos.

A perdição dos inocentes

Amigos e Irmãos.
Jagshemash.
Namastê.
Paz e Luz.

Hoje o Across veio me perguntar onde eu consegui SimCity 2000. Esse pobre rapaz ingênuo desconhece os meandros da infernet, Cristão que é, e não está familiarizado com ferramentas demoníacas para a disseminação do pecado, como os Torrents e os programas de P2P.

Para não conduzi-lo a tais antros de perdição cibernética, para manter sua singular pureza telecomunicacional, resolvi que, em vez de indicar-lhe tais métodos desabonadores de conduta, seria melhor, por ora, fazer um pequeno esforço e hospedar o arquivo de instalação do jogo no rapidshare, que não é - ainda - um utilitário online tão ímpio quanto os supracitados.

Como é um desperdício fazer o upload de 20 mb para deleite de apenas uma pessoa, deixo aqui o link para quem quiser pegar o jogo também e se entreter criando cidades em um software com quase 15 anos de estrada, gráficos pixelizados, som midi e gigabytes de diversão:

Dá uma pegadinha.

E sê feliz, Irmão.

[ATUALIZAÇÃO]
O arquivo anterior tinha uns 20 mb e dois vírus.
Removi os vírus. O arquivo atual tem pouco mais de 6 MB. Deletem o antigo e baixem o novo. E desculpem por qualquer inconveniente que eu possa ter causado distribuindo softwares malignos para vocês, pobres noobs incautos.

Associações multimídia

Falando em livros, uma das minhas grandes diversões ao ler é dar rosto aos personagens. Geralmente escolho atores, modelos ou conhecidos que acredito serem parecidos com determinados personagens (ou pelo menos aptos a encarnar o papel). No caso do Retrato de Dorian Gray, em particular, abri uma exceção ao não escolher atores ou conhecidos para “interpretar” os personagens dentro da minha cabeça. Porque um ponto no qual o autor toca insistentemente é a aparência do protagonista (o que é inevitável, sendo que trata-se de um livro sobre um quadro). De acordo com a descrição feita do rapaz, ele teria longos cabelos loiros e lábios vermelhos e finos. Isso corresponde a dizer que ele tinha cara de mulherzinha.

Como não conheço nenhum ator com cara de menininha - e não tava a fim de ficar imaginando a K.D. Lang vestida com roupas do século passado retrasado, tive que chutar o balde. Então o escolhido para interpretar Dorian Gray na minha mente foi Hector, de Castlevania: Curse of Darkness:

Dorian Hector Gray

Já a descrição do quadro diz que a figura de Dorian estaria com os lábios semi-abertos e o olhar distante, meio com cara de embasbacado, então acho que o quadro possa ser representado por essa imagem:

O retrato de Hector Gray.

Ambos têm cara de mulherzinha. A diferença é que o Hector desce o sarrafo bonitamente em qualquer um que cruzar seu caminho (com exceção do Trevor Belmont, mas a culpa não é dele, já que os Belmont são provavelmente a família mais apelona e barraqueira da história da humanidade, seguida de perto pelos Gracie), enquanto o Dorian faz jus a sua cara de modelo de propaganda da Pampers.Para ficar mais fácil imaginar os personagens dialogando, mantenho as referências a Castlevania e acredito que o Henry Wotton poderia ser bem parecido com o Saint Germain:

Henry Saint Germain

Basil Hallward, por sua vez, se parece com esse cara cujo nome eu esqueci completamente:

Basil… ehr… quem?

Eu até criaria um blog só pra fazer associações entre personagens de livros e atores, mas não tenho a menor vontade de perder meu tempo com isso.
Porque não.

O Retrato de Dorian Gray

Numa daquelas promessas de fim/começo de ano (depende da perspectiva de cada um, como quase tudo na vida), resolvi que iria ler mais em 2007. Já expliquei diversas vezes o processo de afastamento que tive dos livros, por volta dos 18, 19 anos, e é realmente difícil lutar contra uma decisão tão drástica, mas contra a qual ainda não encontro argumentos bons o suficiente.

Mas se as brigas difíceis não fossem as mais divertidas, eu nunca teria gostado de Mega Man X, em primeiro lugar.

Então esse ano reli o segundo volume de Musashi e, em seguida, engatei com Espinosa Sem Saída. Ao terminar esse último, parti para O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde.

A princípio achei que terminar o volume seria uma daquelas tarefas penosas, sofridas mesmo, e que talvez fosse melhor desistir. Sondei a possibilidade de saltar direto para Memórias de Adriano, mas contive esse impulso e resolvi dar cabo da empreitada à qual me propus. “O Wilde é ruim, mas não é pior do que eu”, pensei.

Grave erro. Gravíssimo. Começando pelo fato do Retrato de Dorian Gray não ser ruim. Só é um tanto arrastado no começo. Por conta de sua experiência como escritor de peças de teatro - acho eu -, Oscar Wilde prepara demais o terreno para o ponto principal da trama - o quadro que envelhece. Apenas por volta do quinto ou sexto capítulo comecei a pescar frases e diálogos realmente interessantes no livro. Apenas no sétimo se dá a primeira mudança na pintura. A partir daí, salvo um trecho demasiadamente longo - porém divertido, em certas partes - no qual a história pára apenas para descrever em minúcias alguns apetrechos colecionados pelo protagonista, o autor deve ter percebido que terminar o livro talvez fosse uma boa idéia e engatou a segunda.

A tradução que tenho em mãos merece menção. Foi feita em 1919, por um tal João do Rio, autor que desconheço, se me perdoam a franqueza (e a ignorância). A edição, entretanto, não é antiga: foi impressa em agosto do ano passado e é da Editora Hedra. A decisão de fazer uso de uma versão tão antiga do texto traduzido é longamente explicada na introdução do livro, que tem bem umas 15 páginas (e que eu não tive saco pra ler até o fim), e passa longe de ser uma má escolha. Em comparação com alguns trechos que li em inglês, o estilo de escrita, dadas as devidas diferenças entre os idiomas, se mantém praticamente inalterado.

O que quero dizer é o seguinte: acredito ser muito difícil não deixar certos aspectos da sua personalidade transparecerem naquilo que você escreve. Sou, por exemplo, incapaz de redigir qualquer coisa que não soe sarcástica ou rabugenta. Esse sou eu, afinal de contas, e, por mais que seja capaz de filtrar tais defeitos ao conversar com alguém pessoalmente, não vejo como dirimi-las nos meus textos.

Oscar Wilde, por sua vez, devia ser um sujeito extremamente afetado, e não sei se era assim por ser inglês ou por ser viado. E João do Rio, que não sei se também era viado, mas sei que não era inglês, foi capaz de manter toda a afetação presente em sua tradução.

Lógico que isso não é um defeito, tampouco uma qualidade, a menos que você seja homofóbico ou goste muito de uma bichice. É apenas uma peculiaridade (facilmente) perceptível.

Algumas passagens do texto são tão interessantes que, sempre munido da minha lapiseira, chego a grifar os trechos que mais gosto. Transcrevê-los-ei abaixo:

“O único processo pelo qual uma mulher chega a reformar um homem é o da importunação a ponto de perder ele todo o interesse possível na existência”

“Quando nos censuramos, supomos que nenhum outro tem o direito de fazer o mesmo.”

“Há sempre qualquer coisa de ridículo nas emoções das pessoas que já deixamos de amar.”

“A experiência não tem valor ético. É somente o nome que os homens dão a seus erros.”

“Os únicos artistas que conheci pessoalmente deliciosos eram maus artistas. Os verdadeiros artistas só existem no que produzem e, conseguintemente, as suas pessoas não oferecem interesse algum. (…) Os poetas inferiores são os homens mais sedutores. O simples fato de haver publicado um livro de sonetos de segunda ordem torna um homem perfeitamente irresistível. Este vive o poema que não consegue escrever; os outros escrevem o poema que não ousam realizar.”

“Os verdadeiros fúteis são os que amam só uma vez na vida. O que eles chamam a sua lealdade ou fidelidade eu classifico o sono do hábito ou a sua falta de imaginação. A fidelidade é para a vida sentimental o mesmo que a estabilidade é para a vida intelectual - simplesmente uma confissão de impotência. A fidelidade! (…) Há nela a paixão da propriedade. Abandonaríamos muitas coisas, se não tivéssemos o receio de que outros as recolhessem.”

O livro todo já mereceria atenção só pela primeira frase.

Leia. Wilde é um sujeito que sabe o que diz.