Quem me conhece pessoalmente sabe que me encontrar barbeado é quase tão raro quanto ver gol de bicicleta, assistir a uma campanha decente do SPFC ou conhecer um corintiano que saiba o que é um polissílabo (comparações futebolísticas apenas para dar ao texto homoafetivo a seguir a leve impressão de masculinidade).
Sinceramente, sempre faço a barba a contragosto. Apesar de odiar as perguntas e comentários que sempre tenho que ouvir ao cultivá-la - coisas como “Você pinta sua barba?”, “Sua barba é vermelha!” ou “E aí, barba-ruiva?” -, me sinto melhor quando ignoro seu avanço, pois acredito que só é realmente livre o homem que pára de uma vez por todas de se barbear e cortar o cabelo. Que abraça seu lado viking, náufrago, dorme-sujo, chame como quiser. Gostaria de ser capaz de tamanha abnegação em relação à minha aparência, mas não sou. Se há vaidade em mim - e sabemos que há, sejamos francos - ela se manifesta justamente no meu cabelo. Não consigo me olhar no espelho, vê-lo transformado numa estrutura que mais parece um ninho de ratos e conviver bem com o fato. Pro inferno com as mulheres que gostam de homens de cabelos desarrumados. A despeito da modinha imbecil que se espalha por aí - e que tem, como expoente, o vencedor do Big Brother -, tenho horror a cabelo arrepiado.
Em mim, claro. Nos outros, cago e ando.
Por isso, toda vez que corto minhas madeixas é a mesma ladainha. Penso “Ok, chega, essa foi a última vez, a partir de hoje vou deixar crescer a juba e externar o Jesus Cristo que existe em mim”. Menos de dois meses depois, lá estou eu de novo, angustiado com minha franja enorme, com minha nuca coberta e com os insuportáveis tufos castanhos obstinados que continuam caindo na minha cara. Vou ao barbeiro, peço a ele para dar cabo do problema e, quarenta e cinco minutos a partir daí, volta a me ocorrer que aquela será a última vez.
Com a barba a situação é um tanto diferente. Realmente não dou a mínima para a quantidade de pêlos no meu rosto. Poderia ficar parecido com um integrante do los hermanos e, ainda assim, viveria feliz. O que me leva a raspar a pele com uma lâmina capaz de circuncidar um filhote (judeu) de pernilongo não tem nada a ver com vaidade, mas com irritação. E digo no sentido físico e emocional da coisa. Primeiro vem a irritação física e meu rosto coça. Como um São Bernardo que passou tempo demais vadiando com cachorros de rua, arranho e esfrego a cara furiosamente, mesmo enquanto durmo. Daí vem a parte emocional. A coceira me deixa irritado e decido que é hora de dar cabo da aparência de mendigo.
Com o tempo, entretanto, fui percebendo (e agora vou me aprofundar na frescura, fica olhando) que minha pele, que deixou de ser um bumbum de bebê assim que a puberdade me atingiu como um ônibus desgovernado, ficava ainda pior quando eu deixava a barba. Os pêlos retinham a oleosidade, acentuando o crescimento de cravos e espinhas.
Meu histórico com espinhas vai longe. Aos 14 anos talvez fosse possível ralar um bom pedaço de queijo parmesão no meu rosto. Como nunca tive saco pra ficar em frente ao espelho passando creminhos e sabonetinhos especiais, tampouco era suficientemente desinteressado ou contido a ponto de tolerar caroços amarelos no meio da cara, não só não tratava adequadamente o problema da acne como ainda espremia. É nojento, mas é verdade.
Cansada de ver o neto que ela sempre achou tão bonito (amor de vó é cego, para a sorte dos netos feios) destruir seu rosto, um dia minha vó me conduziu - sem minha aprovação, que só a acompanhei por achar que a consulta era para ela - até um dermatologista que me passou um tratamento drástico. Doze meses de Roacutan, lábios rachados e sangrando e muitos batons de cacau depois, passei a ter a aparência que tenho agora (ok, uns 9 anos mais jovem, mas deu pra entender).
Que não é grande coisa, mas pelo menos não pareço um veterano de guerra que levou na cara os fragmentos de um morteiro.
Certo, e onde pretendo chegar com essa história? Bom, o fato é que não deixei de ter espinhas completamente (salvo nos seis últimos meses de tratamento de choque). Vira e mexe ainda me surge alguma coisa. Costumo ter paciência ao lidar com o problema (leia-se: espremo e não trato), mas há algumas semanas aconteceu a gota-d’água. A besta do apocalipse se incorporou na minha têmpora direita. Tava vendo a hora em que receberia uma notificação dos correios informando que aquele inchaço monstruoso teria CEP próprio. Sério. Se você procurar bem no google earth, garanto que encontra minha espinha da têmpora.
O negócio é que agora tenho um quarto de século. A época da acne - teoricamente - acabou faz tempo. Não vejo mais razão para me sujeitar a essa babaquice glandular da qual meu organismo simplesmente não desiste. Fui a uma farmácia e, para não ter que pagar o valor nababesco de um roacutan, fiz o impensável: comprei um bisturi e arranquei toda a pele da cara. Virei o Caveira Vermelha, inimigo do Capitão América.

É mais ou menos assim, ó!
…
Ok, é mentira. Na verdade, comprei uns troços pra pele. Um gel secativo, um adstringente e um sabonete esfolante (sou contra aquele “i” que eles colocam no meio dessa palavra para diminuir o impacto do fato das pessoas se esfolarem voluntariamente). Passei a usar os produtos regularmente. E notei certos problemas que não ocorriam quando eu era adolescente, imberbe, pueril e menos áspero (em todos os sentidos). O primeiro é relativo à minha barba, e foi por isso que comecei o texto falando da minha (in)freqüência gilética. Se não me barbear regularmente, torna-se praticamente impossível cuidar direito do meu rosto. Primeiro porque o sabonete esfolante é incapaz de esfolar essa lixa que se tornou a minha cara. Quem acaba esfolado é ele, enquanto eu fico com enormes nacos de sabão no queixo, pescoço e bochechas. Com o tal adstringente acontece processo semelhante. O algodão que uso para aplicar o produto vai se desfazendo no cacto que é meu rosto e, quando termino a aplicação, lembro uma versão cancerosa do papai noel, recém-saído de uma sessão de quimioterapia, com montículos de barba branca aqui e ali, o que restou após tão pesado tratamento.
Em suma: cuidar das espinhas está me forçando a manter a barba feita.
Eu odeio fazer a barba.
Odeio passar loçõezinhas, creminhos e coisas do gênero.
Odeio essa maldita pele que parece verter óleo como uma enorme azeitona.
Cuidar da pele vai contra tudo que o Clube Irmão Caminhoneiro Shell prega. Me sinto um traidor do movimento (retilíneo uniforme).
O lance de comprar o bisturi e virar o Caveira Vermelha já não parece tão ruim…