Arquivos mensais para May, 2007Page 2 of 2

Beco

As pessoas deviam ter dados claros, numéricos, expostos em um visor LCD em qualquer parte geralmente visível do corpo. Em um dos antebraços, talvez, onde seria fácil verificar sua situação atual. As crianças nasceriam e, para saber das probabilidades de sucesso em carreiras profissionais, seria preciso apenas verificar a tela brilhante. O médico diria:

- Parabéns, é um menino. E com grande vocação para os números.

A princípio todas as habilidades seriam expostas assim, de maneira bruta. Os stats seriam pouco específicos. Algo como “Letras - 11%; Noções de espaço - 17%; Trabalhos manuais - 48%; Números e raciocínio lógico - 28%; Aptidão física - 30%”. À medida que as pessoas fossem crescendo, suas habilidades sendo desenvolvidas, os itens se dividiriam em submenus. Sob o item “letras” haveria outros campos, como “leitura e interpretação, expressão escrita, expressão oral”. Quando uma dessas aptidões atingisse sua capacidade máxima seria impossível levá-la adiante, não importando o que a pessoa fizesse.

Porque aqui, assim, como somos, será que dá pra saber quando você atingiu o topo da sua capacidade em alguma coisa? Quando chegou ao fim da estrada, quando é hora de partir para sub-itens dentro da atividade que resolveu exercer? Não dá pra saber.

Passamos anos e anos polindo - ou tentando polir - alguma coisa para a qual acreditamos ter vocação, dom, talento, chame como quiser, sem perceber que tudo o que fazemos é, repetidamente, enfiar a cara na gigantesca muralha que não nos permite - nem vai permitir - seguir adiante. Atingimos os 100% e, infelizmente, nossos 100% correspondem aos 32% dessa ou daquela pessoa que admiramos tanto e cujos passos tentávamos seguir.

Mas, enquanto as pegadas deles vão montanha acima, as nossas param no sopé de um morrinho mixuruca.

As coisas são para quem pode, infelizmente, não para quem quer, ao contrário do que toda a literatura de auto-ajuda faz questão de dizer aos infelizes que, incapazes de respeitar suas inaptidões, envergonham a si mesmos e a todos os outros empáticos o suficiente para sentir vergonha alheia.

Digo isso porque, a cada dia que passa, torna-se mais forte minha impressão de estar tentando forçar um paredão que vai mais longe que a vista alcança. E se estiver apenas batendo de frente, sem sucesso, sem sair um centímetro do lugar? E se tudo o que eu já desenvolvi for, afinal de contas, tudo o que eu vou desenvolver e fim de papo?

Saudade da época em que simplesmente não me preocupava com isso. Achava que era bom o suficiente em tudo o que fazia e não dava a mínima se iria melhorar ou não, até porque achava que não precisava. Quando paro pra pensar, vejo que era tudo uma grande porcaria, na verdade, mas pelo menos eu estava satisfeito.

Preciso reaprender a me satisfazer com pouco. Porque melhorar está fora de cogitação.

Propaganda (mais que merecida) para um amigo.

Garanto que ele não tá me pagando um centavo pela publicidade.
E eu também não ganho comissão por exemplar vendido.

Mas pense comigo: se a propaganda do livro é tão foda e foi escrita pelo próprio autor, é um investimento que vale ser feito.
Pelo menos vai ser fácil de rasgar, convenhamos.

Viadagens, pederastias, baitolices e etc.

Quem me conhece pessoalmente sabe que me encontrar barbeado é quase tão raro quanto ver gol de bicicleta, assistir a uma campanha decente do SPFC ou conhecer um corintiano que saiba o que é um polissílabo (comparações futebolísticas apenas para dar ao texto homoafetivo a seguir a leve impressão de masculinidade).

Sinceramente, sempre faço a barba a contragosto. Apesar de odiar as perguntas e comentários que sempre tenho que ouvir ao cultivá-la - coisas como “Você pinta sua barba?”, “Sua barba é vermelha!” ou “E aí, barba-ruiva?” -, me sinto melhor quando ignoro seu avanço, pois acredito que só é realmente livre o homem que pára de uma vez por todas de se barbear e cortar o cabelo. Que abraça seu lado viking, náufrago, dorme-sujo, chame como quiser. Gostaria de ser capaz de tamanha abnegação em relação à minha aparência, mas não sou. Se há vaidade em mim - e sabemos que há, sejamos francos - ela se manifesta justamente no meu cabelo. Não consigo me olhar no espelho, vê-lo transformado numa estrutura que mais parece um ninho de ratos e conviver bem com o fato. Pro inferno com as mulheres que gostam de homens de cabelos desarrumados. A despeito da modinha imbecil que se espalha por aí - e que tem, como expoente, o vencedor do Big Brother -, tenho horror a cabelo arrepiado.

Em mim, claro. Nos outros, cago e ando.

Por isso, toda vez que corto minhas madeixas é a mesma ladainha. Penso “Ok, chega, essa foi a última vez, a partir de hoje vou deixar crescer a juba e externar o Jesus Cristo que existe em mim”. Menos de dois meses depois, lá estou eu de novo, angustiado com minha franja enorme, com minha nuca coberta e com os insuportáveis tufos castanhos obstinados que continuam caindo na minha cara. Vou ao barbeiro, peço a ele para dar cabo do problema e, quarenta e cinco minutos a partir daí, volta a me ocorrer que aquela será a última vez.

Com a barba a situação é um tanto diferente. Realmente não dou a mínima para a quantidade de pêlos no meu rosto. Poderia ficar parecido com um integrante do los hermanos e, ainda assim, viveria feliz. O que me leva a raspar a pele com uma lâmina capaz de circuncidar um filhote (judeu) de pernilongo não tem nada a ver com vaidade, mas com irritação. E digo no sentido físico e emocional da coisa. Primeiro vem a irritação física e meu rosto coça. Como um São Bernardo que passou tempo demais vadiando com cachorros de rua, arranho e esfrego a cara furiosamente, mesmo enquanto durmo. Daí vem a parte emocional. A coceira me deixa irritado e decido que é hora de dar cabo da aparência de mendigo.

Com o tempo, entretanto, fui percebendo (e agora vou me aprofundar na frescura, fica olhando) que minha pele, que deixou de ser um bumbum de bebê assim que a puberdade me atingiu como um ônibus desgovernado, ficava ainda pior quando eu deixava a barba. Os pêlos retinham a oleosidade, acentuando o crescimento de cravos e espinhas.

Meu histórico com espinhas vai longe. Aos 14 anos talvez fosse possível ralar um bom pedaço de queijo parmesão no meu rosto. Como nunca tive saco pra ficar em frente ao espelho passando creminhos e sabonetinhos especiais, tampouco era suficientemente desinteressado ou contido a ponto de tolerar caroços amarelos no meio da cara, não só não tratava adequadamente o problema da acne como ainda espremia. É nojento, mas é verdade.

Cansada de ver o neto que ela sempre achou tão bonito (amor de vó é cego, para a sorte dos netos feios) destruir seu rosto, um dia minha vó me conduziu - sem minha aprovação, que só a acompanhei por achar que a consulta era para ela - até um dermatologista que me passou um tratamento drástico. Doze meses de Roacutan, lábios rachados e sangrando e muitos batons de cacau depois, passei a ter a aparência que tenho agora (ok, uns 9 anos mais jovem, mas deu pra entender).

Que não é grande coisa, mas pelo menos não pareço um veterano de guerra que levou na cara os fragmentos de um morteiro.

Certo, e onde pretendo chegar com essa história? Bom, o fato é que não deixei de ter espinhas completamente (salvo nos seis últimos meses de tratamento de choque). Vira e mexe ainda me surge alguma coisa. Costumo ter paciência ao lidar com o problema (leia-se: espremo e não trato), mas há algumas semanas aconteceu a gota-d’água. A besta do apocalipse se incorporou na minha têmpora direita. Tava vendo a hora em que receberia uma notificação dos correios informando que aquele inchaço monstruoso teria CEP próprio. Sério. Se você procurar bem no google earth, garanto que encontra minha espinha da têmpora.

O negócio é que agora tenho um quarto de século. A época da acne - teoricamente - acabou faz tempo. Não vejo mais razão para me sujeitar a essa babaquice glandular da qual meu organismo simplesmente não desiste. Fui a uma farmácia e, para não ter que pagar o valor nababesco de um roacutan, fiz o impensável: comprei um bisturi e arranquei toda a pele da cara. Virei o Caveira Vermelha, inimigo do Capitão América.

Herr Caveira!

É mais ou menos assim, ó!

Ok, é mentira. Na verdade, comprei uns troços pra pele. Um gel secativo, um adstringente e um sabonete esfolante (sou contra aquele “i” que eles colocam no meio dessa palavra para diminuir o impacto do fato das pessoas se esfolarem voluntariamente). Passei a usar os produtos regularmente. E notei certos problemas que não ocorriam quando eu era adolescente, imberbe, pueril e menos áspero (em todos os sentidos). O primeiro é relativo à minha barba, e foi por isso que comecei o texto falando da minha (in)freqüência gilética. Se não me barbear regularmente, torna-se praticamente impossível cuidar direito do meu rosto. Primeiro porque o sabonete esfolante é incapaz de esfolar essa lixa que se tornou a minha cara. Quem acaba esfolado é ele, enquanto eu fico com enormes nacos de sabão no queixo, pescoço e bochechas. Com o tal adstringente acontece processo semelhante. O algodão que uso para aplicar o produto vai se desfazendo no cacto que é meu rosto e, quando termino a aplicação, lembro uma versão cancerosa do papai noel, recém-saído de uma sessão de quimioterapia, com montículos de barba branca aqui e ali, o que restou após tão pesado tratamento.

Em suma: cuidar das espinhas está me forçando a manter a barba feita.
Eu odeio fazer a barba.
Odeio passar loçõezinhas, creminhos e coisas do gênero.
Odeio essa maldita pele que parece verter óleo como uma enorme azeitona.

Cuidar da pele vai contra tudo que o Clube Irmão Caminhoneiro Shell prega. Me sinto um traidor do movimento (retilíneo uniforme).

O lance de comprar o bisturi e virar o Caveira Vermelha já não parece tão ruim…

Blog diferente, mesmo autor, mesma chatic… deu pra entender.

Bem-vindos, bárbaros.

A partir de agora, quando quiserem se sujeitar aos meus absurdos, é melhor esquecerem aquele endereço do blogspot. Aquilo lá foi desativado pela polícia federal, pelo centro de zoonoses, pela defesa sanitária, por qualquer órgão que você quiser citar. Na verdade, foi desativado por mim mesmo, quando resolvi aceitar a sugestão do Jaime e trazer este mísero blog pra um servidor próprio, apenas para dar a ele um ar - ainda que falso - de coisa importante.

Embora pareçam drásticas, as mudanças aqui não são tão grandes. Mesma pessoa escrevendo, mesmas pessoas lendo. Isso, acho eu, é o mais importante. O resto é supérfluo. Mas, entre essas superficialidades, algumas são divertidas. Pra começo de conversa, ficou muito mais fácil encontrar, na gigantesca pilha de porcarias já publicadas nessa baiúca, algum trecho em particular. Aquela barra de pesquisa ali em cima funciona e funciona bem, então não tenha medo de usar. As páginas de arquivos deixaram de ser enormes blocos gigantescos acumulando todos os textos para se tornarem links simples indicando cada um dos títulos. O que também acaba facilitando a vida de quem estiver procurando por algo em particular.

Quem ainda achar que o melhor é navegar por páginas cheias de textos pode se contentar com os marcadores, com os arquivos aqui do lado direito. Ou pode descer até o pé da página e clicar no link que tem lá, onde se lê “textos anteriores”. Qualquer que seja o rumo tomado, é possível passar por tudo o que já foi dito aqui, inclusive comentários.

Por falar em comentários, agora eles abrem na mesma janela dos textos. Não posso dizer que isso me deixa feliz, prefiro tê-los em uma janela separada. Mas apenas por enquanto, só até que eu aprenda a mexer direito nas configurações desse troço, esse pequeno detalhe não vai matar ninguém. Os links também abrem na mesma janela, aliás, então lembrem-se que o shift serve pra isso.

Acredito que o rss também não esteja muito bem configurado, mas, quanto a isso, não me preocupo: por mim, o blog nem teria esse troço. E, mais importante, sou contra quem usa essa porcaria. Não vejo justificativa alguma pra feeds e aquela conversinha de “ler os blogs pelos feeds me ajuda a poupar tempo” é balela da grossa. Quem está tão preocupado assim com o uso do tempo sequer deveria ler blogs. No blogspot eu fazia questão de enviar apenas o começo dos textos para o atom.xml só para forçar os usuários do google reader, bloglines e semelhantes a visitar a página para concluir a leitura.

Esses são os únicos leitores cuja vida eu faço questão de azucrinar. Só por esporte.

Enfim. Com o tempo todos esses detalhes a serem arrumados serão resolvidos, não se preocupem. O trabalho grosso já foi feito.

Alguns detalhes também não foram inseridos (ainda), porque estou imaginando uma maneira de colocá-los aqui sem superlotar (mais) a barra lateral. Como o meebo, por exemplo, e alguma informação sobre o viking que escreve aqui (esse sou eu). As informações sobre mim, entretanto, são dispensáveis. Creio que vocês não querem saber e, ainda que queiram, eu não quero compartilhar. Cada uma dessas coisas virá no tempo certo.

Por fim, como se isso aqui fosse uma maldita cerimônia do oscar, acho justo que o texto termine com um parágrafo de agradecimentos:

Obrigado ao Jot, que teve paciência pra me ajudar com um detalhe particularmente pentelho no css do blog e, mais importante, obrigado ao Jaime por sua paciência monástica, durante duas semanas, para comigo e com minhas perguntas, reclamações, sugestões e comentários estúpidos.

Agora chega dessa porra e vamos ao que interessa.