Monthly Archive for June, 2007

Don’t look back in anger

Às vezes, lendo e-mails antigos, posts antigos, arquivos antigos, logs antigos, revirando, enfim, as memórias da minha vida compreendidas entre o primeiro barulho do modem 14400 USRobotics do Pentium 166 que eu tinha em casa quando comecei a acessar a internet, em meados do ano 2000, e a chegada do Mr. Hyde, quando o Utopia deixou de existir de verdade, quando me enclausurei para voltar mais centrado, mais desapegado, talvez, bate uma certa melancolia.

Não é exatamente saudade daquela época, mas também não deixa de ser. Não é que eu queira refazer as coisas, acho que tudo o que fiz teve as melhores conseqüências possíveis.

Sendo mais claro, a melancolia acontece ao perceber quantas pessoas conduzi para fora da minha vida. Das mais diversas maneiras. Para algumas apenas apontei a porta da rua, outras levaram empurrões. Houve quem fosse chutado, como um cão sarnento e mal-cheiroso que ninguém quer ter em casa.

Toda aquela impulsividade entre o fim da minha adolescência e o começo da minha adultice traduz-se atualmente na forma de uma gigantesca lista de ex-conhecidos que eu sei que existem, que sabem que eu existo, com quem eventualmente esbarro e que às vezes esbarram comigo. Gente com quem não troco sequer um bom-dia. Olhamo-nos em silêncio, quando muito, e o rancor no ar é palpável. Geralmente da minha parte, às vezes da parte deles. Com sorte é recíproco. Não são “inimigos”, inclusive porque acho o termo muito forçado. Dramático, até. “Adversários” e “antagonistas” também não me soam bem. Não disputamos nada, afinal de contas.

São desafetos. Esse é um bom nome.

O mais engraçado é que, se me perguntarem, lembro bem melhor dessas pessoas do que daquelas com quem perdi contato de forma natural com o passar do tempo. Pergunte-me o nome de cinco amigos perdidos, cinco pessoas com quem conversaria animadamente se nos encontrássemos, gente com quem perdi contato de maneira inexplicável, que foram simplesmente separadas de mim por um desses vagalhões da vida, foram bater noutros costados, mas que sempre serão bem-vindas à bordo se nossas rotas se cruzarem de novo. Pergunte-me sobre cinco dessas pessoas e terei dificuldade em me lembrar delas.

Pergunte, por outro lado, os nomes de cinco pessoas que enxotei da minha vista por qualquer razão e me lembro de vários, uma profusão incontável. Sou até capaz de especificar o que me afastou de cada um, pois divido esses antigos contatos em categorias. Sem esforço, lembro agora da garota que esculhambei e então chutei pra escanteio por ser demasiadamente melindrada, outra que perdeu minha atenção ao me tratar de maneira injusta e pouco condizente com a forma como era tratada por mim, um ex-grande amigo que achava que, por sermos amigos, eu toleraria qualquer comportamento da parte dele, outro que não soube entender que brincadeiras têm limite e mais uma garota que mandei à merda por tentar brincar de morde-e-assopra comigo.

Os e-mails e logs deixam claro. Como fui pungente, grosso, direto e brutal ao tratar com essas pessoas pela última vez. Ainda que o acesso a esses registros não existisse mais, minha memória guardaria todas as ocasiões que funcionaram como divisoras de águas, que determinaram o ponto exato em que todos os laços se rompiam. Relendo e relembrando, às vezes desejo voltar no tempo. Poderia ter sido tão cáustico e direto sem ser tão furiosamente agressivo. Poderia ter dado um basta sem com isso me deixar abater, sem espumar como um cão raivoso, sem mostrar que meus pontos fracos tinham sido cutucados.

Poderia – e isso é o que faço agora, o melhor remédio contra esse tipo de gente – apenas ter sido frio e distante.

Me arrependo pelo meu comportamento, em certos casos, mas não por minhas decisões. Ainda esbarro com muitas dessas pessoas de tempos em tempos, como disse, seja na internet, seja pessoalmente. Elas continuam o que eram: melindradas, traiçoeiras, ingratas. Desse a elas uma nova oportunidade e fariam tudo de novo. Apesar de parecer, graças a várias coisas que escrevo aqui, que sou um louco neurastênico, um pavio-curto pronto a descontar meus problemas no lombo do primeiro infeliz a cruzar olhares comigo, digo, sem qualquer modéstia, que sou das pessoas mais fáceis de se conviver que conheço. Gosto de conversar e resolver problemas utilizando razão e civilidade. Mordacidade e ironia, guardo para quando a situação se mostra insolúvel.

Não sou muito bom em perdoar, tampouco em pedir desculpas, mas sou capaz de tentar de novo, se achar justo. Não seria justo dar a nenhum deles uma segunda chance. O que quer que tenha acontecido, embora eu admita minha sensível parcela de culpa, foi provocado por agentes externos. Quando permito que meus demônios me aticem para cima de alguém, tenho a decência de me desculpar.

Como disse, posso me arrepender pelos meios usados, mas o fim atingido não me desagrada.

Se ainda fizessem parte da minha vida, essas pessoas teriam me dado muito mais dor-de-cabeça. E, deixando de expulsá-las do meu convívio com o rigor de uma freira que pega alunas carpeteando no banheiro do internato, estaria perdendo a chance de me tornar uma pessoa melhor. Aprendi mais escorraçando-as como as pragas que eram do que teria aprendido exercitando a tolerância com quem não merecia.

Colonialismo

- Escuta, não é hoje o aniversário daquela mina lá, não?
- Existem muitas “minas”, meu ambíguo camarada. A qual te referes?
- Àquela que você disse que tava “namorando”.
- Falas da esfuziante Cristina, obscuro amigo?
- Essa aí!
- Deixe-me esclarecer que sua tentativa de implicar que minhas informações sobre o namoro eram meramente devaneios são grosseiras, para dizer o mínimo! Estamos namorando de fato!
- Não estamos nada!
- Dizia de mim e dela, caro galhofeiro!
- Tá, tanto faz. Não é hoje o aniversário da guria?
- Sua informação é verdadeira, ó, bem-informado colega.
- E você tá aqui, nesse boteco, comigo, fazendo o quê?
- Ora! Degustando esta deliciosa bebida produzida a partir da fermentação de cereais maltados, obtuso comparsa.
- Você entendeu! Aniversário da sua menina e você aqui, comigo, em vez de estar com ela?
- Não entendo sua estupefação, meu pasmo parceiro.
- Não entende? Você compreende que uma das diretrizes mais básicas do implícito contrato de mutualidade conhecido como “namoro” diz que os aniversários devem ser passados JUNTOS?
- Você me decepciona, meu tacanho amigo!
- Imagino o quanto.
- Permita-me ilustrar melhor a situação para seu simplório conhecimento, atônito rapaz. Estudaste história?
- É claro que sim.
- Pense, então, em termos de colonialismo europeu. Nós, homens, somos as pequenas metrópoles européias: desenvolvidas, civilizadas, refinadas, porém limitadas.
- Sei.
- As mulheres, por outro lado, são os continentes desconhecidos. Vastos, belos, de abundantes riquezas, as mais variadas e sedutoras possíveis. São, entretanto, incivilizadas, indômitas e, por vezes, assustadoras.
- Tô entendendo.
- Agora imagine nossas tentativas de aproximação como as antigas naus espanholas e portuguesas dos séculos XVI e XVII tentando cruzar o oceano infinito à procura de bens necessários. Nossa conversa sendo a embarcação. É preciso deixá-la ágil, embora bem suprida. Deixá-la forte, mas com alguma fragilidade. Assim ela parte, segura diante do olho destreinado, mas claramente instável para os entendidos do assunto. Lançamo-las ao mar na esperança de chegar em terra e, na maior parte das vezes, naufragamos. Temos sucesso de vez em quando, porquanto somos exaustivamente insistentes.
- “Porquanto” é foda, haja prolixidade!
- Deixe-me com meu belo vocabulário! Como dizia, conquistamos, então, a tão sonhada colônia. Nossa primeira atitude é livrá-la de seus habitantes incivilizados e de hábitos pouco cristãos, por isso proibimos nossas namoradas de usar roupas curtas, freqüentar eventos onde reina a devassidão e a promiscuidade, coisas assim.
- Certo.
- A partir daí, atraímos a confiança da população restante com badulaques e bugigangas de pouco valor, porém chamativas. Espelhinhos, colares e outras manufaturas de baixo custo. Distraímos sua atenção enquanto são evangelizados e submetidos à nossa vasta cultura.
- Verdade.
- Por fim, afastamos os possíveis invasores e declaramos nossa hegemonia sobre o território.
- Saquei.
- Até esse ponto, já sondamos todo o terreno, logicamente. Conhecemos suas reentrâncias, falhas geológicas e clima bem o suficiente para podermos trafegar por ali com relativa segurança.
- Fato.
- Começamos a explorar suas matérias-primas…
- Tá falando das filhas das tias delas?
- Não, meu confuso camarada. Falo de seus favores únicos, das coisas as quais, apesar de todo nosso avanço, não temos como nos auto-suprir, compreende?
- Ah, sim. Os chupiscos, as trepadas e tal.
- Sua falta de tato me constrange, caro troglodita, mas folgo em notar que entendes sutilezas.
- Certo. E depois?
- Depois apresentamos nosso novo território para as metrópoles aliadas. Damos aos dois a liberdade de estabelecer comércio apenas por nosso intermédio. O acesso irrestrito é nosso e somente nosso.
- Justo. E então?
- Bom, nesse ponto somos os senhores do castelo. Nossos soldados estão por ali, cuidando do território e prevenindo insurreições. Tudo o que temos a fazer é, como os monarcas que somos, deixar claro que, apesar da distância, estamos cientes de tudo o que se passa, ainda que não estejamos de fato.
- Só pra não fugir desse teu paralelo maluco, ficar com a sua namorada no aniversário dela não seria uma maneira de deixar claro que o imperador e as legiões estão bem, quero dizer, que a metrópole está atenta ao que se passa na colônia?
- Você se adianta, meu célere ouvinte. Quando nossa supremacia está finalmente estabelecida, temos que partir para novas terras. Ampliar o território. É possível tentar anexar áreas próximas, indo atrás de parentes e amigas delas, mas sabe-se que conflitos entre habitantes locais tornam quase impossível o sucesso em tal empreitada. O ideal é lançar ao mar as caravelas e aportar em novos costados.
- Ok. E em que ponto você está?
- Exatamente neste. No momento espero que minha nova colônia apareça. Meus navios já têm as velas enfunadas e as âncoras recolhidas. Só me falta estabelecer a rota.
- Hm.
- Estou considerando tomar posse dos territórios claudianos.
- Hein?
- Meu desmemoriado aprendiz, lembra-se da Claudinha, aquela mui simpática senhorita que trabalha na videolocadora perto da minha casa? Então. Soube que ela costuma freqüentar este pândego ambiente onde, agora, nos encontramos.
- Ah, sei. Mas acho que não é só ela, não.
- Como assim?
- Olha ali a Cristina chegando com um sujeito.
- Mas hein?!
- Pois é.
- Porra, o que esse cretino tá fazendo com a minha namorada?
- A mim faz parecer, estimado, atraiçoado, acornalhado camarada, que sua colônia encontrou um líder rebelde capaz de livrá-la do cruel jugo monárquico. Devo informá-lo que seus súditos, esta noite, estabelecerão comércio com outros mercados. Hurra! A Revolução triunfou! Bebamos a isso! Garçom, traz mais uma!
- Bah.
- E você fica muito chato quando bebe, diga-se de passagem.

Critérios

- É sério isso! Pra saber se vale mesmo a pena comer determinada mulher, olha bem pra cara dela e imagina como ela deve ficar quando acorda. Se essa simples idéia te causar horror, não vale a pena. Parte pra outra.
- Ou imagina ela cagando.
- Nah. Com algumas mulheres essa regra não funciona.
- Qual regra?
- Imaginar a mulher cagando.
- Com algumas mulheres não funciona.
- É. Eu, por exemplo, não consigo imaginar a Maria Fernanda Cândido. Não dá!

(segundos de contemplação)

- É, não dá.
- Não dá mesmo.

(mais alguns segundos de contemplação)

- É, não dá mesmo, cara.
- Não mesmo. A Maria Fernanda Cândido não tem jeito.
- Mas a Ana Paula Arósio eu consigo! Ela caga nuvenzinhas. Garanto!
- E elas vêm com o logo da Embratel. Faça um 21.

Por essas e outras ir ao Extra de madrugada tomar uma coca-cola é sempre tão divertido.

Gata e rato

- Você sabe que eu gosto de você.

Ela o fitava com olhos lascivos, ouvindo tudo com a atenção desmedida que as mulheres dedicam aos homens quando estão interessadas em mais do que conversa.

- Gosta? – e por “gosta?” ela queria dizer “Mostre o quanto”.
- Claro que gosto. Eu já disse que gosto. Não disse?
- Não sei. Disse?
– e com isso ela queria dizer “Quero te ouvir repetir”.
- Disse. Disse, sim.
- Se você diz…
– e por “se você diz…” ela queria dizer “Seja mais enfático”.
- Digo: disse.
- Então você diz que disse.
– com isso ela queria dizer que ele poderia fazer bem melhor.
- Digo. E, se não disse, acabei de dizer. E digo de novo: eu gosto de você.
- Hm.

Esse “hm” não era um “hm” qualquer. Era um “hm” feminino. E “hm”‘s femininos, como muitos outros grunhidos das mulheres, estão em uma categoria totalmente diferente de “hm”‘s masculinos. Homens fazem “hm” simplesmente por preguiça de dizer “prossiga” ou para sinalizar que entenderam. Mulheres fazem “hm” por milhares de outras razões. Poder-se-ia escrever toda uma tese sobre o que esse “hm” queria dizer, mas seria dupla perda de tempo. Primeiro porque jamais chegaríamos a qualquer conclusão. Segundo porque perderíamos a seqüência do diálogo. Diremos apenas que o “hm” foi sugestivo e, por “sugestivo”, depreenda o leitor o que quiser.

- Você é inteligente.
- Sou?
– e com isso, mais uma vez, ela pedia a ele para se empenhar mais no que dizia.
- É. Inteligente. Muito, muito inteligente.
- Hmmm…
– esse foi mais longo, quase um ronronar. Com isso ela demonstrou clara satisfação.
- E nós nos damos bem.
- Eu também acho.
– leia-se: “Mas podemos nos dar melhor”.
- Nos damos muito bem.
- Concordo.
– e por “concordo” entenda-se “Estamos chegando onde eu quero”.
- Não tem como a gente se dar melhor que isso.
- Aí eu já discordo.
– e com isso ela quer dizer “Cale a boca e eu te mostro”.

Ela fechava o cerco.

- Então. A gente se dá muito, muito bem.
- Um-hum.
– e com isso ela quer dizer “Se você não fizer nada agora, eu faço”.
- Temos assunto em comum.
- Temos.
– essa resposta seca significando “Se eu quisesse ver rodeios, ia pra Barretos.”
- Conversa pra horas a fio.
- É.
– ou seja, “Cala a boca e beija logo!”.
- E você… bom, você é muito legal. Você sabe que eu te acho muito legal, não sabe?
- Acha?
– e por “acha” ela quer dizer “Posso ser bem mais legal que isso”.
- Claro que acho. Eu acabei de dizer que acho.
- É.
– e ela quer dizer “Vou te mostrar o quanto eu sei ser legal…”
- Então.
- Então.
– ela se aproxima, querendo dizer “Finalmente”.
- Eu te disse tudo isso porque eu queria… bom… eu queria te dizer uma coisa importante.
- Diz.
– ela responde, num sussurro, e por “diz” ela quer dizer “Vai comer ou quer que embrulhe?”.
- Com tudo isso que a gente tem, que dá tão certo e tal…
- Hm.
– Esse foi um raro “hm” definível, um gemido de antecipação.
- Ainda acho importante frisar que acho que nossa relação deve ser não carnal.
- Não carnal?
– e com isso ela quer dizer “Mas… hein?”.
- Sim. E por “não carnal” eu quero dizer: TIRA A MÃO DA MINHA BUNDA, CARALHO!

Mas que merda!

Considerando a idéia que afirma que um corpo está ou não em movimento de acordo com o referencial, era a merda que vinha em minha direção. A passos largos, atrasada para o trabalho, quem sabe. Ou, pelo contrário, voltando depois de um dia cansativo, talvez. Ainda seguindo a regra do referencial, declaro que estava atento, mas ao meu dispositivo de doses individuais de música (ou mp3 player, chame como quiser). Seria o mesmo que dizer que estava desatento ao resto do mundo. Não a vi, portanto. Poderia me culpar por tal lapso, mas não vejo justiça nisso! Quem esperaria um presente desses vindo, pela calçada, apressadamente em sua direção?

Calçadas servem justamente para evitar esse tipo de contingência. É a última trincheira dos pedestres. O porto seguro de quem, num protesto mudo contra a tomada do espaço urbano pelos veículos automotores, insiste em sair a pé; daqueles conscienciosos o bastante para abrir mão de determinados confortos em respeito ao bem-estar do planeta; dos que conhecem os malefícios causados na atmosfera pelo monóxido de carbono; de quem adotou o saudável hábito das caminhadas num gesto de zelo para com sua saúde e a sobrevivência das gerações futuras; dos que não têm grana para comprar carro e gastar borracha da Goodyear, Pirelli ou Michelin, então compram tênis confortáveis e gastam borracha da Nike, da Rainha ou da Mizuno.

Se deus existe, está nas calçadas. Calçadas são o refúgio sagrado para onde vão as crianças, os desafortunados, os miseráveis. Se não tiver para onde ir, siga a calçada. Elas dão guarida a quem não tem o luxo de transitar por aí rodeado por toneladas de aço em alta velocidade; para os que respeitam a vida de seus semelhantes e preferem se distrair e esbarrar em outras pessoas sem matá-las, fraturar seus ossos ou destruir sua propriedade; para aqueles que não ligam para essa ladainha que afirma que todos devem ter pressa o tempo todo e preferem curtir a vida devagar e sempre em vez de se estropiar a 120 km/h contra um poste, ao tentar, ironicamente, aproveitar melhor o tempo que agora não têm mais; para quem não tem carteira de motorista aos 25 anos por se achar irritadiço demais para o trânsito.

Para isso servem as calçadas: para os pedestres, em sua aliança rebelde contra os carros. Para o trânsito de quem resolveu, qualquer que seja o motivo, andar. São, teoricamente, lugares seguros, onde ninguém deveria permanecer de orelha em pé, à espera da inevitabilidade de um acidente. Calçadas servem para que pessoas que trabalham perto de casa possam ir ao e voltar do escritório, a pé, em pouco mais de 10 minutos. Calçadas são para pessoas e apenas pessoas, daí serem feitas de concreto. Concreto é mais próximo que o ser humano tem de um habitat natural.

Vá dizer isso aos animais da Asa Norte que caminham com seus cachorros pelas calçadas, apesar de todos os gramados disponíveis.

Comprarei uma bicicleta e pedalarei pelas calçadas a fim de atropelar todos os cachorros que encontrar cagando nas vias públicas.

Grande Scott!

Sofro do que costumo chamar de Síndrome de McFly.

Notei o problema da primeira vez que um desconhecido, em troca de pecúnia, solicitou minha mão-de-obra barata para resolver um problema informático qualquer. Um driver que apresentava defeito, uma impressora que fazia todo tipo de ruído antes de não imprimir, um programa que se recusava a rodar de forma correta, uma conexão que não funcionava nem com reza braba, qualquer porcaria dessas, não me lembro especificamente qual.

Ainda hoje a sensação se manifesta. Toda vez que um cliente (esse é o nome que recebem os desconhecidos – ou não – que solicitam serviços em troca de dinheiro) me liga, toda vez que me chamam para uma entrevista de emprego ou estou prestes a começar em um novo trabalho, lá está o velho George McFly de 1985, com seu penteado de 30 anos atrás, a camisa engomadinha abotoada até o pescoço, canetas e calculadoras presas ao bolso, na altura do peito, óculos de fundo de garrafa mal-arrumados sobre o rosto, em sua postura retraída e a típica voz desajeitada e hesitante de quem levou pescotapas demais na escola, me dizendo “Mas… mas e se não gostarem? E se me disserem que eu não sou bom? Não sei se posso agüentar esse tipo de rejeição!”.

George McFly

Sou capaz de me sentar aqui, diante dessa tela em branco, e escrever estupidezes (?) absurdas. Uma legião de desconhecidos sem rosto pode passar pelos comentários e retorquir, de maneira totalmente justificada, com todos os desaforos possíveis e imagináveis. Tenho absoluta convicção que tal manifestação de repúdio sequer vai arranhar minha bolha de “foda-se”. Coloque dinheiro na equação e todo esse alheamento vai pelo ralo. Se alguém que está me pagando – ou pretende pagar – para escrever critica o mesmo texto, isso provavelmente me deixará chateado por algumas semanas, talvez meses. Pode me fazer parar de escrever, de verdade.

Por isso admiro essas pessoas que dizem gostar de desafios. Não entendo como isso é possível. Desafios me aterrorizam! O desprendimento de quem tem coragem de reunir um calhamaço de textos, chamar aquilo de “livro” e enviar cópias para editoras me parece louvável. Sobre-humano, até. Digo o mesmo das pessoas que gravam fitas demo e enviam para gravadoras, ainda mais quando são composições próprias.

Esse povo que não se preocupa com a qualidade do resultado, que não dedica um segundo pensamento aos frutos do trabalho, apenas sente a urgência de fazer e faz… esse povo tem meu respeito incondicional só pela atitude abnegada de se sujeitar à avaliação alheia.

Porque segunda-feira começo no meu novo emprego e, nesse exato momento, o velho McFly me dá tapinhas no ombro com a expressão condescendente de quem sabe exatamente como me sinto.