Às vezes, lendo e-mails antigos, posts antigos, arquivos antigos, logs antigos, revirando, enfim, as memórias da minha vida compreendidas entre o primeiro barulho do modem 14400 USRobotics do Pentium 166 que eu tinha em casa quando comecei a acessar a internet, em meados do ano 2000, e a chegada do Mr. Hyde, quando o Utopia deixou de existir de verdade, quando me enclausurei para voltar mais centrado, mais desapegado, talvez, bate uma certa melancolia.
Não é exatamente saudade daquela época, mas também não deixa de ser. Não é que eu queira refazer as coisas, acho que tudo o que fiz teve as melhores conseqüências possíveis.
Sendo mais claro, a melancolia acontece ao perceber quantas pessoas conduzi para fora da minha vida. Das mais diversas maneiras. Para algumas apenas apontei a porta da rua, outras levaram empurrões. Houve quem fosse chutado, como um cão sarnento e mal-cheiroso que ninguém quer ter em casa.
Toda aquela impulsividade entre o fim da minha adolescência e o começo da minha adultice traduz-se atualmente na forma de uma gigantesca lista de ex-conhecidos que eu sei que existem, que sabem que eu existo, com quem eventualmente esbarro e que às vezes esbarram comigo. Gente com quem não troco sequer um bom-dia. Olhamo-nos em silêncio, quando muito, e o rancor no ar é palpável. Geralmente da minha parte, às vezes da parte deles. Com sorte é recíproco. Não são “inimigos”, inclusive porque acho o termo muito forçado. Dramático, até. “Adversários” e “antagonistas” também não me soam bem. Não disputamos nada, afinal de contas.
São desafetos. Esse é um bom nome.
O mais engraçado é que, se me perguntarem, lembro bem melhor dessas pessoas do que daquelas com quem perdi contato de forma natural com o passar do tempo. Pergunte-me o nome de cinco amigos perdidos, cinco pessoas com quem conversaria animadamente se nos encontrássemos, gente com quem perdi contato de maneira inexplicável, que foram simplesmente separadas de mim por um desses vagalhões da vida, foram bater noutros costados, mas que sempre serão bem-vindas à bordo se nossas rotas se cruzarem de novo. Pergunte-me sobre cinco dessas pessoas e terei dificuldade em me lembrar delas.
Pergunte, por outro lado, os nomes de cinco pessoas que enxotei da minha vista por qualquer razão e me lembro de vários, uma profusão incontável. Sou até capaz de especificar o que me afastou de cada um, pois divido esses antigos contatos em categorias. Sem esforço, lembro agora da garota que esculhambei e então chutei pra escanteio por ser demasiadamente melindrada, outra que perdeu minha atenção ao me tratar de maneira injusta e pouco condizente com a forma como era tratada por mim, um ex-grande amigo que achava que, por sermos amigos, eu toleraria qualquer comportamento da parte dele, outro que não soube entender que brincadeiras têm limite e mais uma garota que mandei à merda por tentar brincar de morde-e-assopra comigo.
Os e-mails e logs deixam claro. Como fui pungente, grosso, direto e brutal ao tratar com essas pessoas pela última vez. Ainda que o acesso a esses registros não existisse mais, minha memória guardaria todas as ocasiões que funcionaram como divisoras de águas, que determinaram o ponto exato em que todos os laços se rompiam. Relendo e relembrando, às vezes desejo voltar no tempo. Poderia ter sido tão cáustico e direto sem ser tão furiosamente agressivo. Poderia ter dado um basta sem com isso me deixar abater, sem espumar como um cão raivoso, sem mostrar que meus pontos fracos tinham sido cutucados.
Poderia – e isso é o que faço agora, o melhor remédio contra esse tipo de gente – apenas ter sido frio e distante.
Me arrependo pelo meu comportamento, em certos casos, mas não por minhas decisões. Ainda esbarro com muitas dessas pessoas de tempos em tempos, como disse, seja na internet, seja pessoalmente. Elas continuam o que eram: melindradas, traiçoeiras, ingratas. Desse a elas uma nova oportunidade e fariam tudo de novo. Apesar de parecer, graças a várias coisas que escrevo aqui, que sou um louco neurastênico, um pavio-curto pronto a descontar meus problemas no lombo do primeiro infeliz a cruzar olhares comigo, digo, sem qualquer modéstia, que sou das pessoas mais fáceis de se conviver que conheço. Gosto de conversar e resolver problemas utilizando razão e civilidade. Mordacidade e ironia, guardo para quando a situação se mostra insolúvel.
Não sou muito bom em perdoar, tampouco em pedir desculpas, mas sou capaz de tentar de novo, se achar justo. Não seria justo dar a nenhum deles uma segunda chance. O que quer que tenha acontecido, embora eu admita minha sensível parcela de culpa, foi provocado por agentes externos. Quando permito que meus demônios me aticem para cima de alguém, tenho a decência de me desculpar.
Como disse, posso me arrepender pelos meios usados, mas o fim atingido não me desagrada.
Se ainda fizessem parte da minha vida, essas pessoas teriam me dado muito mais dor-de-cabeça. E, deixando de expulsá-las do meu convívio com o rigor de uma freira que pega alunas carpeteando no banheiro do internato, estaria perdendo a chance de me tornar uma pessoa melhor. Aprendi mais escorraçando-as como as pragas que eram do que teria aprendido exercitando a tolerância com quem não merecia.