Arquivos de Junho, 2007

Velha Anedota

Tertuliano, frívolo peralta,
Que foi um paspalhão desde fedelho,
Tipo incapaz de ouvir um bom conselho,
Tipo que, morto, não faria falta;

Lá um dia deixou de andar à malta,
E, indo à casa do pai, honrado velho,
A sós na sala, diante de um espelho,
À própria imagem disse em voz bem alta:

- Tertuliano, és um rapaz formoso!
És simpático, és rico, és talentoso!
Que mais no mundo se te faz preciso? -

Penetrando na sala, o pai sisudo,
Que por trás da cortina ouvira tudo,
Severamente respondeu: - Juízo.

Artur Azevedo

Varejo

Me lembro bem de quando ele entrou na loja, porque, sinceramente, eu não fazia nada, embora fingisse fazer. E meu chefe me observava nesse exercício de tentar parecer ocupada. Porque ele também estava ocioso, apesar de não admitir. Ficava só repassando folha por folha, pasta por pasta, dentre todas as resmas, ramalhetes, cachos, enxames, hordas e molhos de papéis sobre sua mesa.

Fingia ler isso, grifar aquilo, analisar aquilo outro, mas com tal desinteresse que deixava claro que, na verdade, apenas esperava o fim do download de um vídeo pornográfico no computador. Baixava todas as pornografias aqui, porque em casa a mulher dele era muito melhor para operar o micro e sempre encontrava as pastas com safadezas. Da última vez ele passou uma semana dormindo no sofá do escritório. E então comprou o aparelho e mandou colocar internet. Ninguém mais tem computador na loja, nem precisamos de computadores, na verdade. Mas ele faz questão daquele. Pra poder baixar putarias como a que pegava no momento.

Nesse meio tempo, revirava documentos pouco importantes enquanto pensava num motivo qualquer para se levantar e vir pegar no meu pé, me criticar e colocar em xeque minha presença na empresa, dizendo que o trabalho não cai no colo de ninguém, que verdadeiros empreendedores vão atrás das possibilidades, em vez de olhar para o tempo enquanto esperam que elas cheguem, que eu deveria ir buscar público-alvo para nossos serviços e que, se as vendas estavam fracas no dia, a culpa era claramente minha, que não construí sólidas relações de negócios com os clientes.

Você sabe. Essas coisas que chefes dizem.

Tudo o que fazemos é vender sacos plásticos e ele age como se esta fosse uma indústria vital para o desenvolvimento da sociedade e a manutenção da realidade como a conhecemos. A humanidade viveu muito bem até 1970 sem nenhum saco plástico à disposição e não houve qualquer cataclismo graças a isso. Mas no momento eu torcia para que a vida de alguém dependesse de um pacote de sacos. Assim que terminasse de organizar nossos mostruários por cor de capa, estaria entregue ao tédio. Se o vídeo pornográfico dele ainda não tivesse chegado, teria que ouvir a cantilena.

Foi quando o sujeito entrou. Não me pareceu um homem interessante, mas mantive os olhos nele enquanto terminava o que fazia apenas por se tratar de um cliente em potencial. Ele, por sua vez, também não me deu muita atenção, o que é raro: poucos homens entram nesta loja e não se dirigem para o meu decote imediatamente, como mísseis de testosterona guiados por calor.

Ali estava um desses exemplares de desapego - ou distração. Olhou em volta, certificando-se de estar no lugar certo. Passou uns 15 segundos nessa atividade de reconhecimento e então, subitamente, como quem se livra de amarras imaginárias, veio falar comigo.

Era gago. Extremamente gago. A princípio me perguntei se não fingia; a deficiência, de tão acentuada, tinha algo de teatral. Gostaria de acreditar, por mera vaidade, que tamanha hesitação devia-se à minha beleza, mas seu olhar não me permitiu o pensamento. Firme, estático, fixo em um ponto qualquer no infinito dos meus olhos. Suas sobrancelhas não se moviam, tampouco seus globos oculares. Não desviou os olhos para meu colo exposto nenhuma vez. Era a expressão imutável da tranqüilidade absoluta. Transmitia tanta confiança que simplesmente não combinava com o perfil de alguém que atravessou a adolescência com um problema de fala tão grave.

Levou quase cinco minutos para me dizer o que queria: um orçamento para três mil e quinhentas sacolas de plástico com logotipo personalizado. Imagine como é sofrido para um gago dizer “logotipo personalizado” e você terá uma idéia de como foi para mim ouvi-lo, enquanto fitava aqueles olhos imóveis. Qualquer coisa naquela imensidão verde prendia minha atenção com tamanha eficiência que só me permitia piscar quando ele também o fazia. Estava tão absorta em seu olhar que não vi quando meu chefe se levantou e, aproximando-se da mesa, o cumprimentou.

Não me pergunte como uma empresa consegue passar tanto tempo no mercado de vendas tendo um administrador tão pouco talhado para o contato social. Ao notar o problema do cliente, meu chefe riu incontrolavelmente. O rapaz não se alterou. Permaneceu onde estava e, plácido, com seus olhos tranqüilos, observou o velho barrigudo rir por incontáveis minutos. Não balbuciou defesa, não demonstrou indignação. Apenas esperou que a crise passasse.

Por fim, surrou o homem com violência inenarrável, pegou um cartão sobre minha mesa, reiterou o pedido pelo orçamento e articulou um elogio ao meu decote que me fez corar pela primeira vez em muitos anos.

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