Archive for Julho, 2007

Mea culpa? Porra nenhuma!

Eu sou um pé-no-saco. Sou mesmo, admito. Nunca fiz segredo quanto a isso. Sou irascível, intolerante, impositor. Estabeleço os limites das liberdades de todo mundo que eu conheço em relação a mim e só lamento pra quem resolver forçar a barra. É preciso saber agir muito na maciota pra se aproximar de mim. Ou isso ou ser muito dissimulado.

Não é de se estranhar que eu tenha muito mais desafetos, ex-amigos e conhecidos que afastei do que amigos e conhecidos próximos. Eu não estranho, pelo menos. Me conhecendo, esquisito seria se fosse o contrário.

Há quem fique, entretanto. Tem gente que eu conheço há dez anos e de quem nunca tive que me afastar. Gente de bom-senso, que sempre teve noção de espaço e respeitou todos os limites que eu marquei. Da minha parte também não sou de forçar a barra e passar dos limites de ninguém. Porque, apesar de todos os meus defeitos, não sou daqueles malucos que sentam em cima do rabo e falam do rabo dos outros. Se a folga das pessoas me incomoda tanto, o mínimo que posso fazer é não ser folgado, também. Até porque isso é dar pano pra manga e, no momento em que eu resolver esbravejar, não tô a fim de ouvir “mimimimi mas você faz a mesma coisa mimimimi”.

Conviver comigo é como dançar: preste atenção na maneira como eu te trato e me trate do mesmo modo. Se não nos tornarmos grandes amigos, pelo menos teremos uma convivência agradável por muitos, muitos anos.

Há quem não entenda isso. Há quem não tenha suficiente visão para enxergar até onde eu resolvi ceder espaço. E essas pessoas, eventualmente, pisam na linha. Pisar na linha é falta grave. Suspensão de alguns dias, meses, às vezes anos. Pode ser pra vida inteira, se quem pisou não tiver humildade suficiente para entender onde errou e pedir desculpas. Na primeira vez eu geralmente desculpo.

Ainda existe quem enxergue, sim, todos os limites. E ainda queira mais espaço. E tente conseguir no grito. Mas no grito ninguém tira nada de mim. Nada. Eu, aliás, faço questão de gritar mais alto. E geralmente ganho. Porque, entenda, eu tenho doutorado nesse lance de ser escroto. Sou bom MESMO quando o assunto é bancar o estúpido. Bom DE VERDADE. Se houvesse um mercado disso, eu seria um daqueles pica-grossas que fazem palestras pelo mundo todo, cobrando uma grana preta.

Mas não há, então eu sou escroto de graça - no sentido de “sem ganhar dinheiro nenhum por isso”, e não sem razão aparente.

Quem força a barra deliberadamente também pode até voltar a conviver comigo depois, mas é um tanto mais difícil. O tempo que eu levo pra “voltar ao normal” com alguém assim, que pisa no meu calo porque QUER, é bem maior do que o tempo que eu levo pra “voltar ao normal” com quem pisa na bola involuntariamente. Até porque, retornando à história de ser um cara que não faz com os outros o que não gostaria que fizessem comigo, eu também erro (veja só que impressionante, um cara tão perfeito como eu… )

Porque errar uma vez é compreensível.
Duas vezes, não.

Duas vezes é demais. É esperar DEMAIS receber DOIS indultos. É querer muito de qualquer cristão, que dirá de um agnóstico intolerante, como eu. Existe uma fila considerável de gente querendo me aborrecer, ficar dando oportunidades sempre às mesmas pessoas não é justo com quem ainda não teve sua vez.

Então o primeiro chute é dado à guisa de corretivo. “Olha a merda que você fez! Preste mais atenção, as coisas não são assim, pense melhor antes de falar, melhor ainda antes de agir! Vê lá onde tá pisando, depois é você que vai ter que limpar!”.

O segundo é definitivo.
É pra nunca mais.

Depois do segundo, no que me diz respeito, você pode se recolher à sua maldita insignificância e ir lamber as feridas na puta que pariu. Pode até cortar os pulsos e morrer. Pra mim o efeito é o mesmo.

Então pro caralho com quem é burro o suficiente pra cometer o mesmo erro duas vezes.
Não quero conviver com esse tipo de gente. Não há nada de proveitoso a se conseguir com alguém assim. Nada justifica tanta imbecilidade, seja idade, sexo, carinha bonita ou peitão.

Barrow-on-Furness

Sou vil, sou reles, como toda a gente
Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.
Quem diz que os tem é como eu, mas mente.
Quem diz que busca é porque não os tem.
É com a imaginação que eu amo o bem.
Meu baixo ser porém não mo consente.
Passo, fantasma do meu ser presente,
Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.
Talvez possa morrer por esse ideal.
Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são…
Modificar-me? Para meu igual?…
— Acaba lá com isso, ó coração!

(Fernando Pessoa)

Encontrei aqui.

A roupa do rei (2)

Vagando a esmo pelos arquivos deste blog (sim, releio algumas coisas minhas, de tempos em tempos, para ver se minha primeira impressão a respeito do que escrevi - geralmente é péssima - se mantém), acabei caindo neste post.

Reparem no último comentário, feito por uma Debora.

Sim, era sério.

A ironia é mesmo a roupa do rei.

Das superficialidades

Toda vez que algum “profissional de comunicação” ou “entendido” de qualquer espécie se mete a falar sobre as razões para se ter um blog, enumera várias e várias sem bater na única que eu acho realmente válida, realmente inteligente e realmente bacana. A única que pode fazer nascer um blog que valha a pena ser lido, comentado e passado adiante pros amigos:

Escrever.

Pra esses sujeitos, o blog é sempre um meio para um fim. Nunca um fim em si.

Depois perguntam por que este é um país de iletrados…

Constatação

Sou como aqueles doidos de cidade do interior. Ando por aí falando sozinho e há até quem pare para ouvir (e rir dos) meus absurdos. Alguns até dão corda.

Ninguém, entretanto, se propõe a refutá-los: consideram-me um caso perdido…

Googleiros

Entraram aqui procurando por “O que quer dizer grifar?“. Admito que me permiti sentir certa simpatia pelo responsável pela pergunta, pois essa é uma daquelas questões sem resposta que vêm acompanhando a humanidade há séculos.

Os primeiros registros do assunto remontam às academias gregas, onde jovens helenos iam para puxar ferro e azarar outros apolos (pederastia que, devo ressaltar, não era mal-vista pela sociedade da época). Um longo trecho dos diálogos de Platão, justamente um tutorial meticulosamente detalhado, sob o título “o que é grifar?”, foi impiedosamente deletado do fórum de discussões que o jovem filósofo então freqüentava, sob a alegação de ser deveras maçante, dado seu nível de virtuose técnica (além de ter sido postado como off-topic).

Alguns argumentam que foi isso que levou Platão a se rebelar e fundar uma República, onde qualquer um poderia publicar suas obras no tópico que quisesse. Na Constituição da República de Platão - que ficava ao norte do território atualmente pertencente a Dudinka, dominada por sete exércitos azuis - é muito claro o trecho que diz que as discussões sobre a essência do grifar podem e devem ser amplamente divulgadas (este documento, todo escrito em papiro amarelo gema-e-clara off-set 45g, pode ser lido integralmente no museu de Tchita - cidade que, há alguns anos, foi surpreendentemente tomada pelo exército preto, em sua missão de acabar com toda a invasão vermelha ou dominar 35 territórios à sua escolha).

Após estabelecer sua república, fazendo uso de seus poderes executivo e legislativo, Platão pôde, finalmente, divulgar sua teoria sobre o que é grifar e a detalhada explicação de como fazê-lo. Segundo ele e sua Escola de Grifagem, que permanece até os dias de hoje, para grifar é necessário esfregar um grifo repetidas vezes contra uma folha de papel. Atividade, portanto, humanamente impossível.

Um grifo.
Um grifo.

Um Grifo é uma criatura com corpo de leão, cabeça de águia e asas de águia grandes o suficiente para erguer um corpo de leão no ar. Por definição, não é um animal pequeno. É possível abatê-lo atualmente, graças ao poderio da indústria bélica moderna. Mas, na época de Platão, vou te dizer: matar um grifo era um serviço de corno!

Já velho, consta que Platão chorava copiosamente todos os dias, ao cair da tarde, devido a sua grande frustração por nunca ter grifado nada.

Por muitos séculos, pensou-se que grifar fosse um ato impossível. Até que, em fevereiro de 1985, um grupo de japoneses, antigos estudiosos do assunto, percebeu que grifar não tinha nada a ver com pegar grifos e esfregá-los em folhas de papel e que a teoria platônica não passava de uma enorme bobagem. Para provar que qualquer um poderia grifar, criaram um programa de televisão onde um sujeito fazia isso frequentemente diante dos olhos de milhares de telespectadores. Grifar tornou-se uma diversão para as crianças, assim como outras atividades semelhantes.

Changeman
O rapaz de preto está grifando.

Grifar, para os japoneses, têm - como é de praxe na filosofia oriental - implicações muito mais intrínsecas ao ser humano. Para grifar não é preciso um grifo. Você pode muito bem tornar-se o grifo. Você é o grifo e o grifo é você. Para comprovar a teoria, está aí Change Gryphon (o cidadão de roupa preta de lycra). O programa também demonstrou que é possível manifestar outros tótens animalescos, desde que você tenha um capacete irado e um colante bacana.

Com a expansão das filosorias orientais no ocidente, passou a ser senso comum que, para grifar, basta despertar o grifo dentro de você (tipo slogan de sucrilhos, manja?). Por isso grifar é, hoje, uma atividade mundana, corriqueira, trivial que qualquer um é capaz de executar com maestria.

Há quem diga também que grifar é apenas marcar - com lápis, lapiseira, caneta, giz de cêra, marca-texto, carvão ou qualquer coisa capaz de escrever - uma linha sob um determinado trecho de texto que se quer ressaltar. Mas essas pessoas são idiotas, não é prudente levá-las em consideração.