Eu sou um pé-no-saco. Sou mesmo, admito. Nunca fiz segredo quanto a isso. Sou irascível, intolerante, impositor. Estabeleço os limites das liberdades de todo mundo que eu conheço em relação a mim e só lamento pra quem resolver forçar a barra. É preciso saber agir muito na maciota pra se aproximar de mim. Ou isso ou ser muito dissimulado.
Não é de se estranhar que eu tenha muito mais desafetos, ex-amigos e conhecidos que afastei do que amigos e conhecidos próximos. Eu não estranho, pelo menos. Me conhecendo, esquisito seria se fosse o contrário.
Há quem fique, entretanto. Tem gente que eu conheço há dez anos e de quem nunca tive que me afastar. Gente de bom-senso, que sempre teve noção de espaço e respeitou todos os limites que eu marquei. Da minha parte também não sou de forçar a barra e passar dos limites de ninguém. Porque, apesar de todos os meus defeitos, não sou daqueles malucos que sentam em cima do rabo e falam do rabo dos outros. Se a folga das pessoas me incomoda tanto, o mínimo que posso fazer é não ser folgado, também. Até porque isso é dar pano pra manga e, no momento em que eu resolver esbravejar, não tô a fim de ouvir “mimimimi mas você faz a mesma coisa mimimimi”.
Conviver comigo é como dançar: preste atenção na maneira como eu te trato e me trate do mesmo modo. Se não nos tornarmos grandes amigos, pelo menos teremos uma convivência agradável por muitos, muitos anos.
Há quem não entenda isso. Há quem não tenha suficiente visão para enxergar até onde eu resolvi ceder espaço. E essas pessoas, eventualmente, pisam na linha. Pisar na linha é falta grave. Suspensão de alguns dias, meses, às vezes anos. Pode ser pra vida inteira, se quem pisou não tiver humildade suficiente para entender onde errou e pedir desculpas. Na primeira vez eu geralmente desculpo.
Ainda existe quem enxergue, sim, todos os limites. E ainda queira mais espaço. E tente conseguir no grito. Mas no grito ninguém tira nada de mim. Nada. Eu, aliás, faço questão de gritar mais alto. E geralmente ganho. Porque, entenda, eu tenho doutorado nesse lance de ser escroto. Sou bom MESMO quando o assunto é bancar o estúpido. Bom DE VERDADE. Se houvesse um mercado disso, eu seria um daqueles pica-grossas que fazem palestras pelo mundo todo, cobrando uma grana preta.
Mas não há, então eu sou escroto de graça - no sentido de “sem ganhar dinheiro nenhum por isso”, e não sem razão aparente.
Quem força a barra deliberadamente também pode até voltar a conviver comigo depois, mas é um tanto mais difícil. O tempo que eu levo pra “voltar ao normal” com alguém assim, que pisa no meu calo porque QUER, é bem maior do que o tempo que eu levo pra “voltar ao normal” com quem pisa na bola involuntariamente. Até porque, retornando à história de ser um cara que não faz com os outros o que não gostaria que fizessem comigo, eu também erro (veja só que impressionante, um cara tão perfeito como eu…
)
Porque errar uma vez é compreensível.
Duas vezes, não.
Duas vezes é demais. É esperar DEMAIS receber DOIS indultos. É querer muito de qualquer cristão, que dirá de um agnóstico intolerante, como eu. Existe uma fila considerável de gente querendo me aborrecer, ficar dando oportunidades sempre às mesmas pessoas não é justo com quem ainda não teve sua vez.
Então o primeiro chute é dado à guisa de corretivo. “Olha a merda que você fez! Preste mais atenção, as coisas não são assim, pense melhor antes de falar, melhor ainda antes de agir! Vê lá onde tá pisando, depois é você que vai ter que limpar!”.
O segundo é definitivo.
É pra nunca mais.
Depois do segundo, no que me diz respeito, você pode se recolher à sua maldita insignificância e ir lamber as feridas na puta que pariu. Pode até cortar os pulsos e morrer. Pra mim o efeito é o mesmo.
Então pro caralho com quem é burro o suficiente pra cometer o mesmo erro duas vezes.
Não quero conviver com esse tipo de gente. Não há nada de proveitoso a se conseguir com alguém assim. Nada justifica tanta imbecilidade, seja idade, sexo, carinha bonita ou peitão.