Como disse no post anterior, finalmente terminei o livro do Robert Heinlein, Um Estranho Numa Terra Estranha. Mas acho melhor explicar que utilizo o termo “finalmente” porque foi muito difícil terminá-lo, mas não pelos motivos que se espera - o livro ser chato ou a história ser ruim - que dificultem a leitura de alguma coisa. Minha dificuldade foi outra, bem mais complicada: cometi a proeza de perder o livro num shopping perto do trabalho.
No mesmo dia, porém, entrei no Mercado Livre atrás de um volume idêntico, da mesma edição, e encontrei. Mas só chegou na minha casa uns 15 dias depois. Um lapso e tanto pra uma leitura, mas o livro é tão, mas tão bom que nem me importei.
É difícil dizer o que o torna tão genial. Simplesmente acho que não poderia tê-lo lido em época mais propícia. Há alguns anos provavelmente me irritaria com o agnosticismo condescendente de Jubal Harshaw, ou não saberia compreender determinados aspectos de um relacionamento que levaram Robert Heinlein a fazer tamanha crítica à forma como as pessoas se “comprometem” umas com as outras. Talvez por isso todas as minhas tentativas anteriores de sair do primeiro capítulo tenham falhado: eu ainda era apenas um ovo não estava pronto.
Não imaginei que um dia fosse encontrar, em um livro, tantas idéias e princípios que fossem de tal forma ao encontro das minhas idéias e dos meus princípios, sinceramente. Excetuando-se o fato de ser advogado, médico e careca, Jubal Harshaw é, para mim, um modelo a ser seguido. Seu cinismo, ceticismo, individualismo e inteligência; seu desprezo por telefones e televisores, sua rebeldia contra todos esses “meios de comunicação” usados pelos canalhas, inconvenientes e intrometidos para monitorar e escravizar os outros; sua vastidão de conhecimentos, nunca usados para diminuir ninguém, a menos que seja estritamente necessário; está tudo na medida certa pra fazer dele um dos (se não o) personagens mais notáveis com quem já tive contato.
São dele as melhores falas do livro e a história toma fôlego e dispara, prendendo a atenção do leitor, apenas após seu surgimento. Suas idéias são sempre notáveis, sua percepção da sociedade, das instituições, das pessoas, do mundo em geral, é espantosamente ampla e todos os seus movimentos, com o perdão do “chapolinismo“, são friamente calculados. Ele não queima um cartucho à toa durante o livro todo.
Enfim. Jubal grokka. Eu sou apenas um ovo.
Se Heinlein era - ainda que vagamente - parecido com Jubal, devia ser um sujeito do caralho e não vejo a hora de ler seus outros livros. É uma pena que o autor e suas obras sejam praticamente desconhecidos por aqui. Com exceção do Jaime e do meu tio, que me deu o livro, não conheço quem o tenha lido, apesar da afirmação na capa, dizendo que trata-se da “mais famosa novela de fantasia de todos os tempos”. Esse foi outro motivo que me levou a postergar a leitura, aliás: presumi ser uma obra menor, um daqueles livrecos de pouca importância, mas cheios de si. O fato é que a história é realmente fantástica (em todos os sentidos), divertida e avassaladora.
Suas críticas à política, ao direito e aos poderosos são pungentes, mas a maneira como o autor destrói as religiões e os relacionamentos baseados em ciúme com categoria e argumentos incontestáveis me chamou a atenção o tempo todo. Tenho muito o que refletir a respeito do que esse livro me ensinou, muitos raciocínios para reler, diálogos a digerir e idéias para internalizar. Preciso louvá-lo, afagá-lo e grokká-lo em toda a plenitude.
E preciso ligar para meu tio e agradecer pelo livro, embora faça 5 anos que ele me foi presenteado.
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Publiquei aqui, há alguns meses, dois trechos de Um Estranho (…). Eram, até então, o ápice de semelhança que havia entre o livro e eu. Outros trechos surgiram, todavia, e transcrevo-os aqui embaixo:
O ciúme é uma doença e o amor é saudável. A mente imatura confunde, muitas vezes, um com o outro, ou pensa que quanto maior o amor, maior o ciúme. Na realidade, são incompatíveis. Uma dessas emoções não deixa lugar para a outra.
O desenho abstrato é bom… para papel de parede ou linóleo. Mas arte é o processo de evocar a piedade e o terror. O que os artistas modernos fazem é masturbação pseudo-intelectual. […] A pessoa tem de aprender a olhar uma obra de arte. Mas é o artista que tem de usar uma linguagem compreensível. A maioria destes palhaços não quer usar uma linguagem que você ou eu possamos aprender. Preferem zombar da gente porque não “conseguimos” ver o que eles querem dizer. […] A obscuridade é o refúgio da incompetência. […] Um artista subvencionado pelo governo é uma prostituta incompetente.
É possível que uma dessas mitologias seja a palavra de deus… que deus é, na realidade, uma espécie de paranóico, que estraçalha quarenta e duas crianças por estarem importunando seu sacerdote.
São tantos, tantos outros, que se eu resolver publicá-los vou acabar tendo que digitar metade do livro, ou talvez mais. Melhor deixar claro que recomendo muito a leitura. Se algum de vocês, num surto de boa-vontade, resolver ler, me avise ao terminar. Vai ser bom grokkar novos irmãos de água andando por aí.
Minha dúvida agora é qual o próximo livro a ler. Crime e Castigo, do véio Dolsta, ou Os Miseráveis, do Vitão Hugo?
Sobre o texto do suicida: