Arquivos de Agosto, 2007

Em prol da sanidade

Caros animais leitores - aqueles que comentam, pelo menos -, acho justo informá-los, embora com algum atraso, que há um novo campo a ser preenchido quando vocês quiserem manifestar sua apreciação (ou depreciação, tanto faz, já que atualmente ando tão tranqüilo que aprovo - quase - todo tipo de comentário). Além de nome, emelho e url, é necessário também preencher um campo que pedirá uma conta ridiculamente simples. Qualquer coisa como 3 + 5, 1024 * 768 ou a raiz quadrada de pi elevada ao número de vezes em que eu chamei os leitores de “vermes” neste blog desde 2002.

Nada muito complexo, como já disse.

Sei que é um transtorno para vocês ter que passar por esse teste de kumon, mas a verdade é que ou o Jaime instalava esse filtro nos comentários ou eu perderia de vez o juízo e a paciência com os malditos spammer-bots que, há alguns meses, encontraram o post de estréia da nova versão do blog e passavam o dia a enchê-lo de propagandas de remédios para todos os males possíveis e imagináveis (alguns, inclusive, nem existem ainda, mas cautela nunca fez mal a ninguém, como diria aquele ditado, embora alguns psicólogos discordem, alegando que cautela demais pode se tornar paranóia, mas enfim, estou divagando e esse parêntese há de ficar gigantesco, como já está ficando, então acho que será mais saudável terminá-lo agora).

Entendam: entre minha sanidade e o conforto de vocês, não hesito por um milésimo de segundo antes de optar pela primeira.

[Atualização]: Se você comenta aqui com freqüência, talvez o servidor, que é um poço de simpatia, já te conheça a ponto de dizer “Bem-vindo de volta, fulano”, em vez de pedir todos os seus dados. Se isso acontece, lembre-se de clicar no “change” logo após seu nome, para poder ver os campos e preencher o cálculo diferencial proposto pelo computador.

Tendências suicidas (2)

Foi encontrado desacordado em seu quarto, espumando uma coisa amarelada com traços de vermelho que bem poderia ser bile e sangue. Ninguém da família era médico, não tiveram como saber. Levaram-no às pressas para um hospital. Entre soluços, a irmã segurava uma caixinha vazia de remédios. Médicos e enfermeiros cercaram o corpo - o que eles presumiam ser um corpo, pois pensavam-no morto, embora o irmão afirmasse ter detectado uma fraca pulsação - e levaram o ente querido para uma daquelas saletas escondidas onde desenrolam-se os momentos cruciais. Estava vivo, mas não parecia.

Apreensivo, o médico veio informar ao pai que fora possível salvá-lo. Fizeram uma lavagem estomacal, injetaram reagentes, essas coisas que fazem com suicidas. O principal era que o trouxeram de volta. A família pediu para vê-lo, uma enfermeira avisou que ele ainda dormia e levaria algum tempo até despertar. Estava vivo, era o que importava.

Quando enfim acordou, foram encontrá-lo. Recebeu a todos com o mais duro olhar de desaprovação que foi capaz de estampar em seu rosto combalido de quase-morto. O pai mantinha-se sério e limitava-se a perguntar por quê. Mãe e irmã choravam copiosamente. O irmão ficava a um canto, espiando pela janela e fazendo, de quando em vez, comentários irônicos, talvez para esconder o medo que a morte próxima do irmão lhe causara, talvez para quebrar um pouco aquele clima de funeral. Estava vivo, afinal de contas.

Ele nada dizia. Mantinha-se taciturno. Olhava ao redor com um misto de raiva, desprezo e descrença. Quando resolveu se manifestar, a voz saiu roufenha, rasgada. Demonstrou dor ao falar, graças aos tubos que lhe enfiaram pela garganta. Queria morrer, disse, porque era a única certeza que tinha na vida, a única coisa garantida. Não sabia até quando viveria, qual seria sua carreira profissional ou, ao escolhê-la, se seria bem-sucedido. Não sabia se iria casar-se ou com quem, se teria filhos ou filhas ou quantos, se sobreviveria a seus pais, se seus filhos, caso os tivesse, sobreviveriam a ele. Não sabia de nada. Concluíra que tudo que se esperava do futuro era mera especulação. Odiava a incerteza. Definir quando, onde e como iria morrer - e ainda assim tais decisões eram limitadas - era a única coisa que podia fazer. Tentou e foi interrompido. Estava vivo, mas que diabos!

Mandaram psicólogos para conversar com o rapaz e tentar entender melhor seu intento, explicar que a graça da vida era justamente a incerteza, as possibilidades, o não saber, as surpresas do amanhã. Não via graça em nada disso e não queria mais participar desse joguinho estúpido. Não pedira para nascer; agora pedia para morrer. Além do mais, considerava profundamente desrespeitoso por parte da família interromper seu sono eterno. Achou um tremendo egoísmo daquelas pessoas impedi-lo de morrer simplesmente porque queriam-no vivo. E a opinião dele, não contava? Não tinha sido tomada em meio a um surto depressivo. Fora pensada de forma totalmente consciente. Estava vivo, era verdade, mas deixou claro que se mataria assim que a oportunidade surgisse.

Consideraram-no psicologicamente incapaz, perigoso para si mesmo. Foi internado num hospital psiquiátrico. Ou “casa de doidos”, como costumava chamar, enquanto insistia que não era doido, pelo contrário: demonstrava perfeita sanidade. Querer morrer não era loucura. Se fosse, não haveria livros de Byron na biblioteca do lugar. Havia-os. Ele mesmo separara uns três para ler, mas seu médico - que não era um completo ignorante, embora parecesse - tomou-os, dizendo que não era o momento mais indicado para ler poemas de adoração à morte. Estava vivo e entediado.

A família ia visitá-lo com freqüência. A mãe ficava feliz em vê-lo saudável. A irmã tratava-o com carinho. O irmão fazia planos, contava coisas animadamente, fazia os costumeiros comentários irônicos. O pai sempre perguntava por quê. Recebia a mesma resposta. No fim das contas, ficavam felizes ao vê-lo com saúde. Ele se sentia aborrecido com aquelas pessoas ao redor, lembrava-se que fora a postura carola cristã deles, ao lhe negar o direito de dar cabo da própria vida, que impediu o êxito de sua tentativa definitiva de partir. Estava vivo e o rancor o corroía por dentro.

Ainda argumentava com os psicólogos, psiquiatras, psicoterapeutas, enfermeiros e outros internos que não era louco e que só o mantinham ali por não se sujeitar às incertezas, por querer tomar as rédeas de sua existência de uma vez por todas. Não refutavam seus argumentos nem lhe davam razão, apenas mais remédios. Passou a guardá-los em um saquinho plástico que mantinha escondido. Quando julgou ter o suficiente, ingeriu todos. Estava vivo, mas não por muito tempo.

Quase morreu. Mas, mais uma vez, foi socorrido a tempo. A mãe e a irmã tornaram a chorar, o irmão abandonou as piadinhas. O pai ainda perguntava por quê. Ele já respondera inúmeras vezes, cansou de se repetir. Quedou-se no mais absoluto silêncio. Não falava com os psicólogos, com os psiquiatras, com os psicoterapeutas, com os enfermeiros ou com os doidos. Sentava-se em silêncio e ficava ali até que alguém o dissesse para ir a outro lugar fazer alguma coisa. Ia, mas não fazia. Não assistia TV, não lia, não participava de dinâmicas ou das sessões de pintura. Sentia-se profundamente deprimido. Estava vivo e de saco cheio.

Certo dia tentou fugir. A oportunidade surgiu quando o guardinha que cuidava do portão virou-se para buscar uma prancheta, deixando a saída escancarada. Alguns enfermeiros saíram em seu encalço e conseguiram pegá-lo. Espantaram-se ao ver o paciente, até então catatônico, lutar como um bicho acuado. Por fim foi subjugado e ministraram-lhe um calmante. A partir de então, era mantido amarrado à sua cama. Estava vivo e era um prisioneiro.

Sempre que iam visitá-lo, sempre que um médico entrava no quarto, sempre que um enfermeiro ia alimentá-lo, sempre que um psicólogo, psicoterapeuta ou psiquiatra tentava falar com ele, sempre que a família o visitava, nada fazia além de se debater furiosamente, berrar a plenos pulmões as maiores obscenidades, tentar morder quem se aproximava e cuspir em quem estivesse perto o suficiente. Estava vivo e muito, muito puto com isso tudo.

Mantiveram-no cativo. Aos olhos de quem trabalhava no hospital, tornara-se, mais do que um louco, um louco furioso. Injetavam-lhe sedativos, era alimentado por um tubo, pois recusava-se a comer - apesar dos remédios para aumentar seu apetite - e, às vezes, sujeitavam-no a uma ou outra terapia de eletrochoque. Era um perigo para si mesmo e para os outros, agora, e os psicólogos, psicoterapeutas e psiquiatras se preocupavam sobremaneira com seu paciente. Queriam vê-lo curado, saudável, feliz e vivo. E estava vivo, mas cada vez menos consciente.

Depois de uns dois ou três anos sua fúria finalmente desapareceu. A família pôde, então, levá-lo para casa. Foi um dia de alegria, todos estavam exultantes. O pai esbanjava felicidade, a mãe sorria sem parar, a irmã mimava-o de todas as maneiras, o irmão apresentou-lhe a namorada e fez ainda mais piadinhas do que de costume. E ele ali, no sofá, com um copo de refrigerante em suas mãos um tanto trêmulas, cercado por todas aquelas pessoas e tentando se lembrar quem era quem, quem era ele antes de tudo começar. Sorria inconscientemente, seus olhos inexpressivos fitavam algum lugar no infinito. Por vezes um fio de saliva escapava pelo canto da boca, mas ele não se dava conta. A irmã limpava com todo o carinho, sem reclamar. Ele parecia feliz, parecia plácido, parecia inerte, parecia apático. Não parecia ser o mesmo. Mas, oras, que importância tinha isso?

Ele estava vivo.
O que deixava todos muito felizes.

Resumo:

Colocando em uma linha o que eu levaria uns quatro parágrafos pra escrever:

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.

Ê, Mário Quintana véio de guerra.

O Segredo

Toda vez que alguém vem me falar sobre as leis da atração, tentando me convencer que aquela pilha de asneiras escrita n’O Segredo é verdade, me ocorre que a melhor maneira de testar a tal teoria seria abraçando a pessoa e mentalizando com toda a força algo como “Piano! Piano! Piano! Piano!” ou “Bigorna! Bigorna! Bigorna! Bigorna!”.

Mensagem da Diretoria:

Amigos e Irmãos.
Jagshemash.
Namastê.
Paz e Luz.

O Departamento de Marketing deste vilipendiado blog foi incumbido de trazer, ao conhecimento de Vossas Senhorias, o mais novo projeto de nosso Chanceler, Capataz e Calígrafo Pedro, El Nuñes. Ciente da atual sede dos internautas por informação, por instrução, por inclusão digital e social e por coxas bem torneadas de loiras, morenas e ruivas pouco sapientes que se deixam levar por qualquer conversa mole - depois de um ou dois pontos acima da escala de Jonas -, nosso Taumaturgo, Taturânico e Trovador, Pedrovsky Von Nuñovitch, fazendo uso de todo o seu conhecimento do Zeitgeist, juntou-se a duas avantajadas proeminentes mentes de seu tempo: Júlio César e Jaime, O Sem Sobrenome e/ou Epítetos e/ou Links.

Tomaram para si, Júlio, Jaime e nosso Salve-Salve, Sacrossanto e Secundino líder PedroAMNunes a (não tão) difícil missão de ironizar, avacalhar e fazer troça dos usuários do serviço conhecido como Yahoo! Respostas.

Estes três pilares do conhecimento prometem dar tudo de si - excetuando-se, logicamente, determinados trechos pouco bronzeados de suas anatomias - para guiar à luz do saber as almas carentes de conhecimento, tomadas pela dúvida e angustiadas pela ignorância.

Aguardam, daqueles capazes de auxiliar com o que quer que seja (sejam pequenas correções, novas informações ou, quem sabe, apartamentos a beira-mar numa praia do Caribe), o prestimoso e altruísta auxílio. Por fim, como já disse Dom Pedro I, num de seus trocadalhos históricos do carilho: se é para o bem de todos e o desopilar geral da nação, digam ao povo que fígado.

Atenciosamente,

Pedro Nunes e A Diretoria.
Respectivamente: Visionário, Varredor e Vocalista desta virulenta página pessoal e Diretoria.

Rascunho…

Rabisquei a baboseira que se segue em fevereiro deste ano, quando estava no blogspot. Ficou lá, esquecida na lista de rascunhos que procuro ignorar. Hoje, caçando resquícios do surto acentuoso do Wordpress, ocorrido durante a atualização do sistema, dei de cara com ela. É superficial - como tudo aqui - e inconclusiva, mas parece ter qualquer coisa de interessante (excetuando-se o primeiro parágrafo, que é muito ruim). Não sei, talvez meu senso crítico esteja amortecido, diferente de como costuma estar. Daí esse filho até então rejeitado ter conseguido finalmente se juntar aos demais.

Competência é descrever o trivial e, mais do que torná-lo facilmente compreensível, fazê-lo grandioso. É estúpido, é clichê e soa como livro de auto-ajuda, mas acho que só tem essa habilidade quem sabe ver qualquer coisa de grandioso dentro do trivial. É preciso ter percepção aguçada e um olhar crítico incansável sobre tudo - tudo MESMO.

Tento me lembrar da primeira vez que amarrei meus cadarços toda vez que páro diante da folha em branco para narrar ações ignoradas pela parte consciente do cérebro, como o ato de caminhar pela própria casa ou preparar um copo de leite com chocolate.

Se sua descrição do sujeito servindo o próprio leite merece ser desconsiderada, como o gesto o é; se poderia ser cortado do texto, sem fazer qualquer falta, o trecho no qual você descreve alguém pedindo a uma pessoa próxima para estender o sal, então você deveria mesmo cortá-lo. Aliás, talvez seu texto não vá fazer muita falta e você devesse deixá-lo de lado. Por uns dias, quem sabe? Meses, talvez? Por que não anos? Pra sempre seria uma boa idéia!

Costumo achar que me falta talento, mas talvez não seja. Careço mesmo é de paixão. Por puro despeito, talvez por inveja, faço pouco caso dos que têm paixão. Queria ser um daqueles - por mim classificados como - idiotas que abraçam cegamente as coisas. Qualquer que seja a causa, o princípio, o hobby. A paixão guia o talento, acredito. Uma pessoa que não ame a música jamais vai tocar como Miles Davis. Quem não ama escrever, quem não tira da redação qualquer coisa de plenitude, nunca vai se aproximar de Machado de Assis.

Exemplos extremos, eu sei. Miles Davis foi Miles Davis, Machado de Assis foi Machado de Assis. São incomparáveis, mas vá ver se não amavam o que faziam, ainda que - talvez - dissessem que não.

A paixão me constrange como a fé me constrange, o que só acontece porque tais sentimentos são completamente alheios a esse meu sistema egoísta, frio e estéril. Minhas paixões são volúveis, talvez por isso sejam tão rasas.