Chegou a primavera.
A primavera vem logo após o inverno e acho que, para falar dela, explicar o inverno é fundamental. Logicamente todos conhecem o inverno, mas nem todos são capazes de grokká-lo em sua plenitude. O inverno é, basicamente, a época da morte.
Perceba. O inverno é um período morto. As folhas das árvores caem, deixando o troco exposto, como o esqueleto de uma criatura antes vicejante e cheia de vida. A quantidade de insetos diminui consideravelmente: os que não estão aquecidos e suficientemente nutridos dentro da sua casa - e me refiro à sua mesmo, não à deles - se recolhem em buracos para se proteger ou morrem de frio.
Os pássaros migram quando? No inverno. Os ursos hibernam quando? No inverno. Em que época do ano os dias são mais curtos e as noites, mais longas? No inverno. Em que época do ano tudo o que você quer fazer o dia todo é ficar em casa, sob as cobertas, curtindo um sono durante o frio? No inverno.
Vivemos em um país tropical, por isso não notamos que o inverno é a maneira do planeta mostrar que não somos tão bem-vindos quanto imaginamos. Mas é como as coisas funcionam. A primavera, por outro lado…
Ah, a primavera!
Longos dias de sol aquecem a pele, despertam o corpo. O astro-rei brilha com intensidade anormal. Isso desperta as árvores e as plantas. E tudo começa com as árvores e as plantas, que novamente verdejam, como não verdejavam antes do inverno. Como só verdejaram na primavera passada. Então abrem-se as flores. Flores, flores, flores e flores. Azaléias, margaridas, acácias, violetas, lírios, dálias. A natureza torna-se um espetáculo technicolor. Diante de tamanho deslumbramento, voltam os passarinhos.
Pardais, canários, sabiás, bem-te-vis, colibris, fogo-apagous… E voltam com seus trinados, seus gorjeios, trilos e chilreios. Cantam desde antes do sol nascer até depois que ele se põe. E como nasce cedo, o sol, na primavera! E vai embora bem mais tarde.
E para acompanhar tudo isso, entram em cena os insetos. As cigarras, vindas de seus casulos subterrâneos, alçam vôo pela primeira vez e, em coro, emanam seu canto com entusiasmo, espalhando-o por quilômetros e quilômetros. Aparecem mariposas, percevejos, besouros, abelhas. Joaninhas, formiguinhas, lagartas, borboletas, libélulas. Os dias são assim: quentes, cheios de sons, de cheiros e de cores. A primavera é o período mais sensorial do ano!
…
E eu não tenho sequer um maldito lança-chamas, pra dar cabo dessa putaria toda que não me deixa dormir, que ataca todas as minhas alergias, que me faz suar litros e me força a beber água como um camelo velho.
Época desgraçada.
Como eu odeio a primavera…
Saiu CD novo do 