Imagine que você comprou um carro. Um carro novo, de uma marca nova, que você nunca usou, que já tem alguma história no exterior, até um certo renome, mas que não existia aqui no Brasil. Aliás, ainda não existe, pelo menos não oficialmente. Você mandou importar esse seu carro. Custou uma baba, mas, oras, lá fora falam tão bem dele. Por que não ter um igual aqui?
Quando o seu carro chega, você nota que ele é diferente. Bem diferente do que você está acostumado. Não tem volante, por exemplo, o que te leva a ficar por muitos minutos tentando descobrir como é que se controla o troço. A ignição também se dá de maneira diferente. Você não tem que enfiar uma chave em um buraco e rodar, apenas botar a bunda no assento três vezes após iniciar o processo de reconhecimento. O carro sincroniza com a impressão nadegal da tua bunda e te reconhece a partir disso. Da mesma maneira, os pedais - que existem, mas em maior quantidade - ficam numa ordem inusitada. Existe um acelerador apenas para a ré, por exemplo.
Diz pra mim se vale a pena comprar um carro desses. Você passa anos - ANOS! - se acostumando a um determinado desenho, a uma certa configuração que sempre deu certo. É aquela que você usa, é a que você se acostumou a usar. É simples, é intuitiva. Não requer grandes esforços, muito estudo. Pisa aqui, muda ali, agora pisa lá. Pronto, esta merda está andando.
Não existe nada - e eu disse NADA - na informática mais simples do que arrastar-e-soltar. Qualquer criança sabe usar arrastar-e-soltar. Qualquer MACACO usa arrastar-e-soltar, se receber como recompensa uma fruta bonita o suficiente. Por isso mp3 players deveriam ser assim: você conecta o apetrecho na tua máquina, abre-se uma nova pasta, correspondente a ele. Você clica nos arquivos de música que quer transferir, arrasta e solta lá dentro da pasta.
Diz pra mim: QUÃO difícil pode ser isso? NÃO É DIFÍCIL!!
Mas, oras, por que a Apple vai se render a isso? Por que a Apple iria se sujeitar a esse conceito besta, a essa idéia ultrapassada, demodé, obsoleta, anacrônica de que as coisas podem ser simples? A apple não precisa ser simples, a Apple é a Apple. Se ela fosse simples, não seria a Apple. Seria uma empresa dessas menores, que fazem coisas feias, desenvolvem programas toscos, não primam pela beleza, pelo design, pela estética. Seria… sei lá… a Microsoft?
Porque, por mais escrota, estúpida e errada que seja, a empresa do tio Gates SABE desenvolver aplicações intuitivas. Os caras sabem pensar - talvez porque de fato pensem - como um usuário idiota pensaria. Conheço pessoas que me surpreendem ao mostrar que sabem amarrar os próprios sapatos, mas não por saber entrar no MSN e iniciar uma conversa com vídeo. Cadarços não são coisas intuitivas. O MSN é. Pra caralho. Temos que dar esse crédito à microsoft. Ela sabe criar programas que você domina, ao menos no nível básico, em menos de 5 minutos.
A Apple não sabe. A Apple cria o iPod, cuja lista de méritos é tão longa que eu prefiro não escrever, mas têm a maravilhosa habilidade de cagar no pau JUSTAMENTE no aspecto que deveria ser o mais simples, mais ridículo, mais rasteiro, mais usual: na hora de definir as transferências de arquivo.
Porque, veja, você NÃO PODE clicar nas suas músicas, copiá-las e então colá-las no diretório do seu iPod, após conectá-lo ao seu computador com um cabo USB. Não pode, não é assim. Que tipo de empresa a Apple seria se não desenvolvesse uma aplicação complexa, feia, NADA intuitiva e que NÃO TE RESPONDE PORRA NENHUMA DO QUE VOCÊ QUER SABER? Oras. Seria uma empresa inteligente. A Apple não quer ser inteligente, a Apple quer ser bonita. Se a Apple quisesse ser inteligente, já teríamos iPhones à venda em todos os buracos desse planeta. Se a Apple fosse inteligente, o iTunes seria OPCIONAL, e não OBRIGATÓRIO na hora de administrar o seu maldito mp3 player. Até a FOSTON faz melhor que a Apple nesse sentido, não sei se dá pra cair mais do que isso…
Abusando um pouco dos paralelos, a Microsoft é uma moça de aparência mediana, com arroubos inesperados de beleza, mas que ao menos tem uma conversa bacana, que pode ser mais profunda, se você quiser, mas que também sabe ser superficial o bastante pra não te confundir com virtuoses técnicas. Passar os olhos sem muita atenção é o suficiente pra saber o que há com ela.
A Apple é uma mulher bonita pra caralho, mas burra feito uma porta e fútil até o limite da superficialidade.
Sinceramente, eu optaria por comer a primeira.