Época de Oscar é uma maravilha, vai dizer? Tu olha praquela lista de filmes no jornal e tem vontade de ver uma porrada. Muito filme bacana, coisas de diretores consagrados, os melhores atores em cartaz, a crítica se desfazendo em elogios rasgados a uma caralhada de gente. Daí tu tem que ir ao cinema umas três vezes por semana pra assistir tudo, antes que o que te interessa dê lugar a uma porcaria pré-adolescente qualquer.
Da mesma maneira que sai muita coisa bacana, sai muita podreira. Sai também muita podreira travestida de coisa bacana, o que é o pior que pode acontecer: ler uma crítica positivaça a respeito de alguma coisa, chegar no cinema e ter uma puta decepção com o filme. Muito mais legal é ver uma crítica que esculacha a parada, chegar lá e curtir pra caramba. Melhor se surpreender pra melhor do que pra pior, como parece evidente.
Mas enfim. Fui ver, nos últimos dias, alguns filmes que me interessavam há tempos, mas que eu não tinha ido ver porque sou um procrastinador compulsivo. Segue a lista e minhas considerações a respeito:
Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, foi o primeiro deles. Os Coen são uma dupla que eu respeito pra caralho. Gostei bastante de todos os trabalhos deles que eu vi: Arizona Nunca Mais, E Aí, Meu Irmão, Cadê Você?, Fargo, O Grande Lebowsky. Os caras simplesmente têm um péssimo senso de humor, uma satisfação mórbida em azucrinar, torturar, maltratar, esculhambar os personagens. Ao mesmo tempo, são muito justos: todo mundo, em algum ponto da trama, se fode – em maior ou menor grau -. Sem discriminações com os infortúnios. Traço narrativo que eu aprecio, principalmente quando o sofrimento dos personagens beira o Hitchcockianismo (e se o termo não existe, está cunhado a partir de agora).
E aí os caras me fazem um filme absurdamente promissor. Colocam o Javier Bardem fazendo o que eu chego ao ponto de dizer que foi o melhor papel que ele fez na vida, sacam o Josh Brolin de algum limbo de famosos-pero-no-mucho, apresentam um Woody Harrelson fazendo o papel que ele faz melhor, o mesmo com o Tommy Lee Jones. Não escrevem UM, nem mesmo UM diálogo que soe despropositado ou fora de lugar ou forçado ou qualquer coisa dessas. Fazem uma história simples e com poucas variáveis, com bons personagens e com bons diálogos, enfim, mas erram no foco. E errar justamente no foco pode transformar a experiência em um puta coito interrompido, que é o que Onde Os Fracos Não Têm Vez acaba sendo. Um filme sensacional, que tropeça justamente por um foco impensado, um desenvolvimento pouco trabalhado. É triste, mas é fato. Não dá pra detestar o filme ou dizer que ele é ruim. Seriam duas grandes injustiças. Mas afirmá-lo perfeito também é forçar muito a barra. Fico com a pergunta indignada que li em um fórum no qual uns caras discutiam cinema:
“Qual o problema em acabar o filme com um final? É burguês? Ou é plebeu demais? É muita farinha na ‘média cultura’?”
Já Eu Sou A Lenda, se não é um primor de roteiro, ao menos é bem-amarrado. Admito que tenho uma certa atração por filmes que apresentam a solidão na sua forma mais crua: toda a humanidade foi pro caralho, você é o último representante da sua espécie. Se a definição de paraíso é uma coisa particular, então essa é a minha. O bairro todo só pra mim. A cidade. O mundo. Ir onde quiser, quando quiser, como quiser, sem o risco de esbarrar com alguém no caminho, sem ter que tolerar outros seres humanos, sem mais ninguém além de mim e dos meus pensamentos. Entrar nos supermercados e comer o que der vontade. Ver os filmes que quiser. Ler os livros que quiser. Morrer sozinho, tendo, como companhia, no máximo um cachorro, talvez nem isso. Se existe felicidade mais completa, não me ocorre agora.
Com isso em mente, fui ver Eu Sou A Lenda, como fui ver Extermínio, como assisti Vanilla Sky – só por causa daquela cena com o Tom Cruise sozinho em Times Square. Mas só o filme do Will Smith conduz essa possibilidade de uma maneira que se aproxima do que eu gostaria de ver. Justamente por isso, é um roteiro bastante ousado. Se apóia apenas na capacidade do protagonista de conseguir simpatia do público. Um ator menos carismático ali e ninguém teria saco pra aguentar quase duas horas de um sujeito andando sozinho numa Nova Iorque deserta. Não sei se só eu tive essa impressão, mas aquelas criaturas com as quais ele briga parecem muito os robôs de Eu, Robô feitos de carne. Aliás, ato falho do filme: não havia razão para colocar as criaturas como CG’s. É lógico que certas cenas demandam efeitos especiais, mas por que fazer tudo em computação gráfica? Com exceção disso – e do destino do cachorro, que me incomodou profundamente -, é um filme que eu recomendaria. Não é UM FILMAÇO, CACETE, QUE FILME FODA, PUTAQUEOPARIU! e tal. Mas é um bom filme, que vale a pena ser visto no cinema, como acontece com os bons filmes de ação.
Já com Cloverfield eu sou mais cuidadoso na hora de recomendar. Em primeiro lugar, não achei um filme ruim, como acharam algumas pessoas que viram comigo no cinema e saíram indignadas, reclamando por terem dado dinheiro para aquela abominação cinematográfica. Pelo contrário, achei até bem divertido. Valeu a meia-entrada que paguei para ter um período curto de diversão. Como eu disse para alguns conhecidos no cinema, “se teu negócio é filme de arte, você não deveria ter visto isso”. É cinemão pipoca na sua forma mais pura. Nada de análises psicológicas profundas dos personagens, nada de grandes moralismos ou idealismos vazando por entre os diálogos, nada de grandes críticas ou odes à natureza humana. Se a premissa – um monstro gigante devastando Nova Iorque – te incomoda, então, sério, não vá ao cinema. Pra você vai ser um desperdício de tempo e dinheiro. Mas se a idéia te agrada, então vá. E tente desvendar como, anatomicamente, é a tal criatura. Eu infelizmente não posso dizer que consegui.
Também vi P.S.: Eu te amo e Gângster, ontem.
Mas sobre esses eu não tenho nada a dizer. Um é uma comédia romântica. Arranca algumas risadas, em certos pontos, e pode até comover os mais sensíveis, em outros. Não é divertidíssimo, mas também não é sem-graça, não é extremamente tocante, mas também não é meloso. Pra uma comédia romântica, ficar no meio-termo, assim, já é um avanço e tanto. E Gângster, porra. Denzel Washington chuta bundas, como é de seu feitio. Russel Crowe também, como de costume. Josh Brolin eu nem menciono. Por que esse cara ficou na surdina até agora? Puta perda pro cinema. Ridley Scott é um cara que parece caminhar entre diferentes extremos pros fãs de cinema. Há quem ame tudo o que ele fez, há quem odeie. Não amo nem odeio, mas foram poucos os filmes dirigidos por ele que me decepcionaram. No geral, saio com aquela sensação de ter gasto meu dinheiro corretamente, sensação que se repetiu ontem.
Não vou dar estrelas ou pontuar minhas opiniões de um a dez, um a trinta, noventa e sete a dois mil, setecentos e oitenta e três. Leve minhas considerações em conta na hora de escolher o que assistir ou não leve. Crítica cinematográfica é uma coisa imbecil mesmo, já que a experiência varia de pessoa pra pessoa, então tudo o que eu disse aí não vale de porra nenhuma. Da mesma forma, não vale nada o que dizem no jornal da sua cidade, da minha cidade ou de qualquer outra cidade.
Vá ver o que te atrair e crie sua própria opinião.