Arquivos de Fevereiro, 2008

Esse texto é muito longo! Bota umas figuras!

Sou um cético com tendência ao ateísmo, um agnóstico dado a heresias, um piadista que prefere irritar a fazer rir, um leitor que enriquece seu vocabulário a cada livro, mas prefere usar palavrões por acreditar que ser chulo é mais legal do que ser prolixo, um cínico que elogia pra não xingar e xinga elogiando, um grosseiro bem-educado que é ríspido por opção, um sujeito amigável que não quer fazer amigos, um cara cheio de amigos que raramente vê, porque gosta mais deles assim. Apesar de tantas contradições, há um aspecto em tudo isso que é bastante coerente: eu não faço o que se convencionou chamar de “engenharia social”. Não me relaciono com ninguém por qualquer outra razão que não seja o fato de querer ver a pessoa, ir com a cara dela, gostar de suas idéias ou da maneira como ela as desenvolve. É tudo muito simples, de verdade: se te elogio de forma direta, brutal, rude, é porque de fato gosto de você. Se te elogiar com um belo vocabulário, com afetação, me certificando de elevar à enésima potência todos os seus atributos - inclusive os que você não tem - estou sendo irônico.

Sou contra essa brincadeirinha atual, essa regra não declarada, de ser simpático, gentil, polido, educado e politicamente correto. Muito, muito contra. Não admito quem seja simpático com todos, quem é amigo de todos, quem convive bem com todos, simplesmente porque uma coisa dessas não é humanamente possível. Não admito quem dobra a verdade, a distorce ou fecha os olhos em face dela para manter a “boa convivência”. Não acredito que seja certo sair por aí com suas verdades, esfregando-as na cara dos outros, colando-as nas costas dos outros como se fossem etiquetas, também, mas daí a ignorá-las para evitar o atrito? Oras, é preciso ter critérios. Preconceitos são uma falha horrorosa, mas não ter conceito algum não é menos medonho.

Saber fazer ouvidos moucos às suas verdades, aos fatos desagradáveis sobre as pessoas que você conhece; saber ignorar o que te desagrada e demonstrar falsa simpatia; se aproximar sorrindo para conseguir simpatia; ser gentil e cordial, solícito e prestadio, porque assim te parece mais vantajoso. Isso não é “ser bom” e está longe de ser “ser justo”.

Isso é ser político.

Vai daí que uma das minhas aversões à política - nos dois sentidos - que se instaurou entre os blogs atuais seja justamente em relação a esse ponto. As “parcerias”, como gostam de chamar. Me aborrece saber que o autor de um blog que eu leio me recomenda, em sua lista de links, com direito a posto privilegiado para dar mais visibilidade, o site de alguém apenas porque o determinado site prometeu mais visitas, o que significa mais pageviews, o que significa mais dinheiro vindo do google adsense. Não há um critério que justifique aquela indicação além desse: quantas ovelhas você pode mandar para o meu rebanho, quantas posso mandar para o seu? É o toma-lá-dá-cá.

Muitos desses sites não têm um texto mais elaborado escrito pelo autor (perdão por usar o termo levianamente). As idéias do “autor” não estão ali. Provavelmente nem existem. São apenas amontoados de notícias, comentadas superficialmente. São a mesma coisa que você leria se entrasse em qualquer site de notícias, mas geralmente focadas em esquisitices ou curiosidades. Porque linkar notícias políticas e comentá-las com propriedade exige muito mais raciocínio e bom-senso do que falar de um novo tipo de camiseta, de cortes de cabelo ou de mortes, casamentos, gravidezes (??) de famosos. Porque ser racional (mas nem precisa ser muito), lógico (ainda que de forma esquisita) e articulado (sem ser prolixo) é muito difícil. Contar as coisas, em vez de comentá-las, analisar as coisas, no lugar de mostrá-las, examinar as coisas, e não apenas apontá-las, puxa, tudo isso dá um trabalho miserável.

É uma era maldita. Computadores eram essencialmente baseados em leitura. A web era essencialmente leitura! Não tinha muito a se fazer na internet além de ler e escrever. Páginas eram puro texto, só html e imagens. À medida que a tal “inclusão digital” foi se expandindo, o formato da mídia também foi. Por que ler, se você pode ver um vídeo? Por que ler, se você pode ver figuras? “Esse texto é muito longo. Cadê os vídeos engraçadinhos?”. “Esse blog tem muitas letras. Distribui umas imagens para fazê-lo mais didático”. “Você escreve demais. Coloca aí uma figura com uma piada”. Daí o sucesso indiscutível de kibe loco e assemelhados, daí o fato de todos - eu não digo alguns, digo TODOS - os blogs que se proclamam “veículos de informação” serem apenas montes de links para notícias com comentários superficiais. Nenhuma opinião que saia do padrão, nenhuma piada que aquele seu tio que pergunta se “É pavê ou pacomê?” não pudesse fazer melhor.

Por que ler um blog, afinal, se você pode apenas VER um blog?

Tudo isso vai lentamente me empurrando porta afora desse tipo de coisa. Porque, quando o assunto é blog, sou um reacionário. Eu gosto de pensar, eu gosto de ler coisas novas. Gosto de me deparar com textos de caras que sabem pra caralho, mas que não são prolixos e não arrotam conhecimento - como os jornalistas que escrevem por aí - e pensar “Mas veja você, eu nunca tinha visto as coisas por esse ângulo!”. Os - poucos - blogs que me conduzem a isso, que me fazem pensar “Não sei por que ainda escrevo, esse cara fala tudo com muito mais categoria do que eu” estão lentamente sendo sugados para a propaganda desesperada e a “busca por parcerias”, porque o autor resolveu que quer viver disso e está trabalhando em seu projeto de engenharia social.

Odeio ser um conservador, mas é como me sinto. Como um desses sujeitos que resistem ao que se conhece como “modernização”. Sou desapegado, “pouco profissional” com essa ferramenta, teimoso, pouco sociável. E por quê? Porque não quero ganhar dinheiro, porque quando alguém paga suas contas, restringe sua liberdade de opinião. Porque não quero me encher de leitores, porque não quero milhares de comentários e milhares de opiniões dispensáveis espalhadas aos pés dos meus textos, que, embora não sejam grande coisa, são bons demais para coisas do tipo “ahuehauehaueh mt rox”. É como se eu tivesse um filho: ainda que não quisesse superprotegê-lo, também não seria certo deixar que se tornasse um escravo, um submisso ou um retardado.

Resumindo, para quem tem preguiça de ler, Saramago diz mais ou menos o mesmo que eu, embora com outro foco (e com muito mais categoria):


(E se você teve preguiça de ler, não sei por que continua vindo aqui…)

Ficaram ótimas!

Chegando ao trabalho, encontrou um pacote fechado sobre sua mesa. Um bilhete dizia “veja as fotos da festa!”. “Ué… que festa?”, pensou, enquanto abria o embrulho.

Um pigmeu surgiu de trás de sua cadeira, gritando “HAAAA! TE PEGUEI!”. Antes que ele pudesse esboçar qualquer reação, o nanico tomou seu celular e passou a ligar para cada um dos contatos. Dizia apenas “Veja as fotos da festa! Ficaram ótimas!” e desligava.

Sem saber o que fazer, o sujeito apenas observava, incrédulo. Depois desse surto, o pequenino devolveu o telefone e, puxando um banquinho, sentou-se ao seu lado. Retirou do bolso um bloquinho e uma caneta e ficou aguardando.

- O que você está fazendo?

O pigmeu rabiscou algo no bloquinho.

- Com licença?

Tornou a rabiscar.

- Oi! Tô falando com você!

Nova anotação.

Cansou de insistir e resolveu trabalhar. Sentou em sua cadeira, ligou o computador e foi pegar um café. O pigmeu seguiu cada um de seus passos, sempre tomando nota. Voltou para a mesa, sentou-se diante do monitor e estava abrindo o e-mail quando sentiu na nuca a respiração do nanico, que observava sobre seu ombro.

- Pô, você tá anotando minhas senhas?

O pigmeu permaneceu em silêncio. O homem ia se enfezando. Estava lendo os e-mails quando, de súbito, ouviu o barulho característico do botão de liga/desliga do computador sendo pressionado. Olhou para baixo e ali estava o pigmeu, resetando a máquina. Resolveu que, por mais que fosse bem bolada, aquela piada já tinha ido longe demais. Foi falar com o chefe.

- Com licença, chefe.
- Pois não?
- VEJA AS FOTOS DA FESTA! VEJA AS FOTOS DA FESTA!

O chefe, de costas para o funcionário, lendo com interesse um e-mail na tela do computador, virou-se assustado ao ouvir a voz esganiçada.

- O que é isso?
- Estou tendo um problema no meu escritório.
- O que há?

O homem apenas apontou para baixo. O chefe olhou por cima da mesa e viu o pigmeu, anotando freneticamente em seu bloquinho. Fechou o cenho de imediato e adotou um tom de voz extremamente aborrecido:

- Não acredito que o senhor abriu um arquivo desconhecido!
- Ué, estava na minha mes…
- O senhor tem idéia de quanto gastamos POR ANO em segurança da informação nesta empresa?
- Segurança da informação? Mas era um pacote físico!
- Não me venha com desculpas. Ligue para esse número e fale com nosso suporte técnico.

Retornou para sua sala, sempre seguido pelo pigmeu. Pegou o telefone e começou a discar o número do suporte, mas o aparelho ficou repentinamente mudo. Seguiu o fio com os olhos e viu o pigmeu terminando de arrancá-lo da parede.

Xingou qualquer coisa que o pequenino anotou. Irritado, usou o celular para fazer a ligação. Uma voz gutural, raivosa, grave e agressiva atendeu do outro lado.

- Suporte.
- Com quem eu falo, por gentileza?
- Com o suporte.
- Hm… estou tendo um problema…
- Que tipo de problema?
- Um sujeitinho inconveniente que passou a manhã inteira me atrapalhando.
- Como assim?
- Anota tudo o que eu faço, desliga meu computador, pega meu celular e liga para todos os números, mandando mensagens bizarras…
- É um cavalo de tróia.
- Não se parece muito com um cavalo…
- Mas é. É um spyware.
- Não se parece muito com um vírus, também.
- Quem é o especialista aqui?

Tal pergunta, feita por aquela voz, causou-lhe um arrepio. Achou melhor não discutir mais.

- Você, é claro.
- Você tem um anti-vírus?
- Que tipo de anti-vírus?
- O tipo que resolve problemas com vírus, spywares e todo tipo de programa mal-intencionado.
- Hm… acho que não tenho um.
- Vou levar um até aí. Você é alérgico a gatos?
- A gatos?
- Sim.
- Até onde eu saiba, não.
- Ótimo.

Meia hora depois, um sujeito mal-encarado, com uma espingarda a tiracolo, entrou no escritório. Segurava a ponta de uma coleira que tinha, na outra extremidade, um enorme leão de juba preta, olhos injetados e caninos pontiagudos que pingavam saliva. O bicho olhava fixamente para o pigmeu. O pigmeu pareceu empalidecer. O homem mal-encarado soltou a fera, dizendo:

- Varredura completa.

O bicho correu pra cima do pigmeu. Chocado, o cidadão assistia a tudo enquanto o imenso felino, após perseguir o nanico pelo espaço restrito da sala, acabou por espedaçá-lo. Em seguida devorou os pedaços avidamente.

- Vê se não esquece de atualizar com regularidade.
- Atualizar?
- É. Ou seu sistema pode entrar em risco. Tenha um bom dia.
- Bom dia.

Voltou para seus afazeres. Não houve mais notícia de pigmeus zanzando pelo escritório.

Segunda mão

Em outubro do ano passado, certo dia fui abordado no MSN por um imbecil filho da puta. Ele veio perguntar se eu não tava a fim de rabiscar uma porcaria qualquer pra tirar o cu dele da reta. Não sou escritor e não pretendo ser escritor, então não admito a possibilidade de ganhar dinheiro escrevendo. O imbecil tratou de me tranqüilizar, ressaltando que eu não iria receber um puto furado pela colaboração. Sendo assim, não vi mal algum e topei.

A coluna trata de “vida virtual”, seja lá o que isso signifique. Justamente por não ter muita idéia do que “vida virtual” quer dizer, o anormal me mandou, a título de exemplo, colunas dos meses anteriores falando sobre o assunto. Imediatamente percebi que aquela função estava muito além das minhas capacidades. Meus antecessores todos eram sujeitos que escrevem blogs descaradamente competentes: Paulo Vivan e Nelson Moraes já tiveram textos publicados ali.

Me vi acometido por um leve ataque da Síndrome de McFly. Como o fechamento da edição seria dali a dois dias e eu não ia me negar a prestar um favor depois de ter aceitado, comecei mentalmente a rabiscar alguma coisa referente ao assunto. Como é da minha natureza ir contra a corrente, achei que seria muito mais interessante, em vez de apontar aspectos bacanas da infernet e vantagens que ela traz para a vida dos viciados, doentes e psicóticos em geral “internautas”, citar algumas das dores de cabeça e aborrecimentos que ela pode causar aos desavisados. Foi o que fiz.

E fiz mal. Escrevi sob pressão (minha, mas pressão, de qualquer maneira). Me lembrei por que eu não sirvo pra trabalhar escrevendo: toda vez que alguém me pede pra redigir um texto sobre um tema específico, sai uma porcaria. Não soa natural, não tem fluência. É artificial, claramente artificial, visivelmente falso. Como um arremedo de alguma coisa que, sob condições normais, até poderia ser notável. Sob pressão, entretanto, sai disforme, sem-graça, insossa, desprezível.

Não sou um escritor, não quero ser escritor, nunca serei escritor. Por várias razões. Uma delas é essa: sob pressão, meu nível de qualidade, que é medíocre - outra das razões -, torna-se negativo.

Fiquem com essa coisa ruim, patética, sem-graça e fraca que acabou sendo publicada, de todo modo. Porque a revista não tinha nada pra colocar no lugar, porque o imbecil, como o mau-caráter falso que sempre foi, preferiu não descartar o fruto podre do esforço que fiz para ajudá-lo.

Muita gente costuma mencionar como a Internet “aproxima” as pessoas. Para sustentar essa afirmação, falam de amizades, paixões, amores e casamentos que surgem graças à rede mundial de computadores. Porque, veja só, hoje em dia você e um chinês de nome impronunciável – do qual você nunca teria ouvido falar se não tivesse um computador com alguns periféricos e uma linha telefônica – podem ser os melhores amigos do mundo. É possível? É possível.

É provável?

Não, não é.

Do meu ponto de vista, a Internet é, além de um enorme e frívolo repositório de inutilidades, a azeitona sobre a empada passada que há de desencadear a guerra capaz de aniquilar a sociedade como a conhecemos. É possível, sim, fazer amigos pelo mundo todo navegando em sites, fóruns, blogs e outras ferramentas que compõem a assim chamada “web 2.0”, mas é mais provável que você faça inimigos.

Pense bem: a Internet baseia-se, majoritariamente, em informações escritas. Você escreve algo e deixa lá, esperando que alguém chegue até ali - provavelmente por intermédio do google - e leia. Por mais que você se esforce em parecer dócil, afável e compreensivo ao expor suas idéias, existe uma série de fatores – que variam desde seu controle da linguagem escrita até a vida sexual do leitor – que podem tornar suas idéias horrivelmente acintosas e dignas de uma resposta repleta de adjetivos pouco construtivos, que não vou reproduzir aqui mas que, tenho certeza, os leitores conhecem muito bem.

Ataques de fúria podem (e vão) surgir dos assuntos mais inesperados. Inimigos vão aparecer imprevisivelmente. Antes que você se dê conta, estará unido a alguém que vive do outro lado do globo, que trabalha enquanto você dorme e dorme enquanto você trabalha, que se sujeita a um conjunto de leis totalmente diferente do seu e que pensa em um idioma do qual você provavelmente não conhece uma palavra. Alguém que existe em outro universo, enfim, nutrirá por você uma raiva só igualada pela fúria que você sente quando aquele vizinho que gosta de ouvir música alta liga o som às 9 horas da manhã de sábado.

É essa a lição que a internet está nos ensinando: que as pessoas são irritantes em qualquer lugar do mundo, que não há refúgio seguro contra os inconvenientes. A vida virtual está nos tornando mais cultos, talvez, mas também mais cínicos, mais desconfiados e mais descrentes quanto ao bom-senso da humanidade. A Internet veio para semear a discórdia (e a pornografia, mas isso já é outro assunto).