Arquivos de Agosto, 2008

Sacaneando, eu?

- Ah, então você resolveu aparecer?
- Já tava com esperança de não me ver hoje, né? Acha que eu ia me oferecer pra tomar uma bronca igual à de ontem? Nem morta, santa.
- Mas como você me aparece com quase uma hora de atraso? Sorte que não tem aula nesse primeiro horário, por causa da palestra.
- Sério que não tem aula agora? Pô, se eu soubesse disso, tava em casa tomando um banho e descansando um pouco. Só vim hoje pra você não ficar chorando aí, desconsolada com a minha ausência. Aliás, ontem eu não entendi como você se lembrou que eu faltei à última aula. Depois, pensando a respeito, notei que você só marcou meu nome e rosto porque fiquei te devendo uma pipoca!
- Que, aliás, com os juros, já são três pipocas. Aliás, você já tá me devendo um pipoqueiro completo, com carrinho e tudo.
- Ué, sendo assim fica mais fácil: tem um lá na frente do prédio. É seu. Pode levar pra casa.
- Engraçadinho. Vamos lá assistir à palestra?
- É sobre o quê mesmo, esse troço?
- Automação comercial.
- Ah, não. Qual é? Eu trabalho com isso o dia todo, chego aqui ainda tenho que ver apresentação sobre um negócio que eu já tô careca de saber? Não venho pra faculdade pra ficar vendo essas baboseiras, venho pra cá em busca de emoção, de alguma coisa mais interessante, mais ameaçadora. Tipo… tipo… lógica de programação.
- Eu notei um certo tom de sacanagem com a minha matéria nessa sua fala aí.
- Quê? Adriana, como é que você sugere uma coisa absurda dessas? Eu seria incapaz de usar ironias! Onde já se viu. Um homem sério como eu, com esse tipo de piadinhas? Inaceitável.

***

- Adriana.
- Diga.
- Tenho sono.
- Como?
- Tenho sono. Tenho muito, muito sono.
- Ah, é?
- Sim. Por favor, seja breve com essa próxima aula.
- Mas que cara-de-pau!
- É a sonolência que anestesia meus pudores e meu bom-senso.

Alguma coisa na faculdade tem que ser divertida, afinal de contas.

Articulações

Cotovelo
Um cotovelo.

Das coisas que começo (e não termino nunca) - I

Simone tinha olhos castanhos, de um castanho claro amarelado, uma cor que lembrava âmbar e parecia refletir a luz de forma ímpar, diferente de qualquer outra coisa que você já tivesse visto. Sentava-se meio de lado, cruzava as pernas e jogava por sobre os ombros, para seus interlocutores, aquele olhar capaz de corar até mesmo o mais desavergonhado cafajeste. Não fazia toda essa pose ritahayworthiana por querer, era algo involuntário. Tinha um charme que entornava em cada gesto. Não conseguiria contê-lo nem se quisesse.

Simone me fazia entender como era possível um homem se apaixonar por uma mulher de burka.

(Pra onde caralhos vai um texto que começa assim? Se não virar um romance - no sentido amoroso da coisa, não editorial -, torna-se uma tragédia. No meu caso, sempre tende para o segundo tipo de história.)

Ainda sobre as olimpiadas

Ainda falando desses eventos cheios de esportes que ninguém sabe de onde vêm, pra onde vão e por que existem, ano passado, durante os jogos Panamericanos, respondi, nos comentários de um blog que não vem ao caso, a uma pergunta interessante: como alguém descobre ter talento para salto com vara?

Ciente de que boa parte das pessoas não sabe como tal vocação é descoberta, deixo aqui a indicação, para aqueles que quiserem se aventurar a fazer o teste. A esses, desejo muito boa sorte.

O teste de talento para salto com vara é aplicado junto com o teste de talento para badminton, o teste de talento para esgrima e o teste de talento para ingrediente da bonguy.

Você solta uma criança, munida de um cabo de vassoura, em um quadrado com cerca de 2 metros de altura, na companhia de um rottweiler raivoso.

Se a criança utilizar o cabo de vassoura para pular a cerca, vai treinar salto com vara. Se esperar o ataque do cachorro e, brandindo o pedaço de pau, jogá-lo para o outro extremo do quadrado, nasceu para o badminton. Se estocar o cachorro e conseguir afastá-lo, é um esgrimista nato.

Se for dilacerado pelo bicho, nasceu mesmo pra ser parte integrante de ração canina. Os restos são recolhidos e enviados para uma fábrica nas proximidades, onde serão devidamente processados.

Mais alguma dúvida?

O inquisitivo Doda também demonstrou uma dúvida, em seu blog, relativa às aplicações práticas e às regras da luta greco-romana. Explico, pois, como se dá tal modalidade do esporte: como vocês puderam notar - aqueles que perderam tempo assistindo a esse evento específico, logicamente -, os rounds na luta greco-romana começam de forma… hm… peculiar: um dos homens de colante prostra-se em decúbito ventral, ou assume uma postura acocorada, enquanto o outro, igualmente de colante, acochambra o primeiro carinhosamente. Quando o juiz apita, ambos começam a se debater. Vence, ao fim, o que for enrabado o menor número de vezes. Como tira-teima, a Organização Mundial de Luta Grego-Romana sugere que seja feito o teste da farinha.

A exemplo do que ocorre no jiu-jitsu, essa “luta” nada mais é do que o ritual de acasalamento dos homens sem-camisa. Os dois lutadores, atracados em posição de cópula, procuram decidir quem fará o papel de fêmea. A luta greco-romana, entretanto, leva certa vantagem, visto que os contendores alternam as posições, executando o tal troca-troca, tão rotineiro nas relações homossexuais.

Mas não falo por experiência.

Olimpiadas

(A falta do acento no título cria um trocadilho muito besta. Repare.)

Desde que o socialismo deixou de ser um contrapeso decente, uma “ameaça” real ao capitalismo, a situação só degringolou. Você veja, por exemplo, o evento atual na China, que já não é socialista, mas também não parece ter deixado de ser: Os caras têm uma puta trabalheira durante anos e anos pra montar trocentas quadras de todos os esportes com e sem bola, cubo-d’água, pista de atletismo, pista pra hipismo, a puta que pariu. As olimpíadas estréiam e o que a Rússia e a Geórgia fazem?

Começam uma guerra.

Esses (ex)socialistas andam meio desunidos, é foda. Baita desrespeito com todo o trabalho que os amarelos tiveram pra organizar os jogos olímpicos e silenciar todos os manifestantes querendo erguer placas, cartazes e vozes em prol dos nepaleses. Nossa sorte é essa nossa imprensa, tão séria e competente, tão boa em priorizar o que é prioridade e deixar de lado o que não tem muita importância. Graças a ela não temos que ficar vendo imagens de civis desesperados ao terem seus lares e familiares espalhados por quilômetros a fio, tampouco temos que ouvir declarações desses humanistas idiotas - o que essas pessoas sabem, afinal? -, querendo fazer longos e tediosos discursos a respeito do pega-pra-capar na Europa, dizendo que a guerra é a forma mais inaceitável de se conseguir alguma coisa e que a violência, longe de ser um argumento, é justamente a resposta usada na falta deles.

Nah, não temos que ver nada disso, ouvir nada disso, pensar em qualquer baboseira dessas. Que se danem os milhares de refugiados, assassinados, esquartejados, aniquilados, bombardeados, ensangüentados, injustiçados e arrasados moradores da Geórgia. Vão bombardeando eles aí, Russos, que existem coisas mais importantes na televisão. Temos que ver se a seleção de vôlei vai ou não ser campeã, ou se o Michael Phelps vai - surpresa das surpresas - bater mais um dos inúmeros recordes mundiais que detêm, se um sujeito em um barquinho a vela vai conseguir pegar mais vento que outro sujeito em situação semelhante, se uma mulher magricela com ombros mais largos que as nadadoras com peitão musculoso de homem vai ser capaz de, munida de uma vara, saltar sobre uma outra vareta, lá em cima, bem na casa do caralho.

Isso, sim, é bacana. Isso, sim, é entretenimento.

Olimpíada é uma vez a cada quatro anos. Guerra tem todo dia, pô. Não temos aqui a preocupante situação do Rio de Janeiro pra preocupar nossas preocupadas cabeças nesse preocupador sentido? Então.

O importante primeiro, pois. Dois minutos de guerra nos telejornais, quinze de sétimo lugar na natação feminina. Duas notinhas sobre os mortos e feridos nos jornais, um caderno e meio sobre badminton.

Acabando as Olimpíadas, se a situação na Geórgia persistir, poderemos reclamar da falta de bom-senso dessas pessoas que preferem despedaçar umas às outras a ficar na frente da TV, vendo esportes dos quais nunca ouvimos falar e esportistas que são as celebridades de hoje, os filhos preferidos da nação, os símbolos vivos do que o país representa. E os zés-ninguém de amanhã.

Depois das cracas…

Fez-se necessário dar cabo dos que esburacavam meu prazer e minha motivação pra escrever. Não consegui acabar com todos, ainda, é lógico, mas boa parte já é história. O resto vai sendo removido do casco do navio à medida que for se mostrando necessário. Ou então retornamos esta embarcação pro cais novamente, caso outros naufrágios mostrem-se prováveis.

Agradeço aos que eu gosto e que, direta ou indiretamente, apontaram a minha estupidez ao fechar este blog. Sejam tolerantes: essas crises vêm e vão, mas de forma muito mais esparsa do que faziam antigamente. Façam a gentileza de vestir seus coletes salva-vidas, sim? Esse botezinho restaqüera torna a lançar-se.

Que venham as ventanias e as vagas. São elas que nos impelem, afinal de contas.

Ah, a lista de links foi sensivelmente reduzida. Os portos onde eu eventualmente atracava tornaram-se mais limitados, porque as pessoas, aparentemente, estão se tornando muito limitadas. Ou talvez o problema seja eu, mas quem é que sabe? O fato é que minhas recomendações mudaram, assim como muitas das minhas amizades, no decorrer desses 4 meses de ausência.

Minha vida, entretanto, não sofreu qualquer mudança significativa. Ao menos não por causa disso. Logo, essas pessoas se mostraram tão inúteis e dispensáveis quanto eu imaginava que elas fossem. Celebremos isso: a descartabilidade dos outros seres humanos nessa era de estímulos tão facilmente substituíveis!