Arquivos de Outubro, 2008

O Corvo (The Raven)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o Corvo, “nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

De Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)

E - de lambuja - o texto original, narrado por ninguém menos que Christopher Walken:


Umbrella-ella-ella-e-e-e

Não resisti e desfibrilei o Reimplicantes.

Juntas pra que te quero…

Venho escrevendo numa freqüência absurda (pros meus padrões) esses dias. Coisa de três a quatro contos diferentes toda semana, com pelo menos um ou dois outros conceitos anotados a fim de serem desenvolvidos depois. Não publico nada aqui, ainda, porque estou me esforçando para trabalhar melhor as coisas antes de soltá-las no mundo. Foi o que fiz com o Hora do Café, que na verdade escrevi para um concurso (e obviamente, como já esperava, não ganhei nada, mas sendo de graça, que mal faz?). Ruminei sobre aquele cenário simples por mais ou menos um mês e meio, e o resultado, embora não seja bom, ficou bem acima do nível que eu geralmente atingia.

Então agora escrevo e reescrevo. E apago e refaço. Dou uma polida, lixo as extremidades, aparo as pontas. De fato TRABALHO em cima do texto. Não desse tipo de texto aqui, lógico, porque essas porcarias não devem mesmo valer nada, mas enfim. Se a consciência cósmica universal insistiu tanto para que eu assim o fizesse, assim o faço.

E os projetos! Existem-se ovelhas mais sedentas de atenção do que estas que tu cuida-vos até projetos!

Agora é só começar a pensar em como ganhar dinheiro, porque cifras nunca me passam pela cabeça, só diversão. O que isso me torna? Candidato a uma vida de mendicância divertida?

Senhores, contemplem…

Tem dias em que eu vejo esse camarada. A maior parte do tempo, não. Eu sei que ele ronda a área, sei que vive por aqui, noto sua influência e as conseqüências de seus atos. Ainda assim ele é suficientemente safo a ponto de não se mostrar com freqüência. Cria suas estratégias e executa seus planos pelas minhas costas.

Mas às vezes ele aparece. E que sujeito desagradável! Quando fala é com raiva, com ênfase, sempre xingando muito em sua voz esganiçada. Lança perdigotos, a saliva se lhe acumula nos cantos da boca. Calado, range os dentes, morde os lábios por dentro, retorce a boca em muxoxos de raiva. Suas mãos estão sempre vermelhas, tem por hábito socar a palma de uma com a outra. Paradas, ficam crispadas, os dedos dobrados, contorcendo-se, meio tortos. É de se perguntar se ainda são capazes de se estender por completo, gesto que nunca o vi fazendo. Tem o rosto encovado, os olhos fundos, sobrancelhas selvagens sob as quais movem-se duas esferas escuras, foscas, arredias. Não olha ninguém de frente: ou é por cima de seu nariz pontiagudo e longilíneo ou por baixo dos matagais que lhe compõem os sobrolhos. É magrinho, bem mirrado mesmo, com ossos salientes nas extremidades, sempre dobradas. Vive envergado, como um velho cujos músculos e ossos não trabalham mais juntos há eras. Caminha praguejando, seu silêncio é um rosnado. Seu olhar é uma afronta. Suas mãos são palavrões. Sua presença, uma agressão.

Não mete medo em ninguém, embora ache que sim. Não entendeu ainda que as pessoas se afastam quando ele grita ou não discutem quando ele fala porque não vêem fundamento, porque seria perda de tempo. Ninguém tem esperanças de vê-lo sendo razoável: nunca aconteceu antes, por que aconteceria agora? Afastam-se porque ele é incômodo, patético. Porque ele é ridículo, pequeno. Afastam-se porque têm pena, porque têm mais o que fazer. E ele esbraveja quando chegam e quando saem. Enquanto ficam, resmunga, murmura suas blasfêmias esquisitas e evoca sua interminável lista de impropérios.

Eu vejo esse sujeito, vez ou outra, e noto o que está fazendo. São raros esses momentos, em que um súbito lampejo de perspicácia me permite vislumbrá-lo. O destino dele é triste - como se o presente já não o fosse -, mas ele não dá a mínima. Pavimenta seu caminho em direção a uma existência solitária e miserável e segue o rumo que traçou para si sem demonstrar hesitação. Grita, xinga, vocifera… mas não recua. Não pára.

Gostaria de dizer que sou capaz de impedí-lo de seguir esse caminho, mas quem disse que ele me escuta, que escuta qualquer um? O animal não ouve ninguém! Não existe bom-senso que não derrube com uma ironia ou argumento que não minimize com algum sarcasmo. Quando não sabe o que responder, simplesmente não responde nada! Não leva ninguém a sério, com exceção daquele a quem não deveria levar: ele mesmo. É egoísta, individualista, impulsivo, injusto, inflexível. É um selvagem, um ogro, um mal-educado. Um bárbaro irascível, aparentemente irrecuperável.

É um idiota. É o idiota.
Sou eu.

Leaving so soon?

You look down at me
Don’t you look down at me now
You don’t know me at all
A slap in the face, in the face for you now
Just might do now

You’re leaving so soon?
Never had a chance to bloom
But you were so quick to change your tune
Don’t look back if I’m a weight around your neck
Cause if you don’t need me, I don’t need you.

Resvalando no assunto…

Com essa assinatura do acordo da reforma ortográfica pelo presidente, pipocaram na internet críticas e piadinhas - de gosto extremamente questionável - a respeito do analfabetismo do Lula.

Um desperdício de talento, motivação e ímpeto. Tanta coisa pra se criticar a respeito do assunto, e o tópico abordado é a vida estudantil do presidente (ou a falta dela). A questão que não pára de me incomodar, diante desses argumentos e gracejos, é: qual a relevância da escolaridade na vida de uma pessoa, afinal de contas? No que ter ou não um diploma torna alguém mais ou menos apto a executar determinada tarefa? Quero dizer, se você é um médico ou um engenheiro, uma boa dose de estudo e alguma vocação para traça se faz necessária, mas para administrar, gerenciar, analisar e desenvolver? Pra essas coisas, o que você precisa é de algum raciocínio e certa inteligência. Relacionado a isso, tudo o que uma universidade vai te passar é ferramenta, método, logística. Coisas que facilitariam seu trabalho, mas que não são, necessariamente, cruciais para a execução do mesmo.

Tanta gente por aí que, sem diploma de segundo ou terceiro grau, vai alto na carreira que resolveu adotar. Tá aí Marília Gabriela, que não me deixa mentir (pois é, Gabi não tem diploma de ensino superior). Em contrapartida, existe tanta gente incapaz de pregar um prego numa barra de sabão que colou grau na faculdade e tudo mais. Prefiro um “analfabeto” competente a um universitário debilóide trabalhando comigo, a qualquer hora do dia, qualquer dia da semana. Fernando Henrique Cardoso é um sujeito estudado pra caralho: sociólogo formado, professor universitário, sabe-se lá quantos livros publicados, doutorados a dar com pau. Fez um governo de merda, fodeu o país em tudo quanto era posição possível e imaginável. Botou na nossa bunda com força, com vontade, com areia e pedrinhas. Deveria receber um diploma por isso, também.

É nesse ponto que os inflamados algozes do Lula e do PT vêm me dizer que eu defendo o barbudo ou coisa que o valha, e é precisamente quando digo para pararem de falar merda. Quem eu defendo, hoje em dia, é o Brizola, e só porque está morto. Político vivo só faz cagada. Não sou “defensor do Lula”, sou justo: existem dezenas de posturas detestáveis no presidente e em sua gestão. Em diversos campos. Parcerias políticas que me fazem torcer o nariz, projetos de lei aprovados ou sugeridos que são completamente detestáveis, detalhes enojantes em planos econômicos, discursos questionáveis (para dizer o mínimo), certas condescendências inaceitáveis… A própria assinatura dessa baboseira, desse engodo que é a reforma ortográfica, por exemplo. Tanto a se dizer a respeito disso, tanto malho a ser descido, e o máximo que conseguem por aí é dizer que o presidente assinou o acordo com a digital do polegar? Ah, faça-me o favor! Engatamos nisso uma outra gracinha, dizendo que se fosse necessário usar o mindinho ele tava na merda, e pronto: temos a piada pra fazer no jantar, com a família, vendo o Jornal Nacional.

Como se houvesse alguma graça no analfabetismo, como se alguém não saber ler fosse motivo de troça, e não de vergonha. Oras, é vergonhoso que nosso presidente não saiba falar o português corretamente, mas quem diabos sabe? Quantas pessoas você conhece que não derrapam com concordância, acentuação, conjugação de verbos, até mesmo com pronúncia? Atire a primeira pedra quem nunca usou “vim” no lugar de “vir”, ou conjugou verbo com “mim” no lugar de “eu”. E é vergonhoso que o Lula não saiba escrever direito, de acordo com o que dizem, mas ao menos ele pode dizer que não teve educação para tanto. O que aquele bando de analfabetos no orkut pode alegar em favor de sua incapacidade redativa? Carência protéica na primeira infância? Nesse sentido, tudo o que o Lula tem que todos os outros analfabetos funcionais desse país - e são MUITOS! - não têm é visibilidade. Vergonha MESMO é que um país desse tamanho, com essa quantidade de recursos, ainda tenha por aí gente que, por falta de oportunidade, não aprendeu a ler e escrever (porque por opção até dá pra entender!).

Mas mais vergonhoso é que todos nós, tão instruídos, tão inteligentes, tão estudados, tão sábios e tão preparados, ainda achemos graça nisso: em criticar uma pessoa de acordo com a quantidade de conhecimento que ela armazenou durante a vida, atrelando inteligência a escolaridade e atribuindo-lhe adjetivos complexos, pra mostrar quão rico é nosso vocabulário. Aposto a mãe de qualquer um aqui que todos os que usam o termo “apedeuta” pra se referir ao Lula já foram ao dicionário ver o que significava, ao travar contato com essa palavra pela primeira vez.