Arquivos de Novembro, 2008

Tópicos (3)

As primeiras coisas primeiro: estreou, esta semana, o blog da H.O.M.E.M. - Honrada Organização Mundial dos Especialistas em Mulheres. Não me perguntem a razão, pois não a conheço, mas estou lá, integrando as fileiras dos que tentam construir uma ponte, montar uma tirolesa, alinhar uma catapulta, traçar um atalho, fazer qualquer coisa, enfim, numa tentativa - vã, se me permitem dizer - de cruzar esse milenar abismo que separa os sexos.

Imaginei que deixar meu cabelo crescer iria torná-lo mais comportado. Conclusão à qual cheguei seguindo aquela minha teoria que diz que cabelos, como pessoas, têm infância, adolescência e idade adulta. Ledo engano. Embora adulto ele se comporte melhor, o miserável ainda é um revolucionário. Um subversivo. Um maldito comunista. Cheio de vontades e exigências. Se é pra viver um inferno capilar, considerei cortá-lo, voltar a ter cabelos curtos (raspá-los, nunca, me falta a coragem). Então esse é meu dilema atual. Peço às mulheres que porventura leiam esse blog que opinem: devo deixá-los compridos, como estão? Ou curtos? Para ajudar na formação de uma opinião mais ponderada, seguem fotos minhas antes e depois de deixar o cabelo crescer.

Curto:
Antes
Comprido:
Depois
Queria entender que poder é esse que o sax tem de tornar qualquer música absurdamente, profundamente, indescritivelmente BREGA. Você pegue, por exemplo, o tema de amor de Cinema Paradiso, que é das coisas mais lindas do mundo, de deixar com lágrimas nos olhos mesmo o mais furioso espancador de mulheres. Toque em um violão e é uma música sensacional. Toque ao piano e é espetacular. Toque ao violino e não esqueça de distribuir lenços à platéia. Toque em um sax… e me arranje um saco de vômito!

Falando nisso, onde eu estava em março desse ano, que não ouvi falar que o Ennio Morricone vinha fazer um concerto no Brasil? E agora, quando vou ter outra oportunidade de ver o velhinho tocando ao vivo? Não vou me perdoar se o maestro for pra cova antes que eu tenha visto uma apresentação dele!

Estudei feito um corno nos últimos dois meses, na esperança de conseguir nota para me livrar de duas matérias da faculdade nas quais estava meio pendurado (precisando tirar acima de 9 na segunda parcial, de modo a não ficar para a prova final e entrar de férias mais cedo). Consegui. Por outro lado, retirei da minha lista de prioridades as outras três matérias, porque tive boas notas nelas na primeira parte do semestre. Resultado? Lógica de Programação - que me rendeu um 9,5 na primeira parcial - me enrabou com força, com vontade, com areia e limalha de ferro nessa segunda fase. Que bonito, que beleza.

A faculdade chama essas parciais de “bimestre”. Mas, em primeiro lugar, um período de faculdade é um semestre, então deveria ser dividido em dois trimestres. E, em segundo lugar, bimestre é coisa de ensino fundamental/médio. Chamo de parciais, etapas, fases, aquelas-merdas-de-períodos-intermináveis-de-avaliações e etc.

Saiu CD novo do Keane, Perfect Symmetry (do qual já falei) e também do Killers, Day & Age, do qual falo agora: o que há com esses caras, afinal de contas? A cada novo CD, eles parecem retornar mais e mais para meados dos anos 80. Por deus, eu vi os revivals dos anos 70 durante minha adolescência e já me causaram sofrimento suficiente. Temos MESMO que fazer isso? Relembrar e tentar retornar às décadas anteriores? Não podemos simplesmente seguir em frente? O único empreendimento humano a retornar aos anos 80 da forma correta foi GTA Vice City (e sua versão PSPística, da qual eu pretendo falar qualquer dia, Vice City Stories), e por uma razão bem simples: porque não levou a sério nada daquela merda, ridicularizando-a sempre que possível.

Perdi 8kg nas últimas semanas, descendo de 79kg para 71kg. Não foi nada planejado, simplesmente aconteceu. Ao contrário da crença comum, entretanto, perder peso quando você é ocioso não queima as gorduras, tornando sua antes incipiente barriga em um notável bucho. Só o exercício pode acabar com sua pochetona. Com isso em mente, utilizei meu 13º em uma importante aquisição: cumprimentem Libertina (Tina, para os íntimos).

LiberTina
Quase uma década após a morte de Clementina, minha bicicleta anterior, deixei para trás meu luto e arranjei nova companheira. Agora só me falta um MP3 Player (o meu, vejam que trágico!, voou contra a parede de forma inexplicável!) e o eixão do lazer será meu habitat aos domingos.

Me assusta a absurda quantidade de blogs falando da vida dos outros que existem e fazem sucesso. Me refiro a páginas como a “te dou um dado?”, “papelpop” e assemelhados. Não entendo como uma pessoa pode ser tão limitada a ponto de não só criar um blog com o objetivo específico de ser uma variante online da Contigo!, mas ainda levar essa abordagem a um nível completamente novo: não basta falar da vida das pessoas, é preciso fazer isso de forma estupidamente cruel e escarninha. É um termo que evito a todo custo usar, mas tal despeito me leva a crer que o verdadeiro combustível dessas pessoas é a inveja, pura e simples. Diante da impossibilidade de chegar àquele lugar, por que não cuspir em quem se encontra ali? O fato dos “escritores” - se é que o termo se aplica - desses blogs serem gays e mulheres feias em sua maioria só torna maior a plausibilidade (opa!) da minha teoria. Mas ainda preciso considerar a questão com maior cuidado.

Em tempo: sou completamente contra esse mercado de jornalismo fofoqueiro, cujo produto a ser vendido é a vida dos outros. Os defensores dessa palhaçada argumentam que muitos dos que estão na posição de “celebridade” contratam fotógrafos para segui-los e vender as imagens, conseguindo, assim, um lugar melhor sob os holofotes. Não me interessa. Como não me interessa o outro argumento muito usado nesses casos: “as pessoas querem saber”. As pessoas querem um monte de coisas que a lei proíbe, simplesmente porque as pessoas querem mesmo é ver o ôco. O fato de haver demanda não significa que deva haver o serviço! Esse é um dos que ainda não foram proibidos, mas serão, se a humanidade de fato estiver ficando mais sábia com o passar do tempo. Coisa que eu duvido, ou seja, essa merda ainda vai crescer muito até alguém perceber que é preciso dar cabo de tanto desrespeito e cretinice de uma vez por todas. Daí os viados e as mocréias vão ter que arranjar outro passatempo. Quem sabe não experimentem tornar suas próprias vidas menos patéticas? Ah, a esperança. Não é à toa que este blog tem “utopia” no nome…

Shades of revolution*

Quando você é um sujeito de pavio-curto, com propensão a não se esquivar de conflitos - tendo por hábito abraçá-los, algumas vezes - e minimamente eloqüente nos seus momentos de ira, provavelmente terá, em boa parte dos seus amigos e conhecidos, admiradores dessa inflexibilidade, da sua capacidade de dizer o que pensa, indo direto ao ponto, evitando eufemismos. Desse seu jeito escroto, enfim.

Gente escrota é muito legal. Gente escrota é engraçada, porque diz às pessoas inconvenientes o que todo mundo tem vontade de dizer. Pessoas escrotas têm a coragem que nós não temos, ignoram as amarras sociais que nos impedem de falar com franqueza. E pessoas escrotas e eloqüentes não só fazem tudo isso, como ainda falam bonito no processo. Por isso tipos como o House fazem tanto sucesso. Porque essas pessoas são legais de se ver.

De se ver.

No momento em que é você a criatura voando na linha do radar daquele seu amigo escroto que todo mundo acha tão divertido - você inclusive -, na hora em que é você que ele fustiga com aqueles olhos raivosos, dardejando insultos antes mesmo de abrir a boca… ah, aí não é mais tão legal. Aí não é divertido. Aí ele deixa de ser aquele escroto eloqüente e é só um escroto. Não é mais seu amigo legal que tem histórias divertidas das vezes em que foi escroto. Não. Ele é só mais um escroto nesse mundo escroto cheio de gente escrota.

No cu dos outros é sempre tão refrescante…

Mas o negócio, meu camarada, é o seguinte: quem refresca cu de pato é lagoa. E um dia é o teu que tá na reta. É você que vai dizer algo, fazer algo, pensar algo, ou respirar de tal maneira que aquele escroto não vai gostar. E não é que ele tenha se aborrecido, ficado puto, tido um ataque ou qualquer coisa assim. Ele vai te dar um esporro mesmo estando perfeitamente calmo e passar a tocar um foda-se pra você simplesmente porque é um escroto. Ele é um escroto, porra! O que você esperava?

Gente escrota é escrota por uma razão bem simples: porque não dá aos outros muito valor. E algumas pessoas vão ficando mais e mais escrotas porque vão dando aos outros cada vez menos valor. É provável que isso tenha um limite. Deve haver um ponto a partir do qual não dê mais pra simplesmente desprezar as pessoas e seja necessário sentir por elas alguma outra coisa, qualquer coisa que faça com que elas valham algo. Ainda não enxergo esse ponto, tenho muita corda pra deixar correr até lá.

Nunca fui um cara muito bacana, mas ao menos tinha alguma noção das coisas. Eu dava às pessoas um certo valor, tinha algumas em alta conta, até. Considerava meus amigos importantes. E atualmente, o que eu faço? Não faço! Me desfaço! E pelos motivos mais estúpidos, mais rasteiros, mais superficiais. Antes alguém precisava me irritar excessivamente para que eu resolvesse que não havia mais condições de conviver com aquele ser humano. Atualmente, qualquer fagulha de irritação me faz ligar o foda-se em potência máxima. Ninguém mais parece suficientemente digno de receber indulgências.

Mas a voz, aquela voz na minha cabeça que me admoestava com severidade por esse tipo de coisa, parece ter entrado de férias. Ou resolveu cantar em outra freguesia, numa que não dê tanto trabalho. Nem me arrepender eu consigo. Nos momentos em que me ocorre que eu poderia telefonar pr’aquele amigo com quem fui escroto há algum tempo, ou mandar um e-mail àquela amiga que nunca entendeu o que fez de errado para tomar de mim patada tão repentina, tem sempre uma outra voz que diz “Ah, que se foda.”

Aí eu relembro as últimas conversas que tive com essas pessoas, que só não partiram para a troca de insultos porque elas tiveram o bom-senso de se retirar com a elegância que me falta, e uso isso pra alimentar essa gigantesca fornalha que sopra grossas nuvens negras de raiva dentro do meu sistema, mantendo-o alimentado e ativo.

E em qualquer canto desse complexo, afogado nesse torrencial de sentimentos desagradáveis que virou a minha vida - porque antes eu tinha momentos de raiva, agora eu tenho raiva, pura e simples -, tem aquele cara que grita “Ô, Pedrão, esse aí não é você”. Mas ele está mais e mais enganado a meu respeito a cada dia que passa.

* Era o que tava tocando enquanto eu escrevia.

Amigo é pra essas coisas!

- Você parece bem.
- Obrigado. Eu estou.
- Sem aquele copo de bebida na mão, olha só… outra pessoa.
- Aquilo não me ajudava em nada.
- Não mesmo. A bebida, em certos casos, só atrapalha.
- Pois é.
- Fecha os olhos pro que a gente não quer ver.
- Exato.
- Nubla os pensamentos, nos faz esquecer os problemas por algumas horas.
- É por aí mesmo.
- E aí você não conseguia mais enxergar o que aquela miserável fez com você.
- E ela fez estrago!
- Põe estrago nisso, você ficou na merda.
- Até o pescoço!
- Até o queixo, e só não foi até a boca porque conseguiu levantar o nariz no último segundo!
- Não foi pra tanto!
- Ah, foi, sim. Você parecia um trapo.
- …
- Um farrapo humano.
- ……
- Um verme, um nada, um…
- Já entendi!
- Mas você está melhor agora!
- Ah, sim, bem melhor!
- Conseguiu um novo emprego!
- Uma maravilha, rapaz, meio período, ambiente desafiador…
- Lógico que não é nada como aquela gerência que você tinha naquela outra empresa…
- Mas depois de tanto tempo parado, também…
- Sim, tem isso. E, além do mais, contratar alguém com sabidos problemas de alcoolismo…
- Eu não sou alcóolatra, foi um momento de fraqueza!
- Eu sei, eu sei, mas eu sou teu amigo, afinal, te conheço há anos! Eles não sabem. Pra eles, você era só um bebum!
- Bom, de certa forma, sim, mas meu currículo…
- Ah, nem é lá isso tudo, vamos combinar.
- Não?
- Mas não ligue pra isso, rapaz. Voltou a receber seu salário, está quitando as dívidas, refazendo sua vida…
- Tô pensando até em remobiliar o meu apartamento!
- O que eu duvido é que alguma loja vá te abrir um crediário. Seu nome tá nos serviços de proteção ao crédito, né?
- É…
- É uma merda pra tirar, essas coisas não vencem mais dentro de cinco anos…
- Não?
- Não. Pra eles, você será eternamente inadimplente!
- Mas que merda!
- Tudo isso porque aquela vagabunda levou tudo o que você tinha!
- TUDO!
- Não te deixou nada!
- NADA!
- E você, que fazia tudo por ela!
- TUDO! Garçom, me traz um uísque!
- Tirou-a da miséria, deu do bom e do melhor…
- Apenas do melhor!
- E ela te largou por aquele moleque, todo saradão, marombado. Um zé-ninguém!
- Mulher não sabe de nada, mesmo.
- Tudo bem que ele tem aquela BMW e é concursado da câmara, mas isso não o torna melhor do que você!
- De jeito nenhum!
- Só porque, com metade da idade, tem o dobro do dinheiro e o triplo do patrimônio? Oras!
- É a vida…
- Sim, e é uma merda.
- Garçom, mais um! Duplo e sem gelo!
- Calma aí, rapaz. Teu trabalho amanhã…
- Ah, empreguinho…
- Não é tão ruim, vamos lá. Tá certo que você é praticamente um estafeta…
- Mas é melhor do que nada!
- …o dia inteiro levando e trazendo documentos praquele bando de moleques engomadinhos…
- Paga as contas!
- É, em duzentas parcelas com juros abusivos.
- Garçom! Caipiroska, por favor! Pouco açúcar, menos limão, muita vodka!
- E teu carro não tá valendo muita coisa.
- Tá andando, é o que importa.
- Sim, mas como patrimônio.. a pintura descascando, os pneus meio carecas…
- O motor tá bem.
- Por enquanto. Tem quantos anos. Seis? Sete? É quando começa a dar problema!
- Será?
- Vai dizer que de vez em quando ele não ensaia umas engasgadas? Naquelas manhãs mais frias?
- Hm… até que sim, ultimamente preciso girar a chave quatro ou cinco vezes na ignição pra dar a partida.
- Não dou três meses pro bicho arriar.
- Mas que desgraça! Ô campeão, desce uma cachacinha, por favor!
- Mas a vida é assim mesmo…
- E assim mesmo é a vida…
- E as mul… rapaz, essa cachaça é forte! Você virando desse jeito, vai com calma!
- Nada que eu não agüente, já tive piores.
- Mas como eu dizia, e as mulheres, nada?
- Nada!
- Tsc. Elas andam mais exigentes.
- Rá! Nem me fale!
- E você tá meio barrigudo, esses cabelos rareando…
- Será que é isso?
- Os dentes amarelados por causa do cigarro…
- Mas eu parei!
- Mas leva dez anos pros efeitos sumirem mesmo.
- Dez anos?
- Dez anos, foi o que eu li. Será que viveremos isso tudo?
- Nunca se sabe.
- Eu acho que ainda chego lá, mas você…
- Eu o quê?
- Anda meio pálido, né? Os olhos meio avermelhados…
- É a bebida!
- Ou pode ser alguma coisa. Um câncer…
- Deus me livre!
- Dizem que as pessoas da nossa idade têm maior chance de desenvolver diabetes.
- Diabetes é foda.
- Ô! Pense só: anos e anos vivendo com agulhadas.
- Um sofrimento, ainda mais com meu medo de agulhas.
- Sua mãe teve diabetes, não?
- Teve. (Ô distinto, outra dessa branquinha!)
- As chances aí são ainda maiores.
- É mesmo?
- Isso é tudo genético, rapaz. Eu iria ao médico, se fosse você.
- É… vou pensar nisso…
- Bom, eu tenho que ir pra casa.
- Ué, mas já? É cedo ainda, você não bebeu nada.
- Nah, eu só vim molhar o bico, ver como você tava.
- Ah…
- Mas o que é isso, bicho? Se anima! Quando eu cheguei você tava tão pra cima, feliz, empolgado. Que foi que te deu?
- Sei lá…
- Vamos que vamos, velhinho, que é pra frente que as malas batem!
- É…
- Bom, vou lá que a patroa e os moleques estão me esperando. Ó, vê se pára de beber tanto, que qualquer dia desses eu te chamo pra jantar lá em casa, hein. Dá cá um abraço!
- Tá, tá…
- E você, ô garçom! Vê se pega leve com ele, hein? O cara é meu amigão!
- Do peito!
- Do peito! Me preocupo com ele pra caralho!
- Como um irmão!
- Isso! Um irmão!
- Amigo mesmo é você, viu, cara?
- A gente faz o que pode.
- Você… e o garçom. Ô, chefia! Dá um daquele andarilho tarja preta aí!

In dog we trust

Picuinha

Mack The Knife

Oh, the shark has pretty teeth, dear
And it shows them pearly white
Just a jackknife has MacHeath, dear
And he keeps it out of sight

When that shark bites with his teeth, dear
Scarlet billows start to spread
Fancy gloves, though, wears MacHeath, dear
So there’s never, not a trace of red

On the sidewalk, sunday morning,
Lies a body oozin’ life,
Someone’s sneakin’ ‘round the corner
Is this someone Mack the Knife?

From a tugboat, down the river
A cement bag’s ‘drooppin’ down
Yes, the cement’s for the weight, dear
Bet you Mack is back in town<

Yeah Louie Miller disappeared here,
After drawin' out all his cash
And MacHeath spends like a sailor
Did our boy do somethin' rash?<

Sukey Tawdry, Jenny Diver,
Lotte Lenya, sweet Lucy Brown...
Oh, the line forms on the right, dear
Now that Macky's back in town


O que eu posso dizer? São as histórias sobre os facínoras que me agradam mais. (e como uma música tão sinistra pode ser tão bonitinha… ah, isso é definitivamente um mistério!)

Rotas paralelas

Tenho essa idéia a respeito de certas pessoas que eu não conheço e que fazem coisas que, de acordo com meu entendimento, não deveriam estar fazendo. Fico olhando pra essas pessoas, pensando nelas por horas a fio (de verdade, faço mesmo isso!) e imaginando que talvez o que faltou na vida delas foi um amigo de verdade, pra olhar nos olhos e dizer, com toda a sinceridade: essa não é a sua praia, você não tem esse talento.

Porque só um bom amigo faz algo assim. Diz que você foi um escroto quando agiu escrotamente, que você foi injusto ao agir injustamente, que foi prepotente, intolerante, ignorante, estúpido ou que está fazendo uma coisa para a qual não foi talhado. É lógico que inimigos dizem isso com muito mais freqüência, mas eles dirão sempre, não importa o que você faça. De um amigo, deduz-se que uma informação dessas seja a voz da verdade. Teoricamente, o último desejo de um amigo é ferir seus sentimentos, ainda mais de forma deliberada. Te criticar pelo prazer de criticar não é o que ele pretende, mas te ajudar a ver seus erros e a corrigi-los.

Teoricamente.

Eu imaginava que essa era uma tarefa fácil, também. Crítico que sou, pensava que, conhecendo aquelas pessoas que cantavam sem saber cantar, escreviam sem saber escrever, desenhavam sem saber desenhar, seria só torcer o nariz e dizer “Cara, isso aqui tá muito ruim, sequer tem potencial pra melhorar. Larga esse lance, não é pra você, vá fazer outra coisa!”. Faço isso comigo mesmo o tempo todo, me recriminando pelas escolhas que faço, me esculhambando pelas pisadas na bola que cometo, por me meter a dizer sem saber o que digo, a fazer sem saber o que faço. O que me impediria de fazer com os outros?

Pois é difícil. Muito, muito difícil. Não consigo, não sei como fazer, como indicar o caminho que alguém está seguindo e gritar “EI! VOCÊ PEGOU O RUMO ERRADO! FICOU IDIOTA DE REPENTE?”. Vejo amigos enveredando mais e mais para a idiotia final, para aquele ponto sem retorno em que você pode apontar e dizer “Eis aí um belo exemplar de beócio!”, como um assistente de zoológico mostrando os animais enjaulados numa visita guiada. E vejo impassível, sem nada fazer para evitar.

Imagino se sou eu que espero demais das pessoas, que presumo que pelo fato de considerar alguém inteligente, essa pessoa há de tocar a própria vida de forma inteligente, sem cagar tudo pelo caminho de maneira tal que pareça irremediável. Talvez seja. Ou talvez haja alguma outra explicação que me faça entender por que razão tantos dos meus conhecidos vêm se mostrando cretinos contumazes, ultimamente. Eles pioraram? Eu melhorei? Eu piorei e eles melhoraram? Pioramos ambos? Melhoramos ambos, um para cada lado? Não sei dizer.

O que eu sei é que aí estão alguns dos meus amigos, correndo em direção ao prêmio de maior idiota do mundo, e eu não faço nada. Apenas sento e observo, impotente. Me faz lembrar uma tirinha em quadrinhos que vi um tempo atrás, em que um sujeito dizia a outro: “Se você não fosse tão idiota, eu poderia te dizer quão idiota você é!”.

Uma pessoa dessas, que deixa de ouvir a voz do próprio bom-senso, vai ouvir a minha? Duvido.

Só resta me afastar, caminhar em direção a outras convivências. Com a esperança de que essas tenham mais visão e noção das coisas do que as outras, com as quais perdi tanto tempo. Ou então - opção que venho seguindo atualmente - simplesmente abraçar a solidão e seguir com ela, como num daqueles filmes bregas, rumo ao pôr do sol. A solidão é o que é, não é inteligente ou burra, boa ou ruim. Como ela se parece, como se pinta, como se apresenta… tudo isso fica nos olhos de quem vê.

A idiotia também, alguns podem dizer, argumentando que há, da minha parte, certo grau de intolerância. Sim, há da minha parte um BELO grau de intolerância, um grau e tanto, impressionante até para mim. Mas a idiotice grita sua presença aos meus ouvidos com tal força que me desconcerta. A solidão é silenciosa.

Então fico com ela.