Arquivos de Dezembro, 2008

Da esperança perdida

Achar que trocadilhos com “inove” não seriam feitos nessa virada de ano seria esperar DEMAIS das pessoas.

É difícil, é difícil. É graças à excessiva tolerância com recursos de linguagem ridiculamente fáceis como esse que abominações como aquela corja que se intitula “Teatro Mágico” conseguem alguma notoriedade. Fôssemos um pouco mais exigentes e esse tipo de criatura não receberia nada além da execração pública, do mais puro opróbrio.

Dois mil e nove já começa difamado. Pobre ano infeliz…

Esforço recompensado

- Uma bicicleta!
- …
- É sua?
- …
- …?
- É.
- Você comprou?
- NÃO! ROUBEI DE UM MOLEQUE ALI NA ESQUINA AGORINHA MESMO! (eu penso, mas não digo. Respondo com um simples “Foi”.)
- Pra pedalar?
- Não, não. Pra lamber o quadro dela, morder o selim, acariciar os pedais, chupar a catraca. Bicicleta é um troço que me deixa num tesão de touro maluco, só de pensar numa magrela e meu pau levanta que não quer mais abaixar. Um negócio furioso.

Tolerância a pergunta idiota tem limite, afinal.

TANK!


Porque nada define Cowboy Bebop melhor do que esse comecinho de Asteroid Blues (bom, talvez o final de The Real Folk Blues II, mas aí já é spoilear a parada…)

The Matrix Bebopped

Você sabe que um dia não pode ser muito bom quando lê, logo pela manhã, uma notícia dizendo que Keanu Reeves está envolvido em um projeto - logicamente americano - para levar Cowboy Bebop para os cinemas, com o ator no papel de Spike Spiegel.

Cowboy Bebop

Keanu Reeves informou que o projeto pretende expandir o primeiro episódio da série, Asteroid Blues, em um filme de duas horas. As palavras do ator foram “Nós temos os direitos e temos um escritor já demarcando as cenas. Estamos tentando fazer isso”. Devo admitir que as palavras “blasfêmia” e “ultraje” me vieram à mente.

Veja só. Hollywood tem como fazer um filme de ficção espacial? Sim. Um filme de faroeste? Sim. Um filme noir? Sim. Tudo isso junto? Nunca. As limitações de roteiro às quais os produtores americanos se submetem jamais permitiriam que um filme decente de Bebop fosse produzido. Eles vão querer um romance, vão precisar de uma lição de moral. Vão dar a Spike um propósito ou coisa que o valha! Vão minimizar a presença do Jet. Deus sabe o que farão com a Faye… torná-la par romântico do Spike, provavelmente, com direito a uma cena de beijos dentro da Swordfish, devidamente pintada de azul ou preto, porque hollywood jamais daria a um protagonista uma nave rosa (se der, haverá uma piadinha, uma punchline completamente sexista e dispensável).

E Keanu Reeves como Spike… Keanu Fucking Reeves! Inaceitável é o mínimo que se pode dizer a respeito! É difícil explicar quem é o Spike pra quem nunca viu Cowboy Bebop, mas esse vídeo dá uma boa idéia. O cara é… é… porra, ele é o cara mais desencanado do universo e ao redor dele. “Desencanado” é exatamente o termo. Ele tem tendências suicidas, mãos de prestigitador, luta jet kun do como poucos e atira tão rápido e bem quanto o homem sem nome. Misture aí Bruce Lee, Humphrey Bogart e Clint Eastwood e você ainda não chega ao Spike. Ele é barra pesada E PILOTA UMA NAVE ROSA, CARALHO!

Spike Spiegel
Você consegue ver Keanu Reeves desencanado assim? Nem eu!

Keanu Reeves não tem como ser Spike Spiegel. Ele não tem o charme, ele não tem o jeito, o mojo, a malemolência, o ziriguidum, o balacobaco, chame como quiser. Ele nem sabe atuar, cacete! O cara é monocórdico! Ele pode aprender o jeito de lutar, mas a forma desleixada de pegar um cigarro? Duvido, e esse é o gesto que faz Spike ser quem é: a forma como ele enfia a mão dentro do paletó pra sacar a carteira de palitinhos de nicotina.

Além do mais, antes de enfiar os personagens naquele contexto - uma nave flutuando no espaço, com Jet cozinhando um curry e Spike treinando golpes na gravidade zero - os produtores definitivamente vão querer “ambientar” o público, explicar o que houve com a Terra, quem são aquelas pessoas e como elas chegaram ali. Vão precisar de um vilãozão pra morrer no final (deus queira que não usem o Vicious, seria um desperdício impensável!), vão trocar os blues e bebops e boogie woogies e jazzes por raps de pseudo-gangstas como As Ervilha dos Zóio Preto ou merda parecida. Vão cagar tudo, minha nossa, vão cagar tudo…

The Bebop Crew

Antes que essa descaracterização vá ao ar, faça-se um favor: baixe Cowboy Bebop e assista. Ao menos o primeiro episódio, Asteroid Blues. Se você não gostar, tudo bem, azar o seu. Se gostar, bom, bem-vindo ao clube!

Debut

No cada dia mais distante ano de 1993, naquela era pré-internet já esquecida pelo tempo, eu cursava então a quinta série no colégio Marista. Porque eu estudei em colégio católico, e nada melhor do que esse fato para explicar minha falta de fé e aversão à religião. O assunto, entretanto, não é esse. Sigamos, pois.

Estudei quatro anos no marista, de 1990 a 1993, da segunda à quinta série. A existência era mais simples. Após uma vida de estudos vespertinos, tive que mudar para o horário matutino, e estava aí minha única preocupação: como fazer para conseguir acordar cedo? Tal aborrecimento ainda me persegue, sendo eu um homem de madrugadas, e não de manhãs, mas quem dera fosse o único.

Ia todo dia para o colégio em uma condução, junto com minha irmã mais velha, que fazia a oitava série, e foi um ano de dificuldades com o sexo oposto. Começavam os primeiros contatos mais complexos com essas criaturas de dois cromossomos X e tudo o que elas diziam ou faziam estava cheio de significados a serem decifrados. Dos moleques da minha idade, alguns começavam a demonstrar maior facilidade para trafegar nesse torrencial de informações cifradas, outros mostravam pouquíssima aptidão. Alguns ainda não davam a menor bola - e desconfio que, desses, há os não ligam para isso até hoje.

Marista, Quinta Série, 1993
O jovem Pedro Nunes e seus colegas de 5ª Série, esperando o bonde da puberdade.

Eu era dos que mantinham um pé atrás. Interesse havia, mas coragem? Aí já seria querer demais! Da minha turma, posso dizer que 75% dos alunos estavam na minha sala desde a segunda série. Apesar disso, com a maioria das gurias eu nunca tinha trocado palavra. Timidez crônica tem dessas coisas. Além do mais, eu morava com uma adolescente, oras, sabia exatamente que tipo de crueldade poderia brotar daquelas viperidae. Me contentava em observar de longe, e acreditava que meus objetos de apreciação não dedicavam, a mim, sequer um segundo de seus pensamentos pré púberes. Isso não me aborrecia. Que fosse platônico, e já era perfeitamente aceitável. Até porque o colégio não admitia pegação entre a pirralhada da quinta série (os da sexta já eram tratados com maior tolerância).

Então um dia alguém me mandou um bilhetinho.

Era uma dobradura bem arrumadinha e bastante complexa. Tive dificuldades para desfazer aquilo tudo sem rasgar. Cheguei da educação física e estava ali, dentro do meu caderno, aquela carta misteriosa. A princípio pensei que fosse algum moleque me sacaneando, mas menino nenhum, ainda mais com aquela idade, seria capaz de escrever com uma letrinha tão arrumada e fazer tão caprichosa dobradura. Ainda que algum dos outros pivetes fosse capaz daquilo, duvido que qualquer deles ousasse carregar consigo, mesmo que para sacanear um colega, uma folha de papel de carta com florzinhas e ursinhos. Era suicídio, caso alguém da sala descobrisse.

Por fim abri o bilhete e li - admito que com certo enfado, pois tinha certeza que havia alguma coisa errada. Mas não havia. Meu nome estava ali, escrito claramente naquela caligrafia impecável, com caneta lilás, e a mensagem era breve. “Quero conversar com você”, seguida de intimação de comparecimento à porta traseira do ginásio. Conversar comigo? Por que diabos alguem quereria conversar comigo? Nunca ninguém quisera conversar comigo. Só meu pai e minha mãe e minha vó, mas esses três não contavam. O que eles queriam era me dar um esporro, quando diziam que queriam conversar comigo. “Quero conversar com você”, quando se tem 11 pra 12 anos, nunca é um bom presságio…

Passei a aula seguinte, que me separava do momento de revelação, cabreiro pra cacete, observando disfarçadamente cada uma das pessoas na sala, esperando que alguém se denunciasse. Um olhar matreiro, uma risada fora de hora, qualquer coisa seria suficiente para deixar claro que me pregavam uma peça. Não notei nada fora do comum e tomei uma bronca da professora de história por não dar atenção ao que ela dizia. Minha observação disfarçada não era tão disfarçada, afinal.

No intervalo, agi o mais tranqüilamente quanto pude. Não planejava me atrasar pra fazer charme, nem foi para bancar o difícil que demorei tanto a comparecer ao local do encontro às escuras. Estava amedrontado mesmo, dividido entre ignorar a mensagem, para não fazer papel de bobo, ou ir até lá e descobrir quem tinha me mandado o tal bilhete. Acabei indo, depois de considerar seriamente - tão seriamente quanto pode considerar um guri de 11 anos - o que fazer.

Cheguei lá e levei um susto. A um canto, reuniam-se quase todas as meninas da minha sala. Olhavam fixamente para mim enquanto chegava. Entre elas via um ou outro dos moleques de procedência duvidosa que sempre andavam com as meninas. Eram alcoviteiros, era isso que eram, mas não foi o que pensei na hora, até porque não conhecia esse termo. O que pensei na hora foi em sair correndo, mas tinha um nome a zelar. Segui em frente. Parei diante do grupelho. Olhei ao redor com jeito de quem desafia alguém a sair dali, cruzar a linha, pisar no cuspe e sair no braço.

Adiantou-se a Aline.

Aline era uma menininha pequenininha desde sempre, daquelas que sentam na primeira carteira da coluna de mesas, colada na mesa do professor; que ficam sempre na ponta da fila organizada pelos professores no pátio; das que ajudam a hastear a bandeira no mastro central da escola nos eventos cívicos; daquelas, enfim, protegidas pelos professores e adoradas pela direção, papel oposto ao que eu representava, sendo o pária desorganizado e boca-suja que era, sempre recriminado por ser respondão e topetudo. Tirava notas boas - falo de mim, a Aline não sei, nunca fui de me preocupar com o boletim alheio -, mas era incapaz de parar quieto, e imagino que professores e coordenadores de ensino fundamental e médio preferem um aluno vegetativo repetente a um amotinado com boas notas.

A Aline, como eu disse, se adiantou. Olhei para ela de cima - coisa rara para mim, na época (e agora, também, mas deixemos isso de lado) - e perguntei, muito sério, se era ela que queria falar comigo. Aline olhou para trás, para aquela horda de meninas, que começavam com suas risadinhas insuportáveis de meninas, aquele tipo de risadinha que faz qualquer menino se sentir ridículo e insignificante, então virou-se para mim e respondeu afirmativamente. Arrematou, olhando nos meus olhos:

- Eu te amo!

Quinze segundos de silêncio que pareceram dez anos. As risadinhas explodiam lá atrás, Aline enrubescia diante dos meus olhos. De repente silêncio, todos esperavam pela minha resposta, querendo ver minha reação. Eu, na crença inabalável que estava sendo sacaneado, segurei uma das mãos da menina na minha frente e respondi com toda a verve que tinha aos 11 anos - e aos 11 anos eu já era muito vivaz:

- Ah, vá se foder!

Virei as costas e retornei para a sala. Tocava o alarme.

Tenho, desde então, meu nome escrito em letras garrafais no mural dos escrotos (e pena da Aline, acho que ela falava sério…).

Bola pro mato que o jogo é de campeonato

Aos flamenguistas: sintam-se livres para dizer que só o flamengo é penta. Desculpem por esse um ano de concorrência nos cinco títulos brasileiros.
Aos gremistas: reitero aqui minha posição: torço para a seleção do nono círculo do inferno, torço até para os argentinos, se estiverem jogando contra vocês. Torço para vê-los na segunda e depois na terceira divisão. Até lá, chupem!
A todos os outros que torceram contra: juntem-se aos gremistas e chupem também.

Aos Sãopaulinos: Parabéns pelo seu hexacampeonato, tricampeonato em seqüência.