Monthly Archive for February, 2009Page 2 of 2

Novecentos

Não foi o que vi que me parou/
Foi o que não vi/
Pode entender, irmão? foi o que não vi… procurei-o mas não existia, em toda aquela destruída cidade existia tudo, exceto/
Havia tudo/
Mas não havia um fim. O que não vi é onde acabava tudo aquilo. O fim do mundo/
Agora você pensa: um piano. As teclas iniciam. As teclas terminam. Você sabe que são 88, sobre isso ninguém pode culpá-lo. Não são infinitas, elas. Você é infinito, e dentro daquelas teclas, infinita é a música que pode fazer. Elas são 88. Você é infinito. Isso me agrada. Isso se pode viver. Mas se você/
Mas se eu subo naquela escadinha e diante de mim/
Mas se eu subo naquela escadinha e diante de mim se desenrola um teclado de milhões de teclas, milhões e bilhões/
Milhões e bilhões de teclas, que não acabam nunca e esta é a verdade verdadeira, que não acabam nunca e aquele teclado é infinito/
Se aquele teclado é infinito, então/
Se aquele teclado não tem música que possa tocar. Você está sentado no banquinho errado: aquele é o piano em que Deus toca/
Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer/
Todo aquele mundo/
Aquele mundo em cima, que nem ao menos sabe onde acaba/
E quando está lá/
Não têm mais medo, vocês, de acabar em mil pedaços só em pensar nela, aquela enormidade, só em pensar nela? Em vivê-la…/
Eu nasci neste navio. E o mundo passava aqui, mas com duas mil pessoas de cada vez. E desejos os havia também aqui, mas não mais do que aqueles que podiam estar entre uma proa e uma popa. Você tocava a sua felicidade num teclado que não era infinito.
Eu aprendi assim. A terra, aquela é um navio muito grande para mim. É uma viagem muito longa. É uma mulher muito bonita. É um perfume muito forte. É uma música que não sei tocar. Perdoem-me. Mas não vou descer. Deixem-me voltar atrás.
Por favor/

(Você devia ler esse livro, sério.)

Da culpabilidade dos atos

Pacientemente, o homem observa o banco. Analisa esquemas de segurança. Anota horários de entrada e saída de funcionários, datas de envio e recebimento de malotes. As empresas procuram alternar, mas ele identifica o padrão. Mais alguns meses de observação e suas teorias se comprovam. Seus cálculos estão certos. É possível prever quando o dinheiro estará no cofre.

O tempo passa. Sondando bibliotecas públicas, surgem as plantas baixas do edifício, publicadas em livros de arquitetura graças a seu tombamento histórico. Mais observação e é possível descobrir a empresa responsável pela segurança eletrônica. Pesquisas na internet resolvem o resto. O sistema é bom, mas, como qualquer outro, não é infalível. Ele tem o método. Ele tem os meios. Ele tem o plano.

Fazendo uso de todos os recursos possíveis, ele entra no prédio. É noite, apenas um segurança está no local. Ele se esconde nas sombras e aguarda. Aguarda. Aguarda. Aguarda por horas por algo que não vem. Então toma a iniciativa e vai atrás do que queria. Presume não haver segurança. Imagina que o homem dorme, cansado graças a sua rotina de muito trabalho para pouco pagamento.

Ele chega ao cofre. Desmantela alarmes, câmeras e sensores pelo caminho. Suas noções de eletrônica e sua pesquisa sobre o sistema de segurança tornam aquela invasão - para muitos, impossível - um passeio no parque. Ele desarma o cofre… encontra um ferrolho. Um ferrolho simples, com um cadeado. Que ele não sabe como abrir, não tem ferramentas para arrombar. Irrita-se, sente-se frustrado. Vai embora, deixando tudo como estava. A invasão é detectada, assim como também é possível notar que nada sumiu.

Mesmo assim, o homem é preso.

A acusação alega que tentar roubar já te torna um ladrão. Sair com o produto do seu roubo em mãos só te confere, como diferencial, a competência.

A incompetência não te inocenta.
Te faz duas vezes culpado.




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