Arquivos mensais para September, 2009

Dos aborrecimentos ininterruptos

- Tô de saco cheio, não agüento mais isso!
- Isso o quê?
- Isso tudo.
- Você podia tentar ser mais específico.
- Eu especifiquei. “Isso tudo” quer dizer “tudo isso”. Tudo! Você está familiarizado com o conceito de “tudo”?
- Então por “tudo” você se refere, parafraseando Douglas Adams, à vida, ao universo e a tudo mais?
- Com ênfase no “tudo mais”.
- O que é que há?
- O que há é que eu tô de saco cheio.
- Sim, isso você já disse. Mas isso é um resultado. Eu estou perguntando pela causa que te conduziu a tal resultado.
- Se eu disse que tô de saco cheio de tudo, pode-se imediatamente inferir que TUDO me conduziu a isso. Logo, tudo é a causa.
- Escuta, eu tô tentando sondar o que aconteceu pra você chegar nesse estado de supremo emputecimento, de modo a te ajudar a buscar uma solução, mas você precisa parar de rodeios e ser mais específico. Diga de uma vez por todas o que foi que houve, cacete!
- Não é algo em particular, algo pontual. Um acontecimento apenas não leva alguém a esse estágio de desânimo e cansaço no qual me encontro agora. É tudo! É a vida transcorrendo numa seqüência ininterrupta de erros e problemas que vêm minando minha paciência e me levaram à conclusão que iniciou esse nosso diálogo.
- Não pode ser possível que tudo esteja dando errado.
- Ah, pode, sim.
- Muito mais coisas podem dar errado, você é que não está considerando todas as possibilidades.
- Ok, muitas coisas que AINDA não deram errado podem dar errado, isso é fato. E muitas das que deram errado poderiam ter dado errado de forma ainda mais severa, causando mais danos do que os que foram causados. Mas o fato das coisas terem como piorar não significa que estejam boas.
- Isso lá é verdade.
- Que bom que você concorda, seria uma merda ter que ouvir o argumento da conformação segundo a merda alheia.
- O quê?
- O argumento de conformação segundo a merda alheia é aquela idéia, da qual muitas pessoas fazem uso, de que, por pior que você esteja, ainda existe quem esteja pior do que você. Logo, você deveria se alegrar.
- Ah, compreendo.
- O que eu, diga-se de passagem, considero muito pouco cristão. Uma verdadeiro cristão deveria se sentir ainda mais miserável por saber que existem semelhantes em situação pior do que a dele. Eu não sou cristão, mas saber que tem gente por aí mais fodida do que eu não faz com que eu me sinta melhor.
- Eu ainda acho que você exagera. Talvez seu problema seja apenas o foco…
- Já me disseram isso. Que é um problema de foco. Que eu sou pessimista e, portanto, só dou atenção ao que dá errado, armazenando tais informações para depois utilizá-las como base para meus argumentos pessimistas.
- Era mais ou menos o que eu ia dizer.
- Pois saiba que não é verdade. Fiz um experimento a respeito: diante de cada situação com chance de dar certo ou errado, eu sacava do bolso um bloquinho e, com uma caneta preta, anotava a situação, qualquer que fosse. No fim do dia marcava com um X azul as que deram certo e com um X vermelho as que deram errado.
- E aí?
- E aí que foi a primeira vez que vi a tinta de uma caneta bic vermelha acabar.
- Então você está de saco cheio.
- Totalmente. O problema é que a única solução viável pra me livrar desse inferno que é a minha vida é a morte, mas não tenho coragem de me matar.
- Eu também não teria, me parece tão antinatural…
- Não é por isso que não tenho coragem. Se tudo dá errado o tempo todo, tentar algo assim é dar muita chance pro azar. Corro o risco de terminar pior do que antes!
- Sei. É o paradoxo do suicídio.
- Esse eu não conheço.
- O suicídio é a única situação de vida ou morte na qual, quando TUDO dá errado, você sai ileso.
- Interessante, nunca tinha pensado nisso.
- Viu? Você aprendeu algo novo. Isso é bom. Nem tudo dá errado o tempo todo.
- Tanto dá que essa pequena informação que você me passou agora só torna mais difícil pra mim tomar a única decisão que poderia acabar com essa encheção de saco de uma vez por todas. Parabéns!