Monthly Archive for October, 2009

Das infrações espontâneas

É curioso que exista quem diga por aí que as pessoas têm o direito à felicidade. Que merecem ser felizes como acharem melhor. Direito à felicidade todo mundo tem, de fato. O que não se tem direito é à infelicidade.

Ninguém pode ser infeliz. Ser infeliz é uma afronta. Falar pouco, não querer conversar, permanecer cabisbaixo, se sentir miserável… isso não pode. É acintoso, é contra as regras, é imoral. Há de ser ilegal, qualquer dia. Se estiver disposto a adotar tal comportamento, prepare-se para as críticas.

Ninguém gosta de tristonhos. Ficar assim é repreensível, ser triste é inaceitável. Não é que você POSSA ser feliz: você DEVE.

E eu sei, existem alguns infelizes intoleráveis por aí. Gente que adora derramar suas lamúrias em cima dos outros, que vai atrás de conhecidos e desconhecidos para se queixar de suas desventuras na vida, que usa a infelicidade como desculpa para todas as cagadas que faz, todas as imprudências que comete. Que esses sejam considerados inconvenientes é perfeitamente compreensível. Mas há os que não se manifestam, que se isolam, permanecem calados, embora mantenham-se cumpridores de suas responsabilidades. Não demonstram ânimo ao fazer nada e tudo é executado a duras penas, mas o que importa é que os resultados são obtidos! Não se desfazem em queixumes nem quando são questionados. Se reclamam é lá, no canto deles. Quem fica pra ouvir é porque foi atrás.

E desses ainda é cobrada alegria e jovialidade. Ao que me parece, todos temos que correr sorridentes pela rua, cantando canções da noviça rebelde e agindo como coadjuvantes do filme da Mary Poppins. Devemos ser Pollyanas e manter uma postura otimista e uma visão esperançosa. Não se pode baixar a cabeça. Daqui a uns dias o governo vai começar a colocar antidepressivos na nossa água. Ser infeliz é traição.

E quem dera a traição fosse punida com a morte. Antes isso a toda essa encheção de saco que sofre quem não procura nada além de ficar sozinho e ser deixado em paz…

Do fim de semana cinéfilo

Esse foi um fim de semana bastante prolífico em matéria de filmes. Fiz o impensável para um pirateador imundo como eu – de acordo com o que pregam as agências antipirataria -: fui a uma locadora e aluguei títulos que vinha enrolando há eras pra assistir. Seguem minhas impressões dos filmes. Vagas, superficiais e que não devem ser levadas em consideração, por uma série de motivos que não vêm ao caso.

SIM, SENHOR!:

Em primeiro lugar, finalmente consegui ver na Zooey Deschanel (ainda que brevemente) o que tanta gente parece ver o tempo todo: toda a beleza irretocável, o charme irresistível e etc. Até então a achava bastante sem-graça. Furável, apenas. Ainda acho que cantando ela é tão legal quanto um coice de asno no testículo esquerdo, e seria preferível que o diretor tivesse o bom-senso de não utilizar “músicas” dela na trilha sonora. Nesse sentido sou muito mais a irmã-gêmea-separada-no-nascimento dela, Katy Perry (não gosto das músicas de nenhuma das duas, mas entendo por que a carreira musical da Katy Perry deslancha, enquanto a da Zooey não sai do lugar. Acho que só a Zooey não entende, o que mostra que ela precisa de amigos mais sinceros). Mas, em matéria de beleza e capacidade de atuação, ela já não deixa mais tanto a desejar.

Jim Carrey, por outro lado, faz nesse filme o tipo de papel que faz melhor: o tipo espasmódico. Parece que tem eletrodos ligados nos bagos e, por isso, não consegue manter suas expressões faciais dentro de um limite civilizado, executando caretas impensáveis a cada dezessete segundos e meio. Tudo bem, ele é um bom ator e pode fazer papéis normais, sem surtos repentinos freqüentes, como em Cine Majestic, por exemplo (filme que tem uma das melhores trilhas sonoras que já ouvi, a qual nunca consegui encontrar, uma das minhas maiores frustrações nos amplos reinos da Infernete). Mas são filmes como O Máskara e Ace Ventura (e depois roteiros com potecial mal-desenvolvido, como O Mentiroso e Todo-Poderoso) que o tornaram famoso.

Sim, Senhor quase vai pra mesma categoria desses últimos. Mas não achei o roteiro mal-desenvolvido e toda aquela pieguice envolvida nos outros filmes foi espertamente ignorada. Eles têm o Danny Masterson com um bigodão respeitável, o que é legal, mas também há uma cena totalmente dispensável com uma velha, então esses dois aspectos bacanas meio que se anulam. Entretanto, tocam DUAS músicas do The Eels, sendo uma delas minha preferida (Your Lucky Day In Hell). Então leva aí sessenta cabritos, numa avaliação final.

GRAN TORINO:

Perdão pela obviedade, mas Clint Eastwood é Clint Eastwood, e por isso já tenho respeito suficiente. Clint Eastwood bancando uma versão velha do Dirty Harry é meu herói, indubitavelmente. Sou um grande fã do House, mas o médico manco, perto de Walter Kowalsky, é uma bichinha. Greg House choraria copiosamente depois de conversar por três minutos com o veterano da guerra da Coréia. Mas além da boa atuação do velho Clint existem as ótimas revelações do filme, como aquela chinesinha engraçada parecida com o Zacarias, e a relação dele com a matriarca dos vizinhos hmong. Sem contar os diálogos sensacionais, o tipo de coisa capaz de fazer alguém que escreve se morder de inveja. A história, apesar de partir pra um viés imaginativo, se mostra muito mais real do que qualquer um esperaria. E por isso pode desagradar os mais inventivos. Os cínicos por natureza, de todo modo, vão aproveitar, sem dúvida.

Enfim, ainda não assisti um filme dirigido pelo Homem Sem Nome que fizesse eu me arrepender pelo tempo gasto, todos me deixaram satisfeito ao final. Esse não foi diferente. Classifico facilmente como digno de quatro mil caramujos.

X-MEN ORIGENS: WOLVERINE:

Não sou um grande fã do Carcaju. Até entendo o valor exagerado que a Marvel dá a ele: vem de toda a babação que os fãs de quadrinho devotam ao personagem. Deve haver algo de encantador em um nanico canadense peludo com garras de metal retráteis, caninos e péssima atitude, mas não sei apontar o quê. Sei que se tem algo sobre o Wolverine que deve ser respeitado é seu cinismo. Nenhum dos filmes dos X-Men respeita muito isso. Origens foi o primeiro a levar isso – ainda que remotamente – em consideração. Sério, expliquem pra mim qual o problema que Hollywood tem em dar a seus protagonistas uma boa dose de sarcasmo. Vejam o velho Kowalsky! Ele é muito pouco afável, e ainda assim é perfeitamente possível simpatizar com ele. Custa fazer o mesmo com o carcaju? Não custa.

Além do mais, é uma regra simples: enfie personagens demais em um blockbuster que preza mais pelas cenas de ação do que pelos diálogos e você terá vários personagens mal-desenvolvidos. Wade Wilson – que ganhou meu respeito com o passar dos anos – podia render um personagem tão legal… e no fim virou aquela… aquele… aquilo! A relação com o Dentes-de-Sabre ficou superficial e mal-explicada. A passagem pelas guerras merecia muito mais do que apenas os créditos do filme. Gambit sem sotaque cajun é nhé. Toda a história com a Arma X foi afável demais. Chris Claremont deve estar se revirando no túmulo!

Ok, ele não morreu, e isso torna tudo pior: podiam ter consultado o cara.

As cenas de ação são legais, ao menos. As lutas são moderadamente bem coreografadas. O excesso de cromaqui me incomodou. Aquela moça que faz o papel de mulher do Logan parece ser bonita, mas é feia. O filme não é bom, mas é divertido. Ah, quer saber? Dou a esse treze jabuticabas. Sendo generoso!

007 – QUANTUM OF SOLACE:

Que me perdoem os puristas, longe de mim fazer pouco do personagem em sua melhor encarnação (e me refiro a Sean Connery), mas essa versão brucutu do agente inglês é sensacional. Daniel Craig merecia uma medalha de irmão caminhoneiro por esse papel: total falta de sutileza, gadgets são para mocinhas mimadas, o que não se pode resolver no charme vai na porrada mesmo – e pouquíssimas coisas são resolvidas no charme.

E, apesar de toda a brutalidade, grosseria e falta de parcimônia, o sujeito é extremamente inteligente e pensa muito, muito rápido (se assim não fosse, morreria rapidamente no ramo de negócio que resolveu seguir). Judi Dench não me agradava como M. nos filmes com o Pierce Brosnan – na verdade, nada me agradava nos filmes do 007 com o Pierce Brosnan -, mas agora tenho bastante simpatia por ela.

PORÉM – aqui há um porém, que em relação a Casino Royale não havia – o roteiro é bastante confuso e não dá pra saber exatamente atrás de quem ou o quê James Bond está seguindo. A princípio é uma organização, depois é só um cara, e depois é uma organização de novo, que torna a ser apenas um sujeito. Além do mais, é difícil identificar se o que ele busca é vingança ou completar um serviço. E eu entendo que o roteiro faça isso intencionalmente, até porque alguns personagens do filme precisam ficar em dúvida quanto às motivações do 007. Mas uma coisa é confundir personagens. Confundir a platéia – sem depois explicar direito o que houve e amarrar as pontas soltas – são outros quinhentos. Num apanhado geral o filme é bom, diálogos legais, porradarias que lembram muito a trilogia Bourne, além de boas cenas de ação e acidentes de carro sem explosões (coisa que respeito). Duzentos e cinqüenta torrones pra ele.

MARCAS DA VIOLÊNCIA:

Eu disse que vinha enrolando há eras pra ver alguns dos filmes. No caso me referia a esse, de 2005. A única coisa que já vi com o Virgo Mortensen foi Senhor dos Anéis, que não me agrada muito, mas não é minha intenção caçar briga com fãs do Tolkien aqui. Isso pode ficar pra depois.

A história parte de uma idéia que ninguém poderia chamar de original. Já foi desenvolvida antes em diversas ocasiões. É o mesmo conceito do qual parte Os Miseráveis, por exemplo, ou Cowboy Bebop, ou Estrada Para Perdição. Apesar de ser um assunto já trabalhado, ainda pode render abordagens originais, como é o caso aqui. Toda essa idéia de que um homem não pode se livrar de seu passado, ainda que queira, de que sempre vai aparecer alguém que te conheceu numa outra etapa da sua vida e tentar te levar de volta àquilo, de que é impossível deixar claro para essas pessoas que você agora as ignora, que rompeu com elas, que elas representam algo que você era e não quer tornar a ser… Jean Valjean sabe o que é isso. Michael Sullivan sabe o que é isso. Spike Spiegel sabe o que é isso. Tom Stall também sabe.

Há momentos desnecessários no filme, e há aqueles brilhantes, pelo apego aos detalhes. Mas é a história e seu desenvolvimento que chamam mais a minha atenção. É a idéia de que talvez seja impossível seguir com sua vida, quando há ao seu redor gente querendo te lembrar daquilo que é preciso esquecer pra ir adiante. E às vezes é preciso romper com essas pessoas de forma brutal, quando não dá para levar esse processo de maneira sutil. Quando elas se recusam a te deixar em paz.

Pra esse vão cento e vinte maçaricos e meio, mas admito que pode haver aí um certo puxa-saquismo da minha parte, já que gosto do David Cronenberg e de seu apego por detalhes aparentemente irrelevantes (e também de ver a Maria Bello pagando peitinho).

Por fim, deixo claro que essas são MINHAS impressões, não suas. Crie as suas, ignore as minhas. Não seja um influenciavelzinho de merda. E gosto se discute, sim. Então fiquem à vontade pra apedrejar, se sentirem necessidade.

Top 5 Louis Armstrong

Sou um octogenário em relação a diversas coisas, como já deve ter ficado óbvio para qualquer um que freqüente este blog com certa assiduidade. Minha velhice precoce se manifesta mais intensamente, entretanto, em relação a música. Apesar de apreciar certas mudernidades – como The Killers e suas afetações neo-oitentistas, por exemplo -, nada me dá mais satisfação do que sentar para ouvir algo antigo. Algo REALMENTE antigo! Se houver chiados característicos de gravações da época do gramofone, meu ouvido é imediatamente fisgado. Pensando agora, foi assim que The Strokes ganhou minha atenção! A primeira vez que escutei Last Nite, de madrugada na Transamérica FM (acredite se puder!), imaginei se tratar de alguma banda antiga, contemporânea de Creedence Clearwater Revival, e tomei gosto imediato. Só depois fui saber que era apenas um bando de moleques mal-penteados de Nova Iorque, mas aí já era tarde e Is This It já havia se tornado meu CD favorito da época.

De todo modo, das velharias que curto, provavelmente Louis Armstrong figura no topo dos instrumentistas. Acho uma obscenidade o que aquele sujeito fazia com o trompete. Que mundo é esse em que alguém sopra um instrumento usado para impelir soldados à guerra e arranca de algo tão inamistoso um som tão espantosamente suave? Inaceitável! Ultrajante! Maravilhoso!

Faço, então, meu Top 5 músicas preferidas do Louis Armstrong, com direito a vídeos do Youtube para ilustrar. Dessa maneira, quem não conhecia antes, se tiver interesse, fica conhecendo agora. Se não tiver… bom, gosto não se discute, se lamenta.

5. What a Wonderful World

Clichezão total, eu sei. Mas é espetacular, tem uma das letras mais bonitas já escritas, que casa perfeitamente com o vozeirão roufenho do Satchmo, e foi uma forma muito dura e muito sutil, ao mesmo tempo, de protestar contra toda a situação esdrúxula racial que se desenrolava nos Estados Unidos na década de 60. Não mostra muito do velho Armstrong como trompetista, mas vai assim mesmo. E de brinde em um vídeo com cenas de Good Morning, Vietnam!

Pra quem gosta, claro!

4. Blue Yodel #9 (Standing In The Corner)

“Pára, véio! Essa nem é do Armstrong, é do Jimmie Rodgers!”. Certo, a gravação mais conhecida dessa música é do Rodgers. Mas quem você acha que tocava aquele trompete que transformou essa beleza de uma antepassada da música country em uma antepassada do jazz? Louis Armstrong estava lá, mas não foi creditado. Uma injustiça sem tamanho. Como retaliação, em vez da versão original (que tem os chiados gramofônicos que eu tanto gosto), coloco aqui uma muito, muito melhor, tocada por Johnny Cash – que merecia um top 5 só dele – junto com o Satchmo, em outubro de 1970. Diz aí se não dá vontade de ripar e transformar em mp3?

3. A Kiss To Build A Dream On

A Kiss To Build A Dream On tem a letra apaixonada mais apaixonante que conheço – figura entre minhas preferidas de todos os tempos desde 2002, quando tive contato com ela pela primeira vez graças a Fallout 2 – e essa, sim, chuta o balde em matéria de trompetagem cabulosa, com direito a um solo notável no meio da canção. Foi a primeira do Louis Armstrong que ouvi depois de What a Wonderful World, e agradeço imensamente ao gênio da Black Isle que teve a idéia de usar essa música na abertura do jogo. Não gosto das versões ao vivo, então coloco uma em estúdio mesmo, com uma imagem de Fallout 2 ao fundo, de bônus.

2. La Vie En Rose

Edith Piaf que me perdoe, mas não tenho saco pra música em francês, o que me faz considerar a do Louis Armstrong a versão definitiva pra essa canção. Manifesta-se, em relação a essa música, meu lado reacionário: deixo de lado tudo o que veio antes, não me interessa o que veio depois. Toca em Wall-E, aliás, atestando o ótimo gosto dos caras da Pixar pra trilhas sonoras. É sempre bom lembrar que coisas como “When you press me to your heart I’m in a world apart, a world where roses bloom” derretem qualquer guria, meu caro. Mantenha isso em mente!

1. Mack The Knife

Mack The Knife é uma música bastante conhecida nos EUA. Já foi executada por Frank Sinatra, Bobby Darin, The Doors e mais uma porrada de gente. Só fui conhecer a versão do Satchmo em 2007, após comprar um conjunto de 3 CDs dele com a Ella Fitzgerald (que também já gravou essa canção).

Ao contrário das outras nesse top 5, essa não tem nada de bonitinho, já que fala de um facínora, um assassino chamado MacHeath, vulgo Mack “The Knife”. Mas é divertidíssima! É como uma versão em jazz sobre um bandido americano de um samba do Cartola sobre um bandido carioca: ações absurdas são narradas como se não fossem nada.

Curioso é saber que a música é, na verdade, a tradução da abertura de um musical alemão e a letra original é do Bertolt Brecht. Em um dos trechos, aliás, a letra segue pelos nomes das vítimas do assassino, e uma das moças citadas pelo Louis Armstrong chama-se Lotte Lenya, que foi a estrela da produção original alemã, em 1928. Ele na verdade colocou o nome dela na música durante a gravação, como uma homenagem surpresa ao vê-la no estúdio.

É lógico que uma infinidade de grandes músicas ficou de fora da lista. “Hello, Dolly”, “Cheek to Cheek”, “Saint Louis Blues”, “On The Sunny Side Of The Street”, “When The Saints Go Marching In”… Ao escolher apenas 5 músicas de alguém com um currículo musical tão genial e extenso quanto o Satchmo, não dá pra evitar a grosseria de deixar de fora alguma outra canção genial. Por outro lado, sobra material pra outro top 5 dele qualquer hora dessas, se bater uma indignação diante de qualquer injustiça.