Monthly Archive for December, 2009

Das mudanças (e assuntos menos - ou nada - relacionados)

Pois então, mudei-me. Não falei disso por aqui ainda porque, como parece evidente, isto não é um diarinho. Menciono pouco da minha vida neste recôndito imundo e me sinto mais confortável assim. Mas, para fins de explicação do assunto a seguir, tal informação pessoal vem a calhar. Pois retornemos, então: mudei-me. Morava antes em um confortável apartamento de primeiro andar no meio da civilização. Caminhava 50 metros, estava na Subway. Se andasse 100, chegaria a um Carrefour Bairro. Ao lado dele havia uma Domino’s e um Bob’s, próximos a um Itaú, um Banco do Brasil e um Santander. A parada de ônibus mais próxima ficava a 3 minutos a pé e havia um posto policial ao alcance da vista. Todas as instituições sociais - mesmo as mais desagradáveis - ficavam ali, ao imediato alcance das minhas pernas. Nunca senti necessidade de ter um carro ou qualquer vontade de ter carteira. O negócio é que me mudei…

Agora vivo em um condomínio que fica a 20 minutos - de carro - das fronteiras do mundo civilizado. De ônibus, coloque aí uns 30 ou 40. Até existe uma padaria próxima à minha casa, mas vai ver a qualidade! E tem um mercadinho também, e o INHO que sucede o termo não é meramente ilustrativo, em verdade, em verdade vos digo. Vivo em um lugar aprazível, cheio de pássaros, em uma adorável casa com piscina (logo, logo), próxima a um bosque (não tô zoando, tem um bosque MESMO) que oculta a nascente de um regato e até - vejam que belo! - algumas cachoeiras. Um lugar bucólico!

A sucursal do inferno para um homem urbano que curte caminhar de madrugada. Meu caso.

Então agora terei que tirar carteira, porque da porta do meu condomínio até minha casa são - subida acima - 13 minutos de caminhada. No meu passo de oficial da SS a caminho da execução de judeus, claro. No passo de uma pessoa normal - e pessoas normais caminham como judeus indo para a câmara de gás, para manter a analogia dentro do mesmo evento histórico - vão bem uns 20 minutos. A vantagem disso é que poderei ter um cachorro. A desvantagem é que terei que tirar carteira. E ter um carro.

Agora vem a parte curiosa, que funciona assim desde meus 18 anos: todo mundo que faz essa idade pensa “Legal, poderei tirar carteira e ter um carro” e fica feliz feito pinto no lixo. Essas pessoas pensam na idéia de ter uma CNH e possuir um veículo e vêem nisso um porrilhão de vantagens. Ok, eu até sei que existem as vantagens, mas tudo o que me ocorre são as desvantagens. Diga-me que terei um carro e tudo o que consigo pensar é em custo de seguro, preço de IPVA, anos de prestações para quitar o veículo, desembolsar grana pra gasolina, ter que me sujeitar à encheção de saco do Detran, aturar blitzes, encarar trânsito, procurar vagas em estacionamentos, ter aborrecimentos inenarráveis com batidas estúpidas, atropelar bêbados que surgem repentinamente vindos das sombras… Pessimista, eu?

E, dirigindo, quando é que me ocorreria a idéia que se abateu sobre mim ontem? Subia eu a rua que conduz à minha atual residência, acompanhem-me nessa. Logo antes da esquina em que viro pra chegar à minha casa, há esse terreno onde um sujeito construiu um caixote. É uma casa retangular, tipo 20m x 5m, de 2 andares. Arquitetonicamente falando, é uma caixa feita de concreto. Não tem uma varanda, um telhado que se projete da fachada, nada. Apenas as 4 paredes, um número padrão de janelas e uma porta.

A questão é: não existe UMA entrada/saída da casa além da porta que lhe adorna a frente. Isso quer dizer que no caso de um cataclisma de zumbis, é o lugar mais protegido para se estar naquele condomínio. Talvez na cidade toda. A porta é de metal, as janelas idem, e gradeadas. É uma fortaleza inexpugnável contra criaturas semi-inteligentes, incapazes de apelar para ferramentas. Com um bom estoque de alimentos não-perecíveis dentro daquela caixa de concreto, amigo, é possível viver por ANOS. Não sei o que o arquiteto que desenhou aquele lugar tinha em mente, mas se era a sobrevivência a um holocausto de desmortos, temos aí um gênio ao qual devemos certo respeito. Pergunte-me para onde correrei no dia em que os mortos caminharem sobre a terra e direi, sem pestanejar: “Para o próximo quarteirão, levando comigo um saco de mantimentos e algo para esmigalhar crânios pelo caminho.”

O negócio é chegar lá sem ser mordido, mas qualquer coisa eu sacrifico o cachorro, se a situação ficar crítica. Funcionou com o Will Smith, funcionará comigo.

Das semelhanças (e diferenças) genéticas

Minha sobrinha de 5 anos, tentando escovar os dentes, não foi capaz de colocar pasta na escova, porque aqui na casa da minha mãe as pessoas apertam o tubo pelo meio, e não pelo final, como seria lógico. Remediei o estrago como possível e, enquanto isso, fui explicando pra pequenininha as vantagens de se apertar o tubo de pasta do final pro começo, enquanto classificava a doutrina dos apertadores de meio de tubo com termos como “idiotice”, “burrice” e etc.

Ao fim da explicação, minha mãe me chamou.

- Meu filho, apertar o tubo pelo meio não é exatamente burrice.
- Claro que é. É óbvio que pressionar pelo final é muito mais prático a médio/longo prazo. Quem aperta no meio claramente é imediatista e não tem um pingo de visão.
- Mas não é necessariamente burrice. Burrice é uma deficiência. Às vezes a pessoa é inteligente, mas nunca pensou nisso por preguiça mental.
- O que é igual a burrice.
- Não é!
- Claro que é, mãe! Pensa comigo: eu te dou um pedaço de madeira com um parafuso bem preso nele, uma chave de fenda e um alicate. Daí digo “Tire este parafuso pra mim”. Você pega o alicate e começa a puxar o parafuso, ignorando a chave de fenda. O que é isso?
- Burrice.
- Exato. Então chegamos à conclusão de que burrice equivale a ter uma ferramenta e não utilizar. Certo?
- Certo.
- Então se você tem um cérebro inteligente E não usa, isso é…?
- …
- …
- Teu cu.

Mamãe é tão fina.

Wish You Were Here

So,
So you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue skies from pain
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

Did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here

Dos aniversários

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos
Eu era feliz e ninguém estava morto.

Tive o que fazer no 12 de dezembro durante 28 anos.

Quando não ocorria um evento no dia, acontecia alguns dias depois ou antes. A princípio eram festas com balões, brigadeiro, mirinda, bolo, primos, tios, avós e balão mágico ou trem da alegria tocando ao fundo. Com o tempo o teor foi mudando e passou, dessa farra infantil, para a típica comemoração adolescente, com música alta varando a madrugada e casaizinhos transbordando hormônios se pegando pelos cantos. Nos últimos anos os acontecimentos eram mais calmos, geralmente almoços ou jantares em família. Ano passado foi uma festa grande num sábado à tarde, com minha vó preparando uma tremenda feijoada para trocentos convidados que comeram até não poder mais. Foi divertido.

Esse ano terei o que fazer no 12 de dezembro, mas sem música e sem farra. Meu evento do dia 12 será diante de uma sepultura, com a inevitabilidade das coisas me pesando nos ombros e atos falhos me cutucando a consciência. O primeiro 12 de dezembro em 28 anos sem ouvir a voz da minha irmã.

Sei lá se isso vai soar como eu gostaria que soasse, mas sinceramente espero que seja o primeiro de poucos.




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