Durante um certo período da minha vida, fui um ateu fervoroso cuja grande diversão, ao conversar com teístas, era apontar erros em suas certezas (de preferência fazendo com que parecessem idiotas por ter fé naquilo e coisa e tal). Com o tempo e uma boa dose de sabedoria - que FELIZMENTE veio com o tempo, e é das únicas coisas boas que ele traz, junto com a velhice, as doenças, a degradação física e moral e um realismo cínico -, acabei percebendo que o ateísmo que eu praticava de forma tão religiosa era exatamente isso: uma religião. E envolvia muita fé na minha crença - tão carente de embasamento quanto a de qualquer teísta - de que deus não existe, e que não passamos de poeira galáctica com delírios de autoimportância.
Vem daí que atualmente sou um agnóstico. Não existe arcabouço lógico que permita a qualquer um negar OU afirmar a existência de um gerente nesta birosca. Sem dúvida é perfeitamente possível discutir com cristãos, por exemplo, e questionar suas afirmações disparatadas a respeito da “vontade divina”, dos meios adotados pelo criador para atingir seus objetivos. É possível inclusive questionar a idéia de que deus, se existe, tem qualquer objetivo. Você pode dizer que eles estão errados, por exemplo, ao afirmar peremptoriamente que o velho Javé não gosta de brincadeiras. Existe um forte argumento contra isso, chamado ORNITORRINCO. Também pode rir quando eles dizem que o todo-poderoso é um cara bacana. Existe outro forte argumento contra isso, e chama-se JAQUEIRA. Um cara sem senso de humor não cria um bicho escroto como o ornitorrinco, um cara legal não colocaria uma fruta de 5 kg no topo de uma árvore de 10 metros, enquanto morangos nascem ao rés-do-chão.
Ou seja, EXISTEM argumentos contra as afirmações dos teístas em relação aos desígnios divinos. Até mesmo em relação à natureza de deus. Porra, deus sabe (opa!) que existem argumentos até mesmo em relação ao modus operandi deles ao lidar com o criador.
Mas não existe um argumento consistente a respeito da inexistência divina. Ou da existência, também. É tudo uma grande interrogação. Uma pergunta daquelas para as quais nós não temos resposta. Nosso conhecimento não atingiu tal magnitude ainda, e cientistas que se aprofundam em suas áreas de conhecimento chegam a um beco sem saída. Alguns, nesse ponto, partem para o estudo e a criação de novas teorias. Outros, apesar de continuarem estudando, fazem referência a algo como “uma força maior”.
Um cientista sem muito talento para a ciência - que é, essencialmente, a curiosidade humana se manifestando com método - bate naquele ponto, resolve que não existe explicação lógica e vai cuidar de outro assunto.
Mas enfim. Voltando aqui aos ateus, é triste que não percebam, do alto de sua fúria “racional”, de seu apego raivoso a uma certeza que não podem provar - porque não se pode provar a inexistência de algo, como parece evidente -, o quanto são ridículos e fundamentalistas. Mais do que muitos dos cristãos proselitistas, que tanto os irritam. Mas em relação a um ponto, preciso dar razão a eles: não existe grupo mais desrespeitado do que o das pessoas que não acreditam em deus.
E não falo dos que NEGAM deus. Falo dos que negam e dos que, como eu, não perdem tempo tentando criar argumentos - fracos, via de regra - a respeito desse assunto.
Uma pesquisa recente mostrou que só os usuários de drogas recebem tanta repulsa/ódio da população em geral quanto os ateus. Acha que eu tô exagerando? Confere aí:

Clica aí pra ver maior, filho.
- Mas você não é um ateu, Pedrones, vem negando isso desde o começo do texto.
Tô ciente, gafanhoto. Mas pra maioria do populacho teísta, infelizmente profundamente ignorante sobre a natureza da fé e das religiões, só existem duas vertentes: ateus e GENTE BOA. Agnósticos definitivamente não estão no segundo grupo. O que significa que, em matéria de opróbrio, é necessário juntar um aidético, um traveco e um ex-presidiário pra competir comigo.
Esse desrespeito pelo não-teísmo, qualquer que seja a forma que tome, é muito claro e começa com aquela piadinha que associa ateu a à-toa, mas não pára aí. Sempre que alguém questiona seus valores morais, ou demonstra pena diante de sua descrença; sempre que dizem “um dia você vai enxergar deus” ou dão a entender que essa é apenas uma “fase de rebeldia”; sempre que sua postura religiosa é colocada em xeque, enfim, não com argumentos e tentativas de entender sua compreensão do maquinário que move esse plano de realidade, mas com demonstrações de superioridade e/ou troça: essa é uma forma de desrespeito. É você sendo tratado como o que é: um pária.
Agora vem o X da questão, que me conduziu a todo esse raciocínio: ateus nessa situação encontram-se numa sinuca de bico. Porque, veja só, amigo ateu que se sente desrespeitado em sua descrença: a lei lhe ampara! Você pode processar aquele que te constranger, baseado no art. 208 do Código Penal.
MAS - e aqui está o pulo do gato - para isso é preciso alegar que sua CRENÇA RELIGIOSA foi menosprezada. Que aquilo em que você ACREDITA, aquilo no que CRÊ, a idéia na qual deposita sua FÉ foi vilipendiada.
Basicamente, precisará alegar que, sendo ateu, tem uma crença. Que não acreditar em deus é sua religião. Vai ser preciso admitir que o escárnio foi direcionado não aos seus argumentos, mas à sua fé.
Em suma, ateuzinho raivoso, a lei te ajuda, mas você precisa se contradizer. Diz aí: cê tem bagos pra tanto?
Duvido.