Toda madrugada, entre 5h e 5h15, o mesmo fenômeno ocorre. E chamo de fenômeno porque, pra mim, é um acontecimento novo, imprevisível e que foge completamente à minha compreensão das coisas. Enfim, toda madrugada, entre 5h e 5h15m da manhã, uma abelha - uma, apenas - entra no meu apartamento e começa a voar enlouquecidamente ao redor da lâmpada da sala.
O que, para mim, caracteriza isso como fenômeno é o fato de que nunca vi uma abelha alucinar por causa de uma lâmpada. Pra mim esse comportamento - particularmente idiota - era natural de insetos reconhecidamente imbecis, como as lepidópteras (em especial as mariposas) e alguns coleópteros. Apesar de minha aversão a elas, e de achar o produto de seu esforço fedorento e desagradável - sim, me refiro a mel, própolis e todas essas porcarias que as abelhas produzem -, considerava as abelhas insetos superiores. Assim como as formigas, achava que eram um pouco mais inteligentes e organizadas, e que, apesar de demonstrar certa demência diante de comida, morrendo facilmente por alguns grãos de açúcar ou gotas de refrigerante, ao menos matavam-se por algo prático, útil.
Admito que me decepcionei com as abelhas.
Porque uma abelha que invade minha sala para voar contra a lâmpada, com seus movimentos erráticos e seu zumbido irritante, está cometendo suicídio desnecessariamente. Não está morrendo porque ferroou alguma ameaça a sua colméia ou porque, em sua busca por pólen, fez um movimento despropositado e terminou pisoteada por uma criança ou esmagada contra o pára-brisa de um carro. Está morrendo porque entrou no meu apartamento, onde não existe nada - NADA - que lhe possa ser útil!
Então repete-se esse procedimento: toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, uma abelha invade minha casa. Toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, minha atenção é desviada do filme que estou vendo ou do livro que estou lendo pelo ruído intolerável de asas membranosas batendo enlouquecidamente. Toda madrugada estico a mão até a lata de inseticida, por volta de cinco da manhã. E então assisto - com certa satisfação, inclusive - enquanto um inseto se contorce no chão da sala, experimentando sabe-se lá que grau de sofrimento e que espécie de sintomas, em uma agonia que me diverte bastante, durante dois ou três minutos que, para a abelha, devem ser intermináveis. Para mim são muito agradáveis.
Daí volto para meu divertimento saudável, enquanto me pergunto o que diabos há de errado com essas malditas criaturas.
Saibam, hymenópteras: esperava mais de vocês.
