Coisa de duas semanas atrás fui ao centro e me deparei com uma série de sebos armados no meio da rua. Bisbilhotando, Fernanda encontrou um exemplar maltratado de uma quarta edição d’A Cidade Vazia, do Fernando Sabino, pelo valor nababesco de R$ 2,00. Comprou, sem pestanejar. Gostaria de tomar o mérito do ato, mas não me permito. Foi ela quem fez o grande negócio.
A Cidade Vazia é um apanhado de crônicas da época em que o autor vivia nos Estados Unidos, e não tem muito daquele humor sutil de mineiro que caracteriza livros como O homem nu ou A falta que ela me faz. Deixa transparecer até uma boa dose de melancolia, resultado da solidão decorrente da vida no exterior. De todas que já li, considerei uma, em particular, digna de menção. Vou transcrevê-la aqui, ainda que sob pena de quebrar algum tipo de lei de direito autoral ou coisa que o valha, então deixo claro que o texto que segue não foi escrito por mim, dele não tiro quaisquer proventos e sobre o mesmo não tenho nenhum direito. A publicação é mera homenagem, e me prontifico a retirá-lo do ar se sua transcrição neste blog porco lesar, de qualquer maneira, os responsáveis pela obra.
Estendendo um pouco mais este preâmbulo, adianto que redigitei o texto na íntegra, ipsis literis, com todas as quebras de linha, vírgulas e acentos em palavras não mais acentuadas. Tanto por respeito ao formato original quanto em protesto contra a tal nova ortografia.
O Juramento
Melvin C. Roberts, canadense e secretário do conhecido milionário americano Cornelius Vanderbilt Junior, suicidou-se aos 27 anos de idade.
O comitê de investigações encarregado de esclarecer as circunstâncias do suicídio concluiu, depois de ouvir Vanderbilt, que o rapaz teve aquêle fim “como resultado de sua tormentosa experiência”.
Que experiência foi essa? O próprio Vanderbilt, no seu esclarecimento, nos dá a resposta. E de repente Melvin C. Roberts deixa de ser mero nome perdido na seção obituária dos jornais, lembrança a apagar-se com o tempo entre parentes e amigos, acontecimento cotidiano no registro policial. Já não se trata de simples tragédia doméstica que deixará atrás de si uma pobre mãe desconsolada e uma noiva desiludida. Nem ficará sendo apenas um momentâneo aborrecimento para o milionário Vanderbilt, que terá de procurar nôvo secretário.No dia 9 de agôsto de 1945, um campo de concentração no Japão foi libertado pelas fôrças americanas. Entre outros, oito homens maltratados e famintos tinham escapado à morte lenta das torturas diárias, depois de quatro anos de cativeiro. Eram dos mais antigos, e milhares que com êles entraram naquele inferno jamais chegaram a sair. Tinham todos pouco mais de vinte anos, mas o sofrimento vivido em comum lhes deu outros vinte. Juntos suportaram a fome, o excesso de trabalho, a humilhação, o mêdo e a desesperança. Foram finalmente selecionados como cobaias humanas para inoculação de doenças e experimentações de cirurgia. Conheceram, uma por uma, tôdas essas formas de sadismo que os jornais e o cinema já divulgaram, para o erguer de ombros dos céticos e a meia hora de mal-estar dos temperamentais. Já não temiam a própria morte: temiam que o mundo não soubesse colhêr dela ensinamento algum, que o mundo não merecesse aquêle sacrifício. Então fizeram um juramento: se por milagre saíssem de tudo aquilo com vida, se recusariam a viver, caso não fôsse possível um mundo pacificado e feliz.
Nunca mais se encontraram. Dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, experimentando recomeçar a vida. Com o fim da guerra as nações se reuniram, tentando consolidar a paz. No mundo haveria agora oportunidade igual para todos, sólida esperança ligaria todos os homens, o mêdo e o ódio não resistiriam às novas formas de viver que se ofereciam. Assim era o mundo no ano que se seguiu, quando, exatamente no dia 9 de agôsto de 1946, a crônica policial de uma cidade qualquer dos Estados Unidos registrou sem maiores detalhes, entre notícias de pequenos furtos, atropelamentos e agressões, o suicídio de um veterano de guerra.
Os homens às vezes se suicidam, veteranos ou não. Dizem que isso é natural. São os desiludidos da vida, os fracassados, e perfazem com seu “tresloucado gesto” um acontecimento normal de seleção na luta dos interesses, que o próprio desengano da vida se encarrega de explicar. É natural também que os veteranos tenham, como os outros homens, seus problemas íntimos para os quais vão buscar na morte a solução. Pouco tempo mais tarde, ainda em 1946, numa cidade da Inglaterra, outro veterano da guerra do Pacífico se matou.
E assim, sucessivamente, êles foram desistindo de viver. O suicídio de um rapaz no Estado de Nebraska coincidia com o de outro na Califórnia. Ninguém ficou sabendo por que num bar de Chicago um homem tomou veneno, ou no seu quarto de Filadélfia um homem deu um tiro na cabeça, ou numa colina do Maine um morto foi encontrado, ou nas águas do Rio Hudson um corpo se afogou. É possível mesmo que ninguém chegue a saber jamais como foi que êles morreram, nem quando, nem onde, nem por quê.
Na cidade do Reno, Estado de Nevada, Melvin C. Roberts, um rapaz de 27 anos, abandona o jornal sobre a perna, olha a noite pela janela de seu quarto e espera. Em que estará pensando? São dez horas da noite e lá fora a cidade parece calma, tranqüila, feliz. Homens e mulheres se encontram, se despedem, trabalham e descansam, vivem e morrem. Melvin C. Roberts pensa neles, pensa no tempo que passou. Pensa nos destinos do mundo, Melvin C. Roberts.
Levanta-se e caminha até a janela, como se tão vasto pensamento o obrigasse a receber de pé a brutalidade de suas conseqüências. O jornal deslizou para o chão, aberto na terceira página, e o nome familiar na pequena notícia se perde num emaranhado de letras. Êle ergue os olhos para o escuro do céu onde estrêlas esparsas mal se vêem, neutralizadas pelas luzes da rua. Parece tentar colhêr da noite um conselho, uma advertência. Mas a noite não lhe diz nada. Os pensamentos de nôvo se avolumam, recompõem as mesmas imagens de horror. O tormento de lembranças lhe vem mais uma vez em sucessão monótona: são os mesmos rostos de olhos repuxados, a mesma voz dissonante dos guardas, o mesmo cheiro de sangue. Pensa no sacrifício inútil que cinco de seus companheiros já completaram. Melvin C. Roberts está pensando na morte. São onze horas a noite de 9 de agôsto.Seu corpo foi encontrado no dia seguinte sobre a cama – um vidro de pílulas sedativas a seu lado, completamente vazio. Escapou a todas as formas de morte violenta nas mãos dos japonêses e procurou a maneira mais tranqüila e confortável de morrer. Segundo afirmou no seu depoimento o milionário Vanderbilt, o rapaz vivia ultimamente num constante estado de depressão e se queixava de horríveis sonhos com seu internamento, as torturas que sofreu.
Encerrando os trabalhos, o comité de investigação no Reno resolveu considerar a sua morte como sendo “mais uma honrosa perda de guerra”. Com isso autorizam o esquecimento em tôrno de seu nome.Mas Melvin C. Roberts não será esquecido, como os outros cinco. E não será, simplesmente porque sabemos agora que ainda restam dois.
Que terá sido dêsses dois? É possível que um já tenha esquecido o juramento feito, esquecido seus sete companheiros, e num bangalô em Miami Beach ou numa pequena fazenda do Texas, já casado e com filhos, procure esquecer também o mundo e seus problemas: esta foi a maneira que escolheu de suicidar-se.
Mas, e o outro? Neste último é que está, sem que o saibamos, o nosso mêdo e a nossa esperança. Vejo-o lendo àvidamente os jornais de hoje em Nova Orleãs, São Francisco, Detroit ou em Bunn, na Carolina do Norte. Vejo-o passando ao meu lado nas ruas de Nova Iorque e o desconheço. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe que o destino do mundo se subordinou ao destino dêste homem. Poucos conhecem esse veterano distraído, com o olhar vazio dos prisioneiros. No seu andar um tanto incerto não há nada revelando que êle caminha a passos firmes para a morte. Indiferentes a êle, os políticos continuam se reunindo em assembléia, para decidir a sorte do mundo. E a sorte do mundo está hoje dependendo apenas da vida dêsse homem. Mas quem será êle? Ninguém sabe ou se preocupa em saber. Êle vai andando em meio à multidão como um autômato, anônimo e despercebido. Seus dedos deslizam pelo bôlso do paletó, acariciam lentamente o revólver, lembrança ainda da guerra, e esperam.
Numa esquina qualquer de uma cidade qualquer, um homem espia passivamente o movimento ao seu redor e espera o instante de condenar o mundo com a sua morte. Seus dedos apertam a arma, o braço se ergue, e ela se volta em direção ao peito magro onde o coração se maltrata. Tenho ainda uma violenta esperança de que alguma coisa aconteça, algum milagre impeça a morte dêsse homem.Fernando Sabino.