Monthly Archive for March, 2011

A maravilhosa cozinha de Ofél… Utopia! (2)

Amigos e Irmãos.
Namastê.
Paz e Luz.

Você sabe o que é um Gigapudding? Se não sabe, então vamos começar pelo começo: destruir sua alma e acabar com sua paz de espírito. Assista esta atrocidade:


“AAAARGH! DEUS! A FELICIDADE! É DEMAIS PARA O MEU CÉREBRO!”

A partir de agora, tudo em que você vai conseguir pensar é nessa aberração pudinesca, porque o seu cérebro – que, sejamos francos, nunca foi lá de grande serventia, ou você não estaria chafurdando neste blog mequetrefe – acaba de virar um pudim gigante (devo informar que, no seu caso, isso é um upgrade). Dessa maneira, seu destino é ser perseguido por essa idéia fixa, que, como um novo tipo de obsessão não prevista pela psicologia, há de transformar sua vida em um inferno. Suas lombrigas tomarão posse de suas faculdades e você será para sempre infeliz, a menos que consiga meter uma colherada em um pudim de 20 cm de altura com uma charmosa cobertura de flan de chocolate.

Pois não tema. É para conduzi-lo a esse eldorado da culinária de baixo nível que estou aqui. Ensinarei, com direito a fotos, a fazer uma porcaria dessas. E não fique se sentindo incapaz apenas porque sua perícia culinária não basta sequer para preparar ovo cozido! Um gigapudding não requer prática, tampouco habilidade. Você só vai precisar de 4 pacotes de flan em pó de baunilha, 1 pacote de flan em pó de chocolate (ou o contrário, quem manda na tua gororoba é você) e 2,5 litros de leite.


Nenhum colaborador deste numeroso blog recebeu um centavo de qualquer uma das marcas apresentadas ou mencionadas neste texto. Lamentável!

“Mas só, Pedrones? Mais nada?”, você pergunta, contorcendo-se de ansiedade. “Sim, amigo”, eu respondo, com um sorriso irônico, “beba os 3 litros de leite e mastigue o flan em pó como um retirante que se esbalda em meio quilo de farinha de mandioca, então aguarde cinco horas e você cagará um enorme gigapudding. Trabalho concluído!”. Claro que não é só isso, anormal. Agora que levantamos os materiais necessários para a sua edificação, temos que providenciar as ferramentas. Pois se quiser fazer um gigapudding decente, nenhuma daquelas fôrmas capengas que tua mãe usa pra fazer bolos que mais parecem cimento vai servir. Você vai precisar de algo com mais… pujança. Tipo um balde de pipoca.

Eu poderia sugerir que o balde de pipoca deve estar SEM pipoca, mas não vou, por duas razões bem simples:

1) A comida é tua, tu faz a mistureba que quiser, ninguém tem nada a ver com isso. Azar das suas tripas.
2) Se eu realmente preciso avisar isso, tá explicada sua inabilidade em fritar ovo, mencionada anteriormente.

Além desse item inesperado, é uma boa ter à mão uma panela de bom tamanho (são dois litros e meio de leite, então este “de bom tamanho” não é figura de linguagem). Tudo em ordem, vamos à preparação da bagaça. Corte as orelhas do primeiro litro de leite (sim, as duas orelhas, se você for uma pessoa inteligente)…

…e pegue 500 ml desse suco de vaca.

Misture o pó do flan de chocolate.

Agora mexa esse grude até ele ferver.

Sério, essa merda tá escrita no verso da embalagem! Se você pode ler as MINHAS instruções, pode ler as da Royal, deixa de ser inútil!

Desculpe. Eu esqueço que ser inútil é da natureza dos leitores de um blog, assim como fazer comentários cretinos e não entender ironias. Continuemos.

Quando a parada levantar fervura, enquanto você mexe a cadeira sem parar, vai ter mais ou menos essa cara:

É nessa hora que vem o macete. Você vai jogar METADE dessa porra no teu balde de pipoca, NO MÁXIMO. Não mais do que metade, sério. A outra metade tu pode jogar num outro potinho e comer depois. É o que eu faço, me amarro nesse grude, porque eu tenho cinco anos e tal.

Enfim, pegue o teu balde de pipoca, com uma quantidade MÍNIMA (um dedo, se tanto) de flan de chocolate serenamente repousando no fundo…

…e enfia no cu coloque na geladeira. Deixe ele lá, resfriando, durante algum tempo, antes de preparar a parte cavalesca (acho que acabei de inventar essa palavra, azar de quem presume que não tenho autoridade para tanto) do negócio. DEPOIS que o flan de chocolate endurecer, pegue os outros dois litros de leite…

…coloque no teu panelão…

…jogue os flans de baunilha lá dentro, COM EMBALAGEM E TUDO…


O lance da embalagem é mentira, anormal!

…e aí mexe. De novo, até ferver. Vai demorar pra caralho, então pegue um livro e leia enquanto mexe a cadeira. Sim, existe o risco de você tocar fogo na cozinha acidentalmente, com a proximidade do papel, mas e daí? Desperte o piromaníaco em você!

Quando essa merda finalmente ferver, depois de uns 20 minutos que mais parecem 20 anos, apague o fogo e deixa esfriar um pouco. UM POUCO, só. Uns 5 a 10 minutos, não mais que isso. Daí resgate o teu combo balde de pipoca + flan de chocolate da geladeira. Já deve ter endurecido.

E derrama o flan de baunilha aí dentro, em cima do de chocolate. Vai ficar assim:

Agora você vai pegar essa quantidade medonha de leite, corante e sabe-se lá que outras espécies de aditivos cancerígenos bizarros e colocar pra repousar serenamente na sua geladeira. Pode esperar esfriar um pouco, antes, se você for um desses ecochatos mimimi que querem “poupar o planeta” e meu pau de óculos em Londres. Depois de um período que eu não sei determinar qual é – da primeira vez deixei resfriando por 5 horas, da última deixei por 2h30m, no máximo -, seu gigapudding estará QUASE pronto pra comer.

Sim, porque não dá pra comer assim, no balde de pipoca. Não tem graça. Você precisa ver a monstruosidade gelatinosa que seu esforço gerou, oras. É sua recompensa visual! Então pegue uma superfície AMPLA, que tenha ABAS, tipo um… péra que eu esqueci o nome daquela parada de mulher, calmaí que vou ao google.

……um REFRATÁRIO! Isso! Tipo um refratário. Coloque-o em cima do seu balde de pipoca e dê um jeito de virar essa gororoba. COM SORTE você não vai fazer merda (por via das dúvidas, realize a ação descrita aqui em cima da pia. Ser precavido nunca matou ninguém) .


Note que eu usei um prato. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

Se for preciso, dê umas porradas no balde de pipoca, pra ver se o gigapudding solta.

Pronto. Agora prepare-se pra passar uma semana comendo esse grude:

Será que eu devia avisar aos diabéticos pra não comer esse negócio? Nah. Se você tiver diabetes E se meter a ingerir essa quantidade medonha de produtos químicos misteriosos, ou vai virar um mutante, ou vai morrer. Em qualquer um dos casos, é uma besta e merece tal destino.

E se você acha que eu sou muito escroto por escrever com esse tom, saiba que podia ser pior: eu podia ter colocado no post a foto em que apareço só de cuecas, mexendo o flan de chocolate. Trauma pra vida, acredite!

Dos mecenas

O twitter é um lugar curioso. Poderíamos considerar que uma “ferramenta” de microblog, onde você recebe informações constantemente, vindas de outros membros da mesma rede social, fosse ajudar as pessoas a aprender algo novo, a receber novas informações, a sair dali falando menos merda, pra ser bem objetivo.

Logicamente, é o contrário que ocorre. É muito mais fácil propagar uma asneira do que desmenti-la. A ignorância corre pelo twitter feito fogo de palha. Chega a ser impressionante como as pessoas, preocupadas em falar, falar e falar – via de regra, sobre o que não conhecem – esquecem completamente que, se tu não domina o assunto, às vezes é interessante OUVIR o que alguém que domina tem a dizer. Nem que seja só pra gerar, na sua cabeça, uma nova série de argumentos contra aquele conhecimento que te foi apresentado, ouvir pode ser um exercício interessante.

A enxurrada de estultices da vez ocorreu hoje. O assunto era o fato de um projeto da Maria Bethânia ter recebido, do Ministério da Cultura, o aval para captar R$ 1,3 milhão.

Eu não costumo abordar assuntos “sérios” por aqui e sempre deixo claro que este não é um blog “informativo” ou coisa que o valha. Que tudo o que será encontrado nesta página é rabugice e divagação da minha parte, geralmente sem base alguma além do meu julgamento. São opiniões e – é um pleonasmo, mas direi assim mesmo – são pessoais. Este texto não se enquadra nessa categoria. Não são opiniões, são fatos. Não é algo retirado da minha cabeça, são dados de como funciona a lei do Mecenato, a grosso modo. Trabalhei com isso durante algum tempo, ajudando meu pai, que é um profundo conhecedor do assunto. Quando a Lei foi implementada, o Ministério da Cultura distribuiu uma cartilha elaborada pelo velho que explicava seu funcionamento. Então eu não sou o dono do assunto, mas digamos que sou filho do dono.

Pois bem. Antes que você comece a espumar e esbravejar contra o governo, saiba: o fato do MinC ter aprovado o projeto da Maria Bethânia não significa que entregaram para ela um cheque ao portador, no valor de um milhão e trezentos mil reais, com um tapinha na cabeça e um “Vê se não gasta tudo em bala!”. Ao aprovar um projeto, tudo o que o Ministério da Cultura faz é declarar que qualquer pessoa física ou jurídica que patrocinar o projeto terá renúncia fiscal no valor concedido.

Veja: o Ministério não entrega UM MÍSERO REAL para o proponente! Ele apenas diz que quem INVESTIR no projeto terá uma redução no IR.

Supunhetamos que, de repentelho, eu receba uma bolada da megasena e me torne um homem bonito, rico e joiado, a exemplo do nobre Falcão. Se eu pegasse um milhão e trezentos mil reais desse meu dinheiro e entregasse para o proponente do projeto da Maria Bethânia, poderia deduzir o valor do meu imposto de renda. Como trata-se de um projeto de audiovisual, a renúncia fiscal é de 100%. Cada centavo repassado será um centavo que eu não pagarei ao Leão. Esse patrocínio pode vir de apenas uma empresa, de apenas uma pessoa física, ou de várias empresas e várias pessoas físicas. Isso quer dizer que se a Maria Bethânia tiver 1.300.000,00 na conta dela, de bobeira, pode usar esse dinheiro para financiar um projeto cultural, em vez de entregá-lo pro governo.

- Logo, ela está pegando dinheiro do governo!

Calma lá. Esse é um salto lógico pouco inteligente. Em primeiro lugar, isto NÃO equivale a dizer que ela, ou qualquer outro patrocinador, pode investir em projetos culturais TODO o valor devido ao IR. Apenas uma porcentagem do quanto terá que pagar de Imposto de Renda pode ser investida, e é uma quantidade mínima, coisa de 5%, se tanto. Em segundo lugar, ela não está “pegando” o dinheiro. Está deixando de entregar de forma direta para o governo.

- Mas como assim, de forma direta?

Bom, ela não vai QUEIMAR esse dinheiro. Ela não vai fazer uma enorme fogueira com um milhão e trezentos mil reais, atear fogo, beber rum e cantar “COME ON BABY, LIGHT MY FIRE”. Ela vai usar esse dinheiro para comprar os itens e contratar os profissionais necessários para o projeto. E, ao fim, terá que fazer uma prestação de contas para o MinC, informando onde foi gasto CADA MÍSERO CENTAVO dessa grana. Logo, o governo vai saber de onde o dinheiro SAIU e para onde ele FOI. E poderá cobrar imposto de renda dos que tiverem recebido os pedaços desse caraminguá.

Além do mais, ao fim do projeto, é previsto na lei que parte do material produzido deve ser distribuído para escolas e bibliotecas públicas. Então você, que tá aí batendo no peito e falando da “educação”, que esse dinheiro deveria ir para a “educação”, saiba: O PRODUTO DO DINHEIRO VAI PARA A EDUCAÇÃO!

- Mas UM MILHÃO E TREZENTOS PARA UM BLOG? Tem mutreta aí!

Eu não sei se tem mutreta. O que eu sei é o seguinte: existem formulários de preenchimento obrigatório, caso você queira dar entrada num projeto no MinC. Um deles tem um trecho chamado Estratégias de Ação, onde você deve descrever etapa por etapa do que será executado. Então você diz quantos webdesigners serão contratados, e a que custo; que aparelhos serão utilizados para as filmagens dos vídeos, se serão comprados ou alugados, e por quanto vai sair cada um; qual o cachê dos participantes; qual o salário do gerente do projeto; quanto será gasto com publicidade; quanto dinheiro o captador vai levar, etc. Então, se o valor TOTAL do projeto é de R$ 1.300.000,00, é porque a somatória de TODOS os itens, incluindo impostos relativos a transações bancárias, pagamento de INSS de funcionários contratados, contas de telefone, etc, deu R$ 1.300.000,00. Não significa que ela vai pagar tudo isso num puta servidor e fim de conversa.

E você não leu errado: é permitido incluir, no seu projeto cultural, a parcela do captador. Ele é o sujeito que permite que sua ação cultural – seja ela uma exposição, um livro, um cd, uma revista, etc – vá adiante. É ele que vai negociar com empresas e pessoas físicas a respeito do seu patrocínio. Ele não é nada além de um vendedor: precisa convencer alguém que colocar dinheiro na sua idéia é uma boa idéia!

- E por que seria uma boa idéia?

Por uma razão muito simples: se a coca-cola, por exemplo, retira cinco milhões de reais do imposto de renda e investe isso em projetos do MinC, são 5.000.000,00 que invariavelmente seriam gastos, indo para PUBLICIDADE, em vez de serem “desperdiçados” com o governo. Ou seja, ela apóia algum evento – muitas vezes gratuito -, tem seu nome atrelado àquilo e isso gera publicidade positiva para a marca.

Querendo ou não, o fato é que os impostos que nós pagamos no Brasil raramente têm retorno visível. Se você pudesse optar entre dar o dinheiro do seu imposto de renda para um projeto cultural, e ao fim receber uma prestação de contas informando o que foi feito com sua grana, ou entregar para um governo que faz o dinheiro desaparecer misteriosamente e reaparecer em malas, cuecas e bolsas de governantes réprobos, o que você escolheria?

Pois é. Eu também.

Então você pode contratar alguém para captar os recursos, e esse sujeito vai receber 10% do valor do projeto, ou R$100.000,00, o que for mais baixo.

Não vou entrar no mérito do projeto e alegar aqui se é ou não é bacana que o Andrucha Waddington dirija os vídeos da Bethânia declamando poesias online, se isso é cultura ou se isso vale R$ 1,3 milhão. Não estou em posição de determinar o que é e o que não é cultura. Nem você. Nem os pareceristas do MinC estão. A Lei inclusive PROÍBE esse tipo de especulação. Se você quiser fazer um show da Pitty de graça, ou um do Fábio Jr., ou do Restart ou dos Móveis Coloniais de Acaju, pode fazer. Para a lei, TODOS eles são manifestantes da cultura, não interessa o que você pense.

O grande argumento “contra” o projeto da Bethânia é que ela, sendo consagrada, não precisa desse dinheiro. E eu repito: ela não vai EMBOLSAR a grana. É lógico que o cachê dela está previsto no custo, assim como está o pagamento de todos os profissionais envolvidos. E a Lei Rouanet está disponível para TODOS os brasileiros. Desde que você atenda as solicitações previstas, pode dar entrada nos seus projetos culturais, também. E, se tiver contatos que te permitam isso, pode captar recursos, também. A Bethânia tem muito mais facilidade para conseguir patrocínio pelo simples fato de ser uma figura pública. Por causa disso devemos impedi-la de manifestar o que é direito dela, como cidadã? Que espécie de recalque é esse?

Além do mais, o proponente do projeto, ANTES de ter sua solicitação avaliada por um parecerista, precisa levantar uma série de documentos que comprovem que ele tem conhecimento do assunto sobre o qual planeja tratar e que tem o nome limpo, logo, age de boa-fé. Trocando em miúdos, o proponente prova que é HONESTO.

Se existe alguma injustiça mercadológica nessa questão – e existe, como acusa esta matéria no site de economia do IG -, não é privando a Maria Bethânia de dar entrada em um projeto e levá-lo a cabo, após ser aprovado pelos pareceristas do MinC, que vamos resolver a questão. Não se resolve uma injustiça com outra.

Existem muito mais coisas para se falar sobre o assunto, mas o texto já está muito extenso. Deixo aqui, para quem se interessar, um link para o site do Ministério da Cultura, para um texto no blog do Fábio Yabu, que trata da mesma questão, e para este “twit” da @letrapreta, que foi das poucas a demonstrar algum bom-senso quanto a este assunto.

[ATUALIZAÇÃO] A moça da @letrapreta, Renata Corrêa, fez um texto sobre o assunto que também merece ser lido.

Dos golpes de estado

Admito que nunca entendi direito o que é essa tal “rebeldia social”. No que consiste, exatamente, o “desprezo pelos fundamentos da sociedade? Não conseguia vislumbrar esse fantasma que arrasta correntes e caminha a passos pesados nos sótãos de reacionários encarniçados, sejam eles colunistas da veja ou membros do Rotary Club, ou que são tão carinhosamente afagados e idolatrados por quem “prega a rebeldia”, como os membros do Rage Against The Machine.

Existem exemplos. É claro que existem exemplos. Mas é difícil fiar-se neles, porque são sempre bastante questionáveis e, por vezes, demasiadamente vagos. Os franceses, para cair no lugar-comum logo de uma vez, deixaram muito claro o que é a “revolta social” ao levar o rei para dar uma volta pela praça, em 1793, e, prometendo-lhe um novo corte de cabelo, errarem ligeiramente a mira e cortarem-lhe a cabeça. Além do mais, se esse exemplo valia em 1793, dificilmente vale agora. Decapitar a rainha da Inglaterra para causar alguma mudança na sociedade inglesa seria o mesmo que matar a bicudas o seu cachorro na tentativa de usurpar o poder dentro da sua casa. Os reis, atualmente, são meramente ilustrativos. E, embora ainda sejam caros (e isso, sim, os torna bastante questionáveis), valem como atração turística. Não é barato manter a família real inglesa, como não deve ter sido barato construir a ponte Golden Gate. Nem por isso vamos dinamitá-la ou declarar, num arroubo de rebeldia, que não se construam mais pontes.

O levante popular no Egito também ilustra mal a tal da “revolta social”. A irritação das pessoas não está voltada exatamente para a sociedade e suas estruturas, mas para a figura de um presidente que preside de forma meio vitalícia – e, em menor (ou maior?) escala, para o fato de não poderem acessar o facebook e trocar mensagens sobre amenidades via twitter. Ainda assim a solução é simples: manda-se o homem embora, devolve-se às pessoas o direito de eleger quem deve enganá-las e pronto, temos a fúria da hoste subitamente aplacada. Cada um de volta a seus afazeres, circulando, não há mais nada para ver aqui. Fim.

Essa dúvida, portanto, me atormentava desde a adolescência. Desde que comecei a ouvir os mais velhos usando termos como “rebeldia” e “revolta”, e a ligá-los a sociedade, como um todo, ou a grupos sociais, em particular. Não vejo como tomar alguma atitude – ainda que drástica – em prol do que se considera apenas justo pode ser considerado “revolta”, já que é uma palavra vista de modo claramente negativo, enquanto a busca pela justiça, em si, me parece uma atitude nobre.

Mas entendi recentemente o que é a “revolta popular”, como se manifesta o tal “desrespeito pelas estruturas sociais”. Mais especificamente, quando me mudei para o Rio de Janeiro. Aqui, moro em um apartamento cujo banheiro tem uma ampla janela. Não um basculante, mas uma janela enorme, voltada para a frente do prédio, que fornece aos moradores dos prédios vizinhos a vista completa do aposento. Não bastasse esse aspecto curioso, existe outro: é sob esta janela, que mantenho escancarada, que se localiza a privada.

E é assim, afrontando a sociedade de laranjeiras, com seu orgulho de “moradores da zona sul”, com seus veículos caros, com seus aluguéis exorbitantes e seus apartamentos bem-localizados, que uso o banheiro. Encarando-os, enquanto me observam. Hoje posso dizer, com convicção, que cago para a sociedade.

Rebeldia social é isso.

Precisamos falar sobre esse livro

Passei o natal do ano passado aqui no Rio de Janeiro, com meu tio João Carlos, irmão mais novo do meu pai. Eu e meu tio não tivemos muito contato durante minha infância e adolescência – acho que nos vimos umas quatro vezes, se tanto -, mas, depois de adulto, nas poucas vezes em que nos encontramos, sempre tivemos muito assunto para conversar, sendo meu tio um leitor ávido, que sempre tem um livro a recomendar e vários para oferecer, como empréstimo ou presente. Foi ele quem me deu, em 2002, o que considero meu livro preferido, dentre todos os que já li.

De presente de natal ele me deu Precisamos Falar Sobre o Kevin, da Lionel Shriver, com o simpático comentário “um livro sobre um maluco, pra você se identificar”.

Bom, não me identifiquei com o livro, mas terminei de lê-lo hoje e ele merece ser comentado. A princípio, torci o nariz ligeiramente para o volume, e não foi por causa da foto inquietante do garoto usando uma máscara de lobo, lânguido, presente na capa. A orelha do livro (sim, sempre a orelha) descrevia a personagem central como uma “executiva bem-sucedida”, e considero que “executivo bem-sucedido” é um termo muito “novela da globo” para uma história que se pretende bem-embasada. Me aventurei pelas primeiras páginas, de todo modo.

O livro é feito em missivas. São longas e longas cartas que a personagem principal, Eva, escreve para seu marido ausente, Franklin, sobre o filho adolescente, cujo grande feito na vida foi entrar no colégio armado e fazer uma sessão Columbine com alguns colegas. No começo, acredito que durante uns 3 ou 4 capítulos – o que pode bem levar umas 40 ou 50 páginas, mais ou menos – Lionel Shriver tem pouco sucesso para andar com a história. Num esforço para desenvolver bem o relacionamento entre Eva e Franklin antes do nascimento do pequeno profeta do apocalipse que os dois haviam de gerar, assim como apresentar a situação atual de Eva, ostracizada após a descoberta do hobby socialmente mal-visto do filho, a autora dá diversas voltas sobre o mesmo ponto, por vezes transformando Eva numa mulherzinha particularmente detalhista e pretensiosa. Ela, em certo momento, descreve um jantar que preparou, e é uma informação que não têm, para o leitor, a menor relevância além do fato de dizer de forma meio insistente o que o resto do livro deixa claro de maneira menos antipática: estamos lidando com uma mulher muito fresca. Mas dou o braço a torcer: a faceta de “executiva bem-sucedida” de Eva fica mais palatável, saindo do campo da “vaguidão específica” e transformando-se em algo mais concreto e realista.

A partir do momento em que o garoto nasce, porém, a história começa a caminhar a passos mais e mais acelerados, e da metade para o final o livro passa sem que se perceba. Os momentos em que Eva e Kevin dialogam, já na prisão juvenil em que o garoto se encontra, são especialmente interessantes. Há uma tensão entre os dois – narrada sob a ótica da mãe, é claro, mas sem demonizar ou vitimizar qualquer um dos lados do embate – que requer bastante competência para ser construída e pode fazer muita gente que acha que tem “problema com os pais” se remexer na cadeira, inquieto.

Shriver foge do cliché de apontar um “abismo” entre a geração de Kevin e a de Eva e Franklin, deixando a grande discussão do livro a cargo da velha dúvida: o que molda o caráter de uma pessoa? O que transforma Kevin naquilo que ele é? Fugindo dos bodes expiatórios que o senso-comum tanto gosta de apontar (videogames, filmes violentos, rock, drogas, escolha o seu demônio), a autora levanta a possibilidade da maldade ser, como a facilidade para a música ou a aptidão para os esportes, um dom inato, sem, entretanto, eximir os pais de sua parcela de culpa em seja lá que tipo de sociopata eles geraram. E, apesar de sua crueza ao lidar com o tema, no capítulo final a autora tem para com a história uma indulgência que eu, sinceramente, considerei desnecessária.

A tradução (por conta de Beth Vieira e Vera Ribeiro) dá algumas derrapadas, como ao insistir no termo “bazófia” (tradução de mockery, acredito), ao falhar com algumas interrogações ou ao tentar trazer para o português certas expressões que, se não são inacessíveis em sentido, não podem ser usadas com o mesmo tom de voz e definitivamente não têm o mesmo impacto em uma conversa em pt-br como teriam num diálogo em inglês. São calombos insulúveis, no entanto, não se pode crucificá-las por eles.

E, apesar dessas pequenas falhas, o livro merece ser lido. Dei a ele 4 estrelas, de 5, no Skoob. Se não pelo estilo simples da autora, ao menos pela despretensão de trazer à baila uma questão importante, sem contudo tomar para si o árduo dever de respondê-la. Da mesma maneira que os videogames, os filmes violentos e a música pop não são os causadores da violência entre adolescentes, não é uma obra de ficção que tem a obrigação de solucioná-la. Se tentasse, a exemplo de Eva Katchadourian, acabaria soando pretensiosa.

E tem um filme sendo feito, com base no livro, previsto para sair em novembro deste ano. A mulher escalada para interpretar Eva e o guri que vai interpretar o Kevin parecem ter inspirado Lionel Shriver a detalhar a aparência física dos dois personagens, tamanha a semelhança. Mas o john C. Reilly como Franklin… aí não deu.