Arquivos mensais para July, 2011

Das desculpas

Nossa postura diante da morte é ignorá-la. O máximo possível. Até o limite do aceitável. Agimos diante da indesejável como se a própria menção da verdade de que podemos morrer a qualquer momento transformasse a inevitabilidade distante em uma possibilidade palpável. Mencioná-la é atraí-la. A morte é o Besouro Suco.

Venho notando isso de dois anos pra cá. Sempre que menciono que minha irmã morreu, geralmente respondendo a alguma pergunta relacionada a ela, recebo, como resposta, um pedido de desculpas.

Interpreto esse “Ah, desculpe” como um “Ah, desculpe-me por te fazer lembrar desse assunto desagradável”. Porque na verdade eu nunca penso nisso, no fato de que minha irmã está morta. Não é como se eu me lembrasse, todos os dias, assim que acordo, do fato de que não, não posso ligar pra Janaína. Não é como se, depois de sonhar com ela, e logo ao acordar, eu passasse alguns milésimos de segundo pensando “Ei, a Jana ia gostar de saber desse sonho, vou ligar pra ela e…OHWAIT”. Não, eu nunca me peguei tentando lembrar do dia em que a Janaína e a Fernanda se conheceram, por um breve instante, só pra me lembrar que na verdade elas não se conheceram, e não vão se conhecer nunca, porque quando uma chegou a outra já tinha ido. Não pense você que eu sinto falta dos e-mails que ela mandava, dos recados que deixava no orkut e que fico triste ao perceber que o facebook tem um campo SISTER, que é o lugar dela, mas que ela nunca vai ocupar. Não, amigo, eu quase nunca lembro da Janaína, e nunca, nunca me peguei pensando - de forma surpreendentemente mórbida - em como será que está o cadáver dela naquela sepultura, próximo aos restos do meu avô, se já é apenas um esqueletinho de peruca, e como deve estar hilário, e em como ela iria rir se eu comentasse isso com ela. E eu não sinto, todo maldito dia, uma saudade que não tem fim da risada dela, que eu QUASE consigo ouvir, mas não consigo, ao mesmo tempo, e minha vida agora nem é essa sucessão de retornos bruscos à realidade, e eu não vejo, todos os dias, alguma guria que me lembra ela, e as irmãs da Fernanda também não me trazem a Janaína à memória, e eu não vivo me perguntando o que ela acharia da minha vida agora, da minha presença no Rio, e se ela já teria vindo me ver, e como a gente se divertiria quando eu contasse pra ela dos ratos e tudo mais, e quantas coisas constrangedoras da minha infância ela ia contar pra Fernanda, e eu não me lembro, com pesar, que nós um dia marcamos de ficar bêbados juntos, mas nunca ficamos, porque eu praticamente não bebia naquela época.

Não, eu não me lembro da Janaína quase nunca, tem razão, foi apenas você surgir, com o gancho para esse assunto funesto, que ela me veio à mente. Que vergonha, meu amigo, que vergonha. Mas deixe pra lá, está perdoado, que essas coisas acontecem. Só não faça de novo, por favor, e vamos mudar de assunto e falar de coisas mais felizes. Que importância tem uma irmã morta, afinal?

Quanto aos outros

O problema não é só a maioria das pessoas pautarem suas ações baseando-se num pressuposto do que vai ser o julgamento dos outros, até porque, de acordo com muitos, fugir dessa regra é impossível. Caímos naquela questão do homem ser uma criatura social e, assim sendo, não conseguir nunca se isolar 100% de seus pares. O desejo de isolamento excessivo, inclusive, conforme o idealizado (e realizado) por Christopher McCandless - para citar apenas um, dentre vários exemplos - é freqüentemente tratado não como a busca da solidão e da própria companhia, mas como uma reação aos outros. Falando de forma mais clara, se alguém busca uma vida de isolamento, é menos pelo desejo de estar sozinho do que pela vontade de sair de perto das outras pessoas. Simplificando ainda mais: no fim das contas, as outras pessoas sempre vão achar que suas ações dizem respeito a elas, e não a você.

Repare. Perceba. Nada do que você faz, de acordo com os outros, é legitimamente um desejo seu, relacionado apenas com suas idéias e seus conceitos e os princípios que pautam sua vida. É sempre, de alguma maneira subliminar, uma reação ou uma ofensa ou um elogio ou uma referência ou uma resposta de alguma natureza aos outros. São sempre os outros, nunca é você. Você faz X por querer causar em Y uma reação Z. Não, você nunca faz X porque X é bacana para você e fim. Isso não é motivação o suficiente. Que espécie de pessoa faz as coisas para si e caga para as reações alheias? Quem é este pária? Essa pessoa não existe. E dizem mais: se você não assume que, na verdade, todas as suas ações são fruto do desejo de causar em outrem qualquer tipo de sentimento, ou de responder ao sentimento que alguém te causou, enfim, se insiste que faz as coisas apenas por si, está mascarando algo, baseado no medo do que os outros vão pensar. Novamente, os outros. Sempre os outros.

É difícil explicar para essas pessoas que os outros, na verdade, têm pouca ou nenhuma influência no que você faz da sua vida, e que ignorá-los não é uma tentativa de arrancar deles qualquer tipo de reação, ou causar neles qualquer tipo de sentimento, é apenas o desejo de que os outros, com suas outras coisas, fiquem lá, em seus outros lugares, enquanto você, com as suas coisas - que independem dos outros -, não deseja nada além de distância dos outros, paz, quietude, tranqüilidade e silêncio. E é difícil explicar porque elas são incapazes de entender. É como tentar explicar para um cego de nascença o conceito de cor: não faz parte do universo dele, ele nunca vai compreender. E se esse cego for particularmente obtuso - como são, vulgarmente, as pessoas - vai chegar à conclusão lógica a que chegam os outros, em sua maioria, afrontados com o argumento de que não, sua postura, suas idéias, suas recusas e suas ações não têm relação alguma com eles, apenas com você: “Eu não entendo isso, logo, isso não existe”. Esta sentença pode - e freqüentemente vai - terminar em um ad hominem que diminua sua capacidade intelectual. Apenas te classificando como um louco ou uma besta eles podem dormir tranqüilos. “Se um homem inteligente tem uma postura que é diferente da minha”, pensarão os outros, “talvez o burro seja eu”. É sobre eles, lembre-se. Nunca sobre você.

E isso não é tudo o que tenho a dizer sobre isso, mas é só o que quero dizer agora.

Dos bons resultados dos sentimentos ruins

O que te faz gostar de uma determinada melodia? Já parou pra pensar nisso? Você sabe? Se souber, sorte sua, porque eu não faço a mais remota idéia, de verdade. Tem algumas que logo de cara me pegam pelo colarinho e tomam toda minha atenção de forma positiva. Pode ser por uma guitarra mais destemida, pode ser uma bateria raivosa, pode ser um baixo bem marcado, uma base de metais memorável, ou até feliz mesmo.

Existem as que, na surdina, escapam pra dentro do meu córtex e, dispostas a fixar residência, passam a se repetir uma vez após a outra, impedindo qualquer outro pensamento de tomar meu lobo frontal. Essas geralmente são aquelas músicas ruins. E meu cérebro gosta delas, gosta de verdade. De forma meio masoquista, mas gosta. EU odeio. ELE gosta. Somos duas entidades separadas, nesse quesito, e se o lado consciente da minha massa cinzenta curte Cake e The Killers, a parte involuntária, embora ceda espaço a essas duas bandas, dentre várias outras igualmente espetaculares, não perde a oportunidade de tocar um Braga Boys ou um Molejão cabuloso, dentre várias outras porcarias.

Mas, se as melodias são um mistério, as letras não são. Sei exatamente o que me prende numa letra: uma mão bem cheia de amargura. É isso mesmo, eu disse. Curto ver uma amargura bem destilada, não interessa o “estilo” no qual ela venha embrulhada. Pode ser em algo raivoso e rápido, como “Eu Não Gosto de Ninguém”, do Matanza, mas também pode ser em um sertanejão de seresta, tipo “Vá Pro Inferno Com Seu Amor”. Vai desde uma bandinha indie inglesa, tal qual Radiohead e sua “No Surprises”, até Johnny Cash com “Cry, Cry, Cry” ou “Folson Prison Blues”.

Não chega, entretanto, a descer ao (des)nível das bandas emo. Se tem uma coisa que aqueles moleques de franjinha com chapinha não sabem fazer é transcrever suas angústias da forma correta, salvo raríssimas exceções. E transcrever sentimentos negativos corretamente é o que diferencia uma bichinha choraminguenta de um sujeito que, movido pela raiva, pode arrancar sua cabeça com os dentes. É uma linha difícil de vislumbrar, muitos confundem as duas coisas, mas a diferença existe.

Você pegue, por exemplo, Roberto Carlos com “Do Fundo do Meu Coração” (”Mas basta agora o que você me fez/Acabe com essa droga de uma vez/Não volte nunca mais pra mim”). Avalie a letra. Você consegue imaginar o sujeito segurando a mulher pelo colarinho, ou, ao fim da música, batendo o telefone raivosamente, quiçá arremessando-o na parede, antes de ir afogar as mágoas com uma(s) dose(s) de uísque e aquela dor-de-cotovelo inevitável, pela qual até os mais destemidos dentre nós hão de passar? Eu consigo. ISSO é amargura, amigo.

Se, do contrário, tudo o que você consegue imaginar é um barbudo prostrado, se arrastando feito um saco de lixo atrás da mulher de quem ele gosta, implorando por migalhas de afeto, esperando qualquer tipo de atenção em retorno, colocando a própria dignidade em jogo… então isso não é amargura, é só viadagem.

(Tá incompleto, mas vai assim mesmo. Esses três meses de silêncio por aqui estão me deixando angustiado.)