A roupa do rei

Sabe aquelas comunidades do orkut sobre gente que lê os recados alheios? Então.

Eu não faço isso, até porque nêgo diz muita merda nessas páginas de recados e eu não tenho paciência com bobagens. Vira e mexe vou deixar mensagem pra algum amigo e acabo retrucando alguma asneira que outra pessoa disse, simplesmente porque não consigo ficar quieto ao ler um lusitanismo daqueles.

Pense numa pessoa agradável!

Mas eu gosto de abrir as páginas de amigos dos meus conhecidos e ir verificando, meio que aleatoriamente, os perfis das pessoas presentes ali. Depois verifico os perfis dos amigos dos amigos e por aí vai… bem coisa de quem não tem o que fazer, eu sei.

Dia desses me deparei com um fato intrigante. Cheguei até um sujeito que sofre do que batizei de Síndrome de Paulo Coelho (o Daniel Lima certa vez chamou característica semelhante de “Perdigotos Filosóficos”, que é um ótimo nome, mas não sei se poderia se encaixar nesse caso): o sujeito escreve (aparentemente) muito bonito, mas o fato é que, na verdade, não diz coisa alguma.

Pra algum leitor desavisado, tudo aquilo ali na descrição dele soa altamente poético, tão carregado de subjetividade, de uma profundidade tal, que a interpretação fica a critério de quem lê. Coisa fina mesmo. Já para qualquer um que tenha o mínimo conhecimento da língua portuguesa e saiba o significado das palavras com mais de 4 sílabas que ele tanto gosta de usar, fica claro que o texto é praticamente uma versão “intimista” do Gerador de Lero-Lero: é bonito pra caralho, mas sofre de uma total carência de significado.

Quero dizer, eu não sou um gênio, mas também não sou um retardado. Se leio três orações e não consigo entender patavina, convenhamos, é porque não tem nada escrito ali. São palavras aleatórias alinhadas na mesma sentença, coisa fácil de fazer, já que “as improbabilidades estéticas, exauridas de infindável reflexividade e absortas por estremecimentos fugazes, então alimentam a extrapolação minimalista dos dissabores destrutivos”.

Viu? O próprio título do blog, Utopia Dilucular, tá aí pra provar que qualquer seqüência de duas palavras complexas pode formar uma expressão de suposto cunho poético. Embora o nome desse blog seja bonito pra caralho, foi escolhido ao acaso, enquanto eu folheava um dicionário.

Fazer um texto “bonito” é simples assim.

De todo modo, cada um faz uso das armas que quiser pra comer as menininhas. Não sou eu aquele que pagava de intelectual? Pois então.

O que mais me surpreendeu, porém, não foi o belo-embora-vazio português do cara, de modo algum. Já li uns relatórios, quando ajudava meu pai em um esquema do Fome Zero, que faziam essa tática dele parecer amadorismo barato. O que circula de coisa complexa-porém-vazia no governo é de fazer cair o queixo até dos mais fleumáticos. O que realmente me espantou foram os depoimentos sobre o sujeito: TODOS estão escritos em português semelhante (e vejam, estou ignorando aqui o alto teor de pederastia contido em vários deles). TODOS!

Daí me surge a grande questão: afinal de contas, esse povo REALMENTE se entende? Quero dizer, eles conseguem compreender as idéias (???) contidas nas sopas de palavras mal-arranjadas pelos outros?

Ou é um relacionamento baseado pura e simplesmente na lei da roupa do rei? Tipo “veja, não entendo PORRA NENHUMA do que você escreve, mas prefiro exaltar seus textos ininteligíveis a admitir uma suposta ignorância da minha parte, então BRAVO! BRAVO!”.

Procurei uma maneira de entrar em contato com ele, porque queria dizer “cara, eu não entendo uma vírgula do que você escreve! Dá pra me explicar o que você quer dizer com isso aqui, isso aqui e isso aqui?”. Menos por qualquer tipo de implicância ou revanchismo do que pela curiosidade legítima de saber se ele realmente tem noção das coisas que diz.

Mas não havia nenhuma forma de falar com ele.
O que é uma pena: essa, sim, seria uma conversa interessante!

5 Responses to “A roupa do rei”


  1. 1 Manuela

    MEDO O.O

  2. 2 Pedro

    Medo de quê?

  3. 3 Manuela

    Medo desse cara aí. Eu que não teria coragem de conversar com ele. Aposto que ele deve hipnotizar ou algo do gênero os amigos dele pra todos falarem assim.

  4. 4 Madame

    não pude acessar o link da tal comunidade. Por acaso não seria a minha? Eu criei a comunidade “Eu fuço TEUS scraps” pra acabar com aipocrisia desse orCU. É hábito meu e dos meus amigos dar uma lida nos 3, 4 scraps que antecedem os nossos. E nesse costume bobo descobrimos coisas comprometedoras!

  5. 5 Pedro

    Pior que nem foi a sua, embora ela tenha sido a referência que eu tinha em mente quando fui procurar pela comunidade!

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