Uma das boas experiências da vida é entrar numa loja de CDs ou abrir algum programa de p2p - solução bem mais barata que a primeira, aliás - disposto a procurar álbuns de estréia de bandas recém lançadas. Experiência melhor ainda é quando essa garimpagem rende bons frutos. Mas apreciar o primeiro CD uma banda não é suficiente para se dizer fã do trabalho dos caras, em absoluto. Embora o álbum de estréia possa criar aquele choque inicial, aquela sensação bacana de “Opa! Isso é música, e da boa!”, ele, assim como a primeira impressão - ao contrário do que dizem -, não é o que fica.
O primeiro CD se torna, cada vez mais, apenas uma apresentação fugaz, visto que o mercado fonográfico - em especial o inglês - encontra uma nova “salvação do rock” a cada dois meses. Não sei o que as pessoas pensam que houve com o rock, para que seja necessário salvá-lo, mas enfim. Não é sobre isso que esse texto fala.
O fato é que o primeiro CD vêm apenas para preparar o público para a verdadeira chegada do artista. É como ser abordado por um desconhecido: o fato dele demonstrar carisma e ser simpático logo de cara é importante, mas é o teor da conversa que realmente determina se você irá ou não ficar ali para ouvi-lo.
Não é necessário que o segundo lançamento de uma banda seja completamente diferente do primeiro, mas é imprescindível que seja, no mínimo, tão bom quanto. E é triste quando um artista cujo primeiro trabalho é extremamente promissor te decepciona com o segundo disco.
O Franz Ferdinand, por exemplo, escolheu muito bem o nome do segundo álbum: You Could Have It So Much Better. Faz jus à sensação que eu tive ao ouvir as músicas. Salvo uma ou outra (e dentre elas devo mencionar You’re The Reason I’m Leaving), o CD simplesmente não presta. Do You Want To é enjoativa desde a primeira vez que se ouve, nem se comparando à música de trabalho anterior, The Dark Of The Matinée. O engraçado é notar que não ocorreu nenhuma mudança sensível nos arranjos, nas letras, em nada. Teoricamente o segundo CD está no mesmo patamar do primeiro.
Mas apenas teoricamente. Não tem a mesma fluidez, o mesmo ânimo, o mesmo nada. É igual, mas diferente. E diferente pra pior, o que é uma pena.
Alguns músicos, entretanto, mudam sensivelmente de um álbum para o outro. Caso dos Strokes. Julian Casablancas tinha um ar completamente desinteressado nas músicas do sensacional Is This It?, de 2001. O ouvinte sentia por parte do cantor uma posição de quem não está dando muita importância a tudo aquilo, como se cantar nos Strokes fosse só um passatempo, coisa pequena. Apesar disso, o som “borrado” das músicas, somado às composições simples e à roupagem antiquada dos arranjos, atraiu uma grande leva de fãs, que passou a mimetizar o ar blasé de Casablancas e a ver nos Strokes “a salvação do rock”.
Isso não significava, claro, que os Strokes já estavam firmados no cenário musical. Toda aquela qualidade do primeiro CD poderia muito bem ter sido um acidente de percurso. Havia uma expectativa pelo novo álbum, no qual a banda realmente mostraria a que veio e se era capaz de manter o ótimo ritmo estabelecido no primeiro. E Room On Fire não decepcionou. Nem Casablancas, que veio muito mais sincero nesse segundo CD. O vocalista parece ter notado quão divertido é seu trabalho e deixa entrever em algumas faixas certo prazer no que faz. O terceiro CD, por outro lado, parece ter dado uma caída. Enquanto Is This It? e Room On Fire são dançantes do começo ao fim, First Impressions Of Earth é mais paradão. Com exceção de algumas faixas, como Heart In A Cage, Juicebox e Electricityscape, o tempo das músicas foi consideravelmente reduzido. Ask Me Anything, que vem bem no meio do CD, deveria ser a última faixa, pois chega a dar sono. Ao mesmo tempo, a voz de Julian Casablancas soa clara pela primeira vez. O costumeiro “chiado” mantido nos CDs anteriores sobre a voz do vocalista - mais no primeiro do que no segundo, diga-se de passagem - parece ter sido abolido. Uma pena, pois era uma característica interessante.
Ainda assim, First Impressions Of Earth não está aquém de seus antecessores, só não atinge os picos de qualidade de Room On Fire.
Mas o que me moveu a escrever tudo isso, finalmente, foi Keane.
Antes de começar a falar da banda, devo alertar que estou ciente de toda a conversa sobre Keane ser para Coldplay o que o Jorge Vercilo é para o Djavan, mas isso não me incomoda nem diminui meu interesse pela banda. Sendo bem sincero, como cantor prefiro Tom Chaplin a Chris Martin. Sendo simples questão de gosto, não vou entrar no mérito de comparar os dois (até porque ambos me agradam, no fim das contas).
Agora vamos ao que interessa: venho acompanhando Keane desde que ouvi Somewhere Only We Know - sua primeira música de trabalho divulgada mundialmente, se não me engano. Procurei ouvir todo o Hopes and Fears e, embora algumas canções tenham prendido minha atenção mais que outras, o “conjunto da obra” me agradou sobremaneira.
Ainda assim, achei tudo muito tímido. Como se a banda estivesse se contendo ou agindo de forma pouco chamativa intencionalmente, como se houvesse, por trás do lançamento, uma certa descrença - até dos próprios músicos - sobre se o projeto iria “vingar” ou não.
Felizmente vingou e o segundo CD, Under The Iron Sea, veio. E é muito mais ousado, perceptivelmente mais agressivo. É o álbum de uma banda que acredita no próprio trabalho e se dá o direito de ousar, mudando inclusive aspectos elogiados pelos fãs, introduzindo instrumentos inesperados, sem receio algum de perder sua individualidade. Também as letras refletem um amadurecimento dos músicos. Enquanto Somewhere Only We Know é uma canção essencialmente ingênua, Is It Any Wonder? mostra uma boa dose de autoconfiança.
Keane, com esse segundo álbum, provou que veio pra ficar e tem capacidade para tanto. Não importa se tocando com ou sem sintetizadores, utilizando piano, teclado ou guitarra como instrumento principal: o som é competente, as letras são bem-feitas e a voz de Tom Chaplin fecha os arranjos com chave de ouro.

Fantástico! Nós escutamos exatamente os mesmos Cds. Temos opiniões muito diferente sobre todos eles, mas não é isso que vim falar.
A sua análise de todos estes discos é extremamente coerente com quem você é. Não vou entrar na teoria chata de que você criar a realidade que sua mente quer criar, que nada é real, é apenas a projeção que você faz daquilo, etc, etc…
Mas, gostar do Under the Iron Sea mais do que qualquer outro disco citado no post, me faz pensar o quão dark, alone, fucked up, você é!
uahuahuahua
I’m kidding.
Mas é um disco muito triste, escrito por alguém que está muito infeliz!
Muit bom!
Hahahaha
Mas não é meu álbum favorito desses que eu citei.
Quero dizer, no momento é, mas provavelmente vai ser desbancado dessa posição em pouco tempo, por alguma outra novidade que me encha os ouvidos.