A visão além do alcance

Um assunto que eu abordo nesse blog desde seu início, em priscas eras (eita!!), é a falta de visão (pra não dizer burrice) causada nos roqueiros por seu preconceito babaca contra estilos musicais, digamos, “mais populares“.

(Antes que você presuma que vou destrinchar argumentos contra posição tão impensada, devo advertir que minha intenção passa longe disso. Prossiga na leitura, portanto.)

Eu gosto de punk rock. Não de QUALQUER punk rock, só de algumas músicas ou bandas. Mas gosto da idéia por trás do punk rock, aquela aura de fúria irracional, de revolta, de chutar o balde, amaldiçoar o tecido da realidade, xingar todo mundo, bater na mãe com um pé-de-cabra à mesa de natal pra mostrar seu desprezo por essas instituições ultrapassadas, etc, etc, etc. Todo aquele lance de rebelde sem causa e coisa e tal. Acho engraçadíssimo.

O que me chateia é que as (supostas) bandas de punk rock brasileiras atualmente só toquem mela-cuequices e assemelhados. Tipo CPM 22 e Detonautas. Os caras têm tudo pra fazer punk roque dos bons, incômodo e barulhento, do tipo que te atinge como um murrão servido na boca do estômago e te faz pensar “CARALHO, PORRA, PUTAQUEOPARIU!” e mais meia-dúzia de palavrões que demonstrem como aquele som batendo na tua orelha é fodástico.

Só que a dor-de-ouvido causada por eles se dá por outras razões, a principal sendo o fato das letras serem ruins pra cacete. Um lance meio analfabeto-orgulhoso, manja? Tipo o que o Charlie Brown Jr. faz, mas sem toda a rebeldia hipócrita de quem é contra os skatistas, o capitalismo e a via lática, mas curte o sistema solar e aparece em propaganda da coca-cola.

Os caras escrevem coisas xaropes de tão meladas, como “são coisas que somente o tempo irá curar se for para nunca mais te ver chorar” ou “Penso no que faço, no que fiz e no que vou fazer, hoje o seu retrato só me mostra o que quero esquecer“. E, apesar de toda essa postura EMO da banda, os fãs ainda se sentem no direito de cair matando em cima dos cantores sertanejos.

E aí entramos no ponto que eu queria chegar.

O lance é que muitas músicas sertanejas (e falo de música sertaneja SÉRIA, não desse country americano chupinhado que temos aqui no brasil atualmente) são muito mais punk roque que todos os punk roques de qualquer dessas bandinhas choronas. Duas, em particular, chamam minha atenção: Vá Pro Inferno Com Seu Amor e Na Hora do Adeus.

São canções concebidas para serem tocadas em violas caipira, mas que ficariam perfeitas mesmo sob um riff pesado de guitarra, acompanhado por uma bateria violenta e um vocalista gritante. Alguma coisa assim, muito mais visceral, que transmitisse todo o rancor da letra.

Se tivesse pensado nisso dez ou doze anos antes, teria aprendido a tocar algum instrumento só pra criar uma banda com essa proposta: pegar sambas, músicas sertanejas, até mesmo boleros raivosos, e transformar tudo em punk roque.

Ia ser um fracasso, mas seria engraçado.

6 Responses to “A visão além do alcance”


  1. 1 o bastos

    como sou engenheiro de obra feita, eu vivo falando pra pessoas que tocam instrumentos que deveríamos formar uma banda pra dar roupagem punk a músicas muito velhas, mas MUITO velhas mesmo, inclusive as modas de viola centenárias que tem por aí…
    o problema é que eu não sei tocar nada, então nem posso dar uma de Weird Al Yankovich e todos pensam que seria um fracasso também.

  2. 2 Ney

    e desde quando precisa saber tocar algum instrumento pra montar uma banda punk?
    aliás, não me leve a mal, mas, a julgar pelos seus dois exemplos, acho que essa sua banda ia estar mais pra corno roque do que pra punk roque.

  3. 3 Koelho

    Isso me faz pensar em Gramofocas, aí de Brasília. Mas de um modo bom!

  4. 4 Umino

    Talvez funcionasse. Se a Sandy cantou Fascinação e ficou legal, vale quase tudo…

  5. 5 Golob

    Wow…
    Achei do caralho a tua idéia, cara!

  6. 6 mi

    Você ainda pode tentar ser vocalista do projeto, nem precisa saber cantar pra fazer punqueroque!

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