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Das definições

Eu poderia colar aqui uma letra do Matanza. Já fiz isso. Não quero ser repetitivo, vulgarmente direto. Serei elegante, porém breve, indo com um trecho de Lisbon Revisited, do Fernando Pessoa.

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

E ficamos com isso.

An Irish Airman Foresees His Death

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.

Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

— William Butler Yeats, 1919

Das certezas que não deveríamos ter

Flagro-me envolto com determinismos. Com a certeza inabalável de que existe apenas uma maneira de se dizer as coisas. Munido desta convicção, passo a elaborar mentalmente um texto para colocar aqui.

Grande coisa! A elaboração metódica e mental de contos, histórias, comentários, observações, críticas, analogias, dissertações, ensaios e até - veja só! - poemas é um vício que tenho há quase dez anos, desde que escrever tornou-se uma rotina (considerando a baixíssima freqüência com que toda essa produção pseudo-literária de fato escoa para esta inamistosa tela em branco, o termo “rotina” aqui é utilizado com certa licença poética). O problema não foi dar-me conta do processo criativo em ebulição no meu cérebro em plena três e meia da madrugada, mas, conforme já disse, sentenciar que a exposição de idéias só pode ser realizada corretamente de uma maneira.

Porque, note, não me refiro apenas à língua portuguesa. Essa teoria, que lapidei descuidadamente enquanto folheava livros do Sabino, abrange todos os idiomas e dialetos, falados e escritos. Tanto os mortos quanto os vivos. Os já extintos, e os que ainda não fizeram vibrar cordas vocais, tampouco chegaram a ouvidos de gente. Não bastasse o determinismo ser um dos piores venenos que pode vitimar a mente de quem se propõe a escrever qualquer coisa que fuja do rigor científico, surge com este conceito: um martelo que, batido, simplifica e reduz, a uma fórmula praticamente matemática, toda a gama de possibilidades que faz com que lingüistas e poetas percam o sono.

É um erro. E não pode ser qualquer outra coisa.

Uma teoria desta natureza demonstra tanta falta de noção do ridículo, tamanha arrogância que, fosse eu dado a tais crises de consciência, sentiria vergonha. Não sinto. E talvez seja essa uma falha que torna minha tirania ainda mais grave: a certeza de que, emboras as gramáticas, os trovadores, os romances, as poesias, Shakespeare e Camões, Fernando Pessoa e Homero, todos atestem de forma inquestionável para o fato de que estou errado… ainda assim tenho a sensação de estar certo.

E quem sabe esteja.
(Sei que não, isso me ajuda a dormir mais tranqüilo.)

Das doenças como política e da política quanto às doenças

Sai notícia de que o Lula está com câncer na laringe e vai fazer tratamento em São Paulo. Não demora muito tempo, começam os banners no facebook, em tom de “brincadeirinha”, sugerindo ao ex-presidente que vá fazer tratamento no SUS. Pouco depois - como já era de se esperar -, a galera do politicamente correto responde raivosamente, dizendo que com câncer não se brinca, que doença é coisa séria, e todos aqueles lugares-comuns da mentalidade moralmente certinha e pão-com-ovo que infesta a sociedade moderna.

Resta a dúvida: quem, nessa questão, está errado?
Ambos, eu respondo.

Os primeiros, os humoristas que se valem da enfermidade de uma figura pública para partir para uma crítica de teor político-social espertinho, lançam mão não de um senso de humor afiado, mas de uma falta de humanidade (falha menor, explico logo adiante) e de uma falta de coerência que - esta, sim - considero muito séria!

Falta de humanidade não pelo Lula em si, já que desejar que alguém se trate - seja no SUS ou no Sírio-Libanês - é, de certa forma, um desejo de melhora. A falha que menciono vem da constatação de que indicar o SUS como a alternativa que o ex-presidente deve utilizar em seu tratamento deixa implícita uma total descrença no sistema de saúde pública do país.

Longe de mim achar que devemos nos ufanar e arrotar uma superioridade que não temos, mas alguém, antes de publicar uma crítica dessa natureza, perdeu trinta segundos considerando o impacto que algo assim pode ter na crença de cura de um paciente que esteja, de fato, se tratando pelo SUS? Ao bradar “Ei, Lula, trate-se no SUS”, querendo dizer “…para ver a ineficiência do sistema público de saúde brasileiro, antes de sofrer e morrer, que será seu destino inevitável se depender dos cuidados do governo” - como se isso não fosse suficientemente baixo -, vocês estão dizendo a mesma coisa para todas as pessoas que estão prestes a utilizar o SUS por uma questão de necessidade. É um belo golpe na autoconfiança de quem já tem problemas suficientes sem sua ajuda.

A falha mais grave, entretanto, sequer é essa. É a falta de coerência. Outras personalidades públicas passaram e passam por tumores, e com relação a esses não são feitos comentários depreciativos, sequer engraçadinhos. Gianecchini dá uma entrevista no Fantástico que pode conduzir centenas de doentes a adotar métodos “alternativos” de cura, colocando em xeque a vida de outras pessoas, mas sobre isso não se comenta.

- Mas, Pedrones, o Gianecchini não é político, não podemos acusá-lo pelas falhas do governo!

Ok. Aceito o argumento. Mas ninguém fez comentários semelhantes quando o então vice-presidente José Alencar estava hospitalizado (no Sírio-Libanês, só para lembrar). Ninguém gracejou quando Antônio Carlos Magalhães estava hospitalizado. Ninguém ousou tecer piadinhas quando a mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estava hospitalizada. Nem com o tratamento da Dilma fizeram chacota! É apenas com o Lula que fazemos brincadeiras? Vamos demonizar UM homem por falhas de um sistema de saúde anterior a ele?

Vocês deveriam se envergonhar é por isso: por se deixarem pegar pela mão, por uma mídia revanchista, a um ponto tal que se mostrem capazes de canalizar em apenas um homem toda a frustração política de um grupo social em nome desse mesmo grupo social, que não toma a responsabilidade por nada. Não é que vocês tenham péssimo senso de humor e um timing terrível, a falha é outra: vocês são burros e manipuláveis!

Quanto ao pessoal do “com câncer não se brinca”, calem a boca também! A vida, por si, já pressupõe a inevitabilidade da tristeza. Todos nós vamos, em algum momento futuro, contrair ou desenvolver algum mal que dará cabo de nossa existência após um período de sofrimento, que pode ser breve ou prolongado - em termos absolutos, porque, para quem está sofrendo, só existe longo e infinito.

Se não for assim, será o acesso súbito de algum mal repentino que nos levará imediatamente do convívio de nossos pares, qual a foice da indesejável. Isso para não mencionar a possibilidade de algum acidente ou ato de violência urbana que nos transformem em mártires do barbarismo social.

Qualquer que seja o formato, a verdade é que há um mal definitivo agendado para cada pessoa. E contra isso temos apenas duas alternativas: a primeira é o suicídio, nada além de uma tentativa de tirar do acaso o mérito por nossa morte, tomando-a nas próprias mãos. A outra é o humor. É rir dos males do próximo, sabendo que o próximo próximo pode ser você. E, quando sua hora chegar, saber rir dela também. O humor é nossa única opção para tornar esta existência menos miserável, então abandonemos o suposto ar de seriedade. Tal gravidade fingida apenas depõe contra a inteligência de vocês.

Das comidas bizarras e bizarrices comestíveis

Então.

Vamos começar isso aqui falando do que é importante, do que importa e do que, acima de tudo, tem importância: um dos mais proeminentes irmãos caminhoneiros deste (suposto) terceiro pedaço de rocha a orbitar nossa carismática estrela anã, Guto Senra, junto com 3 amigos que também são da turma da boléia, heroicamente deu a garfada inicial em uma série de “webisódios” (odeio esse termo, mas existe alternativa? Aceito indicações!) sugestivamente intitulada Ogrostronomia. Pra você que quer aprender a fazer comida simples, palatável e pra homem - vai que seu namorado curte, mano? -, dá um like na página dos caras no facebook e/ou assina o canal deles no youtube. A primeira aula da autêntica culinária dos filhos, netos e bisnetos de camponeses foi sobre como fazer churrasco. E os filhos da puta não só não me chamaram pra provar o resultado, como o Jimmy ainda linkou a página do Utopia em uma foto constrangedora no facebook.

(Quando abrir a garrafa de Blue Label não vou chamar ninguém pra beber, em retaliação!)

Ainda falando de comida, e sem dúvida descendo vários degraus em direção ao anárquico reino da bizarrice (é anarquia ou monarquia, cazzo?), se você não foi bombardeado com links e referências, há algumas semanas, do vídeo nada eufemisticamente intitulado “Sanduíche de Buceta”, então parabéns. Não sei em que recôndito esquecido deste plano de realidade o senhor foi se enfurnar, mas sugiro que, agora que está de volta à convivência com os bons, não vá atrás da pérola. Acredite: não vale a pena nem por seu caráter nonsense.

Trata-se de um vídeo amador de uma moça - que nem maior de idade me pareceu, a bem da verdade - que besunta suas já mencionadas partes com condimentos (a saber: maionese, MUITA maionese), esfrega em outros ingredientes, tais como pães, presunto e queijo, e, imagino eu, come tudo ao fim do processo. Digo “imagino eu” porque não tive disposição para assistir a peça até o final. Espera-se, de um vídeo com tal mistura de absurdo, culinária e putaria, que seja excitante, desperte a fome ou faça rir. E não obtive nenhuma das três reações. Mas, ao contrário da maioria das pessoas que assistiram ao vídeo e cujas reações tive o (des)prazer de presenciar, também não fui tomado por horror ou nojo, seja pela “falta de higiene” da menina, seja por sua exposição voluntária.

Em primeiro lugar, não vejo problemas de higiene na questão. Não existe NADA naquele vídeo que as pessoas não coloquem na boca com regularidade: pães, maionese, presunto, queijo ou órgãos genitais de moças libidinosas. Ok, admito que a mistura de tudo isso é inesperada. Nem por isso vejo por que causar asco, se não por algum tipo de moralismo cristão que sobrevive em nossa mente e associa sexo a sujeira. O que nos leva ao segundo ponto: minha surpresa em ver o despudor da moça sendo tratado de forma tão furiosa. Sério, ainda há quem se surpreenda diante do fato de que mulheres - sejam elas moças, mulheres, coroas ou velhas - também curtem uma sacanagem? Quantas mulheres mais precisarão dar entrevistas “bombásticas” informando que, sim, aceitam a idéia de sentir “prazer anal” (Sandy, não estou falando de você, estou falando de outra mulher que deu uma entrevista afirmando a mesma coisa, claro), quantas mulheres precisarão ser “flagradas” em atitudes lascivas, quantas mulheres terão que aderir à indústria pornográfica ou mostrar satisfação com práticas sexuais “pouco ortodoxas”, até que aceitemos o fato de que, vejam só, essas criaturas também sentem prazer e desejo sexual?

Isso não tem nada a ver com a criação, com o caráter, com algum tipo de carência afetiva ou coisa que o valha. Pensamentos dessa natureza são fruto desse nosso ranço machista. “Mas o que o pai dela vai pensar?”, ou “E se fosse sua irmã?” são questões que só passam pela cabeça de quem ainda vê mulheres como propriedade, ainda que de forma bastante vaga. Esse raciocínio nos leva a concluir que não interessa se ELA está à vontade com isso, mas se o pai, o irmão ou o marido dela sabem tolerar esse comportamento. Logo, ela é uma demente, incapaz de pensar por si mesma, e precisa que um homem - essa criatura inteligente e racional - use seu teleencéfalo altamente desenvolvido para guiar a ensandecida criatura pelo caminho da moral e dos bons costumes!

Se você diz que não namoraria ou contrataria uma mulher dessas para a sua empresa, a falha não é dela, tampouco é dela a postura repreensível: ambas são suas. Só não vou dizer a você para assumir sua hipocrisia porque isso seria um contrasenso. A hipocrisia, tal e qual a humildade, é daquelas características que pressupõem uma atitude pouco reflexiva, portanto só duram até o momento em que são percebidas.

A verdade é que mulheres criadas em famílias equilibradas (existe isso?), em ambientes “normais” (defina “normal”), com papai e mamãe e colégio particular e telefone celular e roupinhas da moda e irmãozinhos e avós e Temperatura Máxima aos domingos com a família ao redor de uma bela macarronada TAMBÉM vão querer trepar - e vão curtir, e vão querer mais - em algum momento da vida. Algumas vão se satisfazer com um papai-e-mamãe bem comportado à meia luz. Outras vão querer ser besuntadas em azeite e lambidas por cinco homens, ou passar condimentos nas partes, ou tentar orifícios ditos “pecaminosos” em suas práticas sexuais. Deixemos todas elas em paz e vamos nos preocupar com coisas mais importantes: quando será que o Discovery Channel vai descobrir a genialidade dos caras do cracked.com e dar a eles uma série no canal?

Salve!

Olá, amigos!

Hoje faz um mês que eu não escrevo nada aqui. Vejam só que relapso! Já tivemos até comentários com ataques de pelanca.

Vejam só que coisa triste! Igual chuva na fila, es mucho troco, etc.