Author Archive for Pedro

Em púbico

(Ah, nada como trocadilhar no título… e se “trocadilhar” não existia enquanto a nível de verbo, passa a existir agora. Ficam revogadas todas as disposições em contrário.)

Qual o grande medo das pessoas? Qual o MAIOR medo das pessoas? Não é morrer. Estatisticamente, o que as pesosas mais temem é falar em público.

Sério, é provado. Sabe aquelas pesquisas ridículas que os ingleses adoram fazer? Tipo “os dentes dos donos de cachorros têm 0,85% mais cáries do que os dentes das pessoas que criam gatos” e tal? Então. Provaram que as pessoas têm mais medo de falar em público do que de morrer. Pelo menos as pessoas que eles entrevistaram, mas vamos acreditar que esse grupo selecionado para amostragem represente de fato o padrão.

Mas por que as pessoas têm medo de falar em público? Por quê? Porque não querem ser mal-recebidas. Têm medo dos outros rirem delas, ou de não rirem, caso a intenção seja essa. Têm medo de ser ridicularizadas. Até aí eu entendo, parcialmente, claro. O que eu não entendo é quem diz que tem medo das vaias.

O que tem de errado na vaia? Qual o problema com uma renca de gente fazendo “UUUUUUUUUUU” pra você? O que tem de errado com “UUUUUUUUUUU”? Não há nada de errado com “UUUUUUUUUUUUU”. Se você pensar bem, palma é um troço bem mais agressivo. Ninguém vai te machucar fazendo “UUUUUUUUUUUUUUUU”, mas tem umas pessoas que batem palmas com tanta vontade que se uma mãozada daquelas pega na sua cara, já era.

Daí você vai pra estatística que diz que quem fala em publico leva porrada sete vezes e meia mais forte do que quem fica quieto no seu canto.

Mas enfim. Como é que você faz pra se proteger desse lance de ser mal-recebido pelo público, de chegar numa boa e, apesar de todas as suas boas intenções, ser destratado? Simples.

Você NÃO chega numa boa.
Já sobe no púlpito, palanque, palco ou seja o que for assim, ó:

- Vão tomar no cu. Cambada de filhos da puta.

Qualquer merda que o público fizer com você depois disso vai ser plenamente justificável e compreensível. Você vai saber exatamente do que eles não gostaram. Depois é só não fazer de novo.

Mas livrai-nos do mal…

Chego em casa da faculdade. Sento diante do computador, abro a apostila da matéria que terei prova amanhã, o Freemind, e começo a fazer meu resumo, na esperança de não esquecer tudo nas próximas 24 horas e me foder bonitamente.

Cinco minutos depois, ouço meu irmão, atrás da porta da sala, perguntando ao meu pai se eu estou aqui dentro. Eu respondo, dizendo que sim. Ele abre a porta e me estende um caixotão, dizendo:

- Ó, chegou meu videogame, mas meu jogo ainda vai levar uns dias. Ele veio com um joguinho de guerra aí, mas tu sabe que eu não curto essas porras, então liga lá na tv do seu quarto pra se divertir até o meu jogo chegar.

O videogame é um PS3.
O “joguinho de guerra aí” é Metal Gear Solid 4.

O sonho de qualquer nerd.

Eu recusei.

Amém.

Cabeleira

Há alguns meses, já quase um ano, resolvi que ia deixar crescer a cabeleira. Não sei exatamente qual foi a motivação que tive pra isso, simplesmente acordei um dia e resolvi que seria interessante trabalhar o desapego pela minha aparência (metrosexual é a puta que pariu!), e que a melhor maneira de fazer isso seria ignorando as duas coisas, na minha aparência, que mais me causam raiva e gastura: meu cabelo e minha barba. Não iria cortar nenhum dos dois por um ano. Queria ficar igual Tom Hanks em Náufrago, naquela segunda parte em que ele parece um merovíngeo.

A barba durou pouco. Três meses após a decisão, acabei raspando a parada. Comer em público estava se tornando profundamente constrangedor.

Já o cabelo… esse, quando era curto, me enchia o saco por ser indômito. Não importava quantas vezes eu penteasse, esfregasse, puxasse, xingasse, gritasse ou balançasse a cabeça: ao acordar, a única maneira de fazê-lo assentar era tomando um banho. Nada além de uma sessão de encharcamento era capaz de colocar o miserável na linha e torná-lo mais cooperativo. O bicho simplesmente era como aqueles informantes da máfia: pra dançar conforme a música, precisava ser constantemente ameaçado com a possibilidade de ficar debaixo d’água permanentemente. Coisa que, se você não for o Michael Phelps, não soa muito agradável.

Pela manhã eu SEMPRE acordava com o penteado do Goku, e isso me tirava do sério, porque sempre gostei mais dos quadrinhos americanos, onde os personagens têm cabelos irrepreensíveis, do que dos japoneses, com seus penteados pós-modernos.

Kamehameha

- Mas… peraí, cara! Se o teu problema eram os cabelos descontrolados, o ideal não seria RASPAR o troço? De onde vem a idéia estúpida de que deixar crescer vai tornar sua agonia menor?

Pois é. Não tem lógica. Mas, como eu disse, o objetivo não era resolver o problema do cabelo, mas aprender a não dar a menor pelota pra ele. Quer ficar zoado? Fique. Quer criar periscópios? Crie. Torne-se um criadouro de novas espécies de fungos e piolhos, qual as madeixas de Bob Marley. Não tenho nada a ver com isso.

(continuei - e continuo - lavando tudo diariamente, entretanto)

Em março, falei sobre isso aqui. Deixá-lo crescer não foi simples. Descobri que madeixas, como as pessoas, têm três fases de existência: a infância, quando são hiperativas e descontroladas, necessitando de muito, muito jeito e paciência para entrar na linha; a adolescência, que é um estágio intermediário, no qual são desengonçadas, idiotas e ridículas; e, por fim, após crescer o suficiente, tornam-se adultas e passam, ao menos até certo ponto, a entender o funcionamento da vida, a saber se portar em público, a ter um pouco mais de bom-senso.

Ao menos as minhas são assim. Existem cabelos por aí que, a exemplo de certos seres humanos, não têm solução alguma, estão irremediavelmente estragados e é preciso aceitá-los como são, com todos os seus inúmeros, insuportáveis e inaceitáveis defeitos, e a vida seguirá seu rumo.

Enfim. Oito meses após minha decisão de deixar barbeiros morrerem de fome, no começo de junho, minha namorada me informa que a qualquer momento os anos 80 vão me telefonar pedindo o penteado de volta. E, veja só, eu até aceitaria desenvolver os fungos e piolhos, mas mullets? Não! Isso, não! Isso não ficava bem nem no MacGyver!

Tomado pelo desespero, mas sem querer cortá-los curtos novamente, em vez de ir me consultar com uma especialista em soluções para esses casos (uma mulher), simplesmente fiz o que sempre fazia quando até um macaco bem-treinado seria capaz de fazer o meu corte: fui a um macaco bem-treinado, um barbeiro.

Não preciso dizer que ele fez merda, mas digo do mesmo jeito: ele fez merda. Deu-me um cabelo capaz de me fazer consultar preços de chapelarias pela internet e de pensar em cancelar uma viagem de trabalho. Quem respeitaria um técnico com um corte daqueles? Eu não respeitaria.

Então entendi que praticar meu desapego era JUSTAMENTE passar por aquela fase desgraçada sem me desesperar. Cabelo é cabelo, caralho. Não é como se alguém fodesse meus dentes da frente, seria só esperar e aquela porra cresceria de novo. E cresceu, e está crescendo. Meu plano era o de cortá-lo como era em outubro ou novembro, completado, então, um ano a partir da data do foda-se inicial. Estou repensando a idéia, entretanto.

Não sei se quero ter uma daquelas cabeleiras típicas de metaleiros, mas sei que é muito agradável acordar de manhã e, com uma mera, ridícula e inofensiva passada de mãos, colocar todos os fios no lugar em que deveriam ficar. Com exceção das ventanias que jogam diante dos meus olhos uma revoada de fios, me impedindo de ver qualquer coisa além de uma massa castanha disforme e meio borrada pela proximidade, e de levar mais de 5 minutos SÓ pra lavar essa munha durante o banho, e outros 5 para secá-la, a juba não causa qualquer incômodo.

Além do mais, cobre a parte de cima do meu rosto, os olhos e o nariz. Quando minha barba cresce, cobrindo a parte de baixo, queixo e boca, ninguém mais é capaz de enxergar através da pelagem e ver minhas feições, de fato. O que me torna, veja só, um homem mais interessante. No escuro e em silêncio talvez eu até me torne um cara bonito!

Os cabelos compridos ficarão, pois. O que não sei é COMO fazer, na verdade, com QUEM falar pra mantê-los sempre numa extensão aceitável, com um corte sem firulas. Terei que cometer uma leve contravenção prevista no código dos irmãos caminhoneiros e arranjar uma cabeleireira. Mas isso é perdoável, desde que esse leve lampejo de viadagem seja compensada por um aumento ou pela inclusão de novas atitudes grosseiras.

Sem problema: começo a coçar o saco ou a palitar os dentes em público e fica tudo certo.

Bones

The Killers e Tim Burton. O que mais eu poderia pedir?
Pro volume do video estar um pouco mais alto, talvez…

Mas que isso fique pra lá. Cantemos juntos, crianças:

Come with me!

We took a back road,
We’re gonna look at the stars
We took a back road in my car
Down to the ocean,
It’s only water and sand
And in the ocean, we’ll hold hands

But I don’t really like you
Apologetic and dressed in the best
But on a heartbeat glide
Without an answer, the thunder speaks from the sky
And on the cold, wet dirt I cry
And on the cold, wet dirt I cry

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural

A cinematic vision ensued like the holiest dream
It’s someone’s calling?
An angel whispers my name
but the message relayed is the same:
“Wait till tomorrow, you’ll be fine.”

But it’s gone to the dogs in my mind
I always hear them when the dead of night comes calling
To save me from this fight

But they can never wrong this right

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Never had a lover,
Never had soul.
Never had a good time,
Never got gold.

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Don’t you wanna swim with me?
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Don’t you wanna come with me?
Don’t you wanna feel my bones on your bones?
It’s only natural.

Come and take a swim with me.
Don’t you wanna feel my skin on your skin?
It’s only natural.

Captei a mensagem!

Tem umas lições que eu deveria aprender da PRIMEIRA vez que elas me são passadas, mas eu não aprendo. Daí, como o universo funciona em ciclos - não é papo místico, não, é a base da minha teoria da fundação do universo, já devidamente publicada na Scientific American e adotada, sem contra-argumentos, por toda a comunidade científica mundial -, eu sou apresentado e reapresentado e rereapresentado e rerere… enfim, deu pra entender, já tá virando risada, essa porra.

Mas enfim. Sou reapresentado aos fatos até compreender que são FATOS, que são verdades irrevogáveis do cosmo, e parar de lutar contra o invencível poder, a insuperável determinação, a inquestionável presença, a insuficientemente adjetivada obstinação da Consciência Cósmica Universal.

Deixe-me dizer qual foi a última lição que aprendi com o universo (ou não deixem, foda-se, tô cagando, vou dizer do mesmo jeito):
Sempre que uma guria chamada Paula com um sobrenome fora do comum surgir na sua vida, FUJA.

SEMPRE dá merda. SEMPRE. Nunca dá certo. Mulheres com esse prenome e sobrenomes peculiares vão, INVARIAVELMENTE, mostrar uma faceta surtada e psicótica após um breve período de convivência. É sério. Das 6 ou 7 paulas que conheci com sobrenomes estranhos, TODAS alucinaram em algum ponto da convivência.

A única Paula que surgiu pela internet e mostrou compostura, sabedoria, coerência e - mais importante - sanidade* foi a patroa. E por quê? Porque tem um sobrenome comum, cotidiano, trivial, usual.
As outras todas… bom, sedativos estão aí para serem usados, afinal de contas.

Ok, nem tanta sabedoria, coerência e sanidade assim. A mulher namora comigo há 5 anos, afinal de contas. Mas ninguém é perfeito, até às mentes mais aguçadas devemos permitir um deslize ou outro, convenhamos!

Sacaneando, eu?

- Ah, então você resolveu aparecer?
- Já tava com esperança de não me ver hoje, né? Acha que eu ia me oferecer pra tomar uma bronca igual à de ontem? Nem morta, santa.
- Mas como você me aparece com quase uma hora de atraso? Sorte que não tem aula nesse primeiro horário, por causa da palestra.
- Sério que não tem aula agora? Pô, se eu soubesse disso, tava em casa tomando um banho e descansando um pouco. Só vim hoje pra você não ficar chorando aí, desconsolada com a minha ausência. Aliás, ontem eu não entendi como você se lembrou que eu faltei à última aula. Depois, pensando a respeito, notei que você só marcou meu nome e rosto porque fiquei te devendo uma pipoca!
- Que, aliás, com os juros, já são três pipocas. Aliás, você já tá me devendo um pipoqueiro completo, com carrinho e tudo.
- Ué, sendo assim fica mais fácil: tem um lá na frente do prédio. É seu. Pode levar pra casa.
- Engraçadinho. Vamos lá assistir à palestra?
- É sobre o quê mesmo, esse troço?
- Automação comercial.
- Ah, não. Qual é? Eu trabalho com isso o dia todo, chego aqui ainda tenho que ver apresentação sobre um negócio que eu já tô careca de saber? Não venho pra faculdade pra ficar vendo essas baboseiras, venho pra cá em busca de emoção, de alguma coisa mais interessante, mais ameaçadora. Tipo… tipo… lógica de programação.
- Eu notei um certo tom de sacanagem com a minha matéria nessa sua fala aí.
- Quê? Adriana, como é que você sugere uma coisa absurda dessas? Eu seria incapaz de usar ironias! Onde já se viu. Um homem sério como eu, com esse tipo de piadinhas? Inaceitável.

***

- Adriana.
- Diga.
- Tenho sono.
- Como?
- Tenho sono. Tenho muito, muito sono.
- Ah, é?
- Sim. Por favor, seja breve com essa próxima aula.
- Mas que cara-de-pau!
- É a sonolência que anestesia meus pudores e meu bom-senso.

Alguma coisa na faculdade tem que ser divertida, afinal de contas.