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Textos Motivacionais I

Você que está aí, meu amigo, minha amiga, preocupado com as vicissitudes da vida; considerando, consternado, as injustiças que essa existência vagabunda e piranhete joga em cima de você; tentando entender por que as coisas são assim e imaginando o que fazer para que elas fossem diferentes; ansioso atrás das soluções para os problemas que lhe inquietam qual pregos n’alma, ouça minhas palavras:

Abra seu coração para Jesus, irmão. Abrace a mais falsa, fácil e cômoda explicação para todos os males. Adote o caminho hipócrita dos pseudo-cristãos que caminham entre nós. Seja mais um abilolado, fechando os olhos para as causas reais das coisas, acusando demônios e outras entidades indefinidas da mitologia moderna como os responsáveis pelas falhas humanas. Seu bolso será mais leve, sua consciência será aplacada de todos os pesos, sua vida tornar-se-á simples: seja escroto com as pessoas à vontade, peça perdão nos cultos e pronto. Aí está o seu salvo-conduto. O Nazareno te ama, mesmo você sendo um saco de merda.

Ou abrace o que você é (um saco de merda!), aceite que determinadas pessoas - quando não todas - nada mais merecem, senão as batatas, e tome para si o cargo de arauto da vontade universal. E daí se você não tem o livro da verdade? Ninguém poderá provar! Até que surja um volume encadernado na gráfica celeste, assinado pelo altíssimo em pessoa, com direito a dedicatória ao apóstolo Paulo, não haverá o que temer.

Ser escroto é saudável, meu rapaz. Pode não apaziguar a sua consciência, mas chutar no diafragma alguém que espera tudo de você, menos maus-tratos, é das sensações mais divertidas que existem. Não há maior demonstração de grandeza de espírito do que engrossar inesperadamente com as pessoas e passar o resto da vida agindo como se tivesse razão, mesmo não tendo. Retratação? É para os fracos. Amigos? Ter um milhão deles só vale a pena se cada um te der um real. Ou dez reais, pra quê pensar pequeno? Do contrário, pura perda de tempo. Corra atrás de dinheiro, é mais importante. Dinheiro há de te trazer todos os amigos que você precisar, todos eles bajuladores baratos, lambedores de ego, masturbadores da sua auto-estima. Do que mais uma pessoa precisa? Sinceridade? Oras. Sinceridade é contraproducente!

Minta! Minta descaradamente. Minta até mesmo sobre as coisas mais simples, mais triviais. Comprou um tênis preto? Diga que adquiriu um branco. Ou nenhum, que na verdade pagou mesmo foi por um par de mocassins. Vai sair e voltar cedo? Afirme que voltará tarde, diga para não te esperarem de pé. Brigue, ao retornar, porque todos estão acordados. Não interessa se são sete horas da noite, não aceite desculpas baratas! Minta, seja escroto, insista que tem razão.

Os cretinos contumazes são as pessoas mais admiradas, o mundo está cheio de exemplos disso. Aqueles que adotam o pesado fardo da justiça, da bondade, da generosidade, da humildade, aqueles que resolvem trabalhar suas qualidades e suprimir seus defeitos, a esses resta apenas o escárnio, o pouco-caso do homem comum, que, incapaz de escalar tais paredões, prefere apedrejar os que se aventuram a subi-lo a ser alvo de acenos de criaturas inatingíveis.

Ao ver, do alto da sua muralha de desumanidade, as pessoas comuns levando suas vidinhas comuns, faça o que qualquer criatura de bom-senso faria: cuspa. Isso servirá de incentivo para que todos sigam seu caminho, nem que seja para te alcançar e cobrir de porrada. Veja, então, como são amplas as possibilidades da vida e surpreendentes seus meandros: ao diminuir um suposto semelhante, é possível motivá-lo. O trauma constrói o caráter.

Os que não agüentarem, os que, alvejados por sua metralhadora de imprecações, vergarem como capim sob o vento, se deixarem abater, se tornarem deprimidos, tentarem se matar, não deixe que te façam sentir culpado. Pense em si mesmo como a entidade humana encarregada de aplicar o teste de seleção natural. Quem sobreviver é apto. Quem não sobreviver, não o é, e merece o destino que tiver, não interessa quão desagradável seja.

Interlúdio

Patrick Street - Music for a Found Harmonium

De nada.

Historieta Curtita XVII

Entraram na casa dela e foram tropeçando em todos os móveis que havia no caminho para o quarto. Arrancavam a roupa desajeitadamente, com pressa, enquanto se engalfinhavam como dois gatos de rua.

Depois de derrubar um abajur, duma canelada, dele, em uma mesinha de cabeceira e dela quase mandar ao chão um espelho de parede, finalmente conseguiram chegar à cama. Ele lhe mordia o pescoço quando ela sussurrou em seu ouvido:

- Seus carinhos me enchem de desejo!

Ele parou. Olhou-a nos olhos.

- Como?
- Suas carícias me alucinam!
- Sério?

Ela, sentindo-se incentivada pelo clima, pela meia luz, pelo olhar que ele lhe lançava, continuou:

- Vem! Me faz ser sua!

Ele ainda a olhava quando redarguiu:

- Minha?
- Sua! Toda sua! Vem, vem ser meu homem!
- Seu homem?
- Anda! Me possui! Quero te sentir em mim, nossos corpos feitos um!

Ele se levantou. Subiu as calças, meio arriadas, e já estava fechando a camisa quando ela quis saber o que houve.

- Tua breguice cortou meu barato.
- Quê?
- É isso aí. Mas não se sinta mal. Você tem futuro como letrista de forró. Adeus.

Ele foi pra casa, dormiu o sono dos justos.
Ela se masturbou ao som de Calcinha Preta.

Entomologia Aplicada I

Toda madrugada, entre 5h e 5h15, o mesmo fenômeno ocorre. E chamo de fenômeno porque, pra mim, é um acontecimento novo, imprevisível e que foge completamente à minha compreensão das coisas. Enfim, toda madrugada, entre 5h e 5h15m da manhã, uma abelha - uma, apenas - entra no meu apartamento e começa a voar enlouquecidamente ao redor da lâmpada da sala.

O que, para mim, caracteriza isso como fenômeno é o fato de que nunca vi uma abelha alucinar por causa de uma lâmpada. Pra mim esse comportamento - particularmente idiota - era natural de insetos reconhecidamente imbecis, como as lepidópteras (em especial as mariposas) e alguns coleópteros. Apesar de minha aversão a elas, e de achar o produto de seu esforço fedorento e desagradável - sim, me refiro a mel, própolis e todas essas porcarias que as abelhas produzem -, considerava as abelhas insetos superiores. Assim como as formigas, achava que eram um pouco mais inteligentes e organizadas, e que, apesar de demonstrar certa demência diante de comida, morrendo facilmente por alguns grãos de açúcar ou gotas de refrigerante, ao menos matavam-se por algo prático, útil.

Admito que me decepcionei com as abelhas.

Porque uma abelha que invade minha sala para voar contra a lâmpada, com seus movimentos erráticos e seu zumbido irritante, está cometendo suicídio desnecessariamente. Não está morrendo porque ferroou alguma ameaça a sua colméia ou porque, em sua busca por pólen, fez um movimento despropositado e terminou pisoteada por uma criança ou esmagada contra o pára-brisa de um carro. Está morrendo porque entrou no meu apartamento, onde não existe nada - NADA - que lhe possa ser útil!

Então repete-se esse procedimento: toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, uma abelha invade minha casa. Toda madrugada, por volta de cinco horas da manhã, minha atenção é desviada do filme que estou vendo ou do livro que estou lendo pelo ruído intolerável de asas membranosas batendo enlouquecidamente. Toda madrugada estico a mão até a lata de inseticida, por volta de cinco da manhã. E então assisto - com certa satisfação, inclusive - enquanto um inseto se contorce no chão da sala, experimentando sabe-se lá que grau de sofrimento e que espécie de sintomas, em uma agonia que me diverte bastante, durante dois ou três minutos que, para a abelha, devem ser intermináveis. Para mim são muito agradáveis.

Daí volto para meu divertimento saudável, enquanto me pergunto o que diabos há de errado com essas malditas criaturas.

Saibam, hymenópteras: esperava mais de vocês.

[Reprise] Quem vê cara…

Este texto foi escrito e publicado em 2006. Como estamos em época de eleição novamente, nada como um pouco de putaria para combinar com o espírito político brasileiro. Editei algumas coisas e acho que dei uma melhorada no negócio. Ou piorada, sei lá. Se quiser comparar versões, procure o original, mas é muita falta do que fazer, hein?

No mais, essa é uma obra de ficção. Semelhanças com fatos ou pessoas reais são sempre meras coincidências.

Não era nova o bastante para ser considerada adolescente, nem tinha idade suficiente para ser uma balzaquiana. Era uma jovem de vinte e poucos anos, muito bonita e com inteligência pouco acima da média. Seria um exagero dizer que atraía homens aos borbotões, como seria afirmar que os repelia. Da mesma forma, seria incorreto afirmar que era intocada, uma virgem e seria igualmente injusto chamá-la por adjetivos impróprios. Tivera sua dose de relacionamentos infrutíferos. Alguns duradouros, outros breves. Tinha a bagagem que alguém de sua idade deveria ter nos assuntos do amor, do sexo e da convivência. Nem mais, nem menos, para a moça mediana que era.

Conheceu-o por acaso, em um jantar na casa de amigos, e foi arrebatada pelos modos alheios, o olhar longínquo, o ar sempre distante e a moderação com tudo. Tudo, menos comer. O homem comia como um tigre faminto. O correto seria compará-lo a um abutre, pois não fazia restrições quando se tratava de culinária, mas tal paralelo soaria grosseiro, então fica como está.

Trocaram telefones e começaram a sair.

Ele levou algum tempo até perceber suas reais intenções, mas percebeu. Ela levou algum tempo até notar que seria necessário abandonar as indiretas para trazê-lo ao encontro de seus anseios, mas notou. Depois de breve período de romance, ele revelou que também tinha reparado nela no dia do jantar, que ficara encantado com sua presença de espírito, seus olhos vivos e comentários perspicazes.

Ela sabia, graças aos romances passados, que namoros se resumiam a duas coisas: fazer sexo e comer. E sabia que seu namorado era um legítimo bom-garfo e, também por isso, apreciava sua companhia nas refeições. Mas seu grande apetite lembrou-a de certas teorias que diziam que homens muito vorazes à mesa também o eram na cama. Sentiu-se curiosa para tirar a dúvida.

Certo dia em que seu pai viajou - a mãe vivia alhures -, convidou-o para jantar em casa. Ele aceitou inocentemente, como um bezerro que caminha ingenuamente para o matadouro, ignorando que está prestes a se tornar um pedaço de vitela.

Chegou pontualmente e, com os trejeitos tímidos de sempre, sentou-se empertigado no sofá da sala. Recusou copos d’água, cafezinhos, refrigerantes. Por fim, aceitou um tira-gosto e uma taça de um merlot que melhorava na adega havia algum tempo. Assistiram à programação da TV a cabo entre carícias leves, que se intensificaram, até que o controle remoto foi ao chão com estrépito quando ele se levantou e, demonstrando surpreendente força física, ergueu-a pela cintura com um braço, enquanto, ávido, mordia-lhe o pescoço e abria o fecho do sutiã habilmente utilizando apenas três dedos.

Entre beijos, ela sugeriu que fossem para o quarto e ele a levou sem colocá-la no chão, acariciando seus seios com a mão que estava livre.

As teorias se provaram verdadeiras. O homem era, de fato, um incubus! Ele a deitou na cama com gentileza que não condizia com o modo fremente com o qual os lábios, língua e dentes percorriam seu pescoço, queixo, nuca, boca e orelhas. Retirou sua calça jeans com espantosa velocidade e apenas pedaços de sua calcinha foram encontrados no dia seguinte, espalhados por todo o aposento. A seguir, despiu-se com igual velocidade e juntou-se a ela sob os lençóis.

O rapaz alternava carinhos insolentes com carícias de desmedida ternura. A língua dele percorria cada milímetro de seu corpo, suas sensações tão transitórias que era difícil compreender o que acontecia. Mas ela compreendia e adorava. Gemia de agrado quando ele, virando-a de bruços e mordendo-a das nádegas até o pescoço, sussurrava elogios despudorados em seu ouvido. Gemia duas vezes mais quando, no instante seguinte, com um movimento brusco, ele a girava na cama, colocando-a em decúbito dorsal, e trafegava por seu corpo com mãos ágeis apertando, afagando, arranhando e massageando, e com a ansiosa boca beijando, lambendo, chupando e mordendo. Chegava até seu baixo ventre, até seus grandes, gotejantes lábios, e, entre volteios calculados e investidas competentes com a língua, que a faziam estremecer, dizia obscenidades inenarráveis que, somadas à sofreguidão de seus gestos, faziam-na pensar que estava prestes a perder o juízo.

Em um instante lambia-lhe os pés, chupava-lhe os dedos, abocanhava-lhe os calcanhares. No próximo segundo já estava manuseando seus mamilos, mordiscando-lhe o púbis. Não lhe pedia nada, não lhe dava ordens, nada lhe perguntava. Perscrutava seu corpo como se lho pertencesse, e a essa altura do campeonato já pertencia. Ela apenas mordia os lábios, voluptuosa, gemia, urrava, gritava, implorava por mais, arranhava-se, agatanhava-o, raspava as paredes, desalinhava os cabelos, descontrolava-se.

Ele murmurou em seu ouvido, em dado momento, que iria apresentá-la à sensação de descer na maior montanha-russa do mundo e riu o riso sem-vergonha dos devassos. Em seguida jogou as duas pernas dela para cima e, introduzindo-lhe dois dedos, apertou algum botão - até então desconhecido a ela - que causou efeitos imediatos. Após intermináveis segundos que chegaram ao fim mais rápido do que gostaria, seu corpo inteiro convulsionou-se como que tomado por um surto epilético. Sentiu os lençóis encharcados com a torrente de satisfação que escorria entre suas coxas lânguidas.

Depois de tão violento orgasmo, deixou-se desfalecer. Chegou a sentir a vista escurecer e o quarto girar, mas ele, veloz, apertou seu pescoço num gesto agressivo, como se tentasse sufocá-la. O afogamento súbito, em vez de apagá-la de vez, trouxe sua consciência novamente à tona. Resfolegando, olhou para ele.

Os olhos, antes aéreos, pacíficos, estavam completamente diferentes. Fitava-a como um gato que observa a presa encurralada. Não havia nada do ar distraído de outrora, apenas o olhar decidido do agressor sobre a vítima. Tremeu de espanto, mas, mais do que isso, tremeu de prazer. E ele, após assediá-la com nova série de preliminares, penetrou-a com toda a pujança de seu sexo furioso, subversivo e insaciável.

Foi uma longa noite. Fizeram amor, sexo, transaram, foderam, fornicaram… deixaram-se levar pela luxúria. Entre uma rodada e outra da mais pura, feliz e realizada safadeza, atacavam a geladeira. O mesmo apetite que ele manifestava com a comida, dirigia a ela, a seus fluidos, a seus orifícios, a toda sua anatomia. Ela descobriu no próprio corpo algo entre doze a dezessete zonas erógenas que antes desconhecia.

Passaram a dormir juntos quase todas as noites. O pai dela, um homem instruído, com boa cabeça, razoável, não interferia no direito da filha – maior de idade, responsável, inteligente – de dormir com o namorado. Inclusive lhe agradava a companhia do rapaz. Conversavam sobre esportes, música erudita, livros, notícias, assuntos gerais, enfim. Bebericavam dos bons vinhos da adega. Um semillon para acompanhar foie gras, um cabernet para melhorar a degustação de queijos e outros frios.

A moça ficava feliz em ver o pai se dando tão bem com o namorado, em notar como as conversas rendiam horas e horas de assunto e em ver como o apetite sexual vigoroso de seu parceiro não arrefecia. Era impossível se conter durante as intermináveis maratonas de descaramento e, não tivesse o velho sono tão pesado a ponto de resistir aos próprios roncos, amargaria noites insones ao som das sessões de ode aos prazeres carnais da filha.

Um dia marcaram de se encontrar na rua. Ele iria buscá-la na saída do estágio.

Chegou um pouco atrasado, alegando que perdera a noção do tempo durante uma reunião de membros de seu partido. Trajava uma camiseta do DEM. No vidro do carro, os inconfundíveis adesivos de apoio aos candidatos do Democratas.

Incapaz de tolerar tamanha sem-vergonhice, ela terminou o namoro dois dias depois.

Dos mercados

Cristo, mas via-lhe as ruas?/
Também apenas as ruas, havia milhares delas, como fazem para escolher uma/
Para escolher uma mulher/
Uma casa, uma terra que seja sua, uma paisagem para olhar, um modo de morrer?

Se você lê esse blog há algum tempo, já deve estar familiarizado com o trecho acima, do livro Novecentos - Um Monólogo, porque já foi publicado aqui antes. Publiquei antes, e publico de novo, porque considero ser a verdade. A “minha” verdade, como está na moda dizer agora. O que a torna, para mim, a verdade absoluta. Se a “sua” verdade é diferente, para mim não é verdade. Logo, não sendo verdade, é mentira. Logo, foda-se, não me importo com ela.

Larguei meu emprego. Um emprego que odiava e no qual passei 2 anos. Dois anos da minha vida fazendo algo que detestava, dois anos que não voltam mais e que infelizmente não passaram rápido o suficiente. Dois anos fazendo algo intolerável, mas que tolerei por dois anos. E agora faço apenas a faculdade. E também odeio, e ainda falta PELO MENOS um ano para terminar. Mais um ano empenhado em algo que desprezo. Essa é minha vida.

Faço uma faculdade que odeio, como trabalhei em um emprego que odiava, pela razão mais cretina do mundo: porque “preciso fazer alguma coisa”. Todo mundo “precisa fazer alguma coisa”, porque é o que você faz que te define. Não QUEM você é, mas O QUE você é. E O QUE você é é imediatamente definido como sendo “O que você faz?”. Quem você é é subjetivo, intangível, indeterminado. Varia de acordo com o julgamento de quem observa, as circunstâncias, o momento. Isso não serve para quem precisa dizer quanto você vale. De acordo com esse critério, um estivador pode valer mais do que um engenheiro. Daí utilizamos o outro critério: O que você é? O que você faz? Isso é determinável, imediato, documentado. Existe comprovação, daí render méritos.

Tome como exemplo o seriado House. Quem você é - um homem escroto, intratável, sarcástico e mal-resolvido - empalidece, em termos de valor, em vista do que você é - um médico competente, com conhecimentos impressionantes dentro da sua área de atuação. Não interessa se a pessoa que você é destrata gente que precisa de atenção e cuidado porque está com dor, com medo e diante da possibilidade real de morrer a qualquer instante. Desde que o que você faz seja o suficiente para mantê-las vivas, qualquer mau-trato é relevado. Essa é a mensagem que House passa: sendo bom no que você FAZ, é aceitável ser ruim em quem você É.

O que eu faço é informática. É o que estudo, é com o que trabalho. E é a área mais cretina e inútil de todas as áreas de trabalho. Em termos de ilha deserta - dia desses explico o conceito aqui -, tenho menos utilidade que uma galinha. Mas não tenho outro refúgio. Faço o que tenho que fazer porque tenho que fazer algo. Estou próximo ao fim dos meus 20 anos, é a hora (passou da hora, na verdade) de decidir O QUE eu quero ser, já que QUEM você quer ser infelizmente não é uma questão voluntária.

Deveria ter decidido isso aos 18, 19 anos, como tanta gente faz, todos os dias. E eu acharia incrível que essas pessoas tenham essa capacidade, mas atribuo tamanha impulsividade à falta de maturidade e visão de futuro que são peculiares aos adolescentes. É tanta coisa para se fazer, mas TANTA. COMO alguém consegue decidir isso? Como alguém acorda e pensa “É isso que quero fazer, daqui pro resto da minha vida”? “É aqui que eu quero viver”? “É com ela/ele que quero ficar”? Existem TANTAS opções, putaquepariu. O que é preciso pra tomar uma decisão dessas? Determinação ou pequenez de espírito? O que quer que seja, me falta.

O problema é essa raiva que sinto em saber que faço algo que não gosto. Em TER QUE FAZER algo que não gosto, porque PRECISO fazer alguma coisa. Não interessa se serei infeliz, desde que tenha o rabo cheio de dinheiro. Se me sinto inseguro e sem qualquer aptidão para a coisa, já que dizem que nasci pra isso. Quem diz que nasci pra isso não sabe do que isso trata, o que isso requer e certamente não faz idéia para o que eu nasci. Mas quanto à última parte não posso criticar, pois também não sei. Sei para o que NÃO nasci, e é só. Não nasci pra ser jornalista ou publicitário, músico, engenheiro ou arquiteto, médico ou advogado, professor ou pesquisador. Entendo e concordo que citar Legião Urbana é caído, mas farei uso desta vez, e desta vez apenas: não há verdade maior sobre mim do que a frase “Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto”. Infelizmente não vou faturar um centavo enumerando as coisas das quais não gosto, ou ficaria milionário, certamente. É triste, mas o “mercado”, essa entidade superior e intocável, nos força a isso. A fazer coisas que não queremos para conseguir dinheiro e comprar coisas de que não precisamos.

Tyler Durden, nessa tamos juntos, amigo.




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