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Rotas paralelas

Tenho essa idéia a respeito de certas pessoas que eu não conheço e que fazem coisas que, de acordo com meu entendimento, não deveriam estar fazendo. Fico olhando pra essas pessoas, pensando nelas por horas a fio (de verdade, faço mesmo isso!) e imaginando que talvez o que faltou na vida delas foi um amigo de verdade, pra olhar nos olhos e dizer, com toda a sinceridade: essa não é a sua praia, você não tem esse talento.

Porque só um bom amigo faz algo assim. Diz que você foi um escroto quando agiu escrotamente, que você foi injusto ao agir injustamente, que foi prepotente, intolerante, ignorante, estúpido ou que está fazendo uma coisa para a qual não foi talhado. É lógico que inimigos dizem isso com muito mais freqüência, mas eles dirão sempre, não importa o que você faça. De um amigo, deduz-se que uma informação dessas seja a voz da verdade. Teoricamente, o último desejo de um amigo é ferir seus sentimentos, ainda mais de forma deliberada. Te criticar pelo prazer de criticar não é o que ele pretende, mas te ajudar a ver seus erros e a corrigi-los.

Teoricamente.

Eu imaginava que essa era uma tarefa fácil, também. Crítico que sou, pensava que, conhecendo aquelas pessoas que cantavam sem saber cantar, escreviam sem saber escrever, desenhavam sem saber desenhar, seria só torcer o nariz e dizer “Cara, isso aqui tá muito ruim, sequer tem potencial pra melhorar. Larga esse lance, não é pra você, vá fazer outra coisa!”. Faço isso comigo mesmo o tempo todo, me recriminando pelas escolhas que faço, me esculhambando pelas pisadas na bola que cometo, por me meter a dizer sem saber o que digo, a fazer sem saber o que faço. O que me impediria de fazer com os outros?

Pois é difícil. Muito, muito difícil. Não consigo, não sei como fazer, como indicar o caminho que alguém está seguindo e gritar “EI! VOCÊ PEGOU O RUMO ERRADO! FICOU IDIOTA DE REPENTE?”. Vejo amigos enveredando mais e mais para a idiotia final, para aquele ponto sem retorno em que você pode apontar e dizer “Eis aí um belo exemplar de beócio!”, como um assistente de zoológico mostrando os animais enjaulados numa visita guiada. E vejo impassível, sem nada fazer para evitar.

Imagino se sou eu que espero demais das pessoas, que presumo que pelo fato de considerar alguém inteligente, essa pessoa há de tocar a própria vida de forma inteligente, sem cagar tudo pelo caminho de maneira tal que pareça irremediável. Talvez seja. Ou talvez haja alguma outra explicação que me faça entender por que razão tantos dos meus conhecidos vêm se mostrando cretinos contumazes, ultimamente. Eles pioraram? Eu melhorei? Eu piorei e eles melhoraram? Pioramos ambos? Melhoramos ambos, um para cada lado? Não sei dizer.

O que eu sei é que aí estão alguns dos meus amigos, correndo em direção ao prêmio de maior idiota do mundo, e eu não faço nada. Apenas sento e observo, impotente. Me faz lembrar uma tirinha em quadrinhos que vi um tempo atrás, em que um sujeito dizia a outro: “Se você não fosse tão idiota, eu poderia te dizer quão idiota você é!”.

Uma pessoa dessas, que deixa de ouvir a voz do próprio bom-senso, vai ouvir a minha? Duvido.

Só resta me afastar, caminhar em direção a outras convivências. Com a esperança de que essas tenham mais visão e noção das coisas do que as outras, com as quais perdi tanto tempo. Ou então - opção que venho seguindo atualmente - simplesmente abraçar a solidão e seguir com ela, como num daqueles filmes bregas, rumo ao pôr do sol. A solidão é o que é, não é inteligente ou burra, boa ou ruim. Como ela se parece, como se pinta, como se apresenta… tudo isso fica nos olhos de quem vê.

A idiotia também, alguns podem dizer, argumentando que há, da minha parte, certo grau de intolerância. Sim, há da minha parte um BELO grau de intolerância, um grau e tanto, impressionante até para mim. Mas a idiotice grita sua presença aos meus ouvidos com tal força que me desconcerta. A solidão é silenciosa.

Então fico com ela.

Dos paradigmas inesperadamente quebrados

Essa primeira música do Perfect Symmetry, cd novo do Keane, é de longe a coisa mais bicha que eu já ouvi.

[Atualização:] Quem duvida de minhas afirmações peremptórias ou apenas deseja saciar sua curiosidade pode ouvir a música aqui.

O Corvo (The Raven)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P’ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo:
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Senhor”, eu disse, “ou senhora, de certo me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo
Tão levemente, batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse os meus ais,
Isto só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
“Por certo”, disse eu, “aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
Meu coração se distraia pesquisando estes sinais.
É o vento, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um Corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nenhum momento,
Mas com ar sereno e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
“Tens o aspecto tosquiado”, disse eu, “mas de nobre e ousado,
Ó velho Corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome “Nunca mais”.

Mas o Corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento,
Perdido murmurei lento. “Amigos, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais.”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas suas vozes usuais.
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entorno da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
Era este “Nunca mais”.

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!”
Disse o Corvo, “nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, e esta noite e este segredo
A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Profeta”, disse eu, “profeta - ou demônio ou ave preta! -
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Dize a esta alma entristecida, se no Éden de outra vida,
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, ave ou diabo”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!”
Disse o Corvo, “Nunca mais”.

E o Corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda,
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais.
E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais,
Libertar-se-á… nunca mais!

De Edgar Allan Poe
Tradução de Fernando Pessoa (1924)

E - de lambuja - o texto original, narrado por ninguém menos que Christopher Walken:


Umbrella-ella-ella-e-e-e

Não resisti e desfibrilei o Reimplicantes.

Juntas pra que te quero…

Venho escrevendo numa freqüência absurda (pros meus padrões) esses dias. Coisa de três a quatro contos diferentes toda semana, com pelo menos um ou dois outros conceitos anotados a fim de serem desenvolvidos depois. Não publico nada aqui, ainda, porque estou me esforçando para trabalhar melhor as coisas antes de soltá-las no mundo. Foi o que fiz com o Hora do Café, que na verdade escrevi para um concurso (e obviamente, como já esperava, não ganhei nada, mas sendo de graça, que mal faz?). Ruminei sobre aquele cenário simples por mais ou menos um mês e meio, e o resultado, embora não seja bom, ficou bem acima do nível que eu geralmente atingia.

Então agora escrevo e reescrevo. E apago e refaço. Dou uma polida, lixo as extremidades, aparo as pontas. De fato TRABALHO em cima do texto. Não desse tipo de texto aqui, lógico, porque essas porcarias não devem mesmo valer nada, mas enfim. Se a consciência cósmica universal insistiu tanto para que eu assim o fizesse, assim o faço.

E os projetos! Existem-se ovelhas mais sedentas de atenção do que estas que tu cuida-vos até projetos!

Agora é só começar a pensar em como ganhar dinheiro, porque cifras nunca me passam pela cabeça, só diversão. O que isso me torna? Candidato a uma vida de mendicância divertida?

Senhores, contemplem…

Tem dias em que eu vejo esse camarada. A maior parte do tempo, não. Eu sei que ele ronda a área, sei que vive por aqui, noto sua influência e as conseqüências de seus atos. Ainda assim ele é suficientemente safo a ponto de não se mostrar com freqüência. Cria suas estratégias e executa seus planos pelas minhas costas.

Mas às vezes ele aparece. E que sujeito desagradável! Quando fala é com raiva, com ênfase, sempre xingando muito em sua voz esganiçada. Lança perdigotos, a saliva se lhe acumula nos cantos da boca. Calado, range os dentes, morde os lábios por dentro, retorce a boca em muxoxos de raiva. Suas mãos estão sempre vermelhas, tem por hábito socar a palma de uma com a outra. Paradas, ficam crispadas, os dedos dobrados, contorcendo-se, meio tortos. É de se perguntar se ainda são capazes de se estender por completo, gesto que nunca o vi fazendo. Tem o rosto encovado, os olhos fundos, sobrancelhas selvagens sob as quais movem-se duas esferas escuras, foscas, arredias. Não olha ninguém de frente: ou é por cima de seu nariz pontiagudo e longilíneo ou por baixo dos matagais que lhe compõem os sobrolhos. É magrinho, bem mirrado mesmo, com ossos salientes nas extremidades, sempre dobradas. Vive envergado, como um velho cujos músculos e ossos não trabalham mais juntos há eras. Caminha praguejando, seu silêncio é um rosnado. Seu olhar é uma afronta. Suas mãos são palavrões. Sua presença, uma agressão.

Não mete medo em ninguém, embora ache que sim. Não entendeu ainda que as pessoas se afastam quando ele grita ou não discutem quando ele fala porque não vêem fundamento, porque seria perda de tempo. Ninguém tem esperanças de vê-lo sendo razoável: nunca aconteceu antes, por que aconteceria agora? Afastam-se porque ele é incômodo, patético. Porque ele é ridículo, pequeno. Afastam-se porque têm pena, porque têm mais o que fazer. E ele esbraveja quando chegam e quando saem. Enquanto ficam, resmunga, murmura suas blasfêmias esquisitas e evoca sua interminável lista de impropérios.

Eu vejo esse sujeito, vez ou outra, e noto o que está fazendo. São raros esses momentos, em que um súbito lampejo de perspicácia me permite vislumbrá-lo. O destino dele é triste - como se o presente já não o fosse -, mas ele não dá a mínima. Pavimenta seu caminho em direção a uma existência solitária e miserável e segue o rumo que traçou para si sem demonstrar hesitação. Grita, xinga, vocifera… mas não recua. Não pára.

Gostaria de dizer que sou capaz de impedí-lo de seguir esse caminho, mas quem disse que ele me escuta, que escuta qualquer um? O animal não ouve ninguém! Não existe bom-senso que não derrube com uma ironia ou argumento que não minimize com algum sarcasmo. Quando não sabe o que responder, simplesmente não responde nada! Não leva ninguém a sério, com exceção daquele a quem não deveria levar: ele mesmo. É egoísta, individualista, impulsivo, injusto, inflexível. É um selvagem, um ogro, um mal-educado. Um bárbaro irascível, aparentemente irrecuperável.

É um idiota. É o idiota.
Sou eu.