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Dos rompantes de genialidade I

Batman do futuro é um desenho que se passa no futuro (dã!), muitos anos depois de… bom, de agora, mas não o suficiente pro Bruce Wayne ter morrido. Ele só é bem velho e tem a cara do Clint Eastwood.

Daí tem esse episódio no qual o Terry McGinnis, que é o sujeito sob a roupa do Batman, tá investigando uma série de crimes que envolvem ataques de esquizofrenia. A pessoa começa a ouvir, dentro da cabeça, uma voz que dá ordens do tipo “Roube isso”, “Mate fulano”, etc. Acaba obedecendo, achando que é a voz da consciência ou coisa parecida, quando na verdade é um chip implantado pelo vilão, que permite que ele se comunique com a pessoa pelo ouvido interno.

(Eu sei que é um argumento raso, mas estamos falando aqui das histórias de um homem que anda pela cidade com colante e um morcego no peito, e os criminosos têm medo dessa pessoa. Medo, não pena. Medo. Argumento raso por argumento raso, fique com este.)

A situação toda dá merda quando o criminoso tenta usar esse truque com o Bruce Wayne, por qualquer razão. Wayne desvenda a situação, manda um “Pega, McGinnis”, o pau come, Batman prende o vilão, essas coisas. E aí, no final, lá estão Bruce Wayne e Terry Mcginnis conversando a respeito do caso, e o guri pergunta ao velho como ele soube que era um truque, não era a voz da cabeça dele.

Bruce Wayne sorri e diz “A voz ficava me chamando de Bruce. Não é assim que eu me chamo dentro da minha cabeça.”.

Essa fala do Bruce Wayne em Batman Beyond, SÓ essa, define o Batman melhor do que qualquer filme do morcego, melhor do que Ano Um e Cavaleiro das Trevas. Melhor do que qualquer coisa do Batman que você tenha lido.

Chupa, Frank Miller.

(Não vou tirar conclusão nenhuma sobre isso, só queria comentar e era grande demais pra falar no twitter. Tá aqui, então.)

The Puma Hard Chorus cantando Savage Garden

Quando colocam um bando de hooligans num bar, cantando uma das musiquinhas mais bichas da história da humanidade, você percebe que a internet cumpriu sua função.

Obrigado, internet. Pode desligar agora.

Top 5 Celebridades que deveriam pagar peitinho de uma vez:

(antes de entrar no assunto, uma curiosidade: TODO post que começa com TOP 5 no título, tem a fonte zoada no corpo do texto. Por que será?)

Peitos são como materiais radioativos, amigo: atraem atenção, podem salvar sua família ou destruí-la - se utilizados de forma irresponsável - e, mais importante, têm meia-vida. Os maiores, mais desenvoltos, mais imponentes são justamente os primeiros a cair, a murchar, a perder o vigor. Isso implica dizer que aqueles peitos fantásticos daquela guria de 18 anos, ainda que permaneçam notáveis 5 anos depois, terão apenas um mero resíduo de seu potencial original. Assim sendo, precisamos encostar na parede todas essas celebridades femininas que, ignorando o clamor das massas, escondem seus peitos de nós, enquanto eles perdem o viço. Vamos a elas:

5) Jennifer Love-Hewitt

Jennifer Love-Hewitt

Jennifer Love-Hewitt está longe de ser uma estrela de primeiro escalão de Hollywood. Famosa pela série de filmes Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Eu Ainda Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Eu Não Esqueci O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Tô Ligado Da Parada Lá Do Verão Passado e Foda-se O Verão Passado, Saporra Já Tem Uns Dez Anos, Bora Sentar No Boteco E Relembrar Os Velhos Tempos Tomando Uma Gelada?, a atriz caiu no esquecimento depois dessas porcarias. Ok, ela faz Ghost Whisperer, mas você conhece alguém que assista essa série? Nem eu. O que falta à moça pra subir na vida e conseguir um bom papel num filme de grande orçamento e com promessa de sucesso? Pagar peitão, oras.

Bora, Jennifer. Libera aí essas potestades!

4) Yvonne Strahovski

Yvonne Strahovski

Yvonne Strahovski (apelidada StraHOTski, por motivos óbvios) é uma loira que certamente ficaria gostosa até virada do avesso e faz par com o protagonista da série Chuck. Outra que eu não conheço ninguém que assista, mas gostaria de assistir, admito, e só não o faço porque sou muito enrolado e procrastinador. Enfim. Yvonne, essa maravilha de ascendência polonesa, tem toda essa pujança que, por pudor ou coisa que o valha, continua a esconder dos homens de bem. Falha que considero terrivelmente contraproducente.

3) Kaley Cuoco

Kaley Cuoco

Kaley Cuoco (que não é parente do Chico Cuoco, eu presumo) é a loira burra de The Big Bang Theory - aquela série que é bem legal, mas não chega aos pés de How I Met Your Mother. Ok, ela está no topo agora e aparentemente chegou lá sem precisar tirar o sutiã. Mas a verdade é que os peitos dessa moça, ainda com 25 anos, já mostram, em várias fotos, severos sinais de estar cedendo à gravidade. Apresse-se, mulher, e mostre-nos essas belezas, antes que a natureza cumpra seu papel e ninguém mais queira ver essas muchibas.

E se você acha que isso não acontece, pergunte à Gal Costa se alguém ainda se interessa em vê-la pelada.

2) Katy Perry

Katy Perry

Katy Perry, a irmã gata da Zooey Deschanel, é uma daquelas cantoras gostosonas que vale a pena você assistir um clipe, nunca ouvir o CD. Se puder ver o clipe no mute, com um Motley Crue tocando ao fundo, pode até imaginar que a moça está te servindo uma boa lap dance e ser mais feliz, porque essas atrocidades musicais que ela insiste em cometer grudam no cérebro com a competências das boas músicas ruins.

Ela anda muito em alta nos últimos tempos - em parte, acredito, por se recusar a mostrar o que todo mundo quer ver, embora viva insinuando. Sendo bem sincero, de todas as mulheres desse top 5, ela e a Yvonne são as únicas que eu acredito ainda terem peitos firmes. Ela vem à frente porque os dela são maiores e porque ela é morena (e morenas são melhores do que loiras). Isso a torna mais gostosa que a Strahotski. Desculpe, polonesa, mas é verdade.

Bora, Katy, liberte seu(s) potencial(is)!

A próxima você JÁ SABE quem é, amigo, não se faça de rogado:

1) Scarlett Johansson

Scarlett Johansson

A (agora) eterna Viúva Negra e atual queridinha de Woody Allen, Scarlett Johansson vem mantendo a expectativa de nos apresentar sua PUJANÇA há anos. Metida a intelectual, curte trabalhar em uns “filmes de arte”, onde TODO MUNDO aparece pelado, menos ela. Posição meio reacionária pra alguém que se mostra tão dedicada ao trabalho de atriz. Desde que Brittany Murphy partiu pro mundo das trevas, ando preocupado com a recusa dessa moça em nos deixar conhecê-la melhor. Seria uma pena se algo acontecesse e nos privasse desses peitos pro resto da vida. Vamos lá, Scarlett, deixe-nos algo que possamos mostrar às próximas gerações! Nos dê algo que faça valer sua conversa pretensiosa e a atrocidade que você fez com as músicas do Pete Yorn!

Não queremos que você bote pra fora o que te vai na alma. O que está no seu sutiã é suficiente.

HORS CONCOURS:

Esqueci (mea maxima culpa) de incluir a Christina Hendricks nesse Top 5. Mas oras, seria maldade com as outras competidoras. Ela tem méritos tão grandes que ganharia com folga.

Christina Hendricks

Dos miseráveis travestidos

O pior elogio que alguém pode fazer ao meu blog ou ao que eu escrevo é sugerir que eu deveria trabalhar com isso, ou dar um jeito de ganhar dinheiro com essas coisas. Felizmente não é uma sugestão que ouço muito, por razões óbvias, mas ainda assim me surge, eventualmente. E embora compreenda que quem me diz isso tem em mente a melhor das intenções e o mais alto dos elogios, é difícil responder com qualquer outra coisa além de um menear de cabeça e um olhar de reprovação. Pode ser uma forma de elogio, pode ser de coração, respeito isso tudo. Mesmo assim é uma lisonja muito mal-pensada.

Eu tenho um sério problema com dinheiro: não dou a isso a menor importância. É claro que gosto de comprar coisas caras, como videogames, computadores, um bom par de tênis, um mp3 player de qualidade, um presente pra mulher, uma passagem pra qualquer lugar que me dê vontade de ver. Pra me suprir dessas necessidades existe a informática. Existem meus bicos de tradução. Existe qualquer outra coisa que eu faça, fora escrever. Escrever não serve pra isso. Escrever é algo que levo a sério, diferentemente da informática, das traduções, de qualquer outra merda que me renda uns caraminguás pra ter o que jogar no corpo, um teto sobre a cabeça e um lugar pra cair quando estiver cansado.

Escrever vai além do dinheiro, escrever é minha maneira de buscar a verdade - estou sendo bastante piegas, mas porra, reservo-me o direito. Vender a caneta, jamais. Não tenho a pretensão de estar fazendo literatura, mas talvez esteja. E talvez não esteja, que se foda isso. Dizer se é literatura ou não é só outra maneira de mensurar economicamente, o que é uma forma de diminuir tudo para caber num padrão, numa linha de pensamento que é simplista, utilitária, que não é onde eu trabalho. Mas que diabos que numa era em que todo mundo tenta enfiar uma ideologia em tudo, ainda tentam arrancar o cunho ideológico de qualquer coisa e trocar por cifras, puta que pariu três vezes de cócoras!

Sou um anacrônico em relação a isso, tenho total consciência. A internet é feita de gente que “escreve” - uso o termo com bastante liberdade aqui - alucinadamente com um objetivo muito simples: transformar isso num ganha-pão. Não é uma busca por qualquer outra coisa que não seja viver diante do computador, escrevendo sob demanda. E esta demanda pode ir desde a produção de um post até a veiculação de idéias (todas sem acento). Pagando bem, que mal tem?

É o mal do século. Um dos, sei lá quantos outros já enumerei aqui. Não existem princípios ou coesão, só existe o “quem paga mais?”. Consigo listar, de cabeça, pelo menos dez blogs de gente assim, que bate no peito para falar que tem credibilidade, quando na verdade tem apenas uma caneta de aluguel, pronta a distribuir pelo papel os mais profundos elogios, se estiver sendo bem-paga. Pesquisando internet afora, certamente conseguiria bem mais de cem. E iria por terra o que resta da minha crença na humanidade, então não cairei nesse erro. A verdade é: desses dez blogs que eu apontaria, pelo menos CINCO você costuma ler, seu idiota. Isso se não fizer parte de algum, o que é ainda pior.

Não bato no peito pra apregoar credibilidade, não garanto serem verdades as coisas que publico aqui, não peço nem quero confiança alguma de ninguém. Escrevo por compulsão, quando ela bate - e bate cada vez menos - e por prazer, que também anda muito sumido por estas paragens, então seria mais justo dizer que é por mera teimosia. Mas escrevo com sinceridade, e ainda que minta, não minto em benefício de ninguém. No máximo, pelo meu entretenimento, mas alguém tem que se divertir nesta merda. Ninguém perguntou - e ninguém perguntará jamais, porque sinceridade é contraproducente -, mas eu não estou à venda, tampouco estão minhas palavras. Se dinheiro é tudo o que você tem a oferecer nesse mundo, como elogio às coisas que gosta, se é assim que avalia sucesso, se essa é sua idéia de reconhecimento… então tenho muita, muita pena de você.

Você é pobre pra caralho.

Do amor repentino

Engole isso: “declarações” só funcionam na ficção. Não existe tal coisa nesse mundo, de duas pessoas conviverem e nutrirem um enorme amor mútuo, e um dia, debaixo da chuva, uma delas - geralmente o homem - aparecer de repente, jogando pedrinhas na janela e se declarando, só pra ouvir “Eu te amo” de volta e abraçar sua amada sob a torrente, entre beijos e lágrimas e uma enorme dose de insulina pra ninguém morrer de diabetes com toda essa viadagem.

Isso só acontece em filmes ruins, livros estúpidos e na cabeça de gente idiota. Romantismo é um conceito babaca que deveria ter morrido com todos aqueles tuberculosos, mas infelizmente há quem insista em manter acesa essa idéia cretina e contraproducente. Pior: há quem ache que isso é importante, e que “mantêm acesa a chama” dos relacionamentos. Eu gostaria de poder dizer que sim, que relacionamentos duram sem isso e que precisam de outras coisas, e enumerá-las, esfregando na cara de todos esses débeis mentais, na sua cara, o quanto essas idéias são pueris e como sequer são válidas como roteiro de Malhação, mas o fato é que não interessa o que faz com que relacionamentos perdurem. A própria idéia de que um relacionamento é essa entidade, esse ser vivo que precisa ser alimentado freqüentemente, já é um conceito idiota e romântico. “Idiota e romântico” é pleonasmo, diga-se de passagem.

(A idéia era maior que isso, mas não tô mais a fim de desenvolver. Conclua disso o que quiser, ou não conclua nada, foda-se.)

Das crônicas

Coisa de duas semanas atrás fui ao centro e me deparei com uma série de sebos armados no meio da rua. Bisbilhotando, Fernanda encontrou um exemplar maltratado de uma quarta edição d’A Cidade Vazia, do Fernando Sabino, pelo valor nababesco de R$ 2,00. Comprou, sem pestanejar. Gostaria de tomar o mérito do ato, mas não me permito. Foi ela quem fez o grande negócio.

A Cidade Vazia é um apanhado de crônicas da época em que o autor vivia nos Estados Unidos, e não tem muito daquele humor sutil de mineiro que caracteriza livros como O homem nu ou A falta que ela me faz. Deixa transparecer até uma boa dose de melancolia, resultado da solidão decorrente da vida no exterior. De todas que já li, considerei uma, em particular, digna de menção. Vou transcrevê-la aqui, ainda que sob pena de quebrar algum tipo de lei de direito autoral ou coisa que o valha, então deixo claro que o texto que segue não foi escrito por mim, dele não tiro quaisquer proventos e sobre o mesmo não tenho nenhum direito. A publicação é mera homenagem, e me prontifico a retirá-lo do ar se sua transcrição neste blog porco lesar, de qualquer maneira, os responsáveis pela obra.

Estendendo um pouco mais este preâmbulo, adianto que redigitei o texto na íntegra, ipsis literis, com todas as quebras de linha, vírgulas e acentos em palavras não mais acentuadas. Tanto por respeito ao formato original quanto em protesto contra a tal nova ortografia.

O Juramento

Melvin C. Roberts, canadense e secretário do conhecido milionário americano Cornelius Vanderbilt Junior, suicidou-se aos 27 anos de idade.
O comitê de investigações encarregado de esclarecer as circunstâncias do suicídio concluiu, depois de ouvir Vanderbilt, que o rapaz teve aquêle fim “como resultado de sua tormentosa experiência”.
Que experiência foi essa? O próprio Vanderbilt, no seu esclarecimento, nos dá a resposta. E de repente Melvin C. Roberts deixa de ser mero nome perdido na seção obituária dos jornais, lembrança a apagar-se com o tempo entre parentes e amigos, acontecimento cotidiano no registro policial. Já não se trata de simples tragédia doméstica que deixará atrás de si uma pobre mãe desconsolada e uma noiva desiludida. Nem ficará sendo apenas um momentâneo aborrecimento para o milionário Vanderbilt, que terá de procurar nôvo secretário.

No dia 9 de agôsto de 1945, um campo de concentração no Japão foi libertado pelas fôrças americanas. Entre outros, oito homens maltratados e famintos tinham escapado à morte lenta das torturas diárias, depois de quatro anos de cativeiro. Eram dos mais antigos, e milhares que com êles entraram naquele inferno jamais chegaram a sair. Tinham todos pouco mais de vinte anos, mas o sofrimento vivido em comum lhes deu outros vinte. Juntos suportaram a fome, o excesso de trabalho, a humilhação, o mêdo e a desesperança. Foram finalmente selecionados como cobaias humanas para inoculação de doenças e experimentações de cirurgia. Conheceram, uma por uma, tôdas essas formas de sadismo que os jornais e o cinema já divulgaram, para o erguer de ombros dos céticos e a meia hora de mal-estar dos temperamentais. Já não temiam a própria morte: temiam que o mundo não soubesse colhêr dela ensinamento algum, que o mundo não merecesse aquêle sacrifício. Então fizeram um juramento: se por milagre saíssem de tudo aquilo com vida, se recusariam a viver, caso não fôsse possível um mundo pacificado e feliz.

Nunca mais se encontraram. Dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, experimentando recomeçar a vida. Com o fim da guerra as nações se reuniram, tentando consolidar a paz. No mundo haveria agora oportunidade igual para todos, sólida esperança ligaria todos os homens, o mêdo e o ódio não resistiriam às novas formas de viver que se ofereciam. Assim era o mundo no ano que se seguiu, quando, exatamente no dia 9 de agôsto de 1946, a crônica policial de uma cidade qualquer dos Estados Unidos registrou sem maiores detalhes, entre notícias de pequenos furtos, atropelamentos e agressões, o suicídio de um veterano de guerra.

Os homens às vezes se suicidam, veteranos ou não. Dizem que isso é natural. São os desiludidos da vida, os fracassados, e perfazem com seu “tresloucado gesto” um acontecimento normal de seleção na luta dos interesses, que o próprio desengano da vida se encarrega de explicar. É natural também que os veteranos tenham, como os outros homens, seus problemas íntimos para os quais vão buscar na morte a solução. Pouco tempo mais tarde, ainda em 1946, numa cidade da Inglaterra, outro veterano da guerra do Pacífico se matou.

E assim, sucessivamente, êles foram desistindo de viver. O suicídio de um rapaz no Estado de Nebraska coincidia com o de outro na Califórnia. Ninguém ficou sabendo por que num bar de Chicago um homem tomou veneno, ou no seu quarto de Filadélfia um homem deu um tiro na cabeça, ou numa colina do Maine um morto foi encontrado, ou nas águas do Rio Hudson um corpo se afogou. É possível mesmo que ninguém chegue a saber jamais como foi que êles morreram, nem quando, nem onde, nem por quê.

Na cidade do Reno, Estado de Nevada, Melvin C. Roberts, um rapaz de 27 anos, abandona o jornal sobre a perna, olha a noite pela janela de seu quarto e espera. Em que estará pensando? São dez horas da noite e lá fora a cidade parece calma, tranqüila, feliz. Homens e mulheres se encontram, se despedem, trabalham e descansam, vivem e morrem. Melvin C. Roberts pensa neles, pensa no tempo que passou. Pensa nos destinos do mundo, Melvin C. Roberts.
Levanta-se e caminha até a janela, como se tão vasto pensamento o obrigasse a receber de pé a brutalidade de suas conseqüências. O jornal deslizou para o chão, aberto na terceira página, e o nome familiar na pequena notícia se perde num emaranhado de letras. Êle ergue os olhos para o escuro do céu onde estrêlas esparsas mal se vêem, neutralizadas pelas luzes da rua. Parece tentar colhêr da noite um conselho, uma advertência. Mas a noite não lhe diz nada. Os pensamentos de nôvo se avolumam, recompõem as mesmas imagens de horror. O tormento de lembranças lhe vem mais uma vez em sucessão monótona: são os mesmos rostos de olhos repuxados, a mesma voz dissonante dos guardas, o mesmo cheiro de sangue. Pensa no sacrifício inútil que cinco de seus companheiros já completaram. Melvin C. Roberts está pensando na morte. São onze horas a noite de 9 de agôsto.

Seu corpo foi encontrado no dia seguinte sobre a cama – um vidro de pílulas sedativas a seu lado, completamente vazio. Escapou a todas as formas de morte violenta nas mãos dos japonêses e procurou a maneira mais tranqüila e confortável de morrer. Segundo afirmou no seu depoimento o milionário Vanderbilt, o rapaz vivia ultimamente num constante estado de depressão e se queixava de horríveis sonhos com seu internamento, as torturas que sofreu.
Encerrando os trabalhos, o comité de investigação no Reno resolveu considerar a sua morte como sendo “mais uma honrosa perda de guerra”. Com isso autorizam o esquecimento em tôrno de seu nome.

Mas Melvin C. Roberts não será esquecido, como os outros cinco. E não será, simplesmente porque sabemos agora que ainda restam dois.

Que terá sido dêsses dois? É possível que um já tenha esquecido o juramento feito, esquecido seus sete companheiros, e num bangalô em Miami Beach ou numa pequena fazenda do Texas, já casado e com filhos, procure esquecer também o mundo e seus problemas: esta foi a maneira que escolheu de suicidar-se.
Mas, e o outro? Neste último é que está, sem que o saibamos, o nosso mêdo e a nossa esperança. Vejo-o lendo àvidamente os jornais de hoje em Nova Orleãs, São Francisco, Detroit ou em Bunn, na Carolina do Norte. Vejo-o passando ao meu lado nas ruas de Nova Iorque e o desconheço. Ninguém sabe quem ele é. Ninguém sabe que o destino do mundo se subordinou ao destino dêste homem. Poucos conhecem esse veterano distraído, com o olhar vazio dos prisioneiros. No seu andar um tanto incerto não há nada revelando que êle caminha a passos firmes para a morte. Indiferentes a êle, os políticos continuam se reunindo em assembléia, para decidir a sorte do mundo. E a sorte do mundo está hoje dependendo apenas da vida dêsse homem. Mas quem será êle? Ninguém sabe ou se preocupa em saber. Êle vai andando em meio à multidão como um autômato, anônimo e despercebido. Seus dedos deslizam pelo bôlso do paletó, acariciam lentamente o revólver, lembrança ainda da guerra, e esperam.
Numa esquina qualquer de uma cidade qualquer, um homem espia passivamente o movimento ao seu redor e espera o instante de condenar o mundo com a sua morte. Seus dedos apertam a arma, o braço se ergue, e ela se volta em direção ao peito magro onde o coração se maltrata. Tenho ainda uma violenta esperança de que alguma coisa aconteça, algum milagre impeça a morte dêsse homem.

Fernando Sabino.