Beco

As pessoas deviam ter dados claros, numéricos, expostos em um visor LCD em qualquer parte geralmente visível do corpo. Em um dos antebraços, talvez, onde seria fácil verificar sua situação atual. As crianças nasceriam e, para saber das probabilidades de sucesso em carreiras profissionais, seria preciso apenas verificar a tela brilhante. O médico diria:

- Parabéns, é um menino. E com grande vocação para os números.

A princípio todas as habilidades seriam expostas assim, de maneira bruta. Os stats seriam pouco específicos. Algo como “Letras - 11%; Noções de espaço - 17%; Trabalhos manuais - 48%; Números e raciocínio lógico - 28%; Aptidão física - 30%”. À medida que as pessoas fossem crescendo, suas habilidades sendo desenvolvidas, os itens se dividiriam em submenus. Sob o item “letras” haveria outros campos, como “leitura e interpretação, expressão escrita, expressão oral”. Quando uma dessas aptidões atingisse sua capacidade máxima seria impossível levá-la adiante, não importando o que a pessoa fizesse.

Porque aqui, assim, como somos, será que dá pra saber quando você atingiu o topo da sua capacidade em alguma coisa? Quando chegou ao fim da estrada, quando é hora de partir para sub-itens dentro da atividade que resolveu exercer? Não dá pra saber.

Passamos anos e anos polindo - ou tentando polir - alguma coisa para a qual acreditamos ter vocação, dom, talento, chame como quiser, sem perceber que tudo o que fazemos é, repetidamente, enfiar a cara na gigantesca muralha que não nos permite - nem vai permitir - seguir adiante. Atingimos os 100% e, infelizmente, nossos 100% correspondem aos 32% dessa ou daquela pessoa que admiramos tanto e cujos passos tentávamos seguir.

Mas, enquanto as pegadas deles vão montanha acima, as nossas param no sopé de um morrinho mixuruca.

As coisas são para quem pode, infelizmente, não para quem quer, ao contrário do que toda a literatura de auto-ajuda faz questão de dizer aos infelizes que, incapazes de respeitar suas inaptidões, envergonham a si mesmos e a todos os outros empáticos o suficiente para sentir vergonha alheia.

Digo isso porque, a cada dia que passa, torna-se mais forte minha impressão de estar tentando forçar um paredão que vai mais longe que a vista alcança. E se estiver apenas batendo de frente, sem sucesso, sem sair um centímetro do lugar? E se tudo o que eu já desenvolvi for, afinal de contas, tudo o que eu vou desenvolver e fim de papo?

Saudade da época em que simplesmente não me preocupava com isso. Achava que era bom o suficiente em tudo o que fazia e não dava a mínima se iria melhorar ou não, até porque achava que não precisava. Quando paro pra pensar, vejo que era tudo uma grande porcaria, na verdade, mas pelo menos eu estava satisfeito.

Preciso reaprender a me satisfazer com pouco. Porque melhorar está fora de cogitação.

11 Respostas para “Beco”


  1. 1 Catavento

    Hum…depois de termos fichas Daemon em nossos antebraços, qual seria a próxima evolução?
    Jogarmos 1d100 para resolvermos quedas-de-braço?

    Hum…interessante

  2. 2 Helen Fernanda

    ;) Estou me sentindo assim também. Saudades da época em que ser a melhor da turma e tirar 10 em todas as matérias bastava. :(

  3. 3 amanda

    não se esqueça que por maior que seja a parede de um beco, sempre poderemos subir.

    ok, isso fedeu.

  4. 4 Pedro

    Hahahaha
    Caralho, catavento, como você é absurdamente nerd!!

  5. 5 Koelho

    Ué, eu tenho isso, desde que nasci. Não é normal?

  6. 6 rodrigo

    E quanto ` isso, Pedrô? Não tem a ver com o que você disse aí em cima não?

  7. 7 Pedro

    Tem sim, Rodrigão.
    Segue mais ou menos a mesma cadeia de pensamentos. Talvez não no mesmo sentido, claro, mas segue.

  8. 8 daniel, o bastos

    no fim todos são vermes, apenas têm diferentes níveis de vermifugicidade-lhes-lhos.

  9. 9 Fábio R.

    Acho que isso é sentir falta de controle, controle absoluto sobre as coisas, porque só em meio a números poderia se mensurar com alguma segurança, habilidades; que de certa forma, acho que isso seria confortante, saber que esforços repetidos naquilo não irão fazer mais efeito algum, e então poder focar-se em outra área, mas só acho, pouco possível e provável que exista esse limite para quaisquer tipo de habilidade, limite que nos dê uma precisão que não existe na realidade. Talvez pelo fato de que uma determinada capacidade não crescer como antes, leve a imaginar que existe uma barreira ou um limite que empeça o crescimento dela. Tudo bem que possa existir pessoas com aptidão para algo, mas essa aptidão, creio eu, apenas acelera o desenvolvimento em determinada área, pensar que a capacidade humana seria limitada independente do esforço do individuo em continuar a crescer, isso, pelo menos para mim, não parece possível. Bom, mas isso é apenas como vejo as coisas.
    Gostei bastante dos seus textos.
    (e desculpa-me o comentário um pouco longo)

  10. 10 Tile

    Ora ai veja você, um blogueiro jogador de daemon…

  11. 11 Pedro

    Porra, mano. Chamar de rpgista e blogueiro no mesmo comentário é pior que xingar a mãe! Sacaneia mas não ofende!!

Retruque!